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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Joel Pinheiro no Talk Show de Evandro Sinotti para a TV Mix

Neste sábado, gravei uma entrevista para o Talk Show do Evandro Sinotti. Além da ótima experiência, é uma alegria participar de algo em que acredito: um programa local para a TV local (Pirassununga e região) e para a internet, totalmente empreendedorístico e que quer prover conteúdo de qualidade num formato mais denso e menos formatado do que a TV mainstream. Aqui está o resultado:


terça-feira, 22 de abril de 2014

Superestrutura

Rapaz de classe média alta, que dois anos antes sonhava – sonhava! – com baladas no exterior e roupa de marca, e que decide fazer Geografia e pega por conta própria resumos de Marx; que passa a nutrir sonhos de luta armada - sim, pode rir. Esse jovem traz uma bagagem que ele próprio odiaria conhecer.

Vou te contar algo que ocorreu no fim daquela malfadada primeira graduação. Acho que o melhor termo é “crime de pensamento”, já que não passou disso. E mesmo assim senti vergonha. Não que hoje eu me orgulhe. Também não é nada demais, só que como nunca contei para ninguém, deve ser importante.

Estava no último semestre, o bacharelado parecia próximo. Época de muito tempo livre, muita solidão e muita leitura. Tinha meus amigos, óbvio, mas sentia uma desconexão. Eles não levavam as ideias a sério; não como eu levava. Mesmo os mais engajados me davam a nítida impressão de que não queriam entender o mundo e muito menos transformá-lo; queriam participar dele de uma maneira específica. Reproduziam estruturas básicas das relações humanas que me traziam de volta à parte mais cruel do colegial e a tudo que eu rejeitava no mundo dos meus pais.

Isolei-me, o que me deu uma boa reputação. Eu lia o que os outros fingiam ter lido. Um benefício da Geografia é que o conhecimento – ou a aparência de conhecimento – é um valor. Estava sempre envolvido em discussões, debates, escrevia pra jornais no campus. Tinha naquele campo de ideias algo que realmente me engajava.

Minha percepção básica era a de que havia uma ordem no mundo social, criada pelo homem, mas ao mesmo tempo difícil de ser desvendada. E essa ordem era sórdida - essa fora minha certeza original. Ela perpassava tudo: nossas relações econômicas em primeiro lugar, e nossas relações sociais, culturais, sexuais; até o uso do espaço era deturpado. Era preciso, portanto, botá-la abaixo e criar uma nova. Mas para transformar o mundo alguns teriam que entendê-lo; aí que eu entrava.

A questão da justiça era a que mais me incomodava; pois em todas as relações ela se encontrava violada. Era essa preocupação que justificava minhas longas estadias na sala de leitura da biblioteca fora do horário de aula. Só não me pergunte quanto desse tempo era de estudo de fato e quanto eu gastava pensando na vida ou observando os outros. Criava futuros, longos devaneios, olhava as pessoas em volta. A biblioteca desenvolve uma vida social silenciosa. Tinha meus amigos, meus inimigos; gente com quem eu nunca falaria. Cada um projetava o que queria nos outros, e nos conhecíamos assim. É sobre uma dessas relações imaginárias que eu quero falar. Óbvio que era com uma mulher.

Dava-me um certo orgulho sentir atração por uma negra. Feio, né? Tipo de coisa que não dá pra se gabar, mas que eu adoraria pingar numa conversa. Acontece que ela não era só gostosa. O conjunto transcendia o físico e penetrava o campo dos significados. Black power irretocável, brincos de argola enormes, olhos semiabertos que escondiam uma inteligência cortante, um leve sorrisinho – ou isso era eu que imaginava? O caminhar geométrico, determinado, que atropelaria qualquer homem em seu caminho. Os ângulos retos dos ombros da jaqueta; na parte superior era tudo ângulos retos. E no meio daquela geometria reta, o arredondado dos quadris e do rebolado. Um toque de Brasil naquela beleza african-american. Esse conjunto expressava um conceito: o caminhar inexorável da justiça. O peso do mundo como se não fosse nada. Tão diferente de mim.

Gastei um tempo com a dialética da minha musa secreta; ainda tenho as anotações. Era brincadeira pra passar o tempo, mas não totalmente, sabe? A forma do cabelo, esfera negra perfeita, que devia resultar de um cuidado meticuloso, parecia a projeção natural daquela personalidade, como se todos os detalhes irradiassem necessários de um princípio gerador. O corpo acendia em mim o desejo próprio das relações de poder injustas. Contra isso, e no mesmo corpo, a práxis e a estética de ideias que negavam aquelas relações. A síntese final superava a contradição numa possibilidade de união deste e daquele mundo; gozo e justiça. Deixei uma nota curiosa na margem: a leitura estava mais pra Hegel que pra Marx. Não julgue.

Nossa relação se resumia a isso; vê-la passar diante de mim em direção a uma mesa livre, observá-la enquanto lia e fazia anotações, e finalmente observá-la ir embora. Com certeza ela devia notar o franzino babão a segui-la com a cabeça, mas nunca o fez abertamente. Na minha imaginação ela me mandava um sorrisinho quase imperceptível, como que aprovando a adoração e consciente de que eu jamais teria a coragem de ir além. O rosto era um tiquinho mais cheio do que o ideal. Não importava. Também não importava o fato de ela dormir com frequência na biblioteca, o que em outros me desagradava e que eu tomava como sinal de burrice.

No dia em questão, ela cochilava, cabeça meio de lado apoiada nos braços - não sei se escorria um fiozinho de baba ou se criei isso depois. Bom, enquanto ela dormia, um sujeito se aproximou. Era um cara banal, que eu já vira nos corredores, nunca na biblioteca; desses que gostam de parecer culto. Óculos de aro grosso, barba por fazer; mas também alto, atlético, roupas largas, desenvolto. Chegou do lado dela, encostou a mão no braço, cochichou baixinho em seu ouvido, carinhoso.

Ela abriu os olhos e deu um sorriso preguiçoso, como se ele fosse um namorado trazendo café na cama. O cabelo estava amassado, não era mais a esfera perfeita - o artifício revelado. E foi aí que a percebi de modo diferente. O mesmo rosto, os mesmos traços; me ocorreu que já tinha visto aquele mesmo tipo de cara, muitas vezes. Era comum no Brasil: uma cara que não transmitia inteligência nenhuma; apenas uma alegria sonsa de estar viva e ser jovem. Também não era bonita; por trás da produção havia um rosto sem atrativos. Olhando para aquela menina que me encantara por meses, senti quase uma repulsa, e junto dessa repulsa uma palavra brotou de algum porão esquecido.

"Empregadinha".

Repeti num cochicho: "empregadinha". Aquela que eu admirara por meses, a acadêmica segura de si, minha representante ideal da mulher negra, a personificação apolínea da justiça social; empregadinha.

O sistema de defesa disparou. Cortei o pensamento. Quis me distanciar dele. Fora só algum refluxo de tempos anteriores; um coágulo da experiência da minha classe. Uma bolha de gás, de alguma matéria em decomposição no solo oceânico, que chegava à superfície tendo viajado milhares de quilômetros. Era também prova de que eu tinha muito a progredir. Pega bem dizer-se racista ou sexista, sem bem sê-lo, mostrando que luta para melhorar - eu era ingênuo, mas esse tanto eu já sabia. O que eu não sabia é que mesmo o discurso mais sincero pode mentir.

O que mais me estranha hoje em dia é o quanto aquele “empregadinha” me abalou. Passei a tarde indignado comigo mesmo. Só me acalmei quando concluí que a verbalização fora o eflúvio final de uma impressão que já escoava para o esgoto, e era portanto uma vitória. A adoração incondicional estava intacta. Ou melhor, até mais forte. No fim daquele mesmo dia meus olhos acompanharam espontaneamente o andar daquela deusa quando ela foi embora: aquele rosto determinado, aquela beleza superior, aquela bunda.

Daí uns dias depois ela sumiu, e deve ter ficado quase um mês fora. Uma semana antes das provas - eu continuava na velha rotina, sem já saber para quê -, reapareceu. Minha alegria foi imediata, talvez eu tenha até sorrido, e, enquanto eu acompanhava a trajetória, me veio naturalmente e com um dose de ironia: "a empregadinha voltou". Dessa vez já não me importei.

Hoje eu acredito numa mecânica newtoniana da mente. Cada pensamento dispara outro com igual intensidade e direção contrária. Cada elogio faz pensar numa crítica. Cada ato de devoção exige um sacrilégio. Ou será que o disfarça? Veja, os povos mais religiosos inventam as piores blasfêmias. O homofóbico exagerado é homossexual enrustido. A mesma mulher percebida de duas maneiras; deusa e empregadinha. Quem mudou aquele dia fui eu. Mudei? A espuma branca nada é a água escura do mar.

Ideias não importam. Ironicamente, nisso eu já acreditava, ainda que por outros motivos. Ideias decorriam da posição econômica e aquela coisa toda; exceto para nós, os intelectuais. Só que a irrelevância das ideias valia sobretudo para nós. Poderia ser que as melhores intenções produzissem o inverso do que almejavam? Ou ainda, e se estiverem sempre a serviço de outras, as piores?

Mais de um ano depois, no outro curso - quando entrei nas nossas amadas engrenagens - fiquei sabendo o nome dela por um ex-colega e joguei no Google. Eu jamais me dera ao trabalho de descobrir o nome... Joguei no Google e não deu nada além do mínimo: chamadas de vestibulares antigos, lista de iniciação científica. Desde então, quando a curiosidade bate, procuro de novo. Tem o currículo do Lattes, comunicados de concurso. Era da Letras, doutoranda em literatura feminista. Mais clichê impossível. Seu grande feito foi ter passado em concurso de uma federal no interior, e isso já faz tempo.

Será que abandonou o tipo? Nunca fez nada de relevante; nenhum livro. Teve um blog e logo o abandonou. Banalíssimo, alguma coisa sobre aborto, uns poemas; de doer, sabe? Anos depois do último post eu ainda o acessava esporadicamente. Nem sei se continua professora – talvez tenha desistido. Espero que esteja num trabalho que a realize. Aquela menina – assim como eu – não estava no lugar dela e por isso não deu em nada.

Nunca falei com ela; primeiro por falta de coragem; depois por desinteresse. Agora é tarde demais, sem falar que nenhuma pessoa real possível satisfará a necessidade de significado que ela, fictícia, me satisfaz. Quem esteve ali na minha frente todos aqueles dias? Uma feminista que queria acabar com a opressão patriarcal e com o racismo? Uma acadêmica que lutava e vencia num sistema que, apesar de tudo, podia ser usados para uma vida dedicada ao saber? Uma mulata baixinha presa nas engrenagens do ensino superior, capitalizando uma beleza efêmera e sem saber para onde ir?

Só tenho a certeza de que, onde estava, não estava bem. Prefiro, por isso, imaginá-la plena de vida, radiante, em algum mundo paralelo. Uma vida de desafios, aventuras, com a alegria física que ela evidentemente precisava. Imagino-a saudável, sob o sol a pino, de lenço na cabeça, em êxtase faxinando algum assoalho. Pagode tocando no radinho. Ei, não me censure - com você eu posso falar o que der na telha. E se a gente não puder rir disso: dela, de mim e de todo mundo que jura que leva alguma coisa a sério, o que estamos fazendo aqui?

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Nariz empinado também é filho de Deus



Esnobismo é o sentimento de quem tem um bem restrito a poucos, que o vê sendo invadido por uma classe recém-chegada que o desvirtua e que tenta recolocar o invasor em seu lugar inferior. É patrimônio coletivo da espécie humana. Nobres esnobavam burgueses; judeus, góis; dinheiro antigo, novos ricos; pessoal true, posers; acadêmicos, divulgadores; populares, nerds; e nerds – que recentemente virou motivo de orgulho – esnobam os nerd wannabes.

Há segmentos culturais inteiros dedicados à exclusão: o hipsterismo, por exemplo. Se todo mundo conhecer a banda, a banda não é mais tão legal assim; conhecer e gostar do que é de poucos é parte essencial do que os define. Isso pode não ser lá muito admirável, mas é humano; o homem é um ser hierárquico, quer se sobressair e ser admirado. E para isso é preciso manter os outros em seu lugar.

Não são só os ricos que o fazem. Há o esnobismo da falta de dinheiro (ou da aparência da falta de dinheiro), que esnoba os agentes da gentrificação. O barzinho é descolado até chegarem os playboys. Essa versão indireta, esse esnobismo de segunda ordem, gosta de se pintar como superior, mas é igual a sua versão mais vulgar praticada por socialites e mauricinhos. Talvez seja pior. Uma coisa é o vício ali por inteiro, aberto, direto ao ponto; até inocente. Outra é o vício retorcido, disfarçado, indireto, que tenta dissimular sua real natureza. Quanto mais refinada a mente (e por que negar que meio intelectuais meio de esquerda sejam mais inteligentes que dondocas? Nosso igualitarismo chega a isso?), maior a perversidade de que ela é capaz.

Nossos sentimentos e até nosso corpo incorporam certo esnobismo, certa rejeição pelo que é mais popular. O salgado gorduroso num boteco de favela junto ao córrego não é digno de nossa boca, embora os favelados o adorem; idem para o copo d’água suspeito nas ruas de Nova Deli. Ainda que o cérebro igualitário prevaleça, o intestino não será tão democrático.

A esnobada pode ser ofensiva, quando o alvo é um invasor isolado que não sabe se adequar às normas implícitas da comunidade exclusiva; ou pode ser defensiva, quando toda uma nova classe invade a comunidade, mudando sua configuração. No primeiro caso, o motivo do gracejo é realmente evidenciar a inferioridade do sujeito em algum aspecto: “Pfff, veste camiseta da banda mas só conhece os hits”. No segundo, a esnobada pode nem derivar do desejo de excluir o invasor, e reflete apenas a tristeza perante o desvirtuamento da comunidade ou do item de consumo, agora vulgarizados. Ou vai dizer que você ama o fato de os cinemas e TV a cabo só passarem filme dublado? Pra não falar do que virou o teatro... É o preço da inclusão social e econômica. Podemos gostar dela mas lamentar alguns de seus efeitos, não? Aliás, já repararam que nenhum requeijão presta mais?

Quando a professora Rosa Marina Meyer viu um proletário esculachado no aeroporto, seus instintos esnobes apitaram e fez uma piadinha nas redes sociais. Aquela monstra asquerosa. Seu esnobismo foi do tipo mais inocente, mais puro. O passeio aeroviário, outrora marcado pela finesse e sofisticação, está a metamorfosear-se em ambiente popularesco, com filas quilométricas, barulho, cheiros mil, carne, gordura, pele e pelos à vista; daqui a pouco vão estender varal e trazer marmita. São coisas que a mim não ofendem, mas que a sensibilidade de uma senhora de classe média alta não tolera bem; e quem poderá condená-la se ela ainda por cima leva tudo com bom humor?

No final das contas o esculachado era mais rico que ela, o que indica que o problema era antes com seus modos que com sua renda. Um pobre arrumadinho não causaria o desgosto desse rico esculhambado. Mal sabia ela, contudo, que esse pecadilho, esse ato comum e partilhado por toda a humanidade de variadas formas, é o novo pecado contra o Espírito Santo; nem Deus pode perdoá-lo. Ao saber do comentário, o twitter da Dilma Bolada, essa linda, convocou o linchamento imediato e a gente conscientizada das redes sociais não deixou por menos. A comoção foi tanta, tantas declarações públicas de amor aos pobres, tantas vestes rasgadas, tanto repúdio àquela vagabunda sub-humana, que ela foi demitida. Amém! Que isso nos sirva de lição. Sabe o tipo de reserva e policiamento mental constantes que um político pratica em época de eleição, quando uma palavra mal pensada pode desagradar as parcelas mais medíocres e moralistas do eleitorado? Então, isso agora virou o mínimo exigido de todo mundo o tempo todo.

O comentário da pérfida professora não seria lido pela vítima – aliás, poucos fora de seu círculo o teriam visto, não fosse o linchamento virtual –, a vítima nem era pobre, e mesmo se fosse não teria sofrido nenhuma inconveniência. Da mesma forma, a desigualdade de renda do Brasil, a inclusão dos negros e o progresso da classe C continuam rigorosamente inalterados. O crime da professora foi um crime, nem digo de pensamento, mas de sentimento. Ela sentiu errado. Já a boa ação da Dilma Bolada e as boas intenções (sempre!) dos internautas resultaram num dano real: o fim de uma carreira. Seria o bem mais destrutivo que o mal?

(Não dá, obviamente, para eximir a administração da PUC. Há três cenários possíveis: se ela já queria demitir a professora e usou esse circo irrelevante como pretexto, foi desonesto, mas não fugiu do que as organizações sempre fazem. Se foi um ato servil de medo da opinião pública, é vergonhoso, mas ainda humano. Agora, se ela realmente considera que o esnobismo da professora é incompatível com o padrão ético da universidade, então... que Deus se apiede dessa católica instituição. Não sei o que é pior: que a proliferação dos códigos de ética e da consciência social seja apenas um golpe de marketing ou que as organizações os estejam levando a sério.)

O esnobismo está proscrito, não combina com o alto nível moral de nossos tempos. Mas o vício oposto a ele vai muito bem obrigado. Sim, há um sentimento oposto ao esnobismo: o refastelo na degradação. O orgulho da escória que dissolve a ordem estabelecida. Hordas bárbaras que destroem os símbolos do refinamento e da civilização (muito da qual depende do ímpeto esnobe - o conceito de "bárbaro" não surgiu à toa). Cagar nos cálices de ouro. Arruinar o programa alheio.

Isso, confesso, também me dá um certo prazer, o sentimento da desforra, o triunfalismo do “vamo invadir sua praia”, de finalmente entrar no clube que te rejeitava só para destruí-lo. Esse prazer é, moralmente, pior do que o do esnobismo. Este, afinal, visa preservar; aquele quer apenas destruir, mas para os democratas do espírito ele tem algo de admirável. Viva a farofa, o funk, o rolezinho e o crack! Se só poucos podem ter tudo, que todos não tenham nada, e a primeira parte é opcional.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Tudo menos o jovem preso ao poste



As paixões políticas se alimentam de pequenos eventos que parecem enormes e produzem a indignação popular momentânea. Como a capacidade de atenção é curta, em algumas semanas já foram devidamente mastigados, deglutidos e expelidos; ninguém mais se importa. Mês que vem ninguém mais ligará para o ladrão que foi agredido, despido e preso a um poste. Mas nos dias que correm, não se fala em outra coisa; ele serve muito bem como suporte para cada um um afixar sua causa política, acirrar os ânimos contra os malvados das redes sociais, demonstrar sua superioridade moral e ainda - no caso da raça dos formadores de opinião - influenciar o debate político, puxar a sardinha para seu lado.

Digo desde já, para que não venham me acusar e rotular: o justiçamento popular é uma prática condenável, incivilizada e que contribui para a deterioração da convivência humana; não deve ser aplaudido e não é a solução para problema social algum. É modo brutal de justiça, sem proporção entre delito e pena e com taxas altas de punição a inocentes.

Vejo - ó céus - que Rachel Sheherazade tem uma visão mais positiva que a minha desse tipo de reação popular. Se não chega bem a endossá-la como substituta legítima do processo legal, ao menos não condena o que fizeram os justiceiros nesse caso. E - ó céus novamente - ao invés de escrever um tratado filosófico a respeito, ela demonstrou sua indignação com um discurso inflamado, justamente aquilo que fez dela uma estrela entre os conservadores.

Acho lamentável que esse tipo de discurso esteja ganhando força entre pessoas mais educadas (ele sempre foi o modo básico e espontâneo de ver o mundo de toda a população; o estado natural do homem é o conservadorismo). Mas assim como o crime de um jovem pobre é compreensível (mas não justificável) dadas as condições materiais e psicológicas nas quais ele vive; assim como a reação dos justiceiros é compreensível (mas não justificável) dada a indignação que se sente ao se ver um criminoso escapar impune; também a opinião conservadora de Sheherazade é compreensível dado um sistema de Justiça estatal ineficaz como o nosso e uma cultura letrada que hostiliza quem quer viver honestamente e progredir na vida ao mesmo tempo em que desculpa os delitos de quem quer que seja visto como um "excluído". E que vai além: culpa os primeiros pelos crimes dos segundos.

A infinita compaixão e sensibilidade social dos observadores de esquerda cessa abruptamente na hora de lidar com quem discorda deles. Assim como o ladrão foi justiçado por observadores indignados, Rachel Sheherazade está sendo justiçada pelos defensores da moral e dos bons costumes aplicados ao discurso. Querem-na condenada; multada ou presa, tanto faz; o importante é que sinta na pele. Não, não são movidos por mero espírito de manada e raiva mal-direcionada; a justificativa é eminentemente técnica e racional: ela fez apologia ao crime. É por isso que essas mesmas pessoas também defendem a punição exemplar a todo mundo que defende o cultivo, a distribuição e o consumo de maconha. #soquenão (vocês é que me fazem indicar a ironia assim, vulgarmente: a capacidade de detectá-la é inversamente proporcional ao desejo de ficar indignado, que anda em alta).

Se Sheherazade, ou uma versão universitária sua, tivesse feito esse discurso numa assembleia estudantil, é bem capaz que eles mesmos, movidos pelo santo e virtuoso ódio ao justiçamento, a justiçassem bem ali. Já vi coisa similar. O desejo de fazer a justiça - ou mesmo punir o diferente; suspeito que se confundam muitas vezes - na base da indignação é natural ao homem, o que não quer dizer que seja bom. Não é fruto de ideologias ou de classes sociais, e nem pode ser apagado mediante conscientização. Se ela for punida, demitida ou o que seja, a ética do justiçamento terá ganho; ainda que seja um justiçamento amparado pela lei.

O caso do jovem no poste serve também para qualquer um reafirmar sua superioridade moral, bradando contra os grandes males do mundo. Hoje em dia, quem quer ser visto como bom não tem escolha melhor do que condenar e denunciar o racismo ou o ódio de classes, mesmo na falta de evidências de que eles tenham algo a ver com o caso. 

Negros e pobres passeiam diariamente pela mesma rua sem ser alvo do ódio de justiceiros populares. Os próprios justiceiros são, na maioria das vezes, eles também pobres e de cores variadas (não é correto chamar a população brasileira pobre de negra, posto que é mestiça e que grande parte desses mestiços são caboclos e não mulatos), assim como a maioria das vítimas dos crimes cometidos por mestiços e pobres. Quem souber e quiser procurar, encontrará diversas filmagens (viva o smartphone!) de justiçamentos no Brasil - inclusive contra estupradores, o que mostra que a cultura brasileira não é tão favorável ao estupro assim. Os fatos são o que menos importa. Diga-me o teu time e eu te direi quem é aquele jovem: um demônio que teve o que merecia, ou a vítima inocente da elite racista. Se por acaso você acertar, sinto muito: até a apuração objetiva aparecer o assunto já terá morrido. 

O jovem no poste não importa tanto quanto as causas que dele podem se servir. Hoje temos duas causas se digladiando, com objetivos muito diversos. A causa que move a esquerda é bater nos direitistas. Já o ideal que move a direita é bater nos esquerdistas. Não são classes sociais ou raças antagônicas. São todos membros de uma mesma grande classe social: a classe média/alta (curiosamente, na minha experiência a esquerda é em média mais rica que a direita) com algum estudo e tempo livre para se dedicar a ideias. Formaram campos rivais e adoram se odiar. Até ontem só existia o de esquerda, que monopolizava o discurso; agora a direita vem tirando-lhe fatias do mercado, e por isso a luta. A esquerda se firmou negando e/ou sendo condescendente com todos os costumes tradicionais e instintos normais do povo; a direita vem para reafirmá-los. Em ambos os casos, a arma preferida é a indignação moral pública, o que nem de longe se confunde com a moralidade real.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Brevíssima Introdução a Ayn Rand


















Uma fusão de Aristóteles e Nietzsche para os dias de hoje: uma visão heróica do homem, que vive apenas por si e sem culpa; somada ao primado da razão como conhecedora da realidade e guia das ações e ao respeito pelos direitos individuais. Isso resume a filosofia de Ayn Rand.

É raro gostarem dela fora do meio liberal. E de fato, não faltam motivos para a rejeição. A começar pelo descaso com que trata filósofos anteriores, lendo suas filosofias sem nenhum rigor acadêmico e julgando-os sem dó. Suas passagens mais virulentas são reservadas para "um monumento ao repositório mais feio do ódio pela vida, pela homem e pela razão: a alma de Immanuel Kant." ("Causality Versus Duty" em Philosophy: Who Needs It) Ela aceitava apenas dois precedentes filosóficos: Aristóteles, o maior filósofo de todos os tempos, e Tomás de Aquino, também muito bom (segundo ela, a parte teológica de S. Tomás fora provavelmente uma concessão dele aos tempos). Fora disso, quase só erro e maldade. Locke teve seu mérito na filosofia política, mas sua epistemologia era detestável. Nietzsche tinha um ou outro pensamento de valor, mas sua concepção básica do homem, anti-racionalista e negadora do livre arbítrio, também era muito má. (No caso de Nietzsche, é visível sua influência sobre ela, o que torna a rejeição ostensiva ainda mais problemática).

Há também a notória hostilidade à religião. A fé é a negação da razão: aceitação de uma autoridade como superior e substituta da própria mente e de suas ferramentas de conhecimento da realidade. Ainda assim, ela não era ateia militante: argumentos contra a existência de Deus ou contra religiões específicas não ocorrem quase nunca em sua obra; o que há com frequência um pouco maior é argumentos morais contra a moral religiosa do Cristianismo - única religião digna de nota para ela. E mesmo com tudo isso - talvez isso interesse a nossos leitores - havia algum respeito pela tradição intelectual católica, por ela lamentada na longa refutação que fez da encíclica Populorum Progressio do papa Paulo VI: "Há um elemento de tristeza nesse espetáculo. O Catolicismo já tinha sido a religião mais filosófica do mundo. Sua longa e ilustre história filosófica foi iluminada por um gigante: Tomás de Aquino. Ele trouxe uma visão aristotélica da razão (uma epistemologia aristotélica) de volta para a cultura europeia, abrindo o caminho para a Renascença. (...) Agora, testemunhamos o fim da linhagem de Aquino - e a Igreja se volta para seu antagonista primordial, que se encaixa melhor nela: o odiador da vida e da mente, S. Agostinho." ("Requiem for Man", em The Voice of Reason).

Há também, por parte de muitos, a percepção de que ela seria apenas uma defensora do capitalismo. E ela de fato o foi, mas essa não é a parte mais importante de sua obra e nem de sua filosofia. O capitalismo é, segundo a própria, a consequência política de sua filosofia metafísica e moral, que é o que realmente importa. Por isso mesmo ela não botava muita fé em alianças com liberais de outras correntes filosóficas e, especialmente, com os libertários de sua época. O vazio filosófico do libertarianismo, que consiste na afirmação de um princípio moral de não-agressão vindo de lugar nenhum, e que para além disso é compatível com o total relativismo ético (desde que não se viole o PNA, vale tudo), era-lhe repugnante. Para ela, a real aliança existe no campo dos valores e da filosofia, que compreende epistemologia, metafísica, ética, estética e política.

Poucos leitores conhecem sua obra de epistemologia (que é a filosofia do conhecimento: como o homem conhece o mundo e qual o grau de certeza desse conhecimento?), "Introduction to Objectivist Epistemology", em que ela visa a responder o que era para ela o problema mais importante da história da filosofia: a questão dos universais - qual o estatuto dos conceitos abstratos e como eles são produzidos. Sua solução é uma modernização do "realismo moderado" (que diz que conceitos captam dados objetivos da realidade, não são mera convenção, mas não existem fora da mente) com uma importante adição: o conceito existe num contexto informacional: distingue um certo tipo de coisa de todos os outros tipos conhecidos. Mudando o conhecimento, conceitos diferentes se fazem necessários. O conceito ou a definição não expressam uma essência completa da coisa, como se acreditou na filosofia clássica e medieval; expressa o grau de informação suficiente para distingui-la dos demais seres. Subjacente a tudo isso está a defesa aguerrida de que a mente humana é capaz de conhecer a realidade objetiva e que a razão é a única ferramenta que o homem tem a seu dispor para esse fim.

É a mensagem central da filosofia da Ayn Rand: o poder e o primado da razão. Disso se segue a ética e a psicologia que a subjaz, que são o assunto preferencial de sua obra. Afirmar o primado da razão significa afirmar o primado da mente individual e, portanto, o egoísmo. E aqui nos deparamos com o grande mal-entendido daqueles que não a leram: considerar que a moral do egoísmo, e a consequente rejeição do altruísmo, significaria ver como boa a pessoa que pensa apenas em si mesma e como má aquela que ajuda os outros.

Altruísmo não é benevolência. O homem bom é benevolente para com aqueles que ele ama e de maneira geral com todos os homens; mas isso não decorre de um dever primordial de ajudar e muito menos de se sacrificar pelo próximo. O valor do indivíduo - o bem de sua existência - não depende dele abrir mão de seus valores para servir a quem quer que seja. Sua mente não está à venda, seja por dinheiro ou pelos desejos e exigências alheios. Atos que geralmente chamaríamos de altruístas, como morrer para salvar um grande amor, podem ser racionais, e nesse sentido plenamente egoístas: refletem a avaliação racional do agente que aceita a própria morte porque sua vida não faria sentido sem o outro. Isso é o exato oposto de uma pessoa que efetivamente abre mão de sua vida, escolha por escolha, por crer que não tem o direito - ou que estaria sendo má - se agisse para buscar seus próprios objetivos.

Para quem olha de fora, esse papo de egoísmo parece ser a defesa do capricho individual como fundamento da ética; mais ou menos como faz o utilitarismo ou outras teorias subjetivistas, ou mesmo o egoísmo ético apregoado por certos liberais. Se o indivíduo gosta de se drogar até morrer, então isso é o bem para ele. Pois a ética da Ayn Rand é passível justamente da crítica oposta: o moralismo exagerado. Mesmo os gostos pessoais requerem critérios objetivos para se justificar; a vitória do capricho sobre a razão é um pecado grave em qualquer área. Isso tornava-a excessivamente negativa para com tudo que fugia a seu gosto pessoal. Não fazia distinção entre o racional e o razoável, aquilo que faz sentido, está bem fundamentado, mas admite dissensão e alternativas igualmente válidas; no círculo randiano, seu gosto era erigido em norma absoluta da razão. Por outro lado, foi essa mesma ênfase na primazia absoluta da razão que produziu ensaios magníficos como sua exposição dos benefícios da filatelia (colecionar selos postais) e a demolição retórica e moral do festival de Woodstock (ensaio "Apollo and Dyonisus" em Return of the Primitive). Não é preciso concordar com eles para aprender e mesmo se deleitar.

O homem racional é aquele que tem sua razão como seu critério absoluto de suas crenças e como guia para sua própria conduta; que não busca viver de segunda mão, às custas dos outros, nem no plano do intelecto (aceitando alguma autoridade como superior a sua própria mente) e nem no da vida prática (procurando, ao invés de produzir, viver do produto alheio), e nem no do sentimento (dependendo da aprovação ou da atenção alheia para suprir a autoestima que lhe falta). Ele é o verdadeiro egoísta: aquele que reconhece as demandas que a realidade impõe para a vida humana e coloca-se à altura do desafio, coisa que lhe traz uma satisfação muito maior do que aqueles que, por medo, entregam suas mentes e suas vidas ao cuidado alheio.

Rand defende, acima de tudo, uma visão heroica do ser humano, preocupado em viver a vida da melhor forma possível - da forma mais feliz possível - neste mundo, e capaz de alcançar os fins ambiciosos que vê como dignos de se concretizar. Corpo e alma constituem um todo único; nada no homem é puramente mecânico ou animal, e nada é a-sensual ou puramente abstrato.

Vale a pena apontar também como ela encara o amor romântico e a atração sexual, ambos muito importantes na sua obra filosófica e na ficção. Talvez pecando um pouco por intelectualismo, ela via na atração sexual um reflexo dos valores e do "senso de vida" do indivíduo. O senso de vida (sense of life) é maneira básica do indivíduo pensar e lidar com o mundo; constitui-se dos juízos metafísicos e morais que não chegaram à formulação explícita, filosófica, mas que mesmo assim impactam na conduta, até mais do que teses intelectuais. Otimismo, pessimismo; convicção na eficácia da própria vontade ou insegurança crônica; ver o mundo como um universo de possibilidades ou de ameaças; todas essas disposições existem nos homens, e não são só filósofos os influenciados por posições filosóficas. A conduta humana projeta valores, e são esses que estão em jogo na atração. Talvez por ser mulher, não deu muita importância à beleza como atrator; o homem racional e seguro de si, independente e superior aos demais, atrai as mulheres mais racionais e também superiores. A beleza física só entra por meio da mentirinha fácil que a ficção adora contar: a de que ela é companheira natural da virtude.

O sexo é o ato de celebração desses valores encarnados que se encontram. Homens e mulheres, embora genericamente iguais, têm uma relação de subordinação sexual: o homem busca ser exaltado por uma mulher, enquanto esta busca alguém a idolatrar (outra curiosidade: é por essa subordinação sexual que Ayn Rand era contra a ideia de uma presidenta mulher - "About a Woman President" em The Voice of Reason). Os conceitos da teologia reaparecem, não para fazer referência a uma realidade além deste mundo, mas ressignificados às experiências básicas que devem lhes ter dado origem.

A ordem social que se depreende dessa ética de exaltação do homem é o capitalismo: a liberdade para cada um se desenvolver da melhor maneira possível e o entendimento de que os desejos racionais humanos são harmônicos entre si. A esfera das interações sub-humanas, aquelas que se dão pela força bruta ou pelo engodo, deve ser reduzida o máximo possível. Ninguém tem, de largada, direito ao que outros produziram; embora as massas se beneficiem imensamente das criações e empreendimentos dos gênios da ciência e da indústria. Aceitar um sistema no qual a erradicação da pobreza não seja o foco principal é também promover uma sociedade com menos pobreza.

Por fim, ela também escreveu muito sobre estética (livro The Romantic Manifesto), a começar pela justificativa da arte. A cognição humana é conceitual: vai além da percepção sensorial, integrando várias delas por meio da abstração, o que resulta em conceitos que se aplicam a diversos casos particulares. O homem precisa ver concretizações dos conceitos que utiliza. A arte efetua essa concretização, visando não avaliar o mérito de diferentes conceitos e juízos (para isso basta o ensaio filosófico), mas sim apresentá-los de forma viva à experiência. Na arte, o artista dá forma concreta a um senso de vida. Isso permite a Ayn Rand integrar o juízo moral ao campo da estética (os três livros de ficção mais imorais da história da humanidade: D. Quixote, Madame Bovary e Anna Karenina) sem, contudo, poluir o juízo estético com critérios morais. Mesmo abominando sua visão de mundo, ela reconhecia em Tolstói um dos maiores escritores da história; foi capaz de dar vida como ninguém a certos juízos metafísicos e morais que eram, contudo, tenebrosos. Dada sua visão heroica do homem, é natural que sua predileção seja pelo Romantismo, pelos artistas que retratam o homem como ele poderia e deveria ser, e não necessariamente como ele é (a música, embora não retrate nada, também traduz valores ao plano sensorial).

Rand tinha uma personalidade muito forte, que se impunha facilmente sobre mentes mais fracas. Sua capacidade persuasiva aliada à intransigência para com discordâncias fez com que uma verdadeira seita se formasse ao redor dela; um fato lamentável mas que não detrai do valor de sua obra. Um a um, todos os pupilos mais inteligentes foram se afastando (ou sendo banidos e proscritos do grupo), de modo que só restaram os mais medíocres, inseguros, dependentes e servis; justamente o tipo humano que ela via como o produto de milênios de uma ética equivocada e má. Hoje em dia, esse grupo original se encontra decadente - vive dos direitos autorais -, mas a obra dela continua com o mesmo vigor original e a suscitar leituras e desenvolvimentos de diversos pensadores. Mais do que formar novos adeptos ortodoxos do objetivismo (nome que ela mesma deu à sua filosofia), ela está aí para nos fazer pensar e, mais do que isso, recuperar no plano dos ideais uma ética e uma visão do homem que transcenda o derrotismo niilista e não requeira a crença num além-mundo.

Deixei seus romances de fora propositalmente. Merecem um tratamento à parte.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Os Direitos do Rolezinho

Sociólogos ainda não chegaram a um consenso sobre o rolezinho. São jovens pobres querendo apenas brincar, fazer um barulho; como qualquer jovem. Ou então representam uma classe oprimida que tenta se fazer ouvir. No fundo, tanto faz. Reivindicação social é coisa legítima; lazer sem maiores pretensões também.
Mas olhemos o outro lado da questão: o shopping center. Ele tem o direito de existir? Em outras palavras: lojistas têm o direito de trabalhar, e frequentadores têm o direito de passear num espaço confortável, seguro e o qual sustentam voluntariamente? Não estou perguntando se shopping é uma coisa bonita, ou se seria a opção de um povo culto e educado. Estou perguntando se, dado que esse é o desejo de muitos, se eles podem exercê-lo. Em nossa sociedade, a resposta é sim.
Sendo assim, a administração do shopping tem o direito de impedir usos de seu espaço que inviabilizem seu funcionamento. A reunião programada de milhares de jovens ouvindo música alta, lotando todas as passagens e não comprando nada faz justamente isso. Portanto, o shopping tem o direito de impedir que ela ocorra (o que não lhe dá carta branca para usar violência).
Para alguns, os méritos da causa rolezeira devem ter prioridade sobre os desejos de administradores, lojistas e clientes. Mas esses mesmos observadores, se forem consistentes, perceberão que há muitas causas – quiçá legítimas – circulando por aí, e que não dá para conceder direitos a uma e não a todas.
Que tal um rolezinho vegano em churrascarias? Centenas de veganos se reúnem, lotam a casa e pedem apenas água a tarde inteira. O investimento feito pelo dono, o emprego de quem ali trabalha e os clientes a quem a casa visa a servir serão sacrificados porque um grupo desaprova aquela prática e resolveu se manifestar.
Um passo além: um grupo evangélico lota uma peça de teatro considerada imoral e vaia o tempo inteiro, impedindo a performance. Aposto que os mesmos sociólogos que veem com bons olhos o rolezinho funkeiro teriam opinião mais ambivalente quanto ao rolezinho evangélico; que não deixaria de ser, afinal, manifestação de uma classe baixa perante uma elite que a exclui. No fim das contas, valeria tudo; qualquer causa – real ou apenas imaginada por intelectuais – poderia se impor sobre a vida prática de qualquer um.
Simpatizo com o rolezinho, embora veja-o mais como lazer provocador do que como “luta de classes”. Acho também que uma dose de desconforto pode fazer bem à classe média e à elite, quem sabe enfraquecendo preconceitos. Podemos debater longamente os méritos dessa e de outras causas – a leitura marxista da sociedade, os direitos dos animais, o papel da religião na cultura. Tudo isso importa. Mas nada disso deve exigir o sacrifício do direito mais fundamental de decidir acerca da própria vida com os próprios recursos, que é o mecanismo básico de funcionamento da sociedade, anterior a discussões filosóficas. Eu adoraria ver um shopping acolher o rolezinho. Não posso, contudo, negar-lhe o direito de barrá-lo. 
Publicado originalmente no Diario do Comércio em 24/01/2014.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O Direito de ser Escroto



Quando uma mulher é ofendida por um homem - como Rachel Sheherazade foi por Paulo Ghiraldelli -, já sabemos quem virá defendê-la. Uma patrulha perpetuamente indignada, dedo sempre em riste, discurso moralista, a um passo do processo judicial. Gente chata, mal amada, com raiva do mundo. Você sabe de quem estou falando. Dxs feministxs? Errou. Bem, seriam xs feministxs desde que a vítima da ofensa não fosse de direita. Sendo de direita, e portanto um tipo inferior de mulher, ficam quietinhxs. Quando a vítima do insulto é de direita, ao invés dxs feministxs vêm as olavetes ("olavete" é sempre feminino, embora designe, em sua maioria, homens - a sabedoria da gramática!). De resto, dá tudo no mesmo, inclusive a celeuma espalhafatosa.

Paulo Ghiraldelli, o intrépido filósofo de São Paulo, pensador independente, livre de ideologias, um Diógenes do terceiro milênio, que atrai desavisados para seus vídeos de filosofia usando fotos da esposa semi-nua como isca (já caí em vários); enfim, essa nobre figura desejou que em 2014 a jornalista Rachel Sheherazade, campeã da direita, seja estuprada  e depois abraçada por um tamanduá. Coisa fina.



Ela, compreensivelmente indignada, já entrou na justiça para punir Ghiraldelli. E sua legião de fãs, direitistas de boa estirpe, já entraram na torcida: finalmente Ghiraldelli vai tomar pau.

Já eu espero que Ghiraldelli não tenha que pagar multa, prestar serviço comunitário, ir pra prisão, pena de morte, etc. O que ele fez foi... escroto, mas também não foi motivo de tanto escândalo. O insulto não é o lado mais belo da conduta humana, mas é parte normal e talvez necessária dela. Na categoria do insulto incluo tanto descritivos pejorativos ("filho da puta") quanto desejos maus ("vai se fuder") para o futuro do atingido. Em ambos os casos, o intuito é ofender.

Gregório Duvivier pretende enquadrar mesmo esse campo do discurso humano às formas aceitáveis do politicamente correto. O insulto conscientizado deve dizer respeito apenas ao caráter do atingido, e não a outras pessoas com quem ele se relaciona e nem a suas práticas sexuais progressistas. 

Já eu penso que uma prática morre quando se tenta submetê-la a finalidades extrínsecas que se sobrepõem à finalidade intrínseca. O politicamente correto é a finalidade extrínseca por excelência, que já envenenou a comunicação sincera, a política, a literatura, o humor e, agora, quer dominar esse último reduto do ímpeto destruidor humano: a ofensa pura e simples. Se até mesmo esse último bastião do lado negro da força for devassado pelas forças do "Bem", não quero nem imaginar as consequências terríveis que serão liberadas em outros recantos de nossa natureza...

Enfim, voltando ao Ghiraldelli e seu desejo de que a jornalista seja estuprada. Todos nós já fizemos isso em vida: sim, você que me lê já desejou publicamente o estupro de outra pessoa. Quando disse, por exemplo, "vai se fuder!" ou "vai tomar no cu!" - ou por acaso a tomada no cu era para ser puramente consensual? A diferença é que esses insultos usam formas codificadas socialmente, e por isso não chocam a não ser quando ditos em contextos muito formais. De tanto repetir a mesma expressão, o significado dela não penetra mais a atenção consciente de quem a ouve. Ao fugir da forma canônica, Ghiraldelli potencializou seu insulto, restituiu-o à sordidez original. O tamanduá ali ou foi uma referência que eu não peguei (o tamanduá é usado em insultos sexuais?) ou, como prefiro crer, um arremate absurdista só para deixar os leitores ainda mais perplexos depois do choque do estupro.

Sheherazade sentiu a ofensa, que deve envolver um monte de coisas: a vulnerabilidade dela enquanto mulher, sua imagem profissional e ascética de jornalista de TV, sua conduta e discurso moralmente exemplares do ponto de vista conservador/cristão. Por isso mesmo ele funcionou. Gregório Duvivier condenaria esse insulto, que afinal é anti-feminista ao extremo. Ele, se quisesse insultar a jornalista (e, se ele já viu os vídeos dela, provavelmente quer), se limitaria ao que ele considera falhas de caráter: "Sua hipócrita! Sua reacionária! Sua cristã!" - esses são os insultos que Duvivier provavelmente usaria, e como podemos constatar, seriam muito piores enquanto insultos.

Não tem jeito. Quando o intuito é ofender, o uso de freios verbais e mentais cuja finalidade é não ofender é um tiro no pé. Não importa se o objeto usado para ofender seja feio, imoral, se se baseie em preconceitos falsos, etc. Ser filho de uma prostituta, por exemplo, não é, em si, uma desonra para ninguém. Mas isso não importa; a percepção social é outra. E o insulto só funciona enquanto arma social - na medida em que lida, não com a realidade objetiva, mas com a percepção subjetiva que existe na mente de cada um.

Felizmente, o dano que ele causa é limitado, e depende apenas da vítima. Quanto mais ela se deixa afetar, mais grave fica o insulto. Sheherazade reagiu bem; não se mostrou abalada, manteve a cabeça fria - foi até um pouco irônica - e apenas comunicou que entraria na justiça. Ghiraldelli, por sua vez, desmontou como um moleque desesperado e inventou um milhão de desculpas/mentiras para escapar da acusação. O insulto desencadeia uma disputa social entre duas pessoas, e nessa guerra Sheherazade levou a melhor. Ela tinha a seu lado um sistema legal que pode muito bem punir o autor de um insulto (como já ocorre se os ofendidos são políticos e, em breve, policiais) - dizer que era "incitação ao crime" é uma manobra puramente legal que ninguém pode levar a sério - o que facilitou muito para ela. 

Mas como eu dizia, o dano real do insulto é muito pequeno e se dá apenas no plano social (da intersubjetividade), e não no da realidade objetiva. Quanto mais madura a pessoa, menor o dano. Por isso a prática não deveria ser punida pela lei; já imaginou o que seria de nossa cultura se as magníficas trocas de insultos e calúnias da Renascença tivessem sido censuradas na fonte, por deputados e jornalistas ciosos de sua imagem? (Naqueles tempos, eles bem que podiam mandar prender ou matar o caluniador - mas não havia ambiguidade: aquele que defende sua honra está no mesmo jogo, e não é nem um pingo mais honesto, do que o que o xinga).

Para golpes sociais, punições sociais bastam: respostas à altura, ignorar o autor do insulto, até mesmo o ostracismo. Os fãs conservadores de Sheherazade, gente em geral pouco madura, preferiu a tática oposta: repetir aos quatro ventos o insulto à sua musa, dar publicidade ao Ghiraldelli, e mesmo passar a lê-lo. Apesar do apoio deles, Sheherazade ainda levou a melhor, mas Ghiraldelli também deve ter tido pico de acesso em seu site ou twitter, e não duvido que tenha conseguido novos leitores, gente que passará a acompanhá-lo só para suprir sua cota diária de indignação. Só espero que Ghiraldelli não leve um pau objetivo pela tentativa fracassada de causar dano subjetivo. Foi escroto, merece possivelmente nosso desprezo (não se esqueçam, contudo, do lado humorístico, absurdista, do que ele disse), mas nada além disso.

Desejo a todos um feliz 2014, e que abracem um tamanduá!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Vida Longa ao Rei do Camarote



Perdoem a escolha do tema antigo; isso é tão novembro/2013! Espero que valha a pena. Estiquemos um pouco a memória e voltemos para aquelas duas semanas do mês passado em que o esporte favorito das pessoas lindas foi odiar e ridicularizar o Rei do Camarote. Participei com gosto da segunda modalidade, e não vejo nada de muito errado nisso. Só acho que os motivos que suscitaram essas reações não foram devidamente esmiuçados, e por isso estou aqui para repisar o cadáver. Já aviso que a exposição não será lisonjeira; nem para ele, nem para nós.

E há dúvida sobre os motivos da hostilização? O sujeito é ostentador, rico, fútil; plenamente egoísta. É o que andaram dizendo. Outros, mais conservadores, viram nele a boa e velha “auri sacra fames”, o sórdido amor pelo dinheiro. Seja como for, mereceu.

Pois eu digo que ele não ama o dinheiro. Amor ao dinheiro é um vício ascético. É o que acomete o trabalhador compulsivo, o trader para quem o aumento do saldo bancário é um fim em si mesmo; o poupador muquirana que evita religiosamente qualquer pequeno gasto a mais. Esses têm o dinheiro como um fim, e não como um meio para comprar a felicidade. É um vício bem infeliz e solitário. O Rei do Camarote é infeliz, mas, ao contrário dos amantes do ouro, esbanjador. Se ele tem e quer dinheiro, é para usá-lo; para comprar muito luxo.

Só que os bens de luxo também não são, para ele, finalidades em si. Tem gente (poucos) que querem bens de luxo pela qualidade, pela beleza e por outros prazeres diretos que eles proporcionam. Dirigir uma Ferrari, por exemplo, deve agregar valor, não ao camarote, mas à experiência do sujeito. Sentir o ronco do motor, a velocidade, o poder enorme aliado à elegância das formas; para alguns, isso bastaria.

Não para o Rei do Camarote. Ouçamo-lo: “Ferrari é um sonho de consumo de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo.” (CAMAROTE, Rei do. 2013.) Ele quer a Ferrari apenas porque todo mundo quer uma Ferrari. É tudo pelo social; tudo pelos outros. “Uma questão de status”. Ele não é nada egoísta; não coloca a si mesmo acima de tudo. Ele coloca a si mesmo abaixo de todos os outros, seu valor à mercê da opinião alheia. Se vamos acusá-lo de algo, é de excesso de altruísmo, preocupação constante com os outros, em se sacrificar pelos valores dos outros, deixando seus próprios valores de lado. Gosta de vodka, bebe champagne.

Até aí, contudo, nada fora do comum; quem nunca? A ausência de amor próprio pode ser um grande pecado, mas não é o que nos levou a condená-lo. O grande pecado do Rei do Camarote não é procurar a glória dos homens; é falhar nessa busca.

Pobre Alexander. Ele se circunda de todos os sinais exteriores do poder e ainda assim projeta impotência; continua sendo um coitado, um loser, um panguão. Não me levem a mal; aposto que há vários homens e mulheres querendo se aproximar dele; por oportunismo. É impossível acreditar, contudo, que algum homem realmente o inveje e que alguma mulher realmente o deseje. O sucesso feminino de que ele se gaba, e que lhe custa muito dinheiro, é realidade corriqueira de muito pé rapado.

O insuportável no Rei do Camarote é essa desconexão entre pretensão e realidade. Alguém aparentando ser o que não é, um tema clássico do humor (todo mundo sacou, aliás, que o sujeito é gay; isso leva a desconexão a um outro nível). Puxar o tapete das pretensões alheias; colocar cada um em seu devido lugar: sempre para baixo. O riso é a arma mais destrutiva de todas. É a única eficaz na arte da degradação moral e social. Nenhum valor que se queira absoluto pode tolerar o humor; por isso monarquias antigas e políticos modernos querem-no proibido, assim como todas as religiões (catolicismo, islã, feminismo, etc.). O humor é o ácido universal da condição humana e, para quem ainda nutria alguma nobre esperança, não tem absolutamente nada de moral, ético ou sustentável. O Rei do Camarote está nu, e nós aproveitamos para jogar um ácido. Quem mandou sair assim?

Não sei porque achamos graça em demolir pretensões. Tenho uma suspeita, que acho que deve servir para pelo menos alguns casos. Aparentar o que não se é é um jeito de tentar ser o que não se é. Tentar melhorar a própria condição. E no fundinho do coração de muita gente (não do meu, não do meu!) reside uma linda voz que lhes impele a rebaixar todo desejo de melhora alheio; que, por contraste, revela o quanto não temos melhorado em nossa. Humilhá-lo, ainda que em pensamento, alivia um pouco a angústia de nossa própria nudez.

O ambicioso, muito mais do que o pobre ou mesmo do que o rico, é sempre mau; é visto e representado ou como risivelmente falso ou como psicopata. O pecado não é estar em cima, se você nasceu em cima; é tentar chegar lá. Sendo assim, nem vem ao caso se o Rei do Camarote merece as zoeiras todas que recebeu (e não foram só zoeiras; teve muito ódio em estado puro também), pois, merecendo ou não, isso não tem nada a ver com o que nos levou a zoá-lo. A justiça é o melhor pretexto para as piores crueldades.

O que nos redime é a memória curta. Passado um mês, é só mais uma pessoa normal, vagando perdido neste mundo. E aposto que mesmo seu pior algoz das redes sociais, se porventura lembra-se que ele existe, já não sente mais nada de ruim, espera que ele encontre seu rumo e seja feliz.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A Morte dos Heróis





















It turns out que meus amigos do face são profundos conhecedores e admiradores do “Madiba”. Parece que só eu faltei a essa aula; só eu não li os livros. Todos manifestaram sua dor, alguns arrebatados pela emoção, desestabilizados com a morte do herói, do raio de luz que guiava suas vidas e que os dava esperança de um mundo melhor. Teceram loas ao fim do racismo, à democracia, à paz, ao espírito acolhedor dos sul-africanos. Bem, nem todos. Alguns outros amigos, minoritários, acusaram a farsa, pintando um outro Mandela: terrorista sanguinário e/ou monstro corrupto. Veja este e este links (calma, é da Piauí e da Enciclopédia Britânica; não do ARENA-Jovem).

Há um quê de espírito de porco na tentativa de destruir os ídolos alheios, por mais justa que seja a destruição. Aliás, especialmente se for justa. Mas, sendo justa, como não aceitar suas conclusões? Mandela não foi herói; foi apenas demasiado humano numa escala maior do que a dos outros mortais. Mandela o comunista radical, stalinista, o aliado de ditadores sanguinários e magnatas do diamante; Mandela o terrorista; Mandela o corrupto; é tudo verdade. Sustento, no entanto, que Mandela o herói também existiu. A discussão é o embate entre dois símbolos – um bom e outro mau – que não correspondem ao ser humano real. A posição minoritária não acrescenta nada, e acaba aparentando oposição aos valores representados pelo símbolo bom.

Mandela tinha seus esqueletos no armário. Não foi um puro, um santo. Mas representou para muita gente – via seleção midiática – coisas boas. Sua vida representa a vitória sobre o preconceito racial e, para coroá-la, a atitude da reconciliação ao invés da vingança. Eu penso que, se simboliza coisas boas, e há alguma razão para aplicar o símbolo ao sujeito real, deixem o herói estar. Que me importa se, no fundo, Mandela foi um canalha, ou se seu governo falhou em garantir a paz e prosperidade? Só não acreditem literalmente no herói, no santo. Em verdade, ninguém é santo; nem mesmo os santos.

Os dois lados da polêmica Mandela me lembram das brigas acerca da nossa história. Dos paulistanos que vandalizaram a estátua do Brecheret no Ibirapuera, e que querem derrubar a estátua do Borba Gato em Santo Amaro. Os bandeirantes não foram heróis; foram monstros, gananciosos, caçadores de índios. Concordo, desde que se adicione: e foram heróis. A coragem desses homens do mato, a sede pelo ouro, ou pedras ou escravos ou o que fosse, a determinação de entrar na mata fechada, de ser indiferente à morte como só um predador faminto é capaz; esse pecado desbravou nosso território e formou nosso país. Viva!

Os homens do nosso século são incapazes de querer algo com a mesma veemência e falta de culpa com que os homens da Renascença queriam. Olhamos para trás e nos horrorizamos com a violência. Os vícios dos outros são sempre mais chocantes. Algo similar ocorre quando olhamos os ícones políticos de meados do século 20; todos – Che, Churchill, Mandela –, envolvidos em muito mais violência do estamos prontos a tolerar hoje em dia.

Não quero adotar o papel ridículo daquele que condena o tempo em que vive para exaltar um passado virtuoso, que, sabemos, não existiu. Digo que estamos corretos em condenar a violência política daqueles tempos, mas temos também o dever de compreendê-la em seu contexto; o mesmo vale para a escravidão. E vou além: nossos revoltados anti-bandeirantes também têm um herói legítimo para substituir os bandeirantes: Zumbi dos Palmares. Para o bem da inocência deles, espero que jamais leiam uma biografia de Zumbi. Ou melhor, espero que leiam. Inocência é coisa perigosa; adora atirar a primeira pedra.

O panteão dos homens é como o dos deuses gregos – grandes feitos e grandes defeitos; e não menos digno de culto. Celebremos Mandela, os nossos bandeirantes, Zumbi. A Inglaterra, país tão conciliador, tem lições a nos dar: celebram Henrique VIII e Thomas More – nenhum dos quais era flor que se cheirasse.

Crescer individualmente requer, entre outras coisas, perder a devoção incondicional aos pais, aos professores, etc.; vê-los como os homens que são. Uma cultura madura, da mesma forma, não acredita na verdade literal dos heróis; e por isso mesmo pode prestar-lhe homenagens mais verdadeiras. A admiração de uma figura heroica, que fez algum grande bem, não requer a salvação de sua alma. Mandela lutou pelo bem, marcou a percepção de seu tempo de forma positiva. Sendo assim, viva Mandela, ainda que eu – e não só eu – não saiba nada do homem! 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Sobre os perigos da leitura cuidadosa

Está depositada na devida secretaria. 148 páginas. Resta às engrenagens acadêmicas triturá-las e transformá-las em pasta. O tempo que essas páginas custaram, e o mal que produziram, jamais serão recuperados. Indo depositá-la, tinha o desejo de que, logo que a tivesse entregue, uma ânsia mais forte do que eu me fizesse correr ao banheiro e vomitar copiosamente, tirando das entranhas o bolo espiritual que me pesava. A realidade foi bem mais serena, e voltei mais leve mesmo sem fazer jorrar minha bile nos canos da FFLCH. Finalmente me libertei do espírito maligno de Santo Tomás de Aquino (sim, apaguemos o título! Foi a primeira e mais sábia lição da faculdade). Não é dele, contudo, que quero falar. Ele foi apenas o meio, o diabinho subalterno a serviço de uma máquina funesta que certamente foi pensada no inferno, mas que criou consciência própria e desbancou a Lúcifer e todos os outros.

Pós-graduação em Humanas numa instituição séria deste país é negócio de réprobos. Exotericamente, vende-se trabalho acadêmico, um domínio do texto de algum palpiteiro célebre do passado. O que se prepara, contudo, no plano esotérico, é a possessão voluntária da alma estudantil pelo espírito do morto.

Muito se critica a universidade brasileira por não formar filósofos, mas historiadores de filosofia, eruditos de filosofia. Sabem o que Platão ou Espinosa diriam do PT, mas são incapazes de formular algum argumento que vá além dos chavões. O que ninguém diz, ou ninguém quer ver, é que a ausência de filosofia não é uma escolha, ou mesmo, como achei em momentos mais ingênuos (quando estava por fora, achando que todos “tinham pontos”), efeito de uma falta de coragem, um medo de se expor. Isso implicaria que a possibilidade de fazer filosofia é rejeitada, quando na verdade ela nem existe.

Ao ler qualquer texto, a reação da pessoa normal minimamente formada (que já transcendeu o “se está escrito, é verdade”) é se perguntar se aquilo é verdade. A afirmação bate com sua intuição e sua experiência sobre o assunto? O autor dá algum argumento? Os argumentos são bons? Se for falso, quais as implicações? E se for verdadeiro? Isso é uma mente normal em funcionamento. Mas a vida acadêmica em Humanas não é compatível com uma mente normal. E isso não é de todo o mal...

No começo de uma vida acadêmica, a grande luta é deixar de lado essa faculdade de julgar; abrir mão da pergunta básica por trás de toda empreitada cognitiva: “Isso é verdade?”. A postura é sábia. Para entender um pensador, deixa-se de lado as próprias convicções (e mais, os gostos e preconceitos) e lê-se o que ele disse de espírito aberto, procurando reconstruí-lo e entender a lógica interna daquele pensamento. Junto com o entendimento ganho, vem também o demônio de brinde.

Primeiro ele te dá o gostinho bom que vem ao se habitar o mundo conceitual que se estuda. Um mundinho pequeno, fácil de se localizar. Saber operar dentro das regras dadas pelo sistema, discutir, investigar os menores recantos à procura de novas migalhas de informação; como é bom encontrar aquele detalhe textual que embasará toda uma nova interpretação!

Às vezes a pergunta ressurge: mas será que ele acertou quanto a essa opinião? Será que Tomás fez bem ao propor a pena de morte a hereges, ou ao dizer que os bem-aventurados do Céu se alegrarão ainda mais ao contemplar a desgraça dos condenados? Só que já não é tão fácil respondê-la, dado que cada termo dele exige uma definição também nos termos dele, e que as posições em jogo – agora já se sabe – se davam num contexto conceitual diferente do nosso, etc. Matéria e forma, potência e ato, intelecto passivo e ativo; quanto mais se lê, mais difícil transplantá-los para este nosso mundo de facebook e jogos universitários.

Imagine uma foto digital. Temos ali uma representação relativamente fiel, embora imperfeita, de um aspecto da realidade. Agora aumente o zoom milhares de vezes, de modo que cada pixel ocupe sua tela inteira. Vida acadêmica é maximizar pixels. Uma vez nesse nível, aprende-se a ir de um a outro; dá até para prever como será o próximo; decorar a ordem dos pixels, entender o sistema por dentro. Só que nesse nível a questão da representação desaparece, pois aqueles quadrados monocromáticos obviamente não se referem a nada. “Hã? Esse negócio de potência e ato, intelecto agente, synderesis, era para ter a ver com o mundo real??”  O único modo de se entender qualquer um desses conceitos, em Tomás, é segundo os termos que ele próprio usa. Onde termina a terminologia e começa a realidade que ela nomeia? Quanto mais se lê, mais a resposta tende ao “nunca”.

Logo, a única resposta possível é ver se a tal opinião concorda ou não – ou melhor, remodelar todo o sistema conceitual para que a tal opinião concorde – com o resto do sistema. E daí você já está tão dentro do labirinto que esqueceu o caminho de volta e nem quer mais voltar; esqueceu que há algo fora dele e o resquício de memória, já bem abafado pelo inconsciente, só suscita dor e medo.

Um dia você acorda e o diabinho já terminou o serviço: a possibilidade da questão sumiu. O que era mapa virou quadro virou mundo. O mundo em que a synderesis abarca os princípios da lei natural não tem nada a ver com o mundo em que a Dilma se reelege, não porque estejam distantes no tempo, mas porque habitam universos paralelos. (“Mundo como ideia”? Não, nada a ver, e não me façam falar de uma raça ainda mais perdida...). Não é que os acadêmicos brasileiros tenham medo de discutir certas questões. É que é impossível conceber certas questões, a verdade é algo que não surge. Não é uma defesa do relativismo ou do subjetivismo, mas a total indiferença – ou melhor, incompreensão e esquecimento – quanto à própria noção de verdade.

Já repararam que os grandes filósofos nunca foram bons leitores da filosofia alheia? Aristóteles “não entendeu nada” de Platão. Onde já se viu, achar que refuta a noção de participação com aqueles argumentinhos rasteiros! Tomás por sua vez não compreendeu Aristóteles, tentando encaixá-lo num outro universo de pressuposições. Leibniz tinha parca noção dos escolásticos que tanto respeitava, e adulterou-os sem limite. É tudo verdade. Descartes, Espinosa, Kant, Hume, Wittgenstein; se citaram a outros, foi para mostrar que nem existia filosofia séria antes deles.

Não foi por acaso. É justamente porque não foram leitores profundos que escreveram coisas profundas. Agora durmam com essa! 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A Outra História de João e Paulo

[O conto a seguir foi inspirado e baseado em "João e Paulo", de Diego Quinteiro.]

***

João nasceu. Na maternidade pública, do ventre de sua mãe para as mãos do displicente médico. Foi uma alegria para ela, talvez o primeiro alento desde que chegara do interior da Bahia; e trazia também alguma preocupação. O marido, inicialmente tão amoroso, tinha começado a beber e abandonara o lar antes do nascimento. Mesmo assim, o bebê era a coisa mais fofa das tias e dos tios, que também tinham migrado para São Paulo alguns anos antes. Foi levado pra casa, para seu berço de compensado no mesmo quarto da mãe.

No mesmo dia, em uma dessas coincidências que só Deus explica, nascia Paulinho. Do belo hospital, o melhor que o seguro cobria, saía Paulo Ferreira, que nasceu para brilhar. Será artista, intelectual, talvez estadista; os pais planejaram tudo. Chegou em casa, um quarto azul, um lindo berço de madeira, motivos do folclore brasileiro, as tias apertando as bochechas – que fofo! Isso nunca muda.

Crescia o Joãozinho em sua casa de reboco, tijolos aparentes, na encosta do morro. Jogava futebol na rua, empinava pipa. A mãe voltava para casa tarde. Era trabalhadora, honesta, empregada doméstica. O chão emocional estável do pequeno. Um dia, tendo que acompanhar a mãe na casa da patroa, o menino perguntou:

- Mãe, por que nossa casa não é bonita como essa?

- Porque a gente é pobre, meu filho. E os Ferreira são ricos. Gente estudada. Não é casa pra gente pobre. Estuda, meu filho, prum dia você comprar a sua! – disse a mãe. – E comprar de volta o sítio da sua vó pra mãe ficar velha em paz.

Joãozinho não achou justo. Nem injusto. Pensou apenas que a vida era assim; que a mãe merecia seu descanso, e que caberia a ele tornar aquilo realidade.

 – Só não esquece nunca – completou a mãe – que com você junto da mãe eu não preciso de casa nenhuma.

Paulo Ferreira, o Paulinho, era um bom aluno. Tinha quadra, piscina, capoeira aos sábados e aulinhas de e inglês e mandarim. Era educado, sabia separar o lixo, comia verduras no almoço – espinafre pra ficar fortinho. Tinha um Wii e chamava os amiguinhos pra jogar Mario (papai e mamãe não conseguiram determinar tudo; o peão e as bolas de gude ficaram esquecidos na estante) e comer pão de sete grãos com requeijão da fazenda. Como era gostoso! Bom tempo esse de ser criança! Às vezes João, o filho da empregada, vinha passar o dia. Não sabia como se comportar com esse menino estranho, mas ao menos tinha sua vitória garantida no videogame. Certa vez, seu pai, que chegava às seis, trouxe um boneco para ele brincar.

- Pô, pai, eu queria outro!

- Papai volta amanhã na loja de brinquedos e traz outro, tá bom? – suplicou o pai. Não eram milionários, mas ele não queria jogar no colo do filho tão novo essa história de dinheiro, trabalho e todas as preocupações que aquele sistema impunha. A infância não devia ser mercantilizada.

Paulinho achou justo: ninguém é melhor que o papai! É só eu querer, e ele faz acontecer. E de fato, ele fazia.

A mãe do João lavava, passava, limpava, passeava os cãezinhos. Fazia comida, pegava às sete e saia às oito, do centro da cidade, pra tomar o trem. Uma noite, chegou em casa e deu beijo no Joãozinho, que perguntou:

- Mãe, porque você cuida da casa dos outros, e não vem ninguém cuidar da nossa?

- Filho, meu anjo, com o dinheiro que eu ganho mal dá pra cuidar da nossa casa. Empregada não é coisa pra gente simples como a gente. Estuda, meu filho, prum dia você chegar lá! - respondeu a mãe.

Apesar do sofrimento, ela não se arrependia. A vida ali era melhor do que no chão rachado da caatinga de onde saíra, onde os sete irmãos passavam muita fome durante a estiagem, só com farinha pra comer; e calango. Lá não tinha nada; só mato e seca. O filho não teria chance nenhuma. Agora tinham luz, TV, roupa, comida, móveis, escola; e o sentido de oportunidade. Ainda assim, ansiava em voltar à paz da roça da qual seu coração nunca saíra. Ali, com menos dor, seria o paraíso.

João não achou justo. E nem injusto. Era como as coisas eram; e reconheceu o quanto sua mãe se sacrificava para, naquelas condições, dar-lhe o melhor que podia. Quantas indignidades ouvia calada, até curvada, aceitando tudo de todos e sem guardar rancor, só para o bem do menino. Algo muito forte a movia por dentro, e nada que viesse de fora iria pará-la. Ninguém é melhor que a mamãe! E, de fato, ninguém era.

Às cinco era hora do lanchinho, hora de subir do parquinho, hora do Paulinho parar de brincar. Bisnaguinha integral, leite achocolato belga, gelatto de jabuticaba e suquinho de buriti. Mordidas após mordida, vendo desenho na TV Cultura antes do Jornal. Depois, foi fazer lição de matemática, aritmética básica do ensino fundamental.

- Mamãe, vem me ajudar?

- Filhote, agora não posso. Pede outra hora tá? – e sentou no sofá pra ver seriado. O pai, ao computador, também não podia.

Paulinho achou injusto: ninguém tinha o direito de lhe deixar sozinho. E se os pais não iriam ensinar, então ele também não ia querer aprender.

João e Paulo, nascidos no mesmo dia, na mesma cidade, viviam em mundos completamente diferentes. Quando a Nalva, mãe de João, mudou de emprego, Paulo logo esqueceu o nome e o rosto daquele visitante ocasional.

João tinha só uma certeza na vida: a de que o mundo não girava ao seu redor e não ligava para ele. Aprendeu desde cedo que moleque de pé no chão não tem o que os outros meninos têm; mas queria ter, e sabia que não ia ser fácil.  Que o trabalho é duro, a vida é dura, as vacas magras, as águas turvas. Mas o mundo tinha também seus dias de sol, de futebol, de música, de sucesso, que faziam o resto valer a pena.

Sabia que estudar era a saída, mesmo quando na escola não tinha professor pra ensinar. Tentou ler em casa, era difícil se concentrar. Mesmo com todas as dificuldades, algo permanecia. Em meio a professores ausentes ou que haviam desistido perante a apatia daqueles jovens, um se destacava: o Gilberto, que dava geografia e filosofia. João não se interessava tanto assim pelas teorias do professor – um papo de mais-valia, de exclusão social, de necessidade de revolução –, mas o Gilberto era a única pessoa ali que genuinamente ligava para ele. Dentre todos os funcionários batendo ponto (ou nem isso), era o único que estava ali, demonstrando interesse pelo jovem pobre na frente na classe, ajudando-o em suas dificuldades, emprestando-lhe livros – alguns de ficção ele gostou bastante – e, mais do que isso, sendo um amigo mais velho para conversar sobre tudo fora do horário da aula: dificuldades da vida, problemas da sociedade, mulheres, filosofia, sonhos. Sempre pagava uma cerveja para tomar junto de seu amigo e pupilo de colegial – que a mãe e o MEC não ficassem sabendo! –, o único, dentre tantos jovens já desinteressados, que demonstrava o desejo de saber mais.

Ao mesmo tempo, começava a trabalhar. Tantas aulas inúteis, tanto tempo que poderia ser melhor utilizado. Miqueias, dono de um boteco perto de sua casa precisava de um faz-tudo: descarregar mercadorias, às vezes servir clientes, atender telefone. Um vizinho, que dava aulas de reforço para alunos da escola pública, contava com a ajuda de João para corrigir exercícios. Ele levava jeito para aritmética. Colava propagandas nos postes. Cortava mato. Em pouco tempo passou a ajudar o Miqueias com o orçamento do bar e da lojinha que ele tinha algumas ruas abaixo. O que não sabia, procurava aprender; ia pra lan house consultar a internet, ou pedia algum livro pro Gilberto. Tudo em total desacordo com as leis de trabalho “infantil” e com as normas da CLT sobre remuneração; felizmente, não havia fiscal para impedi-lo. João estava sempre pronto a ajudar quem precisasse e estivesse disposto a pagar.

Paulinho tinha só uma certeza na vida, a de que o mundo era injusto. Aprendeu desde cedo que para ter tudo o que sempre quis bastava querer; afinal, todo ser humano, pelo mero fato de existir, merece ter tudo aquilo de que precisa. Mas nem todos tinham. E isso porque os privilegiados se apropriavam do trabalho dos pobres para garantir suas mesas fartas e sua água límpida. Bem sabia que seus pais tinham parte nesse culpa, e adorava condenar suas hipocrisias.

Sabia que estudar era o caminho, e na sua escola – colégio da mais pura estirpe construtivista – ele aprendia a ter um olhar crítico sobre a sociedade. Para passar no vestibular, um bom cursinho, nada crítico, bastou. Universidade pública é concorrida, mas se não passasse, ele sabia, podia ir pra particular. Só não sabia bem o que estudar. Queria ser um indivíduo determinado, igual a tantos que vira em filmes; gente que sabe o que quer e vai atrás. Além do desgosto para com o mundo, não sabia o que fazer da vida. Como sempre ouvira falar que era criativo, e como detestava matemática, física e tudo que demandasse concentração mais intensa, flutuou naturalmente para as Ciências Sociais. Não era má escolha. Com o tempo conseguiria um pós-doutorado, seria reconhecido, viajaria pra França; seu pai ia se orgulhar; e todos o respeitariam.

O tempo foi passando, e João foi se tornando uma pessoa mais confiante, alguém que se sentia eficaz no mundo. Ainda na adolescência, contudo, sentiu na pele a hostilidade de um mundo que elegia a força bruta como critério máximo. Tendo juntado algum dinheiro, João comprou para si um par de óculos escuros; nada demais, nada de marca, mas ficaram bons nele. Era a primeira compra que ele fazia com seu próprio dinheiro e cuja finalidade era apenas ele próprio; não uma necessidade, mas um desejo supérfluo. Voltava para casa orgulhoso, sentindo ingenuamente que o mundo era, afinal de contas, um bom lugar para se viver. Mas sua atitude já andava incomodando alguns de seus colegas, e os óculos foram a gota que faltava para transbordar o copo da inveja. Os mesmos olhos sem vida que o cercavam na escola o cercaram ali no caminho; João já sabia qual era a deles. Apanhou muito naquele dia, bateu e chutou também. Conseguiu fugir dali com a cara inchada, um sorriso sangrento na boca e os óculos bem seguros na mão.

Só que o triunfo durou pouco. Já perto de casa, reparou no policial de pé na calçada, observando como quem não quer nada, a espreita de alguma oportunidade. Vestiu os óculos para esconder as marcas da briga. Saber quando não chamar a atenção era uma estratégia de sobrevivência, mas nesse dia não funcionou.

- Opa, espera aí, moleque! Vem cá, vem cá. Que que houve com a sua cara?

- Tentaram me roubar. Eu fugi.

- E esse óculos bonitão aí? Você não me engana; de onde é que você tirou dinheiro pra comprar?”

João era esperto o bastante para saber que isso não terminaria bem. Fez o que sabia fazer: desafiou, olhando nos olhos do policial.

- Trabalhei e juntei. Vai querer roubar também? - Mas este obstáculo estava além de suas possibilidades. O desafio foi a justificativa que o policial precisava.

- Tá me chamando de ladrão, seu filho da puta? Fala isso de novo que eu te fodo; eu sei onde você mora, tá entendendo? Roubar o caralho! Roubar essa bosta de óculos falsificado! - E num tom mais calmo - Você vai é me dar esse óculos de presente. - Não era um pedido.

Não foi tirado à força, e sim com um movimento voluntário do próprio braço, que João cedeu os óculos.

- Pode ir, moleque. Tá liberado. Por hoje!

João chegou em casa tremendo de ódio. Ódio contra o rato que lhe havia vencido, e ódio contra si mesmo por ter se curvado perante o que há de mais vil na humanidade. Para quê ser honesto, se os urubus levam a melhor? Para quê construir e planejar se a força cega tem a palavra final?

Sua mãe o acolheu, passando delicadamente um pano molhado no rosto machucado, e reparou a mudança na atitude do filho. Colocou-lhe diante de si e falou com ele, sem um pingo da doçura que ele tinha aprendido a esperar dela:

- Eu te amo, meu filho. Você sabe disso. Mas eu te juro, eu juro, que se alguma vez na vida você roubar, você não pisa nessa casa nunca mais. Eu prefiro te ver morto, meu filho, do que bandido.

João não acreditava em Deus; nunca lhe parecera importante. Mas ali, no olhar da mãe, muito mais terrível que o de qualquer gangster ou policial, ele experimentava uma dose de uma força sagrada. Uma força que por séculos e séculos, por gerações incontáveis de um povo sem registro, mantivera alguma ordem em meio a uma miséria tão abjeta que podia transformar homens em lobos: o temor de Deus. Trair aquele olhar seria, de fato, pior do que a morte.

João entendia a injustiça do que lhe acontecera. Compreendia agora, também, que seu caminho não poderia ser aquele. É meu direito buscar e alcançar as coisas que quero para mim; e não serão ratos comedores de beirada que vão me desviar.

O tempo foi passando, e Paulo Ferreira se tornou um jovem estudioso e indignado. Na faculdade, teve uma namorada, mas houve pouca paixão naqueles cinco anos. Fazia seu curso à noite, tinha as tardes livres e tocava violão. Não lia tanto quanto dava a entender. Seus dias nem lhe traziam grande satisfação, e nem contribuíam para construir o futuro brilhante que ele cria ser direito seu. Os pais, querendo seu melhor, recomendaram: por que não procura um estágio, para ter seu próprio dinheiro e comprar suas próprias coisas?

Paulo achou injusto: que sociedade é essa que condiciona o acesso a bens e serviços ao sucesso mercadológico? É direito de todos ter as coisas que os outros têm!

Ao invés de estágio remunerado, inscreveu-se numa ONG. Dava aulas de conscientização social em favelas. Seu pai o apoiou; mas – engraçado – embora soubesse que a escolha do filho era mais nobre que um estágio comum – algo que não se pautava pelo lógica egoísta do mercado – não sentiu o orgulho que achou que sentiria. Ainda assim, no discurso público, a escolha do filho era ideal; não cansava de elogiá-lo em meio a amigos intelectuais. Sem falar que, se a coisa fosse pra frente, se o marketing fosse bem feito, galgar posição em alguma Secretaria seria um passo simples. Segurança, liberdade e serviço social; quem poderia querer algo melhor?

A ONG ia bem; conseguiu patrocínio de um grande banco. Jovens ali se reuniam para aprender sobre seus direitos, sobre como a sociedade injusta tirara o que deveria ser deles. Paulo os incitava a questionar aquele sistema. O tráfico e o crime eram respostas naturais à violência institucionalizada do capital e de seu aparato repressor, a polícia. Não, dizia Paulo, não entrem pelo caminho da violência; ele repete o padrão, não é transformador da sociedade. “Mas pode transformar a minha vida”, rebateu Jefferson, um jovem conturbado que tinha encontrado ali um lugar para conversar e se sentir acolhido. “Por que eu preciso colocar a comunidade antes de mim?” Paulo não soube responder.

A ONG não era longe de onde João morava, e o Gilberto convenceu-o a ir um dia, ouvir uma palestra, junto com um grupo da escola. Mais tarde, contou ao professor seu desconforto: “É legal, tudo muito bonito. Mas eles ficam falando de mudar a sociedade e nunca vão fazer nada. Eu não entendo nada de lei e de governo, só sei que nunca me ajudaram. Estou pensando na minha vida e ajudando os outros com o meu trabalho. Por que eles não fazem o mesmo? Cadê aula de alguma coisa que serve pra alguma coisa de verdade?” O professor ainda insistia na importância de pensar nos problemas maiores, nas causas que faziam a sociedade ser daquele jeito, mas também não tinha como negar que João estava trilhando seu caminho e, se continuasse assim, melhor para ele. Bem sabia que os quase quinze anos dando aula não tinham gerado lá muita transformação. Sentia-se bem ao ver que o pupilo e amigo subia na vida. Sentia que, para ao menos um, seu trabalho não fora em vão.

E João subia a todo vapor. No dia seguinte, foi falar com Miqueias. João tinha ideias para expandir o bar, abrir um novo em outra vizinhança; conhecia bem o negócio e havia provado seu valor. Suas iniciativas anteriores, como colocar música na frente do bar, tinham dado retorno; já conhecia melhor as contas do estabelecimento que o próprio dono, e com toda a confiança que recebera, tinha provado também sua honestidade. Seria tolo não lhe dar essa chance. A única coisa que João demandava era que, de agora em diante, fossem sócios. Miqueias topou. E esse nem foi o maior golpe de sorte da semana.

Com a bolsa da pós, Paulo comprou um iPhone e uma capinha protetora do Che Guevara. Sua dissertação, apesar de atrasada, era elogiada pelo orientador. Um amigo que entrara num grande jornal já lhe garantira um artigo para a coluna de opinião. Estava pavimentando uma lenta estrada rumo a uma carreira intelectual de sucesso, a uma vida plena, fruto de sua genialidade fácil. Algum dia num futuro indeterminado, a livre docência e uma coluna semanal fixa! Voltou para casa cansado de tanto devanear, leu um pouco e foi dormir, contente, tendo depositado sua tese de doutorado. Dali algumas semanas, por causa de uma matéria sobre a ONG que saíra no jornal, se encontraria com o Secretário de Desenvolvimento Social para debater a exclusão na periferia.

Tudo seguia bem, até que uma sexta-feira amanheceu cinza…

Paulo acordou. Tomou seu Sucrilhos sozinho, sentado na rede da sala, olhando o Facebook no laptop.

João acordou. Mordeu um pedaço de pão duro, nem ligou a TV. Colocou sua apresentação na mochila, e foi para sua moto comprada a prestações suadas. Usada, mas bela, que ele gostava de coisas bonitas. (Nesses dias ele já tinha, por força de necessidade, chegado a um entendimento com gente da favela que tinha como garantir que ele não seria alvo da inveja alheia.) Deu a partida e partiu na longa jornada rumo ao centro, com fogo ardendo em seu coração. O fogo que o impelia a ir sempre além.

Na semana anterior, um pequeno milagre ocorrera na comunidade: a visita de um grupo de investidores procurando negócios locais “com impacto social” (o que era isso?). Era gente com grana querendo colocá-la ali. João foi hábil em conversar com os visitantes e marcar a reunião – um boteco com música e dança não era, a princípio, o tipo de negócio que eles tinham em mente. Tinha que ser no escritório deles, longe dali; condição de que não abriam mão. Talvez fosse um teste; e, como em tantos outros, João passaria.

Parou a moto num cruzamento. No mesmo pelo qual passava Jefferson; enfurecido, magoado, queimando por dentro com um fogo bem diferente, justificado pelas ideias que aprendera nas últimas semanas. Aproximou-se da moto com uma arma em mãos:

- Desce da moto, playboy! Vamos, passa o celular! Vai, mano, rápido!

- Calma, pode levar! Não me machuca! – disse João, assustado. Era sua velha inimiga, a força bruta e burra, cobrando mais uma taxa.

Jefferson subiu na moto, portando seu celular. Ele vivia para esses momentos em que ficava por cima. Duravam pouco, e ele logo caía mais fundo. Mal sabia que seria seu último momento de glória. A adrenalina anestesiou todo seu corpo. Viu que um policial se aproximava; quis metralhar aquele porco por todos os tapas e humilhações sofridas desde pequeno; mas o policial foi mais rápido e lhe deu dois tiros. Um pegou na barriga e outro no ombro. Jefferson caiu no chão, predado, abatido, ensanguentado.

O policial se aproximou com arma apontada, chutando o revólver da mão de Jefferson:

- Acabou, maluco! Acabou! – gritou o policial, enquanto tirava o celular roubado de seu bolso.

João observou a cena sem reação, estupefato. Fixou o olhar sobre o pobre coitado se contorcendo em agonia mortal. Intuiu que, se tivesse dado passos um pouquinho diferentes em sua vida, poderia ter sido ele estirado no chão. O que o desviara daquele caminho possível? Não sabia. Sentiu alguma pena: quem sabe o tipo de merda diária que o meliante deve ter tido que aturar a vida inteira, todo santo dia, para que seu espírito se rendesse à sede de destruir? Teve poucas chances na vida, e as que teve jogou fora. Era culpado, mas era também vítima de um sistema que, por algum motivo que João não compreendia, destruía oportunidades e lutava contra quem tentasse melhorar honestamente.

Uma alquimia insondável de sorte e escolha havia trazido João aonde se encontrava agora. Não cabia falar em mérito ou demérito, apenas em causa e consequência. Ele tinha sua moto e seu celular, e Jefferson não tinha nada e babava sangue no chão, e isso não era apenas fruto do acaso, e tinha sido construído ao longo de muitas decisões.

Nisso, transeuntes começavam a se aproximar do corpo. Em seus últimos momentos, Jefferson  desejou que todos os que se ajuntavam à sua volta fossem tragados para o mesmo ralo que agora o levava. O comentário popular não era mais caridoso.

- Esse aí vai roubar moto no inferno agora!

- Ladrão!

- Bem feito!

- Vagabundo.

As falas despertaram João de suas elucubrações. Sentiu pena também daqueles cidadãos. Deviam ter alguma privação muito profunda que procurava alguma desculpa para se extravasar. Prometeu a si mesmo que essa doença também não o subjugaria.

Olhou para o policial que acabara de despachar o ladrão. Tinha sofrido tanto nas mãos da polícia, humilhado por causa de sua cor e de sua condição. Naquele momento, porém, sentia gratidão pelo homem que o salvara. Pela primeira vez na vida, enxergou o que aquela farda antes tão odiada deveria representar. Era uma tragédia que a força se fizesse valer; mas, dessa vez, prevaleceu a força submetida à ordem, e não ao caos.

Aquela tragédia não impediria seu caminho. Não tinha tempo a perder. O policial foi compreensivo – que ele comparecesse na delegacia mais tarde – e João acelerou sua moto rumo ao compromisso que mudaria sua vida. Alguns raios de sol já atravessavam as nuvens. Apesar de tudo, havia alguma justiça no mundo.

Longe dali, vendo o caso no Facebook, Paulo achou tudo injusto. Jefferson não era culpado. Era a vítima. Vítima de uma sociedade construída sobre a exploração dos pobres pelos ricos, e vítima da violência gratuita de uma polícia opressora. Quem era aquele tal “empresário” que guiava a moto? Como ousava sair por aí ostentando um bem que outros não podiam ter? Jefferson estava apenas pegando o que era seu por direito da única forma que lhe foi ensinada. Incrível como, mesmo entre os explorados, a cultura capitalista – a máxima do levar vantagem em tudo – conseguia dar origem a novos exploradores imbuídos da mentalidade do sistema. Num mundo ideal, homens como João não existiriam.

Já tinha o tema para seu artigo de jornal. E começava, finalmente, a desvendar seu propósito na vida: cortar pela raiz a pretensão individualista, socialmente engendrada, de ascender para além dos demais, humilhando assim quem não podia chegar tão alto. A reunião com o secretário seria esta tarde, e ele pensava em como traduzir esse ideal em políticas reais que minimizassem a violência que a existência dos maiores representa para os menores. Que ele pudesse ser o autor de uma sociedade mais conforme sua visão de mundo lhe enchia de esperança, e ali estava um mecanismo bastante eficaz para esse fim. Aos poucos, as coisas iam acontecendo em sua vida, e Paulo começava a receber a consideração que – sempre soube – era sua por direito. Talvez o mundo não fosse, afinal, tão injusto assim...
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