segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Sobre os perigos da leitura cuidadosa

Está depositada na devida secretaria. 148 páginas. Resta às engrenagens acadêmicas triturá-las e transformá-las em pasta. O tempo que essas páginas custaram, e o mal que produziram, jamais serão recuperados. Indo depositá-la, tinha o desejo de que, logo que a tivesse entregue, uma ânsia mais forte do que eu me fizesse correr ao banheiro e vomitar copiosamente, tirando das entranhas o bolo espiritual que me pesava. A realidade foi bem mais serena, e voltei mais leve mesmo sem fazer jorrar minha bile nos canos da FFLCH. Finalmente me libertei do espírito maligno de Santo Tomás de Aquino (sim, apaguemos o título! Foi a primeira e mais sábia lição da faculdade). Não é dele, contudo, que quero falar. Ele foi apenas o meio, o diabinho subalterno a serviço de uma máquina funesta que certamente foi pensada no inferno, mas que criou consciência própria e desbancou a Lúcifer e todos os outros.

Pós-graduação em Humanas numa instituição séria deste país é negócio de réprobos. Exotericamente, vende-se trabalho acadêmico, um domínio do texto de algum palpiteiro célebre do passado. O que se prepara, contudo, no plano esotérico, é a possessão voluntária da alma estudantil pelo espírito do morto.

Muito se critica a universidade brasileira por não formar filósofos, mas historiadores de filosofia, eruditos de filosofia. Sabem o que Platão ou Espinosa diriam do PT, mas são incapazes de formular algum argumento que vá além dos chavões. O que ninguém diz, ou ninguém quer ver, é que a ausência de filosofia não é uma escolha, ou mesmo, como achei em momentos mais ingênuos (quando estava por fora, achando que todos “tinham pontos”), efeito de uma falta de coragem, um medo de se expor. Isso implicaria que a possibilidade de fazer filosofia é rejeitada, quando na verdade ela nem existe.

Ao ler qualquer texto, a reação da pessoa normal minimamente formada (que já transcendeu o “se está escrito, é verdade”) é se perguntar se aquilo é verdade. A afirmação bate com sua intuição e sua experiência sobre o assunto? O autor dá algum argumento? Os argumentos são bons? Se for falso, quais as implicações? E se for verdadeiro? Isso é uma mente normal em funcionamento. Mas a vida acadêmica em Humanas não é compatível com uma mente normal. E isso não é de todo o mal...

No começo de uma vida acadêmica, a grande luta é deixar de lado essa faculdade de julgar; abrir mão da pergunta básica por trás de toda empreitada cognitiva: “Isso é verdade?”. A postura é sábia. Para entender um pensador, deixa-se de lado as próprias convicções (e mais, os gostos e preconceitos) e lê-se o que ele disse de espírito aberto, procurando reconstruí-lo e entender a lógica interna daquele pensamento. Junto com o entendimento ganho, vem também o demônio de brinde.

Primeiro ele te dá o gostinho bom que vem ao se habitar o mundo conceitual que se estuda. Um mundinho pequeno, fácil de se localizar. Saber operar dentro das regras dadas pelo sistema, discutir, investigar os menores recantos à procura de novas migalhas de informação; como é bom encontrar aquele detalhe textual que embasará toda uma nova interpretação!

Às vezes a pergunta ressurge: mas será que ele acertou quanto a essa opinião? Será que Tomás fez bem ao propor a pena de morte a hereges, ou ao dizer que os bem-aventurados do Céu se alegrarão ainda mais ao contemplar a desgraça dos condenados? Só que já não é tão fácil respondê-la, dado que cada termo dele exige uma definição também nos termos dele, e que as posições em jogo – agora já se sabe – se davam num contexto conceitual diferente do nosso, etc. Matéria e forma, potência e ato, intelecto passivo e ativo; quanto mais se lê, mais difícil transplantá-los para este nosso mundo de facebook e jogos universitários.

Imagine uma foto digital. Temos ali uma representação relativamente fiel, embora imperfeita, de um aspecto da realidade. Agora aumente o zoom milhares de vezes, de modo que cada pixel ocupe sua tela inteira. Vida acadêmica é maximizar pixels. Uma vez nesse nível, aprende-se a ir de um a outro; dá até para prever como será o próximo; decorar a ordem dos pixels, entender o sistema por dentro. Só que nesse nível a questão da representação desaparece, pois aqueles quadrados monocromáticos obviamente não se referem a nada. “Hã? Esse negócio de potência e ato, intelecto agente, synderesis, era para ter a ver com o mundo real??”  O único modo de se entender qualquer um desses conceitos, em Tomás, é segundo os termos que ele próprio usa. Onde termina a terminologia e começa a realidade que ela nomeia? Quanto mais se lê, mais a resposta tende ao “nunca”.

Logo, a única resposta possível é ver se a tal opinião concorda ou não – ou melhor, remodelar todo o sistema conceitual para que a tal opinião concorde – com o resto do sistema. E daí você já está tão dentro do labirinto que esqueceu o caminho de volta e nem quer mais voltar; esqueceu que há algo fora dele e o resquício de memória, já bem abafado pelo inconsciente, só suscita dor e medo.

Um dia você acorda e o diabinho já terminou o serviço: a possibilidade da questão sumiu. O que era mapa virou quadro virou mundo. O mundo em que a synderesis abarca os princípios da lei natural não tem nada a ver com o mundo em que a Dilma se reelege, não porque estejam distantes no tempo, mas porque habitam universos paralelos. (“Mundo como ideia”? Não, nada a ver, e não me façam falar de uma raça ainda mais perdida...). Não é que os acadêmicos brasileiros tenham medo de discutir certas questões. É que é impossível conceber certas questões, a verdade é algo que não surge. Não é uma defesa do relativismo ou do subjetivismo, mas a total indiferença – ou melhor, incompreensão e esquecimento – quanto à própria noção de verdade.

Já repararam que os grandes filósofos nunca foram bons leitores da filosofia alheia? Aristóteles “não entendeu nada” de Platão. Onde já se viu, achar que refuta a noção de participação com aqueles argumentinhos rasteiros! Tomás por sua vez não compreendeu Aristóteles, tentando encaixá-lo num outro universo de pressuposições. Leibniz tinha parca noção dos escolásticos que tanto respeitava, e adulterou-os sem limite. É tudo verdade. Descartes, Espinosa, Kant, Hume, Wittgenstein; se citaram a outros, foi para mostrar que nem existia filosofia séria antes deles.

Não foi por acaso. É justamente porque não foram leitores profundos que escreveram coisas profundas. Agora durmam com essa!