domingo, 16 de dezembro de 2012

Ad Hominem Entrevista: Rodrigo Gurgel

Prêmios literários no Brasil obedecem a uma curiosa regra: existem para confirmar reputações tidas e havidas como indiscutíveis ou alavancar reputações futuramente tidas e havidas como indiscutíveis. O que menos se espera de um jurado, aparentemente, é que julgue e premeie obras literárias de fato relevantes. E se a literatura brasileira “é uma das formas mais eficazes do tédio”, da crítica literária brasileira não se poderia mesmo esperar outra coisa que não enfado e subserviência.


Ocorre que, de tempos em tempos, aparece alguma figura rigorosamente sensata que, de tão deslocada no cenário nacional acostumado a pantomimas e salamaleques, passa a impressão de quixotesca ou, como se costuma dizer nesses casos, polemista.


É o caso de Rodrigo Gurgel, o famigerado Jurado C, na última edição do nunca assaz celebrado Prêmio Jabuti. Desde o desaparecimento do curitibano Wilson Martins, não se tinha notícia de crítico que julgasse obras literárias com os dois únicos ou principais critérios com que se espera um crítico julgue uma obra e, por conseguinte, seu criador: inteligência e honestidade inegociável.

Gurgel acaba de se tornar figura non grata entre os escritores e respectivos editores que preferem a adulação ao julgamento; o compadrio ao destemor; a imitação à literatura. 

E é com tal figura a nós gratíssima que achamos por bem começar o Ad Hominem Entrevista.

***

Você provocou um pequeno rebuliço nos meios editorial e literário brasileiros apenas por julgar um livro a partir do que considerou seus deméritos intrínsecos, e não pelo nome do autor. Qual a sua avaliação final do incidente? O que lhe diz sobre as condições da crítica literária hoje no Brasil?


Como já disse em meu blog, a avaliação do incidente pode ser resumida no pensamento de Samuel Johnson: “É difícil contentar aqueles que desconhecem o que exigem ou aqueles que exigem propositalmente o que julgam impossível obter”. No que se refere à crítica literária, em 2010, numa entrevista ao jornal O Globo, o professor de literatura da PUC-RJ, Karl Erik Schøllhammer, questionado pelo jornalista Miguel Conde sobre os críticos que receavam fazer julgamentos de valor, respondeu claramente: “As pessoas não têm coragem. A dura verdade é essa. Existe no Brasil uma cordialidade exagerada entre crítica e escritor, que é ambígua, mas que é mantida assim: o crítico diz para o autor ‘Isso é muito bom’, mas vira a cabeça e diz ‘Isso é uma droga’. Essa cordialidade, essa falsa afinidade, essa conivência bloqueiam a franqueza na discussão. Com poucas exceções. Existem algumas exceções na crítica brasileira”. Quando li essas palavras, fiquei em estado de júbilo: alguém pensava como eu. Essa é, portanto, minha avaliação. Grande parte dos nossos críticos esconde sua opinião nos jargões acadêmicos exatamente para não julgar. Quando não utilizam o discurso hermético, ficam naquilo que minha avó chamava de “conversa para boi dormir”. Nos dois casos, trata-se do que eu chamo de síndrome do bom-mocismo. No fundo, uma forma de hipocrisia.
Por falar em julgar uma obra pelo que lhe é intrínseco... O seu livro, Muita Retórica Pouca Literatura (Vide, 2012), adota um procedimento similar aos do new criticism: comentar os textos lidando com passagens específicas, sem se afastar da materialidade da obra para incorrer em afirmações muito genéricas. É de se supor que considere esse um procedimento útil aos nossos meios jornalístico e acadêmico. Ou não? E por quê?


Utilizo essa forma de analisar o texto por um motivo didático e não por ser filiado ao new criticism. Não entendo a crítica literária como um exercício acadêmico e narcisista, que busca apenas sua autossatisfação. Não. A crítica literária é um instrumento a serviço do homem. Serviço, aliás, extremamente honroso, pois elabora o diálogo que sempre deve haver entre a obra literária e o leitor. O discurso da crítica é imprescindível e deve ser feito com destemor e autoridade. Sem ele, sem a crítica, teríamos o depauperamento da cultura, da própria civilização. 

Qual é, na sua opinião, o papel da literatura na vida humana?

A literatura pode servir como bom passatempo. Pode também desempenhar o papel de força inspiradora – são inúmeros os casos de escritores que, antes de começar o exercício diário de escrita, leem uma ou duas páginas de autores geniais. Mas ela tem duas funções primordiais. A primeira é permitir ao leitor que ele se abra à variedade da experiência humana; ou seja, reconstituir, na imaginação, os conflitos humanos, como Olavo de Carvalho sempre repete. Poucas pessoas têm a oportunidade, em suas vidas, de experimentar, por exemplo, situações em que uma extrema coragem é exigida. Refiro-me àquele momento em que você se torna herói ou covarde. Em termos morais, em termos de aperfeiçoamento da personalidade, trata-se de uma situação fundamental, que testa os limites do ser humano. Pois bem, a literatura coloca nas mãos do leitor a chance de experimentar tal realidade, ainda que de forma, digamos, oblíqua ou indireta: basta ler “Lorde Jim”, de Joseph Conrad. A segunda função primordial é “ajudar o indivíduo a se confundir, em paz e na alegria, com a uniformidade do ser”. Essa ideia, defendida por Milan Kundera, agrada-me, pois é um aprofundamento do que costumamos chamar de leitura por prazer: na verdade, essa relação prazerosa com a literatura é apenas o sintoma de algo mais profundo: nossa reintegração no Ser.

A visão de mundo do crítico (sua religião ou ausência dela, bem como convicções morais e políticas) influi na atividade crítica de maneira geral? E no seu caso específico; se você visse a realidade de maneira diferente, sua opinião sobre obras literárias seria afetada?

Essa é uma pergunta que não pode ser respondida com um “sim” ou um “não”. O fato de eu ser católico impregna toda a minha vida, todo o meu ser. O crítico literário francês Patrick Kéchichian, convertido, creio, em 2009, afirma com sabedoria: “Católico não é um adjetivo, mas um substantivo. Não sou um crítico ou um escritor católico; sou crítico, escritor e católico”. Então, é evidente que a fé católica está comigo não só quando leio uma obra. No entanto, penso como Robert Louis Stevenson. Em um de seus ensaios, “The Morality of the Profession of Letters”, ele diz que, na verdade, quando se trata de literatura, todos, escritores e críticos, dispõem de uma só ferramenta: a empatia. Ele afirma que (traduzo sem ser literal) “quando um livro é concebido sob grande tensão, com um espírito que, graças a essa tensão, multiplicou seu poder, aqueceu e eletrificou, por meio do esforço, a sua obra, as condições do nosso ser se veem presas de uma iluminação tão vasta que, ainda que o conceito básico da história seja trivial ou vulgar, não pode deixar de surgir do livro algo belo e verdadeiro”. E concluía: “Da força nasce a doçura; mas algo ruim pobremente executado é algo ruim do princípio ao fim”. Esses trechos resumem a maneira como me aproximo de uma obra literária: disposto à empatia, ainda que o tema seja, digamos, anticristão; certo de que a beleza e a verdade vencem tudo, inclusive um tema eticamente duvidoso.


Você considera que a literatura brasileira tenha valor verdadeiramente universal, e que nossos escritores – os maiores, especialmente: Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Osman Lins – possam ser colocados, lado a lado, com os maiores ficcionistas do cânone literário?



Temos ótimos escritores, mas nenhum pode ficar, lado a lado, com Dante Alighieri, Tolstói, Dostoiévski, Henry James ou Joseph Conrad. Somos um país que ainda está engatinhando. Temos um Manuel Bandeira, cuja obra caminha, ombro a ombro, com a maioria dos poetas do século XX. E Machado de Assis, claro. Mas nenhum deles é um desses gênios cuja leitura é obrigatória a toda a humanidade. Um russo, por exemplo, pode passar a vida sem ler Machado, mas não sem ler Shakespeare. 


Hoje, muitos jovens no Brasil têm saltado a formação literária para ir direto ao estudo de outras áreas, como filosofia, ciência política e economia. A ignorância da literatura brasileira, em específico, excetuado um Machado ou um Bandeira, é até bem maior. O que você pensa a respeito?

Nosso sistema escolar é medíocre. Basta ver as listas de compra de livros de ficção para escolas públicas. Ali há autores contemporâneos brasileiros que, dentro de duas décadas, já estarão na lata de lixo da história literária. Outros demorarão um pouco mais... Na verdade, a escola se encarrega, hoje, de transformar os alunos em presas fáceis de quaisquer discursos, de qualquer besteira ou mentira lida ou ouvida na Internet, nos jornais, na tevê. O país está se desintegrando sob um populismo rasteiro. Os jovens não são treinados para serem mestres do seu próprio intelecto. Essa expressão, aliás, não é minha, mas da escritora Dorothy Sayers, que no ensaio “The Lost Tools of Learning” resumiu bem, creio que na década de 1940, o problema que só se agravou até hoje. A solução defendida por Sayers, ainda que radical, é a que recomendo a quem me pergunta como romper essa ordem na qual o cinismo marxista tornou-se hegemônico: devemos retornar ao Trivium. Qualquer outra saída será apenas um paliativo. 

O seu livro – assim como o que lhe seguirá – trata apenas de prosadores brasileiros. De um modo geral, o que você tem a dizer sobre a poesia brasileira?

Como leitor, digamos, profissional, dedico-me exclusivamente à prosa. Leio poesia, mas minha relação com esse gênero é essencialmente amorosa. Tenho alguns poetas que aprecio – e sempre retorno a eles. E, em suas obras, gosto às vezes de alguns poucos poemas. É o caso de Carlos Drummond de Andrade, por exemplo. Dos brasileiros, só Bandeira tem meu amor irrestrito. 

Certa vez Olavo de Carvalho afirmou que Bruno Tolentino era o maior poeta em língua portuguesa desde Camões. Na sua opinião, qual o papel de Tolentino para essa nova geração de poetas brasileiros?

Sempre que penso no Tolentino lembro-me de meu professor de latim na PUC-SP, o brilhante padre Matheus Nogueira Garcez. Tínhamos duas aulas por semana com ele – e sempre éramos premiados com um dito irônico sobre os concretistas. Só percebi muitos anos depois como aqueles comentários tinham o efeito de um conforto moral, pois ali, no templo semioticista paulistano, em que pontificava, na pós-graduação, o próprio Haroldo de Campos, alguém tinha coragem de ir contra o pensamento hegemônico. Tolentino foi um dos que ousou apontar as deficiências do movimento e os males que sua hegemonia causou. Ao mesmo tempo, a poesia de Tolentino tem o mérito de recuperar à nossa imaginação a força, a energia das formas fixas. Temos, em língua portuguesa, uma versificação riquíssima – basta ler o Tratado de versificação, do Olavo Bilac –, mas que permanece, apesar dos esforços do Tolentino, esquecida. Como disse Manuel Bandeira, “precisamos urgentemente voltar à métrica, à rima, à sintaxe lusíada [...]. O modernismo era suportável quando extravagância de alguns. Agora é a normalidade de toda a gente. Então depois que reinventaram a brasilidade, a coisa tornou-se uma praga. [...] Confesso que acho um certo sabor nos poemas dos iniciadores. Os meninos que vieram depois é que estão caceteando”. E continuam caceteando até hoje. 

A presente geração é marcada pelo advento da Internet. Uma das consequências dessa nova realidade é que as pessoas podem produzir literatura e publicá-la imediatamente, em sites e blogs, sem a mediação de editores e casas de publicação. Você vê esse cenário com bons olhos?

O cenário é irreversível. E permite, como a própria realidade, coisas boas e ruins. A “estranha pretensão” de que falava Ortega y Gasset, a pretensão “de ser mais que qualquer outro tempo passado; mais ainda: por se desligar de todo o passado, não reconhecer épocas clássicas e normativas, e ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas”, veio para ficar. O homem-massa é indestrutível. Vivemos e viveremos sob o império dos filisteus. É o que previu Jacob Burckhardt em suas cartas: “Um dia o mundo irá sufocar e cair sobre o estrume de seu próprio filisteísmo”. Por isso mesmo não podemos ficar em silêncio ou agir como vaquinhas de presépio. 

Desde o ponto de vista privilegiado de jurado de um grande prêmio literário, você diria que há boa literatura em nossa produção recente, ou tem razão de ser a não rara impressão de que o momento é de estagnação e mesmice?

Ontem, hoje e sempre, não só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo, precisamos analisar a produção literária dos nossos contemporâneos usando uma pinça. Posso dizer, utilizando-a de modo cirúrgico, que, na última década, começamos a sair do beco escuro controlado pelo eterno vanguardismo. Sim, é verdade que estamos impregnados da cultura contemporânea, relativista, materialista, de um niilismo que chega a ser atroz. Mas nossos escritores estão começando a criar coragem para desobedecer os departamentos de Letras das universidades e os críticos que só valorizam acrobacias linguísticas. Abandonar o vício de recriar constantemente um dialeto exclusivo, que só pode ser entendido pelo escritor e meia dúzia de amigos, é apenas o primeiro passo. Será um longo caminho até sermos curados da doença à qual dei o nome de narratofobia. Há, no entanto, bons escritores, dispostos a contar boas histórias, corajosos a ponto de escrever com bom humor, sem se preocupar com discursos politicamente corretos. E há outros, em menor número, que já percebem que boa literatura não é, necessariamente, literatura niilista; que um bom livro não precisa falar apenas de fracasso, vileza e perversidade.


Recentemente vieram à mídia dois casos ímpares para a cultura brasileira atual: o seu voto polêmico no prêmio Jabuti e o projeto da Vara Criminal de Joaçaba-SC, idealizado pelo juiz Márcio Bragaglia, que propõe a diminuição da pena dos detentos que lerem grandes obras da literatura universal. Ambos os casos nos proporcionaram ver expostas na grande mídia ideias até então confinadas ao “gueto conservador”. Tanto você quanto o juiz Márcio são admiradores confessos do pensamento de Olavo de Carvalho. Será que já podemos dizer que a “contrarrevolução cultural”, cujas bases o filósofo preparou, está começando a dar frutos?



As ideias de Olavo de Carvalho estão fadadas a produzir frutos – e bons frutos. Ninguém faz tudo que o Olavo já fez – e ainda vai fazer –, com a sinceridade de coração, com as intenções retas que o impulsionam, para ser tratado como a figueira estéril. Ao contrário. Estamos, assim, só no começo, nos primeiros gemidos de uma contrarrevolução cultural. É a primeira batida de coração de um feto que não será abortado.

Está chegando o Natal. Deixe-nos de presente a indicação de um bom livro que nos ajude a viver o espírito natalino.

“Sangue sábio”, de Flannery O’Connor, pode nos ajudar a compreender não apenas o mistério da Encarnação, mas, principalmente, o da Redenção. Ou seja, compreender o sentido da existência humana e o mistério da Graça, pois, para Flannery, e ela estava certa, “a Graça é o acontecimento perante o qual o homem entende o seu destino, o seu verdadeiro destino”.