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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Contra Estatizantes: Respostas a Sidney Silveira - II


A introdução desta longa discussão econtra-se aqui.

2. Respostas ao Quodlibet Antiliberal de Sidney Silveira

1- Do ponto de vista psicológico: o liberalismo parte da falácia da consciência individual autônoma. Isto o leva, entre outras coisas, a forjar uma idéia totalmente equivocada de liberdade.”

Essa crítica parte de um equívoco comum dos meios conservadores, que é tentar jogar todos os debates e discussões na conta da filosofia. Como se, para fazer uma proposta política ou um juízo moral, fosse necessário ter uma definição perfeita e filosoficamente irretocável de “indivíduo”, “consciência”, etc. Não está nada claro que a defesa de uma posição política ou mesmo sobre a boa vida humana necessite de um tratamento filosófico cuidadoso da noção de liberdade e consciência. Está bem claro, para a maioria das pessoas, que os homens valorizam diversas coisas boas, e que o Estado pode ou não ter um papel para ajudar nessa busca. A maior parte das defesas liberais, inclusive, são feitas com argumentos econômicos, que visam mostrar que a medida estatal proposta não alcança sequer os objetivos que seus próprios defensores dizem buscar.

Ademais, é complicado falar que o liberalismo parte de uma base filosófica qualquer, pois há diferenças filosóficas enormes entre diversos autores liberais: Mises, Rothbard, Rand. Filosofias radicalmente diferentes por trás de posições políticas próximas. Há até liberais radicais que, metafisicamente falando, são deterministas; isto é, acreditam que não existe livre arbítrio, que toda ação é inteiramente determinada por condições (físicas e/ou psicológicas) anteriores; mas, ainda assim, reconhecem que a vida humana em uma sociedade com pouca ou nenhuma interferência do Estado é melhor. E que é um grande bem que cada indivíduo possa escolher os rumos de sua vida nos campos mais importantes da existência (suas ideias, as atividade produtivas que ele pratica e o uso de seu tempo de lazer).  

Dito isto, o liberalismo me parece a melhor posição política que se pode derivar de uma correta apreciação da liberdade humana e da consciência individual. O homem se guia por princípios objetivos, mas sua ação se dá em meio a circunstâncias particulares e há uma grande dose de latitude para se agir dentro dos parâmetros da moralidade; é vão tentar prescrever legalmente um certo modo de agir como sendo o único aceitável, pois é certo que haverá casos em que a melhor ação não segue a norma estatística (exceção feita às violações voluntárias dos direitos fundamentais ou de negações práticas diretas de algum componente necessário da vida humana plena). Além disso, a ação virtuosa ou vem de dentro, ou não existe. Muito pelo contrário: a tentativa de impor a moral, ao obrigar a adesão externa sem a persuasão interna, antes cria desprezo pela lei e, por contágio, pelo próprio princípio moral em jogo, ainda que ele seja correto.

Já o sistema de livre transação denominado mercado também engendra um tipo de imitação moral, mas virtuosa. É servindo aos outros que se é servido. A educação no livre mercado é a educação sobre como deixar de lado os próprios caprichos e preferências atuais para produzir algo de valor para os outros. Assim, promove a harmonia entre interesses individuais e coletivos e estimula as boas relações e a confiança entre as partes (que são, ao mesmo tempo, pré-requisito e produto de seu funcionamento). Por fim, o mercado mantém todos os seus membros em contato com a realidade de suas escolhas: ele não premia e nem pune nada para além do que a própria realidade social, isto é, a realidade dos desejos das outras pessoas, premia ou pune. E ele também não obriga ninguém a se pautar pelo desejo dos outros. Um artista seguro de estar produzindo uma obra-prima ainda incompreendida tem total liberdade para fazê-lo; só não deve esperar que seus esforços sejam subsidiados pela produção dos demais. E, a bem da verdade, mesmo os artistas – pintores, músicos, dramaturgos – ao longo da história (especialmente na Renascença) tiveram uma relação muito mais simbiótica com o mercado. E ainda têm: é só ver como o mercado de traduções, edição de textos e aulas particulares sustenta escritores e estudiosos independentes hoje em dia.

Assim, alguém que tenha ojeriza pela pornografia ou pela prostituição tem total liberdade de se recusar a consumi-las mesmo pelo preço zero. E, ao fazer isso, desestimula a oferta por esses serviços. Daí a bela resposta do general francês às reclamações do general americano sobre o alto preço das prostitutas parisienses: “O preço delas é diretamente proporcional à virtude de nossas mulheres e ao vício de seus soldados”. Todo juízo de valor entra na composição do sistema de preços; que não é, ele próprio, normativo, e sim o resultado de diversos (e nem sempre concordantes) juízos de valor.

Da mesma forma, vícios, aqueles hábitos que afastam o homem da felicidade que ele poderia alcançar, não são subsidiados e seus efeitos não são partilhados artificialmente entre todos os membros da sociedade. Passou os anos na pornografia, nas drogas e no instagram? Sua escolha engendrará sua própria recompensa. Se a virtude e o vício se definem com base na realidade da natureza humana, nada melhor do que deixar que a realidade fale mais alto do que as decisões políticas, por mais bem intencionadas que possam ser.

2- Do ponto de vista gnosiológico: o liberalismo sempre acaba por optar pelas posturas idealista e/ou imanentista, ainda que, aqui e ali, sob o disfarce realista;”
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