quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Contra Estatizantes: Respostas a Sidney Silveira - II


A introdução desta longa discussão econtra-se aqui.

2. Respostas ao Quodlibet Antiliberal de Sidney Silveira

1- Do ponto de vista psicológico: o liberalismo parte da falácia da consciência individual autônoma. Isto o leva, entre outras coisas, a forjar uma idéia totalmente equivocada de liberdade.”

Essa crítica parte de um equívoco comum dos meios conservadores, que é tentar jogar todos os debates e discussões na conta da filosofia. Como se, para fazer uma proposta política ou um juízo moral, fosse necessário ter uma definição perfeita e filosoficamente irretocável de “indivíduo”, “consciência”, etc. Não está nada claro que a defesa de uma posição política ou mesmo sobre a boa vida humana necessite de um tratamento filosófico cuidadoso da noção de liberdade e consciência. Está bem claro, para a maioria das pessoas, que os homens valorizam diversas coisas boas, e que o Estado pode ou não ter um papel para ajudar nessa busca. A maior parte das defesas liberais, inclusive, são feitas com argumentos econômicos, que visam mostrar que a medida estatal proposta não alcança sequer os objetivos que seus próprios defensores dizem buscar.

Ademais, é complicado falar que o liberalismo parte de uma base filosófica qualquer, pois há diferenças filosóficas enormes entre diversos autores liberais: Mises, Rothbard, Rand. Filosofias radicalmente diferentes por trás de posições políticas próximas. Há até liberais radicais que, metafisicamente falando, são deterministas; isto é, acreditam que não existe livre arbítrio, que toda ação é inteiramente determinada por condições (físicas e/ou psicológicas) anteriores; mas, ainda assim, reconhecem que a vida humana em uma sociedade com pouca ou nenhuma interferência do Estado é melhor. E que é um grande bem que cada indivíduo possa escolher os rumos de sua vida nos campos mais importantes da existência (suas ideias, as atividade produtivas que ele pratica e o uso de seu tempo de lazer).  

Dito isto, o liberalismo me parece a melhor posição política que se pode derivar de uma correta apreciação da liberdade humana e da consciência individual. O homem se guia por princípios objetivos, mas sua ação se dá em meio a circunstâncias particulares e há uma grande dose de latitude para se agir dentro dos parâmetros da moralidade; é vão tentar prescrever legalmente um certo modo de agir como sendo o único aceitável, pois é certo que haverá casos em que a melhor ação não segue a norma estatística (exceção feita às violações voluntárias dos direitos fundamentais ou de negações práticas diretas de algum componente necessário da vida humana plena). Além disso, a ação virtuosa ou vem de dentro, ou não existe. Muito pelo contrário: a tentativa de impor a moral, ao obrigar a adesão externa sem a persuasão interna, antes cria desprezo pela lei e, por contágio, pelo próprio princípio moral em jogo, ainda que ele seja correto.

Já o sistema de livre transação denominado mercado também engendra um tipo de imitação moral, mas virtuosa. É servindo aos outros que se é servido. A educação no livre mercado é a educação sobre como deixar de lado os próprios caprichos e preferências atuais para produzir algo de valor para os outros. Assim, promove a harmonia entre interesses individuais e coletivos e estimula as boas relações e a confiança entre as partes (que são, ao mesmo tempo, pré-requisito e produto de seu funcionamento). Por fim, o mercado mantém todos os seus membros em contato com a realidade de suas escolhas: ele não premia e nem pune nada para além do que a própria realidade social, isto é, a realidade dos desejos das outras pessoas, premia ou pune. E ele também não obriga ninguém a se pautar pelo desejo dos outros. Um artista seguro de estar produzindo uma obra-prima ainda incompreendida tem total liberdade para fazê-lo; só não deve esperar que seus esforços sejam subsidiados pela produção dos demais. E, a bem da verdade, mesmo os artistas – pintores, músicos, dramaturgos – ao longo da história (especialmente na Renascença) tiveram uma relação muito mais simbiótica com o mercado. E ainda têm: é só ver como o mercado de traduções, edição de textos e aulas particulares sustenta escritores e estudiosos independentes hoje em dia.

Assim, alguém que tenha ojeriza pela pornografia ou pela prostituição tem total liberdade de se recusar a consumi-las mesmo pelo preço zero. E, ao fazer isso, desestimula a oferta por esses serviços. Daí a bela resposta do general francês às reclamações do general americano sobre o alto preço das prostitutas parisienses: “O preço delas é diretamente proporcional à virtude de nossas mulheres e ao vício de seus soldados”. Todo juízo de valor entra na composição do sistema de preços; que não é, ele próprio, normativo, e sim o resultado de diversos (e nem sempre concordantes) juízos de valor.

Da mesma forma, vícios, aqueles hábitos que afastam o homem da felicidade que ele poderia alcançar, não são subsidiados e seus efeitos não são partilhados artificialmente entre todos os membros da sociedade. Passou os anos na pornografia, nas drogas e no instagram? Sua escolha engendrará sua própria recompensa. Se a virtude e o vício se definem com base na realidade da natureza humana, nada melhor do que deixar que a realidade fale mais alto do que as decisões políticas, por mais bem intencionadas que possam ser.

2- Do ponto de vista gnosiológico: o liberalismo sempre acaba por optar pelas posturas idealista e/ou imanentista, ainda que, aqui e ali, sob o disfarce realista;”

Novamente, é difícil ligar o liberalismo a uma ou outra posição gnosiológica. Cada pensador terá sua posição. Qual delas é representa o “verdadeiro” liberalismo? Prefiro aceitar que todas são liberais e indagar qual delas é verdadeira.

Assim, posso dizer que o liberalismo é perfeitamente compatível com o realismo gnosiológico. Ocorre que os homens diferem em seus juízos de valor e opiniões. E como não é possível – e nem desejável – mudar as opiniões humanas por passe de mágica, o sistema de liberdade é o melhor para a interação das diversas opiniões. Os preços, assim, não obedecem à real capacidade dos produtos de satisfazer a desejos humanos, e sim a capacidade atribuída a esses produtos pelos consumidores. Vejam só: leitura de mãos tem valor de mercado superior a zero – sim, nosso povo é supersticioso, fazer o quê? O bom do sistema de mercado é que, diferente do sistema de determinação estatal de preços, ele não exige que você adira à posição da maioria: você é parte constitutiva do processo de formação de preços, nem escravo e nem senhor dele; seu peso é diretamente proporcional ao quão bem você ajuda os demais membros dessa rede a satisfazer seus próprios desejos e necessidades.

Isso em nada muda o fato de que existe uma realidade objetiva cognoscível. Nossos computadores e internet e demais avanços tecnológicos são frutos desse fato; e adivinha em que sistema a ciência e a tecnologia encontram espaço mais fértil para avançar? Se você tem conhecimento da realidade, e é capaz de sustentar esse conhecimento objetivamente, ele pode lhe ser útil no mercado.

É também no livre mercado de ideias que o pensamento humano mais avança. Com a livre troca de ideias e opiniões, com a argumentação e a expressão de novos pensamentos novas doutrinas podem surgir e doutrinas antigas se renovar. Alguém duvida que, intelectualmente, um autor católico e tomista está melhor hoje em dia do que estaria em alguma cátedra prestigiosa de alguma faculdade de séculos atrás? O mal que a falta de liberdade religiosa, e a autocomplacência por ela ocasionada, fez para as bases intelectuais e para a defesa racional da religião (e também para a forma como ela é vivida na prática?) é algo que mereceria mais atenção. Na vida intelectual, como em tantas outras esferas, desafios são oportunidades.

3- Do ponto de vista artístico: o liberalismo não consegue ultrapassar o mais tosco esteticismo, para o qual o estatuto da arte subsume-se ao “bem fazer”, à poiesis, a um "bom artesanato" com a matéria com que labora o artista. Nada há, além disso. Do belo como um dos transcendentais do ser, restou a casca material;”

Aqui a posição de Sidney é ambígua. Ele está se referindo ao pensamento estético dos defensores do liberalismo ou ao pensamento estético das pessoas comuns que vivem num sistema de livre mercado? Enfim, seja qual for o caso, sinceramente não sei de onde ele tirou a ideia da arte como um “bem fazer”, algo que eu associaria mais à Atenas de Sócrates do que aos dias de hoje (aliás, a sociedade brasileira atual é bem pouco liberal, caso alguém esteja se perguntando...); não consigo, ademais, pensar em um pensador liberal sequer que tenha defendido tal redução das belas artes a um bom artesanato.

Quanto à beleza como transcendental, bem, essa questão não era ponto pacífico nem mesmo dentro da filosofia de linhagem aristotélica. Haja visto que, entre os que negavam o status de transcendental (isto é, aquilo que se conjuga de todas as coisas) à beleza estava... Aristóteles! Aliás, afirmar que S. Tomás considerava a beleza como um dos transcendentais do ser já é controverso. Eu já sabia bem que quando S. Tomás lista os transcendentais ele jamais inclui a beleza. Sidney faz um bom ponto, que eu nunca havia considerado, ao deduzir que, para Tomás, a beleza deve ser um transcendental dado sua convertibilidade com o bem. Contra essa opinião, o livro resenhado em detalhe aqui parece dar conta das passagens que o Sidney levanta. Em suma, o ponto capital da crítica de Sidney sobre a pobreza estética do pensamento liberal é algo que talvez se aplique até a S. Tomás.

4- Do ponto de vista econômico: o liberalismo transforma os meios em fins, dado o materialismo em que soçobra: a liberdade de ação dos agentes econômicos (denominada “livre mercado”) não pode ser limitada por nenhuma forma de amarra — seja política, moral, religiosa, legal, etc. Ou seja: a lei do mercado é, na prática, a lei das leis, e a reprodutibilidade dos bens materiais é o must em uma sociedade, como dizia Von Mises. Além do mais, o liberalismo econômico é uma teoria política disfarçada, dado que os liberais “econômicos” vivem a dizer como o Estado deve ou não deve ser;”

Fora um outro partidário do “egoísmo ético”, um tipo de defesa muito particular do liberalismo, advogado por Milton Friedman e outros da escola de Chicago (e mesmo eles nunca de forma pura), autores liberais não costumam defender as avaliações do mercado expressas em termos de preço como tendo valor normativo, isto é, como sendo “a lei das leis”. Tal posição seria, por exemplo, impensável em Mises, sempre muito cuidadoso em distinguir fatos de valores.

Na verdade, ele afirma exatamente o contrário. Por exemplo, falando sobre literatura: “What characterizes capitalism is not the bad taste of the crowds, but the fact that these crowds, made prosperous by capitalism, became consumers of literature, of course, of trashy literature…. But this does not prevent great authors from creating imperishable works.” Em outras palavras, ele não confunde o valor de mercado de um livro com seu valor artístico. Ou ainda, sobre como os artistas nunca são devidamente reconhecidos por seus contemporâneos: “There has never been an era in which the many were prepared to do justice to contemporary art. Reverence to the great authors and artists has always been limited to small groups.(Ambas as citações retiradas de seu livro The Anti-Capitalistic Mentality) Bem conhecidas também são seus textos sobre o gênio criativo, que trabalha em busca de objetivos que a maioria de seus contemporários sequer consegue reconhecer.

Caberia, isso sim, questionar o subjetivismo que subjaz muito do que Mises escreve; ou seja, a insistência dele em negar a objetividade a qualquer juízo normativo. Mas dizer que ele atribui força normativa ao consenso do mercado é um enorme equívoco; ele apenas descreve como o mercado funciona, sem atribuir a ele autoridade moral alguma.

Sorry, epígonos do poder estatal; ninguém está dizendo que o preço de mercado é uma realidade última à qual todos devem se curvar; ou que o lucro é o critério último da virtude de uma ação (embora, eu diga, ele requer sim uma série de virtudes). Isso é um espantalho criado por vocês. Os preços e os lucros e prejuízos por eles ocasionados são fruto de uma série de juízos de valor, e não fonte deles.

O liberalismo econômico não é uma teoria política “disfarçada”; ele é abertamente uma teoria, ou melhor, uma proposta política. Uma proposta política cuja justificação é feita em termos econômicos, tentando mostrar como a sociedade é prejudicada quando o Estado decide melhorar as coisas com alguma lei ou política.

5- Do ponto de vista político: o liberalismo é afim ao anarquismo, e a simples menção à palavra “Estado” causa os mais dramáticos engulhos estomacais num liberal, que fez da liberdade um ídolo (embora confunda “liberdade” e “ato de escolha”, ou seja: não saiba discernir o que é a liberdade daquilo que faz a liberdade). Partindo desta idéia equívoca de liberdade, os liberais pretendem reduzir o Estado ao mínimo minimorum, desconfiados que são do poder (desconfiança que também, miopemente, erra o alvo, como afirmamos neste outro mini-artigo). Neste horizonte de questionamentos, o Estado já se transformou em uma mera superestrutura estanque no meio da sociedade; e também num "adversário" dos indivíduos (já mostramos, também, que a própria noção de “indivíduo”, para os liberais, é errônea e não tem base metafísica). O resultado prático acaba por ser o oposto do que prega a ideologia: uma tirania da pseudo-maioria sob o nome de “democracia” — e “pseudo” porque manipulada por elites compostas por minorias intelectualizadas e com objetivos políticos muito bem definidos (não raro, forjados em sociedades secretas ou “discretas”). A verdadeira liberdade, num ambiente tirânico com esta conformação democratista, transformar-se-á em escravidão. Do ponto de vista da Igreja: escravidão do erro e do pecado, que perdem as almas;”

Confusão básica: liberalismo = democracia. O domínio da opinião da maioria sobre todos é justamente o que o mercado não é. No mercado, a única forma de se lucrar é contrariando o consenso da maioria (e acertando!), enxergando mais longe do que ela quais os meios que, no futuro, melhor atenderão às necessidades dela. Com efeito, a democracia de massas, se não coibida por defesas legais invioláveis aos direitos individuais, rapidamente descamba em tirania. E por isso mesmo esse tipo de democracia (digamos, chavista ou castrista) nada tem de liberal. E se é desse tipo de coisa que ele quer falar, desse sistema populista e nocivo que tanto eu quanto ele atacamos, qual o sentido em se trazer Mises e “Estado mínimo minimorum” à discussão? O que ele está condenando aqui, a tirania democrática da maioria, é justamente a negação do Estado mínimo.

No Estado mínimo, o escopo da ação política, seja de uma maioria ou de um ditador, é muito pequeno; incapaz de sujeitar a vida da população a qualquer tirania. A democracia é em geral defendida por ser um método mais justo e menos sujeito à violência e ao conflito armado do que outros; mas não é um fim em si. Aliás, nada mais triste no cenário brasileiro atual do que ver tanta gente que poderia defender a liberdade tecendo loas eternas à democracia, como se fossem a mesma coisa.

6- Do ponto de vista moral: o liberalismo é relativista na raiz, na medida em que acolhe a tese de que a consciência individual "autônoma" é intocável por qualquer instância exterior a ela. O liberalismo, com isto, inaugura a oposição radical entre indivíduo e coletividade. De um lado, a moral transforma-se em categoria coletiva (ou transcendental) extrínseca e oposta às vontades individuais; e de outro, transforma-se em moral privada, independente da moral pública.”

Novamente, é difícil entender qual o objeto da crítica: as ideias defendidas pelos liberais, ou as ideias que circulam pelas mentes das pessoas que vivem em sociedades liberais. Coisas muito diferentes! Alguém acha, por exemplo, que a filosofia de Marx era a mesma coisa que estava na mente dos russos pobres que viviam sob o socialismo?.

Cito apenas uma autora liberal que não cai em nenhum dos dois campos apresentados por Sidney: Ayn Rand. Ela defendia uma moral objetiva, nem determinada pela opinião da maioria e nem pelo capricho do indivíduo que age. Cabe ao homem descobrir, usando sua razão, como melhor viver no mundo. E aqueles que falham nisso pagam o preço psicológico disso, em geral voltando-se contra os demais e erigindo sistemas fictícios para justificar suas evasões e covardias. Como verdadeira herdeira de Aristóteles, ela desenha então uma estrutura de virtudes que devem guiar a vida humana. Não vem ao caso aqui discutir longamente sua filosofia; o exemplo dela basta para mostrar como a tese de Sidney não vale nem mesmo para a defensora mais conhecida do liberalismo.

7- Do ponto de vista católico: o liberalismo é uma heresia CONDENADA SOLENEMENTE pelo Magistério da Igreja;”

Ou seja: “Não pense, aceite o que os papas falaram sem questionar. Quem não fizer isso vai para o Inferno.”

Vamos por partes. Em primeiro lugar, as condenações solenes ao liberalismo são contra: o liberalismo teológico e o liberalismo político, que é basicamente o reconhecimento da liberdade de consciência. Dessas, ao menos a segunda foi explicitamente revertida pelos papas contemporâneos, que têm se mostrado defensores incansáveis da liberdade de consciência, isto é, da liberdade de cada indivíduo em acreditar e seguir aquela religião que lhe parece verdadeira. Essa posição, tão sensata (e que foi, por um breve período, a política do Império Romano católico sob o Edito de Constantino), foi infelizmente combatida pela hierarquia da Igreja, tanto no Ocidente quanto no Oriente, por muitos séculos; e alimentou muitas fogueiras. O papa Leão X, condenando Lutero, condenou inclusive sua proposição de que “queimar hereges é contrário à vontade do Espírito Santo”.

No século XIX esse tipo de defesa aberta do extermínio dos hereges já não era mais aceitável. Contudo, permanecia a posição oficial da Igreja de que o Estado não deveria aceitar o direito de liberdade de consciência, pois isso implicaria estender direitos ao erro. A fé católica era a única que deveria ser permitida e encorajada pelo Estado, embora outras pudessem ser toleradas – vide, por exemplo, as proposições 77-79 do Syllabus de Pio IX (proposições condenadas). São condenações diretas e retas, sem meias palavras, de coisas que consideramos básicas hoje em dia. A Enciclopédia Católica resume bem as condenações da Igreja ao liberalismo. Felizmente, essas condenações caíram (à liberdade de religião, de pensamento, de imprensa - e não se tratava de uma condenação ao direito de se publicar pornografia ou racismo não; a condenação era a coisas mais básicas como a liberdade de se publicar opiniões que não concordassem com os dogmas).

Não diretamente ligadas a essa condenação do liberalismo estão as encíclicas papais sobre temas ligados à economia e à ordem social. A primeira delas foi a Rerum Novarum, de Leão XIII. As seguintes, em ordem cronológica, foram a Quadragesimo Anno, de Pio XI, a Populorum Progressio, de Paulo VI, e a Centesimus Annus de João Paulo II. Bento XVI, embora não tenha publicado uma encíclica sobre o mesmo tema, expressou diversas opiniões econômicas na Caritas in Veritate, que versa mais sobre as relações entre Estados e seu papel no mundo do que diretamente sobre economia e o ordem econômica justa. É o conjunto desses documentos e outras opiniões dos papas ao longo dos séculos XIX e XX que se costuma chamar de Doutrina Social da Igreja.

Há, contudo, um problema: as opiniões expressas nas encíclicas podem ser bem diferentes umas das outras. Rothbard compara as duas primeiras aqui. Rerum Novarum era, para os padrões de hoje em dia, filo-liberal. Quadragesimo Anno, fascista/corporativista. Adiciono as seguintes descrições: Populorum Progressio, filo-socialista. Centesimus Annus: liberal desde que com generosas garantias aos trabalhadores. Bento XVI tem se revelado bem menos simpático ao livre mercado do que João Paulo II, e já defendeu, explicitamente, a possível necessidade de um governo mundial para mediar as relações entre os países.

“Perante o crescimento incessante da interdependência mundial, sente-se imenso — mesmo no meio de uma recessão igualmente mundial — a urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações. (...)O desenvolvimento integral dos povos e a colaboração internacional exigem que seja instituído um grau superior de ordenamento internacional de tipo subsidiário para o governo da globalização e que se dê finalmente actuação a uma ordem social conforme à ordem moral e àquela ligação entre esfera moral e social, entre política e esfera económica e civil que aparece já perspectivada no Estatuto das Nações Unidas.” 

Inimigos do globalismo, tremei! E tremo eu também, que abomino a ideia de uma ONU mais poderosa e de um superestado global.

O que as encíclicas papais revelam? Revelam que os papas, conscientes de seu papel de autoridade moral e espiritual (e falo de autoridade no sentido real: o papa é alguém para quem muitos olham em busca de algum exemplo ou guiamento) pensam sobre os assuntos sociais importantes de sua época, formulam respostas e buscam soluções. Os católicos devem sempre respeitar e, idealmente, procurar conhecê-las. Mas também deve ter claro que são falíveis, como qualquer proposta. Dizer que há uma Doutrina Social da Igreja (tm) clara e facilmente identificável é falso, e revela um desconhecimento das fontes da própria doutrina social. Ademais, é perigoso; pois e se calhar de os papas todos terem concordado em um ponto que, se implementado à sério na ordem social, seria catastrófico? Não acho que seja o caso, mas já foi o caso na Idade Média e Moderna com a condenação da usura.

Assim, sonho com o dia em que os católicos serão capazes de discutir economia e política sem, a todo momento, insinuar que quem discorda é herege ou pecador. Isso vale até para os liberais, que volta e meia tentam acusar quem discorda deles de violar o princípio da subsidariedade, ou que clamam para si a autoridade dos doutores de Salamanca. O fato é que a tradição de pensamento católica é heterogênea e nunca foi particularmente liberal, embora aqui e ali existam potencialidades promissoras nesse sentido. E isso não importa. A verdade sobre questões econômicas não será definida por um pronunciamento ex cathedra, não mais do que a verdade sobre a física e a química.

8- Do ponto de vista histórico: o liberalismo é identificado — desde os seus primórdios até os dias atuais — com os ideais maçônicos;”

É pra levar a sério? Teoria da conspiração maçônica? Aproveito para apontar que, segundo alguns católicos antiaustríacos americanos, a economia liberal, assim como o marxismo, são fruto de uma megaconspiração judaica e jesuíta. Não sabia que ainda existiam, dentro da Igreja, gente que fosse antijesuíta. Ou seja, que acredita que os jesuítas foram, desde sua origem, uma tentativa de infiltrar e perverter a Igreja Católica. Mas vejam só, existe. “As documented in The “Catholic” Arm of Libertarianism, the Jesuits’ involvement in the Libertarian-Communist false dialectic is nothing new, and has in fact been ongoing for several centuries.

9- Do ponto de vista lógico: o liberalismo é uma quimera do pensamento mágico que se opõe à lógica aristotélico-tomista, cujo fundamento é realista. Veja-se bem que não confundimos lógica com gnosiologia, porque na perspectiva de Santo Tomás — que subscrevemos integralmente! — a lógica ocupa um lugar importante, mas subsidiário. E, ao passo que, na perspectiva tomista, a filosofia é de cunho metafísico-gnosiológico, na perspectiva moderna (e liberal), a filosofia é tão-somente gnosiológica e inverte a relação ser/conhecer.”

Não há relação necessária nenhuma entre essa posição filosófica e liberalismo. De fato, Mises era bastante idealista em seus escritos, tentando sempre basear suas conclusões na estrutura da própria razão humana e pouco afirmando sobre a realidade enquanto tal. Terei que procurara referência, mas lembro de ele dizer algo como “mesmo que a realidade externa não exista, toda a teoria econômica continua igualmente válida”, pois ela é decorrência necessária de certas categorias da razão humana, e o único jeito de negá-la seria dizer que a mente humana opera necessariamente em erro, e que portanto nada é cognoscível. Dado curioso: tendo desenvolvido a praxeologia (ramo do conhecimento que estuda a ação humana no que ela tem de necessário) e sua vertente mais acabada, a economia, Mises julgava ter encontrado aquilo que eludira tantas gerações de seguidores de Kant: os juízos sintéticos a priori.

Esse idealismo de Mises aparece moderado no fim de sua vida. Em seu último livro, The Ultimate Foundation of Economic Science, ele afirma o óbvio: a realidade objetiva e a causalidade ordenada do universo não dependem de nossas crenças ou de nossas mentes para existir! – Estaria ele sob influência da introdução à escolástica e ao tomismo de L. Rougier que ele cita neste mesmo livro? Não deixa de ser admirável ver um intelectual de seu porte, aos 81 anos, lendo obras introdutórias sobre um campo completamente novo de estudo.

Enfim, Mises é um autor liberal, e sua base filosófica não pode ser atribuída a outros. Rothbard, haja visto suas fontes tomistas, era bem mais realista, falava sem problema nenhum em natureza humana, lei natural, metafísica e tantas outras coisas. Ayn Rand, da mesma forma, também era realista e aristotélica nesse sentido (as duas únicas influências filosóficas positivas que ela admitia eram Aristóteles e Tomás de Aquino). E mesmo se atendo ao caso de Mises, dizer apenas que “ele é idealista, contraria a posição tradicional, e um católico deve portanto rejeitá-lo” não é uma refutação. É só uma tentativa falha de assustar os leitores menos corajosos e desencorajá-los a pensar por si mesmos.

10- Do ponto de vista legal: o liberalismo não ultrapassa o contratualismo. O seu “império da lei” é formalista e superficial, pois a lei, no liberalismo, transformou-se em expressão da vontade da maioria, deixando de ser uma régua da razão que mede as ações e valores humanos de acordo com bens objetivos inamovíveis, tanto para os indivíduos como para as sociedades. E inamovíveis porque integram radicalmente a nossa humana natura e a das coisas com que nos relacionamos.”

Em que autor Sidney pensava ao escrever isso? Rousseau (dificilmente um liberal.)? Não se aplica a nenhum autor liberal; ninguém duvida que a vontade da maioria é, frequentemente, ditatorial e nada afeita às liberdades individuais.

No mais, Sidney parece ignorar que, mesmo aceitando-se que a lei deva medir racionalmente os atos humanos de acordo com critérios objetivos, falta ainda saber quem irá decidir esses critérios. Não há, infelizmente, uma instância impessoal - uma Razão visível - emitindo juízos de valor absolutos no mundo; há apenas pessoas pensando e discutindo. A saída americana, da definição de direitos pétreos e invioláveis e grande liberdade individual somados à política democrática, parece-me a melhor; e mesmo ela é claramente falha. Nunca chegaremos a um equilíbrio ótimo no campo da política; a entropia social está sempre operando; é preciso avançar para ficar no mesmo lugar. Mesmo assim, dá para falar em arranjos melhores e piores. Na ótica liberal, aqueles que melhor garantem o desenvolvimento e florescimento dos indivíduos são, por esse mesmo fato, os que garantem o maior bem comum.