sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Tradicionalismo Pós-Moderno



Se não existe verdade, se tudo são narrativas de diferentes pontos de vista, se a razão iluminista falhou, se não temos acesso à "coisa em si", se as pretensões de objetividade foram desconstruídas e revelaram-se vontades de poder, então... então todas as opiniões valem, sejamos livres, leves e soltos e vamos curtir o pluralismo, não é mesmo?

Não tão rápido, camarada! Esse mesmo discurso pode ser usado - já é! - por crenças muito distantes do "Paz e Amor". Pense o seguinte: se nenhuma crença é objetivamente válida ou verdadeira, então todas o são igualmente. E a minha religião ou ideologia do coração, que sob o sistema antigo, racionalista, era claramente inválida e furada, agora merece tanto respeito quanto a ciência mais bem estabelecida. Com um bônus: quem garante a verdade da sua crença secular e liberal são apenas os pensamentos falíveis e relativos da sua cabecinha; já a minha é garantida pela autoridade de Deus. Ganhei.

Chamou minha atenção o dia em que li um editorial abertamente, orgulhosamente pós-moderno na Al Jazeera (sim, sim; a Al Jazeera não é uma porta-voz de movimentos fundamentalistas islâmicos. Mas ela os trata, e a outros "pontos questionáveis" do mundo árabe, com luvas de pelica). Pensando em escrever este texto, fui lá procurar o editorial de meses atrás. Nem precisei. O primeiro artigo de opinião que encontrei era exatamente a mesma coisa. Vejam lá: "Who is a Muslim?", de Hamid Dabashi, professor de Estudos Iranianos e Literatura Comparada (indicador infalível) em Columbia.

O artigo (na verdade a introdução a um livro a ser publicado) prima por joias pós-modernas como esta:

Imagining ourselves in a post-Western world requires the dismantling of the regimes of knowledge the fiction of "the West" has historically generated. In the Second Chapter, "Breaking the Binary", I will explore why and how is it that a post-Western regime of knowledge is necessary and in fact the elements of which are already evident. The habitual binaries between "Islam and the West", between "religion and secularism", need to be conceptually discarded. These binaries have concealed much about Muslim worlds rather than revealing anything about them. These binaries have been imposed by the power of the regimes of knowledge production that take "the West" as an ontological a priori and narrate the rest of humanity in terms conducive to that primacy.
Narrativas são produtos de vontades de poder humanas. Nenhuma é mais válida do que as outras (a não ser a Ocidental, que é menos válida do que todas). Fiquem vocês com o ecoveganismo, que eu fico com as profecias comprovadas do Corão. Que venham os véus e a crença nos djinns! Sob o regime ocidental, colonialista e anglo-americano da razão e da ciência, a coisa ia mal para as pretensões de verdade do Islã. Já em meio ao discurso pós-moderno ele se sente em casa, ganhando até mesmo ares de justiça social.

Não vou bater em cachorro manso. Se eu vivesse no Londonistão ou em Islamsterdã talvez fosse relevante, mas aqui no Brasil a comunidade muçulmana é pequena, amistosa e tolerante. Quero falar das loucas da minha própria casa, a Igreja Católica. Pois há certos tipos de Catolicismo que, embora façam careta e finjam não gostar, acolhem de muito bom grado o discurso pós-moderno quando ele lhe é útil. A realidade é incognoscível e ininteligível; estamos perdidos e sem guia em meio ao caos. Felizmente, Deus mandou para nós um guia infalível, uma rocha em meio à tempestade, a quem submeteremos nosso intelecto sem mais perguntas. É claro que eu não estou falando de Jesus Cristo!

O católico adere ao pós-modernismo, ainda que não o perceba, quando recorre à infalibilidade da Igreja (em geral, dos papas) como justificativa última de sua doutrina. A Bíblia? Só a temos graças ao papa, claro. Tudo bem que o cânone só foi definido oficialmente no século XVI, e que pequenas diferenças ainda existam entre latinos e gregos (e que, mesmo com essas diferenças, formaram uma só Igreja visível até o século XI), e ainda mais com outros grupos apostólicos (com os quais fomos uma Igreja só até o século V).

Ou então dizem que é impossível interpretar a Bíblia por conta própria, que precisamos da autoridade da Igreja para fazê-lo. Ora, o que a Igreja preserva para nós são as interpretações bíblicas de diversos autores ao longo da história. Não há tal coisa como um "guia dos católicos sobre como ler a Bíblia verso por verso".   Primeiro aceita-se o papa, depois pode-se entender a Bíblia ou as palavras de Cristo, todas elas indecifráveis ao leitor comum. A prova disso? Ora, é o que a Bíblia diz em Mateus 16...

Sem o papa, nunca teríamos certeza doutrinária; ficaríamos navegando perdidos num mar de opiniões, sem uma rocha para se ancorar nossa certeza absoluta e descansar em paz, seguros de que possuímos a verdade. Mas e se mesmo entre papas ao longo da história não houver consenso perfeito?

Católico conservador, o papa não tem uma linha direta com Deus que lhe sussurra dogmas! Todos os papas, para chegar a decisões, estudam, meditam, pesam argumentos como qualquer pessoa. Ocorre muitas vezes de um papa discordar do que pensaram outros papas do passado. É dificílimo apontar com alguma certeza sobre quais pontos da doutrina pesa ou não pesa a infalibilidade papal, mesmo porque o ato de fazer essa distinção não é infalível. Coisas outrora tidas como infalíveis hoje são consideradas falsas. O maior exemplo que me vem à mente é a usura, outrora repetida e solenemente condenada, e hoje em dia permitida - uma mudança lenta e, infelizmente, bem pouco transparente. A opinião da hierarquia sobre a liberdade religiosa é outro bom exemplo.

Dessa constatação, duas correntes igualmente pós-modernas se formaram: o daqueles que rejeitam o que os papas recentes disseram para manter o que foi dito por papas mais antigos; e os que rejeitam o que os papas antigos disseram (ou os reinterpretam até que eles queiram dizer o oposto do que queriam) para manter tudo o que os recentes dizem. "É o papa, temos de aceitar, sob pena de pecado mortal!" Que um ato do intelecto de aderir ou não a uma opinião seja visto como passível de pecado já mostra a confusão de fundo: a confusão entre intelecto - faculdade cognitiva - e vontade - faculdade volitiva.

O bispo de Roma sempre teve, desde os primeiros séculos da Igreja, o papel de um árbitro de último recurso; e se bem me lembro Roma foi a única sé a nunca cair em heresia. Talvez não fosse o superbispo com autoridade absoluta e imediata sobre tudo o que acontece na Igreja no mundo inteiro, como é mais ou menos o caso hoje, mas havia uma primazia - não só honorífica, mas de autoridade doutrinal - relativamente reconhecida por bispos de todo o mundo. Os desenvolvimentos na relação com as Igrejas orientais são o que há, na minha opinião, de mais interessante para quem sabe se chegar a um equilíbrio mais justo do verdadeiro papel do bispo de Roma; e que provavelmente será algum meio do caminho entre o que afirmam os ultramontanistas e os ortodoxos orientais.

O papa nunca foi o critério de se ser ou não católico. E não era o filtro pelo qual os cristãos olhavam a realidade. Se o transformamos no critério último, na autoridade divina manifesta, caímos no fideísmo. Pois qual o motivo de aceitá-lo desta forma? A própria autoridade dele em afirmá-lo? No fundo, resta apenas o ato da vontade. Nossa mente é incapaz de conhecer a realidade; por isso, vamos escolher nosso representante divino favorito para arcar com nossa insegurança. Nossa consciência e nossa vida pagarão o preço. O papado se transforma, para esses católicos - muitas vezes (mas nem sempre) à revelia do que querem os papas -, numa espécie de Fidel Castro da alma: "Dar-te-ei segurança e paz de espírito. Peço apenas que abras mão de pensar; de usar sua (nefasta) faculdade crítica."

O mesmo problema se dá quando nosso critério não é o papa mas "a Igreja" ou "os Santos Padres", como fazem muitos ortodoxos. Pois não há essa entidade impessoal e abstrata, "a Igreja", que emite doutrinas e ensinamentos vindos do céu. Há pessoas concretas que formam a Igreja e que escreveram e disseram muitas coisas ao longo dos séculos. Em pouquíssimas delas há um consenso claro, mesmo entre os santos canonizados. É mérito dos latinos ter percebido isso já há quase mil anos, por exemplo, quando Abelardo escreveu seu Sic et Non. O intuito era que todas as aparentes contradições entre os Santos Padres fossem perfeitamente conciliáveis, mas não foi o que a história mostrou. Hoje em dia, então, quando nosso acervo de Santos Padres é muito maior do que o disponível na Europa do século XII, a coisa ficou ainda mais improvável. É uma pena que, à crença ingênua em um "consenso dos Padres", tenha-se substituído, gradativamente, a adesão acrítica ao juízo de um santo padre.

A lição disso tudo? Mesmo com uma religião hierárquica, a certeza absoluta nos escapa. Sua mente, sim, seu intelecto pessoal, sua razão individual; continua sendo sua única ferramenta para pensar, conhecer e tomar as decisões que lhe cabem, mesmo no campo espiritual. É possível fingir, talvez com alguma dose de auto-engano, que essa responsabilidade pessoal possa ser delegada a um terceiro. Ao fazê-lo, você perde a própria realidade, e passa a viver no sonho pós-moderno (que não é nada moderno - existe desde que um certo casal foi expulso de um Jardim): o sonho de que desejos humanos determinam a realidade; seus companheiros são Derrida e Bin Laden. Hora de acordar!