sábado, 30 de novembro de 2013

A alma do fantoche de palha


Devo alertar a juventude de que quando lhe falam todas essas coisas como de descobertas de nosso tempo, estão zombando dela: essas novidades são tão velhas quanto deploráveis quimeras.

François-René de Chateaubriand, Ensaios sobre as revoluções, 1797.

A atual ascensão daquilo que se poderia chamar de uma espécie aparentemente contraditória de “nova mentalidade conservadora” brasileira traz um fato curioso e, ao mesmo tempo, flagrante: se de fato existiu doutrinação ideológica, então os “novos conservadores” são frutos de anos de inculturação promovida pela mentalidade progressista de esquerda. Oferecendo-nos, assim, uma ideia razoavelmente clara do esgotamento do projeto revolucionário que visava a realização do novo homem e do bem utópico.

Deste modo, os “novos conservadores” são os próprios “filhos da revolução” cultural. Pois são os herdeiros diretos da precária e distorcida política pedagógica na qual o país foi construído e submetido ao longo de décadas. Neste sentido, não há nessa nova geração de conservadores nada do refinamento intelectual e moral típicos da verídica tradição conservadora que eles alegam defender e herdar. Nenhum sinal da prudente aptidão que deve servir de exigência mínima a conduzir uma reacionária resistência.

Fazer esta exigência poderá até soar como pedantismo. Entretanto, a exigência intelectual e moral para ir a público defender uma genuína tradição conservadora não condiz com a formação dessa nova geração de conservadores que, em geral, tem começado atuar no debate público. É relativamente fácil, a partir do advento da internet, tomar consciência da existência de uma tradição intelectual e moral conservadora a fim de constatar que, no Brasil -- de fato --, carecemos dessa formação.

Só que a experiência do tempo do novo afã conservador não coincide com a experiência do tempo de formação intelectual e de preparação moral necessárias para fundamentar uma consistente mentalidade conservadora de uma nação, seja no nível estético, literário, acadêmico, político e cultural. Ora, se o Brasil sofreu um apagão cultural de intelectuais conservadores em particular e da alta cultura em geral ao longo das últimas gerações, então não será do dia para noite que se testemunhará o renascimento dessa tradição. A vida intelectual é assustadoramente custosa e exageradamente penosa.

As novas e eficientes possibilidades de comunicação proporcionadas pelas tecnologias de internet não acompanham a demanda da preparação do intelecto. É até muito bacana e empolgante ir a um “hangout”, ao vivo, desabafar sobre os intrincados problemas de filosofia política e da “guerra” contra a civilização ocidental. Eu diria até corajoso e muito nobre botar a cara à tapa e falar com orgulho sobre o significado de ser um conservador em um país carente de produção intelectual conservadora.

Porém não se deve confundir o ímpeto da tomada de consciência com o próprio conteúdo de uma consciência conservadora. E os flagrantes vícios de linguagem e o maneirismo da postura moral depõem contra essa nova geração de conservadores que, pelo menos em referências a esses aspectos, cumpre adequadamente bem o papel de “conservadores”: manter intacto -- e até prestar certo tributo à memória -- o programa político-pedagógico do progressismo de esquerda em que foram formados. Não se pode esquecer e duvidar jamais deste dado cultural: a “paidéia” dos novos conservadores é, hegelianamente, progressista.

Em outras palavras, conservam precisamente aquela pitoresca imagem que a esquerda, ao longo de todos esses anos de doutrinação, esboçou da genuína tradição conservadora. Como se o fantoche de palha tivesse sido insuflado com a alma fabricada a partir de todos tipos de colagem produzidos com o precário e desforme imaginário progressista acerca do que vem a ser a verídica tradição da mentalidade conservadora e agora está aí perambulando pelas redes sócias.

A verídica tradição conservadora repousa e vive à luz de três noções fundamentais: reação, prudência e ironia. Grosso modo, uma noção política e uma moral que, na experiência mental de um conservador, não poderiam jamais viver separadas. E a ironia que deve ser adotada como o refinado espírito metodológico: um conservador precisa saber, antes de tudo, a ser o primeiro a rir de si mesmo, ou seja, “saber esconder sua brincadeira na seriedade e sua seriedade na brincadeira”, como diria Kierkegaard.

Reagir por reagir implicaria cair na mesma estratégia dos adversários progressistas, pois é uma ação de “homens ocos”, para usar uma expressão de Russell Kirk. E o mau humor do espírito progressista foi decisivo para a emergência de gente vazia. A reação conservadora necessita superar o frenesi inútil da mentalidade revolucionária e, por isso, tem de se afastar do ímpeto utópico construído no imaginário alquímico das ideologias produzidas como símbolos do excesso de gente que se leva demais a sério e nunca coloca a si mesmo em xeque.

Uma reação cega não poderia apontar para outra coisa senão para uma espécie de hybris, isto é, a desmesura. Portanto, a um conservador reacionário deve-se exigir a ética da prudência, caso contrário, sua reação torna-se necessariamente revolucionária e fundamentada apenas no violento e desgovernado impulso da mudança pela mudança. O que seria uma vertiginosa demonstração de nunca terem feito uma radical auto-avaliação e auto-reflexão das crenças e do imaginário que acabaram de ser descobertos. 

Sendo assim, se a desmesura define-se pela incapacidade de lidar com a adequação entre teoria e prática – entendidas neste contexto como “a tomada de consciência e o estudo da tradição intelectual conservadora” e “a condição de possibilidade para agir como um conservador” –, então a prudência deverá ser exigida exatamente como a experiência de mediação na consciência de um conservador entre reflexão e ação conduzida sempre pela espirituosa capacidade de rir de si mesmo. Em outras palavras, prudência e ironia se impõem como as únicas possibilidades de realização do “bem factível” de homens reais e razoáveis vivendo e reagindo em um mundo real.