sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Pra não dizer que eu realmente não falei das flores


Hoje tive uma conversa pra lá de constrangedora na sala dos professores com alguns de meus colegas mais “engajados”. Basicamente há dois tipos de conversas entre meus colegas de trabalho: falar mal de aluno e reclamar da educação.
A conversa teve início depois de eu soltar um disparate: “a última coisa do ensino de filosofia é sua função social; e, vou mais longe, a educação também não deveria ter isso como preocupação”. Mal terminei a frase e todos os olhares dispersos despencaram sobre a minha heresia e Paulo Freire deu duas cambalhotas no túmulo. 
“Ora, como assim”, disse uma colega professora de sociologia em tom irado, “não há função social na educação? Você está louco!”. Não, não estava louco e é exatamente isso o que eu disse: o processo de decadência da educação no Brasil começou, precisamente, quando toda sua finalidade foi reduzida à noção de “educação como função social”.
Foi difícil explicar, confesso. Talvez a vaidade e a recusa em abandonar velhas ideias caquéticas e estúpidas tornam o ser humano mais opaco do que já é naturalmente. Mas eu me esforcei:
Tanto a filosofia em particular quanto a educação em geral não deveriam — já que essencialmente não têm mesmo — ter como finalidade a banal preocupação de estar “voltada para o social”. Por que banal? Ora, porque não há necessidade de ter como meta a “função social”, uma vez que o ser humano é, essencialmente, um ser social.
A educação deve “cultivar” a alma humana para a vida em sociedade e, portanto, eve estar fechada para “as coisas do mundo”. Se já não é mais o espaço de reflexão e se abre totalmente para “a vida”, então torna-se suscetível a todos os males e a todos os problemas do mundo: drogas, violências e discursos ideológicos são os primeiros bárbaros a romperem os limites que separam civilização da barbárie. Drogas e violência entram por parte do aluno, discurso ideológico tarafe do professor.
Se até um espirro tem função social, quem dirá a formação escolar! Então, não há sentido em submeter toda formação de alguém ao social. Outro colega, mais aliviado, manda: “Ah, então você concorda que a Educação tem função social! Ufa…”.
Na verdade, o que se mascara por trás dessa ideia de “função social da educação” é uma das mais corrosivas e perniciosas concepções de ensino: sua politização ideológica manifestada na noção de escola aberta para vida (formar cidadãos conscientes com senso crítico etc etc)! A crença — ou ingenuidade? — da maioria dos meus colegas deriva da noção de que nós professor devemos fazer, em última instância, a molecada se “engajar politicamente”. "Social", neste contexto ideológico, significa não outra coisa senão o “engajamento contra o neoliberalismo e o moralismo do Ocidente”.
“Devemos plantar a sementinha revolucionária”, como disse, no ápice da cafonice, uma colega – pasmem! – professora de Química. “Os meninos de hoje”, continua, “são alienados, e precisamos urgentemente fazer alguma coisa!” Como se a pronúncia de tal frase garantisse imediatamente a isenção de um discurso igualmente alienado e profundamente estúpido. Pelo contrário: é justamente quem diz “eles são os alienados” o primeiro suspeito de ser um completo alienado.
E outra. Se hoje os jovens são tão alienados, então são alienados e intoxicados precisamente pelo excesso de politização aos quais foram submetidos durante décadas. Jovens que, ao invés de terem aulas de verdade, foram submetidos a uma verdadeira lavagem cerebral (o tratamento de Alexander DeLarge, em Laranja Mecânica, é fichinha perto do tratamento que muitos dos nossos alunos têm sido submetidos).
Jovem não tem ter “senso crítico”, jovem precisa estudar. Simples! Durante décadas massacramos nossos alunos com a conversa fiada de que “vocês precisam mudar o mundo”, “salvar o planeta”, “precisamos fazer alguma coisa contra o sistema”, “lutar contra o neoliberalismo”, “entender o sofrimento das baleias” etc.
Tivéssemos concentrado todos nossos esforços em mostrar a beleza da inutilidade da educação e ensinado a formularem as perguntas mais genuínas e significativas (aquelas que surgem de maneira heurística no espírito humano, ou seja, livres de “funções” e “utilidades” — sobretudo políticas), não estaríamos discutindo a função social da massa de analfabetos formados todos os anos pelo ensino de nobre função social. Esse "socialismo engajado" da educação não teve outra função a não ser a de socializar a ignorância.
Alguns anos atrás fui demitido de uma escola de Ensino Fundamental, no início da minha carreira, logo depois de me apresentarem uma pesquisa interna feita com os alunos no final do ano a fim de avaliar o desempenho dos professores. Na época eu lecionava uma disciplina chamada “Atualidades”. A dona da escola alegou que os alunos (de 5º série!) tinham “senso crítico” suficiente para saber o que era “bom” pra eles. Segundo o “ipope”, eles não gostavam da minha aula por que eu exigia muita leitura e a aula, por ser de “atualidades”, tinha de ser mais “debate”.
É tão ridículo assim pensar que não cabe ao professor de Matemática ensinar "ativismo político", mas ensinar — não é pedir demais isso — Matemática? Que não é demais ao professor de Química ensinar simplesmente Química? Ao de Biologia, Biologia? Ao de História, História! E ao de Filosofia, Filosofia? Confesso que fiquei feliz com a minha demissão das aulas de "Atualidades"; na minha opinião, tal disciplina não tinha qualquer finalidade (talvez, no máximo, uma espécie de tentativa de substituir a conversa franca que os pais deveriam ter com os filhos na mesa do jantar!). 
"O verdadeiro fundador" do declínio da educação foi o primeiro professor descolado que, tendo cercado seus alunos em uma sala de aula, "lembrou-se de dizer isto é minha pequena assembleia política particular" e encontrou pessoas suficientemente "cheias de senso críticos e analfabetas" para acreditá-lo. Não tenho mais dúvidas de que o responsável pelo fim da educação foi o professor que, cheio de si e crente piedoso de sua concepção política de mundo, exaustivamente doutrinou todos aqueles que estavam interessados não em mudar o mundo, mas simplesmente em compreendê-lo.