segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A Morte dos Heróis





















It turns out que meus amigos do face são profundos conhecedores e admiradores do “Madiba”. Parece que só eu faltei a essa aula; só eu não li os livros. Todos manifestaram sua dor, alguns arrebatados pela emoção, desestabilizados com a morte do herói, do raio de luz que guiava suas vidas e que os dava esperança de um mundo melhor. Teceram loas ao fim do racismo, à democracia, à paz, ao espírito acolhedor dos sul-africanos. Bem, nem todos. Alguns outros amigos, minoritários, acusaram a farsa, pintando um outro Mandela: terrorista sanguinário e/ou monstro corrupto. Veja este e este links (calma, é da Piauí e da Enciclopédia Britânica; não do ARENA-Jovem).

Há um quê de espírito de porco na tentativa de destruir os ídolos alheios, por mais justa que seja a destruição. Aliás, especialmente se for justa. Mas, sendo justa, como não aceitar suas conclusões? Mandela não foi herói; foi apenas demasiado humano numa escala maior do que a dos outros mortais. Mandela o comunista radical, stalinista, o aliado de ditadores sanguinários e magnatas do diamante; Mandela o terrorista; Mandela o corrupto; é tudo verdade. Sustento, no entanto, que Mandela o herói também existiu. A discussão é o embate entre dois símbolos – um bom e outro mau – que não correspondem ao ser humano real. A posição minoritária não acrescenta nada, e acaba aparentando oposição aos valores representados pelo símbolo bom.

Mandela tinha seus esqueletos no armário. Não foi um puro, um santo. Mas representou para muita gente – via seleção midiática – coisas boas. Sua vida representa a vitória sobre o preconceito racial e, para coroá-la, a atitude da reconciliação ao invés da vingança. Eu penso que, se simboliza coisas boas, e há alguma razão para aplicar o símbolo ao sujeito real, deixem o herói estar. Que me importa se, no fundo, Mandela foi um canalha, ou se seu governo falhou em garantir a paz e prosperidade? Só não acreditem literalmente no herói, no santo. Em verdade, ninguém é santo; nem mesmo os santos.

Os dois lados da polêmica Mandela me lembram das brigas acerca da nossa história. Dos paulistanos que vandalizaram a estátua do Brecheret no Ibirapuera, e que querem derrubar a estátua do Borba Gato em Santo Amaro. Os bandeirantes não foram heróis; foram monstros, gananciosos, caçadores de índios. Concordo, desde que se adicione: e foram heróis. A coragem desses homens do mato, a sede pelo ouro, ou pedras ou escravos ou o que fosse, a determinação de entrar na mata fechada, de ser indiferente à morte como só um predador faminto é capaz; esse pecado desbravou nosso território e formou nosso país. Viva!

Os homens do nosso século são incapazes de querer algo com a mesma veemência e falta de culpa com que os homens da Renascença queriam. Olhamos para trás e nos horrorizamos com a violência. Os vícios dos outros são sempre mais chocantes. Algo similar ocorre quando olhamos os ícones políticos de meados do século 20; todos – Che, Churchill, Mandela –, envolvidos em muito mais violência do estamos prontos a tolerar hoje em dia.

Não quero adotar o papel ridículo daquele que condena o tempo em que vive para exaltar um passado virtuoso, que, sabemos, não existiu. Digo que estamos corretos em condenar a violência política daqueles tempos, mas temos também o dever de compreendê-la em seu contexto; o mesmo vale para a escravidão. E vou além: nossos revoltados anti-bandeirantes também têm um herói legítimo para substituir os bandeirantes: Zumbi dos Palmares. Para o bem da inocência deles, espero que jamais leiam uma biografia de Zumbi. Ou melhor, espero que leiam. Inocência é coisa perigosa; adora atirar a primeira pedra.

O panteão dos homens é como o dos deuses gregos – grandes feitos e grandes defeitos; e não menos digno de culto. Celebremos Mandela, os nossos bandeirantes, Zumbi. A Inglaterra, país tão conciliador, tem lições a nos dar: celebram Henrique VIII e Thomas More – nenhum dos quais era flor que se cheirasse.

Crescer individualmente requer, entre outras coisas, perder a devoção incondicional aos pais, aos professores, etc.; vê-los como os homens que são. Uma cultura madura, da mesma forma, não acredita na verdade literal dos heróis; e por isso mesmo pode prestar-lhe homenagens mais verdadeiras. A admiração de uma figura heroica, que fez algum grande bem, não requer a salvação de sua alma. Mandela lutou pelo bem, marcou a percepção de seu tempo de forma positiva. Sendo assim, viva Mandela, ainda que eu – e não só eu – não saiba nada do homem!