segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Brevíssima Introdução a Ayn Rand


















Uma fusão de Aristóteles e Nietzsche para os dias de hoje: uma visão heróica do homem, que vive apenas por si e sem culpa; somada ao primado da razão como conhecedora da realidade e guia das ações e ao respeito pelos direitos individuais. Isso resume a filosofia de Ayn Rand.

É raro gostarem dela fora do meio liberal. E de fato, não faltam motivos para a rejeição. A começar pelo descaso com que trata filósofos anteriores, lendo suas filosofias sem nenhum rigor acadêmico e julgando-os sem dó. Suas passagens mais virulentas são reservadas para "um monumento ao repositório mais feio do ódio pela vida, pela homem e pela razão: a alma de Immanuel Kant." ("Causality Versus Duty" em Philosophy: Who Needs It) Ela aceitava apenas dois precedentes filosóficos: Aristóteles, o maior filósofo de todos os tempos, e Tomás de Aquino, também muito bom (segundo ela, a parte teológica de S. Tomás fora provavelmente uma concessão dele aos tempos). Fora disso, quase só erro e maldade. Locke teve seu mérito na filosofia política, mas sua epistemologia era detestável. Nietzsche tinha um ou outro pensamento de valor, mas sua concepção básica do homem, anti-racionalista e negadora do livre arbítrio, também era muito má. (No caso de Nietzsche, é visível sua influência sobre ela, o que torna a rejeição ostensiva ainda mais problemática).

Há também a notória hostilidade à religião. A fé é a negação da razão: aceitação de uma autoridade como superior e substituta da própria mente e de suas ferramentas de conhecimento da realidade. Ainda assim, ela não era ateia militante: argumentos contra a existência de Deus ou contra religiões específicas não ocorrem quase nunca em sua obra; o que há com frequência um pouco maior é argumentos morais contra a moral religiosa do Cristianismo - única religião digna de nota para ela. E mesmo com tudo isso - talvez isso interesse a nossos leitores - havia algum respeito pela tradição intelectual católica, por ela lamentada na longa refutação que fez da encíclica Populorum Progressio do papa Paulo VI: "Há um elemento de tristeza nesse espetáculo. O Catolicismo já tinha sido a religião mais filosófica do mundo. Sua longa e ilustre história filosófica foi iluminada por um gigante: Tomás de Aquino. Ele trouxe uma visão aristotélica da razão (uma epistemologia aristotélica) de volta para a cultura europeia, abrindo o caminho para a Renascença. (...) Agora, testemunhamos o fim da linhagem de Aquino - e a Igreja se volta para seu antagonista primordial, que se encaixa melhor nela: o odiador da vida e da mente, S. Agostinho." ("Requiem for Man", em The Voice of Reason).

Há também, por parte de muitos, a percepção de que ela seria apenas uma defensora do capitalismo. E ela de fato o foi, mas essa não é a parte mais importante de sua obra e nem de sua filosofia. O capitalismo é, segundo a própria, a consequência política de sua filosofia metafísica e moral, que é o que realmente importa. Por isso mesmo ela não botava muita fé em alianças com liberais de outras correntes filosóficas e, especialmente, com os libertários de sua época. O vazio filosófico do libertarianismo, que consiste na afirmação de um princípio moral de não-agressão vindo de lugar nenhum, e que para além disso é compatível com o total relativismo ético (desde que não se viole o PNA, vale tudo), era-lhe repugnante. Para ela, a real aliança existe no campo dos valores e da filosofia, que compreende epistemologia, metafísica, ética, estética e política.

Poucos leitores conhecem sua obra de epistemologia (que é a filosofia do conhecimento: como o homem conhece o mundo e qual o grau de certeza desse conhecimento?), "Introduction to Objectivist Epistemology", em que ela visa a responder o que era para ela o problema mais importante da história da filosofia: a questão dos universais - qual o estatuto dos conceitos abstratos e como eles são produzidos. Sua solução é uma modernização do "realismo moderado" (que diz que conceitos captam dados objetivos da realidade, não são mera convenção, mas não existem fora da mente) com uma importante adição: o conceito existe num contexto informacional: distingue um certo tipo de coisa de todos os outros tipos conhecidos. Mudando o conhecimento, conceitos diferentes se fazem necessários. O conceito ou a definição não expressam uma essência completa da coisa, como se acreditou na filosofia clássica e medieval; expressa o grau de informação suficiente para distingui-la dos demais seres. Subjacente a tudo isso está a defesa aguerrida de que a mente humana é capaz de conhecer a realidade objetiva e que a razão é a única ferramenta que o homem tem a seu dispor para esse fim.

É a mensagem central da filosofia da Ayn Rand: o poder e o primado da razão. Disso se segue a ética e a psicologia que a subjaz, que são o assunto preferencial de sua obra. Afirmar o primado da razão significa afirmar o primado da mente individual e, portanto, o egoísmo. E aqui nos deparamos com o grande mal-entendido daqueles que não a leram: considerar que a moral do egoísmo, e a consequente rejeição do altruísmo, significaria ver como boa a pessoa que pensa apenas em si mesma e como má aquela que ajuda os outros.

Altruísmo não é benevolência. O homem bom é benevolente para com aqueles que ele ama e de maneira geral com todos os homens; mas isso não decorre de um dever primordial de ajudar e muito menos de se sacrificar pelo próximo. O valor do indivíduo - o bem de sua existência - não depende dele abrir mão de seus valores para servir a quem quer que seja. Sua mente não está à venda, seja por dinheiro ou pelos desejos e exigências alheios. Atos que geralmente chamaríamos de altruístas, como morrer para salvar um grande amor, podem ser racionais, e nesse sentido plenamente egoístas: refletem a avaliação racional do agente que aceita a própria morte porque sua vida não faria sentido sem o outro. Isso é o exato oposto de uma pessoa que efetivamente abre mão de sua vida, escolha por escolha, por crer que não tem o direito - ou que estaria sendo má - se agisse para buscar seus próprios objetivos.

Para quem olha de fora, esse papo de egoísmo parece ser a defesa do capricho individual como fundamento da ética; mais ou menos como faz o utilitarismo ou outras teorias subjetivistas, ou mesmo o egoísmo ético apregoado por certos liberais. Se o indivíduo gosta de se drogar até morrer, então isso é o bem para ele. Pois a ética da Ayn Rand é passível justamente da crítica oposta: o moralismo exagerado. Mesmo os gostos pessoais requerem critérios objetivos para se justificar; a vitória do capricho sobre a razão é um pecado grave em qualquer área. Isso tornava-a excessivamente negativa para com tudo que fugia a seu gosto pessoal. Não fazia distinção entre o racional e o razoável, aquilo que faz sentido, está bem fundamentado, mas admite dissensão e alternativas igualmente válidas; no círculo randiano, seu gosto era erigido em norma absoluta da razão. Por outro lado, foi essa mesma ênfase na primazia absoluta da razão que produziu ensaios magníficos como sua exposição dos benefícios da filatelia (colecionar selos postais) e a demolição retórica e moral do festival de Woodstock (ensaio "Apollo and Dyonisus" em Return of the Primitive). Não é preciso concordar com eles para aprender e mesmo se deleitar.

O homem racional é aquele que tem sua razão como seu critério absoluto de suas crenças e como guia para sua própria conduta; que não busca viver de segunda mão, às custas dos outros, nem no plano do intelecto (aceitando alguma autoridade como superior a sua própria mente) e nem no da vida prática (procurando, ao invés de produzir, viver do produto alheio), e nem no do sentimento (dependendo da aprovação ou da atenção alheia para suprir a autoestima que lhe falta). Ele é o verdadeiro egoísta: aquele que reconhece as demandas que a realidade impõe para a vida humana e coloca-se à altura do desafio, coisa que lhe traz uma satisfação muito maior do que aqueles que, por medo, entregam suas mentes e suas vidas ao cuidado alheio.

Rand defende, acima de tudo, uma visão heroica do ser humano, preocupado em viver a vida da melhor forma possível - da forma mais feliz possível - neste mundo, e capaz de alcançar os fins ambiciosos que vê como dignos de se concretizar. Corpo e alma constituem um todo único; nada no homem é puramente mecânico ou animal, e nada é a-sensual ou puramente abstrato.

Vale a pena apontar também como ela encara o amor romântico e a atração sexual, ambos muito importantes na sua obra filosófica e na ficção. Talvez pecando um pouco por intelectualismo, ela via na atração sexual um reflexo dos valores e do "senso de vida" do indivíduo. O senso de vida (sense of life) é maneira básica do indivíduo pensar e lidar com o mundo; constitui-se dos juízos metafísicos e morais que não chegaram à formulação explícita, filosófica, mas que mesmo assim impactam na conduta, até mais do que teses intelectuais. Otimismo, pessimismo; convicção na eficácia da própria vontade ou insegurança crônica; ver o mundo como um universo de possibilidades ou de ameaças; todas essas disposições existem nos homens, e não são só filósofos os influenciados por posições filosóficas. A conduta humana projeta valores, e são esses que estão em jogo na atração. Talvez por ser mulher, não deu muita importância à beleza como atrator; o homem racional e seguro de si, independente e superior aos demais, atrai as mulheres mais racionais e também superiores. A beleza física só entra por meio da mentirinha fácil que a ficção adora contar: a de que ela é companheira natural da virtude.

O sexo é o ato de celebração desses valores encarnados que se encontram. Homens e mulheres, embora genericamente iguais, têm uma relação de subordinação sexual: o homem busca ser exaltado por uma mulher, enquanto esta busca alguém a idolatrar (outra curiosidade: é por essa subordinação sexual que Ayn Rand era contra a ideia de uma presidenta mulher - "About a Woman President" em The Voice of Reason). Os conceitos da teologia reaparecem, não para fazer referência a uma realidade além deste mundo, mas ressignificados às experiências básicas que devem lhes ter dado origem.

A ordem social que se depreende dessa ética de exaltação do homem é o capitalismo: a liberdade para cada um se desenvolver da melhor maneira possível e o entendimento de que os desejos racionais humanos são harmônicos entre si. A esfera das interações sub-humanas, aquelas que se dão pela força bruta ou pelo engodo, deve ser reduzida o máximo possível. Ninguém tem, de largada, direito ao que outros produziram; embora as massas se beneficiem imensamente das criações e empreendimentos dos gênios da ciência e da indústria. Aceitar um sistema no qual a erradicação da pobreza não seja o foco principal é também promover uma sociedade com menos pobreza.

Por fim, ela também escreveu muito sobre estética (livro The Romantic Manifesto), a começar pela justificativa da arte. A cognição humana é conceitual: vai além da percepção sensorial, integrando várias delas por meio da abstração, o que resulta em conceitos que se aplicam a diversos casos particulares. O homem precisa ver concretizações dos conceitos que utiliza. A arte efetua essa concretização, visando não avaliar o mérito de diferentes conceitos e juízos (para isso basta o ensaio filosófico), mas sim apresentá-los de forma viva à experiência. Na arte, o artista dá forma concreta a um senso de vida. Isso permite a Ayn Rand integrar o juízo moral ao campo da estética (os três livros de ficção mais imorais da história da humanidade: D. Quixote, Madame Bovary e Anna Karenina) sem, contudo, poluir o juízo estético com critérios morais. Mesmo abominando sua visão de mundo, ela reconhecia em Tolstói um dos maiores escritores da história; foi capaz de dar vida como ninguém a certos juízos metafísicos e morais que eram, contudo, tenebrosos. Dada sua visão heroica do homem, é natural que sua predileção seja pelo Romantismo, pelos artistas que retratam o homem como ele poderia e deveria ser, e não necessariamente como ele é (a música, embora não retrate nada, também traduz valores ao plano sensorial).

Rand tinha uma personalidade muito forte, que se impunha facilmente sobre mentes mais fracas. Sua capacidade persuasiva aliada à intransigência para com discordâncias fez com que uma verdadeira seita se formasse ao redor dela; um fato lamentável mas que não detrai do valor de sua obra. Um a um, todos os pupilos mais inteligentes foram se afastando (ou sendo banidos e proscritos do grupo), de modo que só restaram os mais medíocres, inseguros, dependentes e servis; justamente o tipo humano que ela via como o produto de milênios de uma ética equivocada e má. Hoje em dia, esse grupo original se encontra decadente - vive dos direitos autorais -, mas a obra dela continua com o mesmo vigor original e a suscitar leituras e desenvolvimentos de diversos pensadores. Mais do que formar novos adeptos ortodoxos do objetivismo (nome que ela mesma deu à sua filosofia), ela está aí para nos fazer pensar e, mais do que isso, recuperar no plano dos ideais uma ética e uma visão do homem que transcenda o derrotismo niilista e não requeira a crença num além-mundo.

Deixei seus romances de fora propositalmente. Merecem um tratamento à parte.