terça-feira, 22 de abril de 2014

Superestrutura

Rapaz de classe média alta, que dois anos antes sonhava – sonhava! – com baladas no exterior e roupa de marca, e que decide fazer Geografia e pega por conta própria resumos de Marx; que passa a nutrir sonhos de luta armada - sim, pode rir. Esse jovem traz uma bagagem que ele próprio odiaria conhecer.

Vou te contar algo que ocorreu no fim daquela malfadada primeira graduação. Acho que o melhor termo é “crime de pensamento”, já que não passou disso. E mesmo assim senti vergonha. Não que hoje eu me orgulhe. Também não é nada demais, só que como nunca contei para ninguém, deve ser importante.

Estava no último semestre, o bacharelado parecia próximo. Época de muito tempo livre, muita solidão e muita leitura. Tinha meus amigos, óbvio, mas sentia uma desconexão. Eles não levavam as ideias a sério; não como eu levava. Mesmo os mais engajados me davam a nítida impressão de que não queriam entender o mundo e muito menos transformá-lo; queriam participar dele de uma maneira específica. Reproduziam estruturas básicas das relações humanas que me traziam de volta à parte mais cruel do colegial e a tudo que eu rejeitava no mundo dos meus pais.

Isolei-me, o que me deu uma boa reputação. Eu lia o que os outros fingiam ter lido. Um benefício da Geografia é que o conhecimento – ou a aparência de conhecimento – é um valor. Estava sempre envolvido em discussões, debates, escrevia pra jornais no campus. Tinha naquele campo de ideias algo que realmente me engajava.

Minha percepção básica era a de que havia uma ordem no mundo social, criada pelo homem, mas ao mesmo tempo difícil de ser desvendada. E essa ordem era sórdida - essa fora minha certeza original. Ela perpassava tudo: nossas relações econômicas em primeiro lugar, e nossas relações sociais, culturais, sexuais; até o uso do espaço era deturpado. Era preciso, portanto, botá-la abaixo e criar uma nova. Mas para transformar o mundo alguns teriam que entendê-lo; aí que eu entrava.

A questão da justiça era a que mais me incomodava; pois em todas as relações ela se encontrava violada. Era essa preocupação que justificava minhas longas estadias na sala de leitura da biblioteca fora do horário de aula. Só não me pergunte quanto desse tempo era de estudo de fato e quanto eu gastava pensando na vida ou observando os outros. Criava futuros, longos devaneios, olhava as pessoas em volta. A biblioteca desenvolve uma vida social silenciosa. Tinha meus amigos, meus inimigos; gente com quem eu nunca falaria. Cada um projetava o que queria nos outros, e nos conhecíamos assim. É sobre uma dessas relações imaginárias que eu quero falar. Óbvio que era com uma mulher.

Dava-me um certo orgulho sentir atração por uma negra. Feio, né? Tipo de coisa que não dá pra se gabar, mas que eu adoraria pingar numa conversa. Acontece que ela não era só gostosa. O conjunto transcendia o físico e penetrava o campo dos significados. Black power irretocável, brincos de argola enormes, olhos semiabertos que escondiam uma inteligência cortante, um leve sorrisinho – ou isso era eu que imaginava? O caminhar geométrico, determinado, que atropelaria qualquer homem em seu caminho. Os ângulos retos dos ombros da jaqueta; na parte superior era tudo ângulos retos. E no meio daquela geometria reta, o arredondado dos quadris e do rebolado. Um toque de Brasil naquela beleza african-american. Esse conjunto expressava um conceito: o caminhar inexorável da justiça. O peso do mundo como se não fosse nada. Tão diferente de mim.

Gastei um tempo com a dialética da minha musa secreta; ainda tenho as anotações. Era brincadeira pra passar o tempo, mas não totalmente, sabe? A forma do cabelo, esfera negra perfeita, que devia resultar de um cuidado meticuloso, parecia a projeção natural daquela personalidade, como se todos os detalhes irradiassem necessários de um princípio gerador. O corpo acendia em mim o desejo próprio das relações de poder injustas. Contra isso, e no mesmo corpo, a práxis e a estética de ideias que negavam aquelas relações. A síntese final superava a contradição numa possibilidade de união deste e daquele mundo; gozo e justiça. Deixei uma nota curiosa na margem: a leitura estava mais pra Hegel que pra Marx. Não julgue.

Nossa relação se resumia a isso; vê-la passar diante de mim em direção a uma mesa livre, observá-la enquanto lia e fazia anotações, e finalmente observá-la ir embora. Com certeza ela devia notar o franzino babão a segui-la com a cabeça, mas nunca o fez abertamente. Na minha imaginação ela me mandava um sorrisinho quase imperceptível, como que aprovando a adoração e consciente de que eu jamais teria a coragem de ir além. O rosto era um tiquinho mais cheio do que o ideal. Não importava. Também não importava o fato de ela dormir com frequência na biblioteca, o que em outros me desagradava e que eu tomava como sinal de burrice.

No dia em questão, ela cochilava, cabeça meio de lado apoiada nos braços - não sei se escorria um fiozinho de baba ou se criei isso depois. Bom, enquanto ela dormia, um sujeito se aproximou. Era um cara banal, que eu já vira nos corredores, nunca na biblioteca; desses que gostam de parecer culto. Óculos de aro grosso, barba por fazer; mas também alto, atlético, roupas largas, desenvolto. Chegou do lado dela, encostou a mão no braço, cochichou baixinho em seu ouvido, carinhoso.

Ela abriu os olhos e deu um sorriso preguiçoso, como se ele fosse um namorado trazendo café na cama. O cabelo estava amassado, não era mais a esfera perfeita - o artifício revelado. E foi aí que a percebi de modo diferente. O mesmo rosto, os mesmos traços; me ocorreu que já tinha visto aquele mesmo tipo de cara, muitas vezes. Era comum no Brasil: uma cara que não transmitia inteligência nenhuma; apenas uma alegria sonsa de estar viva e ser jovem. Também não era bonita; por trás da produção havia um rosto sem atrativos. Olhando para aquela menina que me encantara por meses, senti quase uma repulsa, e junto dessa repulsa uma palavra brotou de algum porão esquecido.

"Empregadinha".

Repeti num cochicho: "empregadinha". Aquela que eu admirara por meses, a acadêmica segura de si, minha representante ideal da mulher negra, a personificação apolínea da justiça social; empregadinha.

O sistema de defesa disparou. Cortei o pensamento. Quis me distanciar dele. Fora só algum refluxo de tempos anteriores; um coágulo da experiência da minha classe. Uma bolha de gás, de alguma matéria em decomposição no solo oceânico, que chegava à superfície tendo viajado milhares de quilômetros. Era também prova de que eu tinha muito a progredir. Pega bem dizer-se racista ou sexista, sem bem sê-lo, mostrando que luta para melhorar - eu era ingênuo, mas esse tanto eu já sabia. O que eu não sabia é que mesmo o discurso mais sincero pode mentir.

O que mais me estranha hoje em dia é o quanto aquele “empregadinha” me abalou. Passei a tarde indignado comigo mesmo. Só me acalmei quando concluí que a verbalização fora o eflúvio final de uma impressão que já escoava para o esgoto, e era portanto uma vitória. A adoração incondicional estava intacta. Ou melhor, até mais forte. No fim daquele mesmo dia meus olhos acompanharam espontaneamente o andar daquela deusa quando ela foi embora: aquele rosto determinado, aquela beleza superior, aquela bunda.

Daí uns dias depois ela sumiu, e deve ter ficado quase um mês fora. Uma semana antes das provas - eu continuava na velha rotina, sem já saber para quê -, reapareceu. Minha alegria foi imediata, talvez eu tenha até sorrido, e, enquanto eu acompanhava a trajetória, me veio naturalmente e com um dose de ironia: "a empregadinha voltou". Dessa vez já não me importei.

Hoje eu acredito numa mecânica newtoniana da mente. Cada pensamento dispara outro com igual intensidade e direção contrária. Cada elogio faz pensar numa crítica. Cada ato de devoção exige um sacrilégio. Ou será que o disfarça? Veja, os povos mais religiosos inventam as piores blasfêmias. O homofóbico exagerado é homossexual enrustido. A mesma mulher percebida de duas maneiras; deusa e empregadinha. Quem mudou aquele dia fui eu. Mudei? A espuma branca nada é a água escura do mar.

Ideias não importam. Ironicamente, nisso eu já acreditava, ainda que por outros motivos. Ideias decorriam da posição econômica e aquela coisa toda; exceto para nós, os intelectuais. Só que a irrelevância das ideias valia sobretudo para nós. Poderia ser que as melhores intenções produzissem o inverso do que almejavam? Ou ainda, e se estiverem sempre a serviço de outras, as piores?

Mais de um ano depois, no outro curso - quando entrei nas nossas amadas engrenagens - fiquei sabendo o nome dela por um ex-colega e joguei no Google. Eu jamais me dera ao trabalho de descobrir o nome... Joguei no Google e não deu nada além do mínimo: chamadas de vestibulares antigos, lista de iniciação científica. Desde então, quando a curiosidade bate, procuro de novo. Tem o currículo do Lattes, comunicados de concurso. Era da Letras, doutoranda em literatura feminista. Mais clichê impossível. Seu grande feito foi ter passado em concurso de uma federal no interior, e isso já faz tempo.

Será que abandonou o tipo? Nunca fez nada de relevante; nenhum livro. Teve um blog e logo o abandonou. Banalíssimo, alguma coisa sobre aborto, uns poemas; de doer, sabe? Anos depois do último post eu ainda o acessava esporadicamente. Nem sei se continua professora – talvez tenha desistido. Espero que esteja num trabalho que a realize. Aquela menina – assim como eu – não estava no lugar dela e por isso não deu em nada.

Nunca falei com ela; primeiro por falta de coragem; depois por desinteresse. Agora é tarde demais, sem falar que nenhuma pessoa real possível satisfará a necessidade de significado que ela, fictícia, me satisfaz. Quem esteve ali na minha frente todos aqueles dias? Uma feminista que queria acabar com a opressão patriarcal e com o racismo? Uma acadêmica que lutava e vencia num sistema que, apesar de tudo, podia ser usados para uma vida dedicada ao saber? Uma mulata baixinha presa nas engrenagens do ensino superior, capitalizando uma beleza efêmera e sem saber para onde ir?

Só tenho a certeza de que, onde estava, não estava bem. Prefiro, por isso, imaginá-la plena de vida, radiante, em algum mundo paralelo. Uma vida de desafios, aventuras, com a alegria física que ela evidentemente precisava. Imagino-a saudável, sob o sol a pino, de lenço na cabeça, em êxtase faxinando algum assoalho. Pagode tocando no radinho. Ei, não me censure - com você eu posso falar o que der na telha. E se a gente não puder rir disso: dela, de mim e de todo mundo que jura que leva alguma coisa a sério, o que estamos fazendo aqui?