terça-feira, 15 de outubro de 2013

A Outra História de João e Paulo

[O conto a seguir foi inspirado e baseado em "João e Paulo", de Diego Quinteiro.]

***

João nasceu. Na maternidade pública, do ventre de sua mãe para as mãos do displicente médico. Foi uma alegria para ela, talvez o primeiro alento desde que chegara do interior da Bahia; e trazia também alguma preocupação. O marido, inicialmente tão amoroso, tinha começado a beber e abandonara o lar antes do nascimento. Mesmo assim, o bebê era a coisa mais fofa das tias e dos tios, que também tinham migrado para São Paulo alguns anos antes. Foi levado pra casa, para seu berço de compensado no mesmo quarto da mãe.

No mesmo dia, em uma dessas coincidências que só Deus explica, nascia Paulinho. Do belo hospital, o melhor que o seguro cobria, saía Paulo Ferreira, que nasceu para brilhar. Será artista, intelectual, talvez estadista; os pais planejaram tudo. Chegou em casa, um quarto azul, um lindo berço de madeira, motivos do folclore brasileiro, as tias apertando as bochechas – que fofo! Isso nunca muda.

Crescia o Joãozinho em sua casa de reboco, tijolos aparentes, na encosta do morro. Jogava futebol na rua, empinava pipa. A mãe voltava para casa tarde. Era trabalhadora, honesta, empregada doméstica. O chão emocional estável do pequeno. Um dia, tendo que acompanhar a mãe na casa da patroa, o menino perguntou:

- Mãe, por que nossa casa não é bonita como essa?

- Porque a gente é pobre, meu filho. E os Ferreira são ricos. Gente estudada. Não é casa pra gente pobre. Estuda, meu filho, prum dia você comprar a sua! – disse a mãe. – E comprar de volta o sítio da sua vó pra mãe ficar velha em paz.

Joãozinho não achou justo. Nem injusto. Pensou apenas que a vida era assim; que a mãe merecia seu descanso, e que caberia a ele tornar aquilo realidade.

 – Só não esquece nunca – completou a mãe – que com você junto da mãe eu não preciso de casa nenhuma.

Paulo Ferreira, o Paulinho, era um bom aluno. Tinha quadra, piscina, capoeira aos sábados e aulinhas de e inglês e mandarim. Era educado, sabia separar o lixo, comia verduras no almoço – espinafre pra ficar fortinho. Tinha um Wii e chamava os amiguinhos pra jogar Mario (papai e mamãe não conseguiram determinar tudo; o peão e as bolas de gude ficaram esquecidos na estante) e comer pão de sete grãos com requeijão da fazenda. Como era gostoso! Bom tempo esse de ser criança! Às vezes João, o filho da empregada, vinha passar o dia. Não sabia como se comportar com esse menino estranho, mas ao menos tinha sua vitória garantida no videogame. Certa vez, seu pai, que chegava às seis, trouxe um boneco para ele brincar.

- Pô, pai, eu queria outro!

- Papai volta amanhã na loja de brinquedos e traz outro, tá bom? – suplicou o pai. Não eram milionários, mas ele não queria jogar no colo do filho tão novo essa história de dinheiro, trabalho e todas as preocupações que aquele sistema impunha. A infância não devia ser mercantilizada.

Paulinho achou justo: ninguém é melhor que o papai! É só eu querer, e ele faz acontecer. E de fato, ele fazia.

A mãe do João lavava, passava, limpava, passeava os cãezinhos. Fazia comida, pegava às sete e saia às oito, do centro da cidade, pra tomar o trem. Uma noite, chegou em casa e deu beijo no Joãozinho, que perguntou:

- Mãe, porque você cuida da casa dos outros, e não vem ninguém cuidar da nossa?

- Filho, meu anjo, com o dinheiro que eu ganho mal dá pra cuidar da nossa casa. Empregada não é coisa pra gente simples como a gente. Estuda, meu filho, prum dia você chegar lá! - respondeu a mãe.

Apesar do sofrimento, ela não se arrependia. A vida ali era melhor do que no chão rachado da caatinga de onde saíra, onde os sete irmãos passavam muita fome durante a estiagem, só com farinha pra comer; e calango. Lá não tinha nada; só mato e seca. O filho não teria chance nenhuma. Agora tinham luz, TV, roupa, comida, móveis, escola; e o sentido de oportunidade. Ainda assim, ansiava em voltar à paz da roça da qual seu coração nunca saíra. Ali, com menos dor, seria o paraíso.

João não achou justo. E nem injusto. Era como as coisas eram; e reconheceu o quanto sua mãe se sacrificava para, naquelas condições, dar-lhe o melhor que podia. Quantas indignidades ouvia calada, até curvada, aceitando tudo de todos e sem guardar rancor, só para o bem do menino. Algo muito forte a movia por dentro, e nada que viesse de fora iria pará-la. Ninguém é melhor que a mamãe! E, de fato, ninguém era.

Às cinco era hora do lanchinho, hora de subir do parquinho, hora do Paulinho parar de brincar. Bisnaguinha integral, leite achocolato belga, gelatto de jabuticaba e suquinho de buriti. Mordidas após mordida, vendo desenho na TV Cultura antes do Jornal. Depois, foi fazer lição de matemática, aritmética básica do ensino fundamental.

- Mamãe, vem me ajudar?

- Filhote, agora não posso. Pede outra hora tá? – e sentou no sofá pra ver seriado. O pai, ao computador, também não podia.

Paulinho achou injusto: ninguém tinha o direito de lhe deixar sozinho. E se os pais não iriam ensinar, então ele também não ia querer aprender.

João e Paulo, nascidos no mesmo dia, na mesma cidade, viviam em mundos completamente diferentes. Quando a Nalva, mãe de João, mudou de emprego, Paulo logo esqueceu o nome e o rosto daquele visitante ocasional.

João tinha só uma certeza na vida: a de que o mundo não girava ao seu redor e não ligava para ele. Aprendeu desde cedo que moleque de pé no chão não tem o que os outros meninos têm; mas queria ter, e sabia que não ia ser fácil.  Que o trabalho é duro, a vida é dura, as vacas magras, as águas turvas. Mas o mundo tinha também seus dias de sol, de futebol, de música, de sucesso, que faziam o resto valer a pena.

Sabia que estudar era a saída, mesmo quando na escola não tinha professor pra ensinar. Tentou ler em casa, era difícil se concentrar. Mesmo com todas as dificuldades, algo permanecia. Em meio a professores ausentes ou que haviam desistido perante a apatia daqueles jovens, um se destacava: o Gilberto, que dava geografia e filosofia. João não se interessava tanto assim pelas teorias do professor – um papo de mais-valia, de exclusão social, de necessidade de revolução –, mas o Gilberto era a única pessoa ali que genuinamente ligava para ele. Dentre todos os funcionários batendo ponto (ou nem isso), era o único que estava ali, demonstrando interesse pelo jovem pobre na frente na classe, ajudando-o em suas dificuldades, emprestando-lhe livros – alguns de ficção ele gostou bastante – e, mais do que isso, sendo um amigo mais velho para conversar sobre tudo fora do horário da aula: dificuldades da vida, problemas da sociedade, mulheres, filosofia, sonhos. Sempre pagava uma cerveja para tomar junto de seu amigo e pupilo de colegial – que a mãe e o MEC não ficassem sabendo! –, o único, dentre tantos jovens já desinteressados, que demonstrava o desejo de saber mais.

Ao mesmo tempo, começava a trabalhar. Tantas aulas inúteis, tanto tempo que poderia ser melhor utilizado. Miqueias, dono de um boteco perto de sua casa precisava de um faz-tudo: descarregar mercadorias, às vezes servir clientes, atender telefone. Um vizinho, que dava aulas de reforço para alunos da escola pública, contava com a ajuda de João para corrigir exercícios. Ele levava jeito para aritmética. Colava propagandas nos postes. Cortava mato. Em pouco tempo passou a ajudar o Miqueias com o orçamento do bar e da lojinha que ele tinha algumas ruas abaixo. O que não sabia, procurava aprender; ia pra lan house consultar a internet, ou pedia algum livro pro Gilberto. Tudo em total desacordo com as leis de trabalho “infantil” e com as normas da CLT sobre remuneração; felizmente, não havia fiscal para impedi-lo. João estava sempre pronto a ajudar quem precisasse e estivesse disposto a pagar.

Paulinho tinha só uma certeza na vida, a de que o mundo era injusto. Aprendeu desde cedo que para ter tudo o que sempre quis bastava querer; afinal, todo ser humano, pelo mero fato de existir, merece ter tudo aquilo de que precisa. Mas nem todos tinham. E isso porque os privilegiados se apropriavam do trabalho dos pobres para garantir suas mesas fartas e sua água límpida. Bem sabia que seus pais tinham parte nesse culpa, e adorava condenar suas hipocrisias.

Sabia que estudar era o caminho, e na sua escola – colégio da mais pura estirpe construtivista – ele aprendia a ter um olhar crítico sobre a sociedade. Para passar no vestibular, um bom cursinho, nada crítico, bastou. Universidade pública é concorrida, mas se não passasse, ele sabia, podia ir pra particular. Só não sabia bem o que estudar. Queria ser um indivíduo determinado, igual a tantos que vira em filmes; gente que sabe o que quer e vai atrás. Além do desgosto para com o mundo, não sabia o que fazer da vida. Como sempre ouvira falar que era criativo, e como detestava matemática, física e tudo que demandasse concentração mais intensa, flutuou naturalmente para as Ciências Sociais. Não era má escolha. Com o tempo conseguiria um pós-doutorado, seria reconhecido, viajaria pra França; seu pai ia se orgulhar; e todos o respeitariam.

O tempo foi passando, e João foi se tornando uma pessoa mais confiante, alguém que se sentia eficaz no mundo. Ainda na adolescência, contudo, sentiu na pele a hostilidade de um mundo que elegia a força bruta como critério máximo. Tendo juntado algum dinheiro, João comprou para si um par de óculos escuros; nada demais, nada de marca, mas ficaram bons nele. Era a primeira compra que ele fazia com seu próprio dinheiro e cuja finalidade era apenas ele próprio; não uma necessidade, mas um desejo supérfluo. Voltava para casa orgulhoso, sentindo ingenuamente que o mundo era, afinal de contas, um bom lugar para se viver. Mas sua atitude já andava incomodando alguns de seus colegas, e os óculos foram a gota que faltava para transbordar o copo da inveja. Os mesmos olhos sem vida que o cercavam na escola o cercaram ali no caminho; João já sabia qual era a deles. Apanhou muito naquele dia, bateu e chutou também. Conseguiu fugir dali com a cara inchada, um sorriso sangrento na boca e os óculos bem seguros na mão.

Só que o triunfo durou pouco. Já perto de casa, reparou no policial de pé na calçada, observando como quem não quer nada, a espreita de alguma oportunidade. Vestiu os óculos para esconder as marcas da briga. Saber quando não chamar a atenção era uma estratégia de sobrevivência, mas nesse dia não funcionou.

- Opa, espera aí, moleque! Vem cá, vem cá. Que que houve com a sua cara?

- Tentaram me roubar. Eu fugi.

- E esse óculos bonitão aí? Você não me engana; de onde é que você tirou dinheiro pra comprar?”

João era esperto o bastante para saber que isso não terminaria bem. Fez o que sabia fazer: desafiou, olhando nos olhos do policial.

- Trabalhei e juntei. Vai querer roubar também? - Mas este obstáculo estava além de suas possibilidades. O desafio foi a justificativa que o policial precisava.

- Tá me chamando de ladrão, seu filho da puta? Fala isso de novo que eu te fodo; eu sei onde você mora, tá entendendo? Roubar o caralho! Roubar essa bosta de óculos falsificado! - E num tom mais calmo - Você vai é me dar esse óculos de presente. - Não era um pedido.

Não foi tirado à força, e sim com um movimento voluntário do próprio braço, que João cedeu os óculos.

- Pode ir, moleque. Tá liberado. Por hoje!

João chegou em casa tremendo de ódio. Ódio contra o rato que lhe havia vencido, e ódio contra si mesmo por ter se curvado perante o que há de mais vil na humanidade. Para quê ser honesto, se os urubus levam a melhor? Para quê construir e planejar se a força cega tem a palavra final?

Sua mãe o acolheu, passando delicadamente um pano molhado no rosto machucado, e reparou a mudança na atitude do filho. Colocou-lhe diante de si e falou com ele, sem um pingo da doçura que ele tinha aprendido a esperar dela:

- Eu te amo, meu filho. Você sabe disso. Mas eu te juro, eu juro, que se alguma vez na vida você roubar, você não pisa nessa casa nunca mais. Eu prefiro te ver morto, meu filho, do que bandido.

João não acreditava em Deus; nunca lhe parecera importante. Mas ali, no olhar da mãe, muito mais terrível que o de qualquer gangster ou policial, ele experimentava uma dose de uma força sagrada. Uma força que por séculos e séculos, por gerações incontáveis de um povo sem registro, mantivera alguma ordem em meio a uma miséria tão abjeta que podia transformar homens em lobos: o temor de Deus. Trair aquele olhar seria, de fato, pior do que a morte.

João entendia a injustiça do que lhe acontecera. Compreendia agora, também, que seu caminho não poderia ser aquele. É meu direito buscar e alcançar as coisas que quero para mim; e não serão ratos comedores de beirada que vão me desviar.

O tempo foi passando, e Paulo Ferreira se tornou um jovem estudioso e indignado. Na faculdade, teve uma namorada, mas houve pouca paixão naqueles cinco anos. Fazia seu curso à noite, tinha as tardes livres e tocava violão. Não lia tanto quanto dava a entender. Seus dias nem lhe traziam grande satisfação, e nem contribuíam para construir o futuro brilhante que ele cria ser direito seu. Os pais, querendo seu melhor, recomendaram: por que não procura um estágio, para ter seu próprio dinheiro e comprar suas próprias coisas?

Paulo achou injusto: que sociedade é essa que condiciona o acesso a bens e serviços ao sucesso mercadológico? É direito de todos ter as coisas que os outros têm!

Ao invés de estágio remunerado, inscreveu-se numa ONG. Dava aulas de conscientização social em favelas. Seu pai o apoiou; mas – engraçado – embora soubesse que a escolha do filho era mais nobre que um estágio comum – algo que não se pautava pelo lógica egoísta do mercado – não sentiu o orgulho que achou que sentiria. Ainda assim, no discurso público, a escolha do filho era ideal; não cansava de elogiá-lo em meio a amigos intelectuais. Sem falar que, se a coisa fosse pra frente, se o marketing fosse bem feito, galgar posição em alguma Secretaria seria um passo simples. Segurança, liberdade e serviço social; quem poderia querer algo melhor?

A ONG ia bem; conseguiu patrocínio de um grande banco. Jovens ali se reuniam para aprender sobre seus direitos, sobre como a sociedade injusta tirara o que deveria ser deles. Paulo os incitava a questionar aquele sistema. O tráfico e o crime eram respostas naturais à violência institucionalizada do capital e de seu aparato repressor, a polícia. Não, dizia Paulo, não entrem pelo caminho da violência; ele repete o padrão, não é transformador da sociedade. “Mas pode transformar a minha vida”, rebateu Jefferson, um jovem conturbado que tinha encontrado ali um lugar para conversar e se sentir acolhido. “Por que eu preciso colocar a comunidade antes de mim?” Paulo não soube responder.

A ONG não era longe de onde João morava, e o Gilberto convenceu-o a ir um dia, ouvir uma palestra, junto com um grupo da escola. Mais tarde, contou ao professor seu desconforto: “É legal, tudo muito bonito. Mas eles ficam falando de mudar a sociedade e nunca vão fazer nada. Eu não entendo nada de lei e de governo, só sei que nunca me ajudaram. Estou pensando na minha vida e ajudando os outros com o meu trabalho. Por que eles não fazem o mesmo? Cadê aula de alguma coisa que serve pra alguma coisa de verdade?” O professor ainda insistia na importância de pensar nos problemas maiores, nas causas que faziam a sociedade ser daquele jeito, mas também não tinha como negar que João estava trilhando seu caminho e, se continuasse assim, melhor para ele. Bem sabia que os quase quinze anos dando aula não tinham gerado lá muita transformação. Sentia-se bem ao ver que o pupilo e amigo subia na vida. Sentia que, para ao menos um, seu trabalho não fora em vão.

E João subia a todo vapor. No dia seguinte, foi falar com Miqueias. João tinha ideias para expandir o bar, abrir um novo em outra vizinhança; conhecia bem o negócio e havia provado seu valor. Suas iniciativas anteriores, como colocar música na frente do bar, tinham dado retorno; já conhecia melhor as contas do estabelecimento que o próprio dono, e com toda a confiança que recebera, tinha provado também sua honestidade. Seria tolo não lhe dar essa chance. A única coisa que João demandava era que, de agora em diante, fossem sócios. Miqueias topou. E esse nem foi o maior golpe de sorte da semana.

Com a bolsa da pós, Paulo comprou um iPhone e uma capinha protetora do Che Guevara. Sua dissertação, apesar de atrasada, era elogiada pelo orientador. Um amigo que entrara num grande jornal já lhe garantira um artigo para a coluna de opinião. Estava pavimentando uma lenta estrada rumo a uma carreira intelectual de sucesso, a uma vida plena, fruto de sua genialidade fácil. Algum dia num futuro indeterminado, a livre docência e uma coluna semanal fixa! Voltou para casa cansado de tanto devanear, leu um pouco e foi dormir, contente, tendo depositado sua tese de doutorado. Dali algumas semanas, por causa de uma matéria sobre a ONG que saíra no jornal, se encontraria com o Secretário de Desenvolvimento Social para debater a exclusão na periferia.

Tudo seguia bem, até que uma sexta-feira amanheceu cinza…

Paulo acordou. Tomou seu Sucrilhos sozinho, sentado na rede da sala, olhando o Facebook no laptop.

João acordou. Mordeu um pedaço de pão duro, nem ligou a TV. Colocou sua apresentação na mochila, e foi para sua moto comprada a prestações suadas. Usada, mas bela, que ele gostava de coisas bonitas. (Nesses dias ele já tinha, por força de necessidade, chegado a um entendimento com gente da favela que tinha como garantir que ele não seria alvo da inveja alheia.) Deu a partida e partiu na longa jornada rumo ao centro, com fogo ardendo em seu coração. O fogo que o impelia a ir sempre além.

Na semana anterior, um pequeno milagre ocorrera na comunidade: a visita de um grupo de investidores procurando negócios locais “com impacto social” (o que era isso?). Era gente com grana querendo colocá-la ali. João foi hábil em conversar com os visitantes e marcar a reunião – um boteco com música e dança não era, a princípio, o tipo de negócio que eles tinham em mente. Tinha que ser no escritório deles, longe dali; condição de que não abriam mão. Talvez fosse um teste; e, como em tantos outros, João passaria.

Parou a moto num cruzamento. No mesmo pelo qual passava Jefferson; enfurecido, magoado, queimando por dentro com um fogo bem diferente, justificado pelas ideias que aprendera nas últimas semanas. Aproximou-se da moto com uma arma em mãos:

- Desce da moto, playboy! Vamos, passa o celular! Vai, mano, rápido!

- Calma, pode levar! Não me machuca! – disse João, assustado. Era sua velha inimiga, a força bruta e burra, cobrando mais uma taxa.

Jefferson subiu na moto, portando seu celular. Ele vivia para esses momentos em que ficava por cima. Duravam pouco, e ele logo caía mais fundo. Mal sabia que seria seu último momento de glória. A adrenalina anestesiou todo seu corpo. Viu que um policial se aproximava; quis metralhar aquele porco por todos os tapas e humilhações sofridas desde pequeno; mas o policial foi mais rápido e lhe deu dois tiros. Um pegou na barriga e outro no ombro. Jefferson caiu no chão, predado, abatido, ensanguentado.

O policial se aproximou com arma apontada, chutando o revólver da mão de Jefferson:

- Acabou, maluco! Acabou! – gritou o policial, enquanto tirava o celular roubado de seu bolso.

João observou a cena sem reação, estupefato. Fixou o olhar sobre o pobre coitado se contorcendo em agonia mortal. Intuiu que, se tivesse dado passos um pouquinho diferentes em sua vida, poderia ter sido ele estirado no chão. O que o desviara daquele caminho possível? Não sabia. Sentiu alguma pena: quem sabe o tipo de merda diária que o meliante deve ter tido que aturar a vida inteira, todo santo dia, para que seu espírito se rendesse à sede de destruir? Teve poucas chances na vida, e as que teve jogou fora. Era culpado, mas era também vítima de um sistema que, por algum motivo que João não compreendia, destruía oportunidades e lutava contra quem tentasse melhorar honestamente.

Uma alquimia insondável de sorte e escolha havia trazido João aonde se encontrava agora. Não cabia falar em mérito ou demérito, apenas em causa e consequência. Ele tinha sua moto e seu celular, e Jefferson não tinha nada e babava sangue no chão, e isso não era apenas fruto do acaso, e tinha sido construído ao longo de muitas decisões.

Nisso, transeuntes começavam a se aproximar do corpo. Em seus últimos momentos, Jefferson  desejou que todos os que se ajuntavam à sua volta fossem tragados para o mesmo ralo que agora o levava. O comentário popular não era mais caridoso.

- Esse aí vai roubar moto no inferno agora!

- Ladrão!

- Bem feito!

- Vagabundo.

As falas despertaram João de suas elucubrações. Sentiu pena também daqueles cidadãos. Deviam ter alguma privação muito profunda que procurava alguma desculpa para se extravasar. Prometeu a si mesmo que essa doença também não o subjugaria.

Olhou para o policial que acabara de despachar o ladrão. Tinha sofrido tanto nas mãos da polícia, humilhado por causa de sua cor e de sua condição. Naquele momento, porém, sentia gratidão pelo homem que o salvara. Pela primeira vez na vida, enxergou o que aquela farda antes tão odiada deveria representar. Era uma tragédia que a força se fizesse valer; mas, dessa vez, prevaleceu a força submetida à ordem, e não ao caos.

Aquela tragédia não impediria seu caminho. Não tinha tempo a perder. O policial foi compreensivo – que ele comparecesse na delegacia mais tarde – e João acelerou sua moto rumo ao compromisso que mudaria sua vida. Alguns raios de sol já atravessavam as nuvens. Apesar de tudo, havia alguma justiça no mundo.

Longe dali, vendo o caso no Facebook, Paulo achou tudo injusto. Jefferson não era culpado. Era a vítima. Vítima de uma sociedade construída sobre a exploração dos pobres pelos ricos, e vítima da violência gratuita de uma polícia opressora. Quem era aquele tal “empresário” que guiava a moto? Como ousava sair por aí ostentando um bem que outros não podiam ter? Jefferson estava apenas pegando o que era seu por direito da única forma que lhe foi ensinada. Incrível como, mesmo entre os explorados, a cultura capitalista – a máxima do levar vantagem em tudo – conseguia dar origem a novos exploradores imbuídos da mentalidade do sistema. Num mundo ideal, homens como João não existiriam.

Já tinha o tema para seu artigo de jornal. E começava, finalmente, a desvendar seu propósito na vida: cortar pela raiz a pretensão individualista, socialmente engendrada, de ascender para além dos demais, humilhando assim quem não podia chegar tão alto. A reunião com o secretário seria esta tarde, e ele pensava em como traduzir esse ideal em políticas reais que minimizassem a violência que a existência dos maiores representa para os menores. Que ele pudesse ser o autor de uma sociedade mais conforme sua visão de mundo lhe enchia de esperança, e ali estava um mecanismo bastante eficaz para esse fim. Aos poucos, as coisas iam acontecendo em sua vida, e Paulo começava a receber a consideração que – sempre soube – era sua por direito. Talvez o mundo não fosse, afinal, tão injusto assim...