segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Poesia e Alfabetização

Para alfabetizar uma criança, é preciso ter uma visão clara do que é o alfabeto. Alguns métodos recentes propõem alfabetizar por associação direta de palavras e coisas, sem passagem pelas letras e sílabas. Desses, o mais conhecido é o construtivista, que tem sido acusado de deixar o Brasil nos últimos lugares em todos os exames internacionais - o construtivismo é a linha adotada nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Uma variação mais moderna, de tom behaviorista, é o método Glenn Doman.
 
Convém notar que esses métodos são recentes demais, e nenhum deles apresenta provas de que funciona melhor que os anteriores. Ora, está fora de dúvida que lhes cabe o ônus da prova, pois propõem uma inversão completa da alfabetização tradicional e até do bom-senso.
 
Sem entrar em discussões teóricas muito específicas, pode-se dizer que a língua escrita foi concebida como uma codificação da falada. Essa dependência epistemológica se manifesta nas regras de ortografia (por exemplo, a transformação da nasal n na bilabial m antes de consoantes bilabiais como b). Aliás, para compreender um texto temos de ser capazes de sentir seu tom, ou seja, fazemos imaginativamente uma reconstrução sonora da frase escrita. Verba volant, scripta manent; o natural é sentirmos a língua falada como mais viva, mais compreensível, e portanto como uma base mais confiável para a comunicação.
 
Ora, se vamos admitir que a poesia tenha alguma utilidade na alfabetização, temos que dispensar imediatamente os métodos "intuitivos" ou "visuais" de leitura. Pois a poesia é um gênero de base oral, inequivocamente. É definida por pausas (no fim dos versos ou estrofes), por rimas, por aliterações. A própria palavra verso vem do latim vertere (dar uma volta), da qual derivam palavras como revertervórtice, indicando a necessidade de pausar a leitura periodicamente.
 
Uma característica fundamental do discurso poético é produzir musicalidade dentro das limitações do idioma. Isto é, não existe plena liberdade para o ritmo da poesia. Não é válido alterar as sílabas tônicas de uma palavra, e não existe partitura para instruir o leitor sobre o tom que deve reger cada verso. O poeta precisa contar com o arcabouço linguístico natural. Os efeitos que um grande poeta consegue extrair da sonoridade banal de uma língua têm, portanto, um resultado muito positivo na educação linguística da criança. Ela pode usar os versos como um espelho (speculum) para perceber mais facilmente as regras internas da entonação e da pronúncia. Basta pensar nos benefícios fonéticos de recitar "Vou levando a Ventura e a Desgraça,/Vou levando as vaidades da Vida!" (Olavo Bilac). Bem melhor que "vovô viu a uva".
 
A poesia também é notável por produzir um efeito encantatório, fruto da harmonia entre imagens, sonoridade e semântica. Nos versos acima, a aliteração de vv e dd imita o som de uma ventania, sugerindo que o tempo (eu-lírico do poema) é semelhante às ventanias, levando embora os segundos e os acontecimentos. Essa harmonia quase mágica entre os elementos linguísticos e o significado das palavras educa a inteligência para buscar, também ela, uma harmonia completa entre seus gestos, seu modo de falar e suas intenções subjetivas. Como mostra Roger Scruton, em Why Beauty Matters?, a sensibilidade estética tem grande parte na diferença entre um medíocre e um homem educado.
 
Para completar, a poesia oferece às crianças muito do que elas procuram naturalmente nessa fase. Efeitos sonoros atiçam a curiosidade infantil, como no clássico poema de Vinícius de Moraes, que ninguém consegue ler sem um sorriso: "o pato pateta/ pintou o caneco/ surrou a galinha/ bateu no marreco". As pausas ritmadas frequentemente facilitam a leitura. O exercício de decorar poemas e recitá-los responde a um anseio natural das crianças; basta ver como decoram até comerciais de televisão, e como têm prazer em mostrar essas realizações aos adultos.
 
Chega a ser curioso que alguns levantem contra os poemas a objeção de serem "difíceis". Crianças não sabem o que é "difícil". Para elas, tudo é novo, tudo é difícil, e por isso mesmo tudo é um desafio. Decoram o que ouvem e repetem o que você diz, mesmo que não entendam patavinas. Minha irmãzinha uma vez falou que nossa casa era muito bagunçada, uma "pocilda"; tinha escutado num desenho a palavra pocilga, e repetiu-a quando se viu num contexto semelhante, mesmo sem saber-lhe a definição. É comum reproduzirem palavrões, sem terem ideia do que significam, só pelo efeito chocante. Se aprendem textos comerciais e palavrões, por que não decorar poemas?
 
Mais ainda: todos os pedagogos tradicionais supunham que crianças devem ser alimentadas, desde a mais tenra idade, com o melhor que nosso idioma já produziu. Por isso o jovem grego decorava Homero, o romano Virgílio; por isso Goethe aos dez anos brincava com a irmã de recitar poesia religiosa germânica. Por isso Manuel Bandeira, criança, sabia trechos d'Os Lusíadas de cor, e chegou a refrescar a memória do velho Machado de Assis uma vez, quando o encontrou num trem. Mas isso, dizemos, era bom para Platão, Cícero, Bandeira; para nossos filhos, melhor O Pintinho Piu-Piu (título inventado, com grande felicidade, por minha mulher, para condensar a péssima literatura infantil que se produz hoje em língua portuguesa). Caviar é para os brancos; aqui na senzala, só pé de porco. E como, pergunto eu, sairemos da senzala cultural nesse ritmo?
 
Espero, pois, um despertar dos pais brasileiros para a grande utilidade da poesia desde a meninice. Desenvolve a percepção linguística, o senso estético, a harmonia geral de corpo e mente; melhora o vocabulário, é divertida e agradável, confere às crianças um sentimento de evolução pessoal e respeito pelos clássicos. Por que, então, desprezar o tesouro de nossa literatura para alimentar a indústria de autores canônicos do MEC, que aliás são quase sempre semi-analfabetos sem gosto literário e cheios de panfletagem ideológica? Por que nossas crianças devem aprender o português com o lixo subcultural de escritores políticos, quando temos Cecília Meireles, Olavo Bilac, Mário Quintana, Vinícius de Moraes? Fica meu convite e desafio aos restantes pais brasileiros: redescubramos a poesia, por nossos filhos.

Originalmente postado em Homeschooling Brasil.