quinta-feira, 1 de março de 2012

O Cristianismo não é Conservador

Dessa vez meu interlocutor é Fábio Blanco, que em artigo recente no MSM (O conservadorismo religioso não se opõe à razão), alimentando a querela sobre esse triste movimento que é o conservadorismo, deu um diagnóstico avassalador sobre meu posicionamento: minhas opiniões advêm da total ignorância teológica e moral.
"Alguns liberais podem até entender alguma coisa de economia, mas quando adentram pelo campo do debate moral e religioso vacilam, menos por serem eles mesmos amorais e mais por não entenderem nada de teologia, que é o fundamento da moral conservadora."
Começo apontando que Blanco errou o alvo da minha crítica ao centrar o debate na religião e na relação entre fé e razão. Pois não vejo, e nem meus textos apontam, nada de errado na religião (e olhe que "religião" é outro termo que engloba coisas muito diferentes); a bronca é com o conservadorismo. É possível ser conservador sem ser religioso - presumo que seja o caso de Lara Resende e Mellão Neto. Embora não saiba se eles são ou não religiosos, seu conservadorismo é secular; não faz referência à fé, a Cristo, à Bíblia, etc. É possível ter um conservadorismo religioso (baseado na fé), como é o caso de Nivaldo Cordeiro e Fabio Blanco. E é ainda possível ser religioso e não ser conservador - e esse é o meu caso e de outros na história, como por exemplo - lanço uma provocação intencional - S. Tomás de Aquino.

Até onde posso ver, Blanco e eu temos concepções similares no que diz respeito à fé e sua relação com a razão. A fé não é algo irracional, embora também não possa ser demonstrada. Argumentos inconclusivos, experiência pessoal e certa atitude para com o mundo, tudo isso guiado pela graça de Deus (falo, obviamente, como quem tem fé), contribuem para aceitar algo que, considerado de forma puramente fria e analítica, ou acadêmica, careceria de evidências suficientes. E uma vez aceita, inicia-se um processo que, se incluir o desenvolvimento intelectual, levará a pessoa a encontrar motivos mais profundos e sólidos para certas coisas (não para tudo) que antes aceitara na base de uma espécie de confiança. Nisso estamos de pleno acordo.

Mas Blanco comete um equívoco bíblico que o permite salvar o conservadorismo cristão da pecha de "irracional". Em minha resposta a Nivaldo Cordeiro, eu indagara se a "Lei de Deus" na qual os conservadores religiosos se baseiam era a Lei Antiga (os Dez Mandamentos, e podemos somar a eles a regra de ouro: "faça aos outros o que queres que façam a você") ou a Lei Nova dada por Cristo. Blanco vê nessa minha distinção uma ignorância não apenas teológica mas até mesmo catequética:
"Neste ponto, seu equívoco se encontra na incompreensão da natureza das duas alianças bíblicas. Qualquer catecúmeno logo aprende que quando Cristo apresentou o amor a Deus e aos homens como o primeiro e segundo mandamentos, o fez afirmando que a antiga lei se resumia nisso."
Ocorre que o erro está é com ele. Há uma leitura equivocada (muito comum, por sinal) do Evangelho que confunde duas coisas: a Lei Nova dada por Cristo e a síntese que Cristo faz da Lei Antiga (que, quando apreendida pela razão, chama-se lei natural). A síntese que Cristo faz da Lei Antiga é "Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo" (Mt 22, 36-40); ao fazer isso, Cristo apresenta o sentido último da Lei Antiga. Embora seja similar à Nova Lei que formulará depois, na Última Ceia, elas não são iguais. Pois a Nova Lei diz: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amo" (Jo 15,12) . Essa Nova Lei difere da síntese da Lei Antiga ao dar uma nova medida do amor que os homens devem ter uns pelos outros: a medida do amor de Deus. Esse amor divino a que o homem é chamado chama-se "caridade". É um amor que em muito excede a capacidade humana, e para o qual precisamos da graça de Deus, que nos permite 1) ver nos homens a imagem de Deus, e esse é o fundamento da caridade, e 2) de fato sentir e agir com base nessa percepção iluminada pela graça. A Nova Lei, portanto, vai além da Lei Antiga, e não é acessível à razão de quem não tem fé.

E qual era meu argumento? Que a Nova Lei de Cristo não pode ser a base da política: primeiro porque ela é inacessível à razão enquanto tal, e a política é âmbito de todos, crentes e descrentes; segundo porque ela é algo estritamente pessoal (pois decorre da relação do indivíduo com Deus), não podendo ser de forma alguma compelida; e, terceiro, porque a condição extrínseca que nos predispõe à Nova Lei é justamente a boa vivência da Lei Antiga, e portanto é ela que nos deve ocupar na política. Tentar transformá-la em programa, o que significaria substituir as demandas da lei natural pelas da caridade, é desastroso. A postura política cristã (como eu a vejo), portanto, não precisa e nem deve ir além da lei natural.

Reconheço que esse ponto é um pouco vão, dado que as Leis nas quais o conservadorismo religioso em discussão se baseia são claramente os preceitos da Lei Antiga. E a esses conservadores, só posso dizer: não usem a Bíblia como ponto de partida, pois ao fazê-lo alienam todo mundo que não aceita a Bíblia: transformam questões a princípio solúveis pelo debate e pela convivência em partidarismos que só podem se resolver pela força. Posicionar-se politicamente com base na razão e na lei natural em nada contradiz ser um homem de fé e deixar-se guiar pela fé em suas ideias, palavras e atos. O que a lei natural, isto é, o uso da razão como guia da vida humana, contradiz é tomar as tradições e convenções que nos foram legadas como o critério da verdade e do bem. Ela insta todo homem a colocar-se a si mesmo, indivíduo dotado de razão, como juiz daquilo que chegou até ele; consciente, é claro, de sua própria limitação, assim como da limitação de seus antepassados, e disposto a tratar com eles em pé de respeitosa igualdade.

A consideração que fiz acima sobre a caridade toca no ponto principal que quero tratar neste artigo, e que é a questão mais interessante: seria o Cristianismo uma religião naturalmente conservadora? *Pausa para suspense* Não, não é. É claro que é possível ser cristão e conservador, como tantos são (não tenho o menor receio em também dizer que é possível ser cristão e esquerdista - coisa que não sou). Mas não são coisas que combinam tão bem assim.

Para início de conversa, o Cristianismo começou como uma novidade no mundo. Até hoje, aliás, ele é a novidade no mundo. Para quem nasceu em meio cultural cristão é difícil enxergar o tamanho dessa novidade, e mesmo de sentir seu apelo: Deus nos ama para muito além do que somos capazes de imaginar, e oferece a chance de nos unirmos a Ele, partilhando de sua natureza; algo muito além do que nossas capacidades naturais podem almejar ou mesmo imaginar. Ele se fez homem para viver conosco, nos ensinar, partilhar nossas angústias e efetuar essa união. Esse espírito da descoberta da novidade e do maravilhamento que ela traz pode ser facilmente sufocado pelo peso de tradições e convenções que, ainda que muitas sejam até boas em si mesmas (nem sempre são), tomam o primeiro plano.

Intelectualmente, o que há de melhor no Cristianismo sempre foi a capacidade de integrar e usar criativamente fontes díspares para se chegar a novas concepções. S. Justino Mártir e Clemente de Alexandria citados por Fábio Blanco se encaixam aí; sem falar em seu sucessor S. Agostinho. Poderia citar também S. Gregório de Nissa, pensador cristão que, entre outras coisas, foi o primeiro a condenar a instituição da escravidão enquanto tal; essa condenação - tão anacrônica no século IV d. C. - é uma mostra do espírito e do poder inovadores do Cristianismo.

Não posso deixar de mencionar S. Tomás a esse respeito, e a enorme (e virulenta) oposição que suas posições, muitas delas revolucionárias, sofreram do clero e dos professores conservadores. Foi entre cristãos que surgiu a ciência natural verdadeira, primeiro com a elaboração do método experimental e depois com a libertação gradual dos erros aristotélicos que nos aprisionavam; e isso só ocorreu porque tiveram a coragem de dizer que antiguidade não é prova. Os gigantes sobre os quais sentamos eram tão falíveis quanto nós, e erraram muito. O espírito cristão é o espírito da descoberta e da audácia, dos altos ideais e da sede pelo bem, e não o do conformismo conservador e cansado.

Assim, embora os cristãos, em sua maioria, tenham sido conservadores (como são provavelmente a maioria das pessoas), empenhados em manter a tradição pela tradição, o brilho cristão floresceu mais vivo exatamente nos inovadores e criativos; cujo espírito, ironicamente, foi contrariado ao terem suas obras transformadas em novos cânones e tradições inquestionáveis. É o caso de todos os Doutores da Igreja (vide esta tentativa de se refutar Darwin com base na metafísica de S. Tomás) e de tantos outros dentro e fora do âmbito religioso, dado que essa mesma dinâmica opera em quase tudo.

Por fim, politicamente, o Cristianismo é a religião que dessacralizou os reis e imperadores; que os colocou ao nível dos reles mortais. Que relativizou a autoridade soberana ao ensinar que uma lei pode ser injusta a ponto de não dever ser obedecida. Que chegou até mesmo a defender o tiranicídio. Que deu origem ao conceito de direitos individuais inalienáveis e ao entendimento da economia de mercado. Nesse âmbito também o conservadorismo da maior parte dos membros da Igreja se fez sentir ao longo da História, mas foi exatamente o elemento não-conservador, inovador, racional, vivo, que falou mais alto; tão mais alto que o conservadorismo ocidental (do tipo saudável; não estou falando em momento algum de tradicionalismo e esquisitices similares) é notadamente menos reacionário que seus correlatos em outras culturas.

Foi o Cristianismo que deu origem à civilização ocidental, e o que é essa civilização se não o reinado da razão e, portanto, a relativização da tradição enquanto valor? Quem valoriza a tradição acima do indivíduo e da razão individual (e ela só pode ser individual) deve ir pra Arábia, pra China, pra Rússia; o Ocidente não é seu lugar. Com tudo isso, é mesmo uma pena ver gente inteligente dizendo que o traço fundamental e mais importante de nossa civilização é a obediência à tradição! Sim, o conservadorismo de hoje em dia defende em parte as conquistas anti-conservadoras feitas pela sociedade cristã alguns séculos antes; contudo, defende-as exatamente pelo motivo que dificultou seu nascimento. Foi também o espírito conservador e reacionário que, pouco a pouco, criou a cisão lamentável que existe entre o clero (que em diversos períodos se prestou a bastião do conservadorismo mais tacanho) e o resto da sociedade; cisão que não é de hoje e que talvez seja o que mais prejudica a Igreja.

Hoje em dia o conservadorismo serve de caminho e porta de entrada para o Cristianismo? Acidentalmente sim, dado que nossa tradição é cristã e que o conservadorismo valoriza a tradição. Como o Cristianismo caiu em descrédito na opinião dominante, o conservadorismo acaba sendo seu aliado natural. Mas uma vez convertido, cumpre se livrar dos erros desse pensamento que, se levar a melhor e tomar conta da Igreja, será bem-sucedido apenas em dar-lhe um aspecto ranzinza e fechá-la num gueto.

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Uma nota final: quanto ao comentário sobre o movimento conservador da população brasileira: concordo que ele possa ter efeitos bons, como por exemplo barrar a legalização do aborto. Mas não posso deixar de apontar o óbvio: ele é insustentável a longo prazo. Comparem a aceitação social de sexo antes do casamento há cinquenta anos (ou trinta anos!) e agora; o sentimento popular muda muito rápido. Se o motivo de se defender algo é "sempre foi assim", seus dias estão contados. Não é com base no moralismo carola que a sociedade há de se endireitar; a não ser, é claro, que nosso ideal de sociedade seja a Arábia Saudita.