quarta-feira, 28 de março de 2012

Confissões

A leitura recomendada do dia (mais especificamente aos católicos e àqueles que se interessam pela Igreja Católica) é esta sobre o Sacramento da Confissão ou Reconciliação. Os três textos do link são ótimos, mas meu foco está no terceiro, que relata as experiências de um padre (e frade franciscano) como confessor, e o que tem mudado ao longo das décadas.

Nasci e vivo num período posterior às mudanças por ele relatadas; contudo, como a Igreja não é homogênea, convivendo nela elementos conservadores, liberais, progressistas, tradicionalistas, etc. tenho alguma experiência das duas maneiras de se realizar o Sacramento. Elas partilham, é claro, da mesma essência, mas suas diferentes roupagens externas têm relevância prática. Abaixo faço um "tipo ideal" das duas (ou seja, uma descrição genérica com os diversos elementos que as caracterizam, sabendo perfeitamente bem que, na prática, poucos casos concretos unem todos esses elementos).

A maneira antiga: a confissão se dá num confessionário, um objeto de madeira (cujo uso começou no século XVI, embora janelas de confissão com grades separadoras já existissem há mais alguns séculos) que garante a separação, e a anonimidade, entre sacerdote e fiel. O fiel se ajoelha, o padre abre uma janelinha, o fiel confessa uma lista de pecados de acordo com a gravidade deles (definida no ensino oficial da Igreja), às vezes seguindo os Dez Mandamentos como um guia. O padre lhe prescreve alguma penitência ao fiel: algo como 3 pais-nossos e três ave-marias, e diz o ato de absolvição.

A maneira nova: a confissão se dá numa pequena sala, ou mesmo num espaço um pouco apartado dentro da igreja. Sacerdote e fiel estão ambos sentados ou de pé, sem nada que os separe; mantêm contato visual. O fiel conta suas angústias ao padre, revelando aqueles atos, situações e relações que mais pesam em sua consciência. O padre prescreve uma penitência mais intrinsecamente ligada às dificuldades do fiel, como fazer as pazes com quem ele brigou, fazer alguma leitura específica da Bíblia, fazer uma boa ação, etc. e diz o ato de absolvição.

A maneira antiga (que é antiga para nós; já é algo muito diferente do que era a confissão e a penitência nos primeiros séculos da Igreja) visa acima de tudo facilitar as coisas para o fiel. Como o foco é em confessar atos pecaminosos, com especificidade o bastante para que fiquem caracterizados, e isso é algo que gera uma certa vergonha, cria-se uma situação na qual fiel e padre não se identificam. Ele facilita a transformação da confissão num ato rotineiro e indolor. As próprias penitências, embora algo mecânicas, são quase sempre muito leves (a ideia de que padres no passado davam centenas de pais-nossos e ave-marias para o pobre fiel passar o dia rezando em penitência é falsa; a coisa sempre foi muito leve). O fiel vai, confessa sua lista de forma impessoal, recebe uma pequena penitência (às vezes também um conselho genérico), ouve as palavras da absolvição e sai renovado. O pior que pode acontecer é o padre ser ranzinza e ser ríspido, mas mesmo nesse caso o custo psicológico é baixo, pois o padre pode mesmo ser um anônimo. A experiência é indolor (ao contrário do que mostram os filmes), mas também tende à complacência.

A maneira nova exige mais do fiel. Ele está ali para abrir sua alma ao sacerdote, expondo elementos comprometedores de sua vida. Exige mais do padre também, que tem que olhar mais profundamente cada caso e tocar o fiel de alguma maneira pessoal, sempre tomando cuidado para não julgá-lo; ele deve ali ser exemplo da infinita misericórdia de Cristo. Corre-se um risco maior de se desvirtuar a experiência, transformando-a numa sessão de psicanálise amadora; ao mesmo tempo, a forma de ministrar o Sacramento tem um potencial maior de transformar internamente ao fiel, que é exatamente sua finalidade.

A primeira preocupa-se em dar aos fiéis, ao maior número deles, as condições mínimas necessárias para não irem para o Inferno. Bem ao estilo do Catolicismo trentino, é muito tolerante e que exige pouco das massas, desde que se mantenham dentro das regras, muito bem definidas, do jogo. A segunda quer elevá-lo à santidade; e por isso exige mais dele, mas também tem mais a oferecer. Representa o Catolicismo que já passou pelo Concílio Vaticano II, que ao invés de se fechar ao mundo, abre-se para ele, confiante nas promessas de Cristo. Talvez por isso mesmo a mudança no nome: ao invés de Confissão, falamos agora em Reconciliação.