domingo, 1 de julho de 2012

Você gostaria de viver para sempre?

Se já conversei com você mais de uma vez, provavelmente você já deve ter sido indagado sobre isso. Não tenho como rotina fazer essa pergunta, mas acredito que seja uma forma simples de entender um pouco sobre a pessoa com a qual estou lidando e ao mesmo tempo satisfazer uma espécie de curiosidade, ou seja, entender por que as pessoas são fatalistas em relação à morte ou, em termos mais corretos, por que elas não gostam de viver. 

Acredito que seria bem adequado falar aqui sobre como o cristianismo é um dos maiores fatores na geração dessa visão pessimista (ou às vezes otimista) sobre a morte, mas não sou nem de longe um conhecedor da teologia cristã e deixo isso para outras pessoas do Ad Hominem que vão poder abordar de uma forma melhor esse tema. Com isso só quero destacar que a religião é um dos fatores, mas não é o único. 

Dito isso, tenho a impressão de que os maiores fatores para as pessoas não verem com bons olhos viver para sempre são coisas simples como medo do desconhecido, medo de não adaptação e a sensação de que a vida não é algo que vale a pena, pois na minha visão a maior parte das pessoas não tem um projeto de vida, e quando tem, não o seguem como gostariam. 

Toquei nesse tema porque nas últimas semanas foram publicadas algumas reportagens sobre criogenia na imprensa brasileira. O caso em que ela está ocorrendo é altamente bizarro, mas a imprensa até que está dando uma cobertura justa ao fato. Acho bizarro porque a pessoa não manifestou o desejo de ser congelada; e no final das contas o caso é simplesmente uma filha apegada ao pai que quer ressuscitá-lo, não se importando com o que ele acharia disso. Como vivo dizendo, isso não é egoísmo, é exatamente o oposto, a indiferença. 

Dando certo ou não a saga da filha para enviar o corpo do pai para o túmulo de criogenia, não acho que atualmente a criogenia tenha muitas chances de sucesso. Mas mesmo assim, pretendo em breve estar inscrito no programa, já que alguma chance é melhor do que nenhuma. O problema principal na minha visão é que provavelmente devemos estar fazendo algo errado no processo de congelamento, o que vai impedir que a pessoa seja ressuscitada ou fazer com que a mente se perca no meio do caminho. 

Mas o motivo do texto é fazer um questionamento se baseando em um cenário que a criogenia funcione. Se você fosse congelado e só fosse possível ressuscitá-lo daqui a 300 anos e nenhuma das pessoas que você conhece atualmente estivessem vivas, você gostaria de viver? Para minha surpresa, grande parte das pessoas a que faço esse questionamento responde que preferem estar mortas. 

As explicações ficam variando entre não devo conseguir me adaptar a um mundo completamente diferente e não faria sentido viver sem as pessoas que tenho ao meu redor. 

Esse tipo de dilema é reproduzido de alguma forma no filme Vanilla Sky (ou Abra Los Ojos na versão anterior em espanhol) e acredito que seja facilmente rebatido. Penso que cada vez que o agregado de tecnologia aumenta fica mais fácil de viver em determinado contexto; sendo assim, é mais fácil viver bem hoje em dia do que na ideia média ou na idade antiga. Quanto a isso, não há necessidade de preocupação, até porque se alguém tem implantes para melhorar a Inteligência nesse mundo novo, você também poderá ter. Quanto ao círculo social, já era de se esperar esse apego aos amigos e familiares. Isso é parte importante de nossas vidas e de alguma forma é algo insubstituível, mas você nasceu sem conhecer nenhum deles e não seria algo mais traumático do que os colonizadores do novo mundo ou mudar atualmente para o outro lado do mundo. 

Mas ainda existe um terceiro receio quanto ao futuro, que é a predominância do digital sobre o não-digital, dando calafrios em boa parte das pessoas. Isso levanta uma série de temas sobre o que pode ser considerado real e verdadeiro e até que ponto vamos conseguir conviver com a inteligência artificial e no final das contas pode ser um ponto extremamente complicado para a maior parte das pessoas que não têm um ponto de vista positivo sobre isso, porque nesse caso é importante existir durante a transição para ir incorporando a aceitação a esse tipo de contexto; isso seria de forma ampliada o choque que as pessoas da década de 40 e 50 teriam com o mundo digital atual.

Então, você gostaria de viver para sempre?