sexta-feira, 6 de julho de 2012

Respostas a Olavo - Filosofia, Virtudes, Palavras

Obrigações acadêmicas me fizeram adiar este texto. Mas já que a resposta do filósofo Olavo de Carvalho a um texto anterior meu suscita diversas questões que julgo muito relevantes de se discutir, volto ao debate depois deste intervalo. Admito que fiquei em dúvida se deveria respondê-lo ou não, porque em muitos pontos não existe uma discordância clara. Deixo claro que, em diversas seções, escrevo sobre assuntos tratados pelo Olavo, dando talvez até um outro ponto de vista ou abordando a questão de maneira diferente, sem necessariamente contestar o que ele disse.

Acabei me convencendo, no entanto, de que existem em jogo visões diferentes sobre o que é a filosofia e qual seu papel, e por isso publico aqui minha tréplica neste debate, deixando a cargo do Olavo responder ou não a mais este artigo.

Da mesma forma como ele me acusa de tê-lo lido mal (coisa que, ao menos em um ponto, de fato fiz: realmente pareceu-me que ele defendera a superioridade filosófica das escolas de catedral sobre as universidades medievais), diversas opiniões que ele atribui a meu texto não estão lá. Meu foco, contudo, não será apontar esses erros de leitura; me interessam mais as questões discutidas enquanto tais. 

Não me proponho a fazer uma resposta completa ao artigo dele, mesmo porque ele trata de uma série de temas diferentes - ainda que de alguma forma ligados - e eu não discordo de muitas das opiniões apresentadas. Vou organizar meu texto com base em temas gerais que ele cobriu, comentando o que me parece relevante. Assim como ele aproveitou a ocasião para desenvolver diversos temas interessantes mas não diretamente relevantes à discussão, eu também tomarei a liberdade de fazer comentários e tecer algumas considerações livres. Tendo em mente que minhas opiniões interessam muito menos ao público leitor do que as do Olavo, tentarei mantê-las curtas.


Sobre a filosofia medieval e como ela ilustra nossa polêmica

Em primeiro lugar, nossa concordância: nas universidades medievais fez-se filosofia muito superior a qualquer filosofia que tenha sido feita nas escolas de catedral dos séculos X-XII.

Como Olavo diz, a universidade medieval não formava gentis-homens; aliás, não efetuava, ela própria, nenhum tipo de formação moral dos estudantes. Apesar disso, afirma ele, alguns poucos indivíduos que ensinaram na universidade (cuja formação moral ocorrera em outros contextos, como a vida religiosa - isto é, a vida em uma ordem religiosa de monges ou frades) tiveram notável produção filosófica. Meu receio e minha possível discordância (pois que, como já afirmei, não tenho opinião formada na questão), é que, talvez, grande filosofia tenha sido produzida nas universidades justamente pelo motivo de elas terem abandonado a ideia de formar gentis-homens. Enquanto o foco e o ideal for o gentil-homem, o clérigo ou o administrador público de formação ampla e de modos refinados, não se fará filosofia superior. Na interpretação do período histórico em questão, estou com Jaeger: "Its contribution [da educação dada nas escolas de catedral] to rational thought was minimal, in fact retarding, since it was based on personal authority and discouraged skeptical, critical thinking."

Quero também deixar um questionamento a algo que Olavo toma como verdade evidente: de que os alunos das ECs provocariam "inveja aos anjos". Ora, isso foi dito por quem? E até que ponto é expressão confiável da realidade? Pelo que Jaeger diz, as ECs eram escolas para a elite medieval, e o que elas nos legaram foram os modos da aristocracia europeia. Nem me passa pela cabeça dizer que tais modos seja maus em si; mas que é muito fácil para mentes deslumbradas confundir elegância exterior dos modos com virtude, e um saber diletante, generalista no mau sentido, com sabedoria, certamente é. E assim como hoje vemos muitos "anjos" nas páginas das revistas que falam sobre as elites ou nos encômios sobre ilustres advogados, diplomatas, literatos e políticos, não se pode imaginar que o mesmo engano ocorresse no século XI? Não tenho como afirmar nada aqui, tal o meu desconhecimento do tema. Apenas aponto o óbvio: alguém ter admirado a suposta virtude de uma classe não prova ter sido essa virtude real.

Deixemos de lado as ECs para falar de algo que me sinto mais a vontade para dar contribuição: a escolástica e a universidade na qual ela majoritariamente ocorreu.

Olavo encara a escolástica como o florescimento de uma cultura cujas bases foram lançadas pela educação das ECs e do monaquismo (embora os dois fossem coisas muito diferentes, e até opostas, como se vê na atitude de um S. Anselmo para o mundo secular, do qual ele acreditava que pouquíssimos seriam salvos). Os poucos grandes escolásticos, segundo ele, estavam na universidade mas não eram da universidade; tiveram formação religiosa e moral por outras fontes e eram homens de grandes virtudes. E de fato, os quatro nomes que ele seleciona como os grandes do escolasticismo foram santos. (E santos de vida religiosa mendicante, algo que, ao contrário dos gentis-homens da aristocracia e do monaquismo tradicional, era malvisto pela elite estabelecida; lembrem-se da biografia de S. Tomás: quando ele quis virar dominicano ao invés de beneditino, causou um enorme rebuliço na família, que chegou a trancá-lo no castelo).

Não posso deixar de apontar, contudo, o viés de seleção que Olavo revela. Que S. Alberto, S. Tomás, S. Boaventura e Duns Scotus sejam luminares da filosofia escolástica não há dúvida. Contestarei três teses de Olavo a esse respeito: 1) Que os citados eram corpos estranhos no meio universitário. 2) Que eles foram os únicos grandes nomes da escolástica, sem nenhum outro igual em importância. 3) Que fora os luminares da escolástica, o resto dos pensadores do período foi irrelevante: burocratas medíocres que não fizeram nada de valioso.

1) Para não transformar este post em biografia de escolásticos, vou me ater brevemente sobre Tomás de Aquino e Duns Scotus, cujas vidas eu conheço melhor do que as dos outros dois.

Vamos lá: S. Tomás era um corpo estranho à universidade, que tentou de todas as formas expulsá-lo e calá-lo, tão fora de lugar que ele estava? Essa interpretação, a meu ver, não se sustenta. S. Tomás tomou parte, isso sim, num longo processo de disputa interno à universidade: disputa entre o clero secular que antes a dominava e o clero mendicante cuja presença institucional crescia. Essa disputa política era mais ou menos refletida na disputa filosófica entre agostinianos conservadores e aristotélicos inovadores. E era uma disputa interna entre facções que lutavam para ter/manter seu espaço lá dentro. S. Tomás não era um estranho no ninho; era membro de um grupo inicialmente minoritário mas com presença crescente e que levaria a melhor no longo prazo. Mais tarde, algo similar aconteceria com Ockham e, genericamente, o nominalismo; inicialmente condenado e banido, terminou por dominar o sistema universitário. (Outras disputas, paralelas a essa, também existiam: por exemplo, entre franciscanos e dominicanos, as duas ordens mendicantes. Um dos maiores oponentes de S. Tomás foi John Peckham, de Oxford, que não era secular, mas franciscano, e condenou suas teses. Tudo isso era interno ao mundo universitário; não era uma briga entre a universidade e algum elemento externo que vinha negá-la ou combatê-la.)

Para além de tudo isso, havia ainda os bispos locais - esses sim elementos externos - horrorizados com as heresias que circulavam nas universidades, e que volta e meia condenavam diversas proposições. Por sua vez, eram usados pelas facções internas à universidade para condenar este ou aquele ponto de vista rival. Infelizmente, o mundo medieval não estava muito confortável com a ideia de liberdade acadêmica que hoje cultivamos (Bem, talvez hoje em dia ela esteja se enfraquecendo de novo); na verdade, ela estava sendo criada ali, e essa criação não se deu sem muitos conflitos. As cartas de Nicolau de Autrecourt, por exemplo, foram todas queimadas. Tentou-se até mesmo proibir a leitura de Aristóteles; proibição que, como sabemos, foi letra morta.

A carreira de S. Tomás é um pouco fora da curva porque ele foi em dado momento designado por sua ordem a cuidar de um centro de estudos para os dominicanos e também para dar aula em alguns outros lugares, e para isso saiu da universidade de Paris. Mas a sua obra é clara em mostrar que ele estava, antes, levando o que se fazia na universidade para outros contextos. Seus textos são questões disputadas, comentários, sumas; coisas que os acadêmicos faziam. Suas referências são o Aristóteles recém-chegado, Agostinho, os Santos Padres e os comentadores lidos nos meios universitários. Ele foi parte do meio universitário de sua época, participou inclusive dos conflitos inerentes a ele.

Por sua vez, Scotus, ao contrário do que diz Olavo, desde cedo firmou sua reputação e teve muitos seguidores e debatedores, i.e., arraigou-se no meio universitário, seja como doutrina seguida pelos franciscanos ou combatida por outros. Sua expulsão da universidade (à qual voltou alguns meses depois) se deu por motivos políticos externos à universidade (a querela entre rei e papa mencionada por Olavo) e de forma alguma significa que ele fosse contrário ao sistema universitário enquanto tal, ou que este lhe fosse essencialmente hostil. Ele era um homem da universidade, assim como foi S. Tomás e outros.

2) Os quatro citados de fato são dois grandes autores da escolástica. Mas faltaram dois da mesma estatura e importância filosófica: Pedro Abelardo e Guilherme de Ockham. Pedro Abelardo foi, digamos, pré-escolástico, e viveu na transição entre as ECs e a universidade enquanto tal. Mas ele lançou as bases da escolástica e sua influência no pensamento ocidental é enorme. Ockham, por sua vez, é indiscutivelmente um homem da universidade medieval, um verdadeiro escolástico universitário (no bom e no mau sentido; tentem ler um texto dele e vocês verão!) e um divisor de águas da história da filosofia. Incluído Ockham na lista (e é impossível não incluí-lo), cai por terra a tese de que os grandes escolásticos o foram por causa de suas virtudes pessoais; não consta que ele as tivesse; certamente não foi santo.

3) Também é falso dizer que, fora esses grandes nomes (que já não são poucos para um período de 200 anos em instituições que congregavam uma minoria diminuta da população), a universidade medieval só produziu nulidades. Outras figuras menores também tiveram seu brilho e seu valor: Alexandre de Hales mencionado por Olavo, Henrique de Gand (padre secular, ou seja, sem a rígida disciplina religiosa a que Olavo atribui o mérito filosófico dos quatro grandes), Pedro de João Olivi, Roberto Grosseteste, Roger Bacon, Nicolau Oresme, Nicolau de Autrecourt ("o Hume da Idade Média"), Gabriel Biel, e outros tantos. Nenhum deles é um grande luminar do pensamento universal, mas são nomes de respeito e com relativa importância em seu período, e não "técnicos, burocratas, agitadores, doutrinários de dedinho em riste, bedéis e uma infinidade de puxa-sacos". Esses também é claro que houve, como o Guilherme de Saint-Amour citado por Olavo, mas não se tratou de um mar de um lama com umas poucas flores de lótus que despontaram apesar do lodo. Havia ruins, bons, ótimos; muito mais uma gradação de continuidade do que uma oposição entre uns poucos filósofos genuínos e uns arruaceiros burros e malvados.

Ao contrário do que Olavo acusa, nunca parti da premissa de que um filósofo é "fruto natural", espontâneo, de um meio cultural; nem meu texto o diz ou insinua. Apontei apenas que S. Tomás e outros eram pessoas da universidade; faziam parte dela, viviam suas polêmicas internas, discutiam com outros membros e usavam dos termos e formas de expressão correntes internamente. Isso é diferente, por exemplo, da relação já mencionada entre S. Anselmo e a educação aristocrática de seu tempo, ou de Descartes e da escolástica de seu tempo; Descartes recebeu educação jesuítica e escolástica, mas sua obra é uma clara ruptura com ela. S. Tomás não; sua obra é a fina flor da escolástica, superior sim a centenas de outros menos brilhantes do que ele, mas claramente parte daquele meio e daquela cultura intelectual. Superou suas limitações sem deixar de fazer parte dela, ao contrário de Descartes, que superou-as começando algo inteiramente novo. Leia um texto de S. Tomás, compare ao de outro universitário de sua época, e você comprovará: eles estavam participando de um mesmo jeito de se fazer filosofia. E não é de se estranhar que estivessem ligados à mesma instituição. Agora compare as Meditações de Descartes com o que faziam os doutores de filosofia do seu tempo. Aí está a diferença.

É óbvio que nenhum filósofo foi produzido espontaneamente pelo sistema universitário medieval. (Provavelmente minha rejeição à tese de que o filósofo é fruto de seu meio é ainda mais radical do que a do Olavo, que afirma que o filósofo dá expressão intelectual a uma visão de mundo já presente na cultura corrente. Não vejo impossibilidade nenhuma no filósofo expor ideias e visões de mundo contrárias à da cultura corrente, refletindo nada mais do que a sua própria percepção, em nada ou muito pouco antecipada pela cultura que o cerca e os símbolos que ela traz.) Mas esse sistema universitário, com todas as suas muitas falhas - que são bem apontadas por Olavo -, permitiu a formação de filósofos e teólogos de peso; revelou-se melhor para a filosofia do que foram as ECs e mesmo o monaquismo tradicional. Era, contudo, talvez um meio pior para a virtude e para a santidade (ou, ao menos, para a concepção tradicional de virtude e santidade) do que o monaquismo (e do que as escolas de gentis-homens também? Daí tenho as dúvidas já mencionadas sobre a superioridade moral delas...). Estamos de acordo nisso?

No fim das contas, parece que nossa discordância reside neste ponto, que Olavo afirma: "... o estudo da filosofia podia e devia contribuir para a formação moral dos estudantes, como o fizera nas escolas catedrais e monacais, mas também era verdade que a filosofia havia começado a fracassar nesse objetivo desde o momento mesmo em que se constituíra como profissão universitária e meio de ascensão social."

Um fato: a filosofia só decolou de fato na Idade Média quando abriu mão dessas pretensões de formação moral. Isso ninguém pode negar. A grande questão é a causalidade entre essas duas coisas. PODE e/ou DEVE a filosofia contribuir para a formação moral dos estudantes? É isso que estamos discutindo (uma variação do clássico "a virtude pode ser ensinada?"? Mais uma nota de rodapé a Platão?). A mim parece que a causalidade é inversa: é abrindo mão da pretensão de formar moralmente os discípulos que a filosofia pode realmente se desenvolver. E enquanto ela não abrir mão disso, ela dificilmente decolará; formará escolas, grupos de seguidores fieis a um gênio original; mas não filósofos.

Por que tendo a negar a tese de que a filosofia deva ter pretensão de formar moralmente seus praticantes? Porque ao encaixar a filosofia num plano pedagógico de modos e virtudes, você já a está encaixando dentro de certos pressupostos acerca do homem e do mundo. E se a filosofia for realmente servir a esse plano, não poderá, ao menos não a sério, questionar esses pressupostos, e muito menos negá-los. Ora, se tem uma coisa que a filosofia (boa) fez ao longo da história é puxar o tapete de muitas opiniões que se julgavam boas, louváveis e belas. Ela também construiu outras, mas nunca ao ser instrumentalizada para os propósitos de uma certa visão de mundo parcial.

Vivendo no século XI, se você aderisse totalmente aos códigos de valores, aos símbolos e à cultura da época, e quisesse encaixar um estudo da filosofia para melhor se encaixar pessoalmente nesse esquema, sua filosofia seria uma serva dessas concepções, e não poderia nunca desestabilizar essas estruturas, como a incorporação de Aristóteles pelos escolásticos desestabilizou.

Por isso, a filosofia não se presta, ao menos não primariamente e como sua finalidade, à formação ética. A não ser, talvez, em um caso: no da ética que subsume todas as virtudes e todo o bem à verdade, seja ela qual for. Essa, que talvez possamos chamar de uma ética socrática, por uma questão de definição, será sempre compatível com a filosofia, e a filosofia sempre ajudará nessa formação moral. Filosofia é a busca radical da verdade. Ser bom é ter a verdade e agir com base nela, seja ela qual for. Portanto, a filosofia é e sempre será virtuosa e boa, independentemente dos conteúdos particulares a que o filósofo chegue. Mas é claro que qualquer visão ética da existência inclui muito mais do que apenas essa afirmação vazia. Incluía no século XI, no XVI e hoje em dia também. Se você quiser ser um bom defensor dos direitos humanos, um eleitor consciente, um cidadão de bem e multicultural, se quiser se formar para virar comissário da ONU ou secretário do meio-ambiente, e quiser encaixar a filosofia nesse seu plano de formação, pode ter certeza de que será filosofia de quinta categoria. 


O papel das relações e influências políticas na consagração do filósofo

Em nenhum momento desprezei o ensino direto, a relação professor-aluno, e mesmo a capacidade do filósofo de se expressar e magnetizar os ouvintes com sua fala. E embora não tenha nenhum grande conhecimento de sociologia da filosofia, não ignoro que as forças que fazem com que esta ou aquela filosofia seja mais popular vão muito além do conteúdo das filosofias em questão. Não é preciso ter conhecimento científico, rigoroso, dos processos sociais e relacionais que determinam o sucesso e fracasso das filosofias no presente para ter algum conhecimento empírico e opaco deles e guiar-se de acordo; saber ir além da opinião estabelecida e dos símbolos e premissas da cultura, ou até mesmo manipulá-los. E é provável que mesmo estando completamente alheio a esses processos, seja possível fazer filosofia boa e original.

Pedro Abelardo foi um mestre em atrair multidões para suas aulas, mesmo tendo sido proibido de lecionar no espaço acadêmico. Já Scotus, se a sutileza notória de suas distinções é boa indicação, devia ser alguém mais afeito ao texto escrito do que à fala, à persuasão retórica e ao impacto carismático pessoal no ouvinte; e muito menos afeito às intrigas políticas, que acabaram por lhe render alguns meses de exílio.

Acredito, contudo, que por mais que conchavos políticos e manipulações pessoais tenham seu efeito no curto prazo, no longo prazo a qualidade vence. Dos "quatro malignos" citados por Olavo, Wittgenstein e Heidegger vingaram, pelo menos até hoje; já os outros dois... Quantas figuras tão presentes e influentes em seu tempo não perduraram! Os neoplatônicos da Antiguidade; os humanistas platônicos; o rival de Descartes, o padre católico atomista Pierre Gassendi; os libertinos franceses contemporâneos de Montaigne; vários iluministas (como o Barão d'Holbac); o próprio Bergson, nome central no início do século XX, já está meio apagado. O tempo é cruel com as pretensões; poucos resistem ao teste dos séculos, e não me consta que sejam os que, em vida, foram politicamente mais hábeis ou tiveram maior carisma pessoal. É até possível que, por questões políticas, grandes gênios sejam abafados no berço e permaneçam esquecidos, aguardando serem descobertos pela posteridade. Mas dificilmente algum nome consagrado do cânone é uma fraude que só chegou lá por influências extra-filosóficas.

O que é filosofia

O que é a filosofia? É "discussão racional"? Não só, embora esse seja um elemento necessário. É o uso da razão (em sentido amplo: as faculdades naturais de conhecimento humano, sejam elas quais forem) para se conhecer a realidade em seus aspectos mais profundos, mais abrangentes. Ir muito além disso é já imiscuir, à definição de filosofia, certas posições filosóficas particulares.

A prova tem papel central aí. Se você tem uma experiência, uma percepção de algo que julga verdadeiro, mas não tem como convencer uma outra pessoa dessa mesma percepção, como você garante, mesmo que para si mesmo, de que não passa de impressão subjetiva sem valor objetivo? Filosofia sem prova, ou melhor, sem embasamento racional (que frequentemente ficará aquém da demonstração estrita), não é filosofia. Sem o embasamento racional, o sujeito não pode nem saber que sabe. Não estou falando em montar um sistema lógico perfeito (embora grandes filósofos como Descartes e Espinosa tenham tentado fazê-lo e acreditado que só isso é boa filosofia), mas da atitude básica de testar toda afirmação com as ferramentas à nossa disposição, por mais arraigada e óbvia que ela possa parecer mesmo à experiência pessoal, e entender - e aceitar - as consequências de afirmá-la ou negá-la.


Sobre o fazer filosofia, o que é ser um grande filósofo e nossa relação com o passado filosófico
"Sem querer resolver agora a questão de quais merecem ou não entrar nessa classificação, parece-me evidente que ninguém negará um lugar nela aos nomes de Platão, Aristóteles, Sto. Tomás e Leibniz. Enquanto filósofos bem posteriores já viram suas contribuições essenciais esgotadas ou impugnadas pelo avanço do conhecimento (ninguém mais pode ser cartesiano, baconiano ou hobbesiano de carteirinha sem entrar em conflito com o estado atual das ciências), esses quatro, excluídos erros de detalhe que possam ter cometido num ou noutro ponto, continuam dando inspiração a novas descobertas em todos os setores do conhecimento, e parece que não vão parar de fazê-lo tão cedo."

E por acaso é possível ser platônico ou tomista de carteirinha sem entrar em conflito com o que hoje sabemos? Claro que não. De Platão mesmo não sobra nada de pé - mostrem uma tese ou argumento distintamente platônico que podem ser mantidos tais como foram formulados nos dias de hoje (conhecimento como reminiscência? Teoria das Ideias? Inexistência de conhecimento sobre o mundo sensível? Metempsicose?). Ok, ok, alguma coisa continua mais ou menos plausível: nossa divisão da alma [opa! um amigo meu bem me alertou: alma hoje em dia?? Acho que o termo é mais controverso que a coisa, se bem entendida] humana em razão, paixões, apetites; talvez a devamos a Platão, embora hoje possamos fazê-lo com mais precisão. O que não lhe tira o mérito de ser um dos maiores filósofos de todos os tempos, pois tinha exatamente isso: a coragem absoluta em busca da verdade. Infelizmente, seus seguidores (talvez inspirados pelo magnetismo do próprio) fizeram de seus ensinamentos uma semi-religião, e em alguns séculos o neo-platonismo era já algo tão estéril quanto foi a escolástica em sua longa decadência. Houve, contudo, um discípulo de Platão que não o tratou como um mestre espiritual, mas como um filósofo; e sendo ele próprio filósofo (e, portanto, mais amigo da verdade do que de Platão), carregou a tocha da filosofia adiante.

E Platão inspira novas descobertas? Aí sim, inspira; deve inspirar, tão rica é sua obra. Assim como Hobbes inspira também (pensem em todo estudo da ação humana, ciência econômica, teoria dos jogos; o indivíduo maximizador de utilidade tem, como uma de suas origens, Hobbes). Inspirar novas ideias não significa que é possível ser seguidor "de carteirinha" do filósofo.

E já que estamos falando de ser seguidor "de carteirinha" de algum filósofo, noto que não há nada mais anti-filosófico do que os apologetas contemporâneos de tomismo que querem antes de tudo vender um peixe (que é uma interpretação em geral deficiente de S. Tomás) na ilusão de que a salvação das almas e do mundo moderno dependem disso. Essa percepção clara, aliás, de que apologética de tomismo não é filosofia, devo ao Olavo, que o apontou em algum artigo de anos atrás. Eu, que na época tendia exatamente para esse tipo de falsa filosofia - que é também uma certa fuga de confrontar a realidade em si mesma -, não gostei muito; disse a mim mesmo que não era bem assim. Mas era.

E falando em S. Tomás, ele parece concordar muito mais com a minha forma de ver a filosofia do que com a do Olavo. Ele, por exemplo, trata o argumento de S. Anselmo justamente da maneira que Olavo condena: pega o argumento, avalia se ele prova ou não a existência de Deus; conclui que é falho. Ele foi menos filósofo por isso? De forma alguma. Isso não invalida o interesse de realmente entrar na alma, no pensamento e no mundo mental de S. Anselmo e tudo o mais. Mas me parece que a saída de Tomás é a mais diretamente relevante para a filosofia propriamente dita: será que o argumento prova o que ele visa provar?

(Calma lá! S. Anselmo não visava provar a existência de Deus? Leiam vocês mesmos o prefácio do Proslogion e tirem suas conclusões)

A leitura que Tomás faz de Aristóteles é também bem "pé-no-chão"; seus comentários não revelam grandes conhecimentos de paideia grega ou o que o valha. Aristóteles afirma X; Tomás explica o que X quer dizer, dá algum exemplo; algumas (raras) vezes faz algum reparo ou mesmo discorda; outras vezes (menos raras) dá a interpretação mais compatível possível à sua forma de ver as coisas. Enfim, usa Aristóteles para desenvolver seu próprio pensamento; mas usa Aristóteles, sua obra escrita, e não a cultura grega, ou a "experiência unitária" de Aristóteles, ou as doutrinas não-escritas de Aristóteles. Tampouco mostra qualquer preocupação com símbolos (lembrem-se: ele critica as metáforas didáticas de Platão), com o mundo cultural em que estava imerso, com as catedrais góticas. Elas podem ter-lhe servido de inspiração? Podem. Podem também não ter servido. Pode ser que a relação aparentemente óbvia entre Sumas e catedrais seja uma seleção bem moderna de certos elementos análogos em ambas mas que não chamaram a atenção dos medievais dessa maneira. Há muito de questionável na tentativa de identificar uma estrutura comum entre catedrais e Sumas. Por exemplo, Olavo menciona "a sustentação mútua entre os arcos opostos como teses dialéticas articuladas na sua contradição". Isso é uma característica da catedral, mas da suma? Na maioria das sumas, as objeções, teses opostas às defendidas pelo autor, não ajudam a sustentar nada. Não é como se, do embate entre teses opostas, o autor extraísse uma síntese que integra algo de verdadeiro existente nos dois lados. Em alguns casos particulares isso até poderia ocorrer, mas o normal era que as teses das objeções fossem simplesmente refutadas, e a posição em contrário ficasse plenamente defendida. Não havia sustentação dialética; havia a defesa de uma tese considerada verdadeira contra objeções falsas. E por isso mesmo a Suma Teológica, obra para estudantes, considerava poucas objeções (3-4), enquanto obras como as Questões Disputadas tivessem muitas objeções (10-13); mas o teor das teses defendidas não mudava.

Não deixa, contudo, de ser uma interpretação histórica interessante, embora para quem seja católico e estude a escolástica fique um tanto cansativo e não seja lá muito informativo ver alusões a "sumas de pedra" ou "catedrais escritas" e similares repetidas ad nauseam. No caso do Olavo, por ele fazer a relação inversa do usual, e por fazê-lo em mais profundidade, ela escapa dessa impressão de lugar-comum; mas nem por isso a relação que ele descreve é necessariamente verdadeira. Falta, no mínimo, uma evidência empírica de que, de fato, os pensadores escolásticos foram inspirados pelas catedrais.

Às vezes isso (a relação entre Sumas e catedrais de maneira geral, não a causalidade específica proposta por Olavo, que de fato vai mais fundo que o normal) parece parte de um programa ideológico de idealização da Idade Média (em particular o século XIII) como um período mais puro e mais integral, em que tudo estava em seu lugar, em que tudo fazia sentido, em que cada elemento da cultura se articulava com os demais, em que os homens sabiam seu lugar no cosmos, etc. antes da ruptura e do pecado original da modernidade (que tem vários possíveis culpados: Duns Scotus, Ockham, Francis Bacon, Descartes). Uma mentira para afagar egos autocomplacentes e assegurar-lhes de que, se ao menos tivessem nascido em tempos melhores, daí sim seriam santos / felizes / completos /  reconhecidos / aplaudidos. Mas agora estou fugindo do tema, pois em nenhum momento Olavo faz esse tipo de propaganda ideológica da Idade Média.


Relação do verbal e do não-verbal, do escrito e do oral, com a filosofia

Não desmereço o universo do não-verbal, que é afinal precondição ao conhecimento verbal. (Num momento em que falo de "fuga consumada" da realidade, e que Olavo interpretou como se referindo a tudo o que não é verbal, eu na verdade me referia ao esoterismo e ao tradicionalismo.) Mas também não me convence a tese do Olavo de que o principal está no não-verbal; vide o exemplo do técnico de laboratório que mexe numa máquina complexa.

É óbvio que, para qualquer atividade humana, é preciso uma série de conhecimentos não-verbais. Para falar preciso mexer a boca e as cordas vocais; para escrever, mexer os dedos. O conhecimento de como fazer esses movimentos é não-verbal; disso concluo que a comunicação escrita é, portanto, uma atividade primariamente não-verbal, ou que o não-verbal é o principal dela? Não me interessa entrar em picuinhas sobre o que é o principal, o acessório, etc. A mim basta-me deixar claro: sim, a filosofia usa e precisa necessariamente do não-verbal (o filósofo precisa falar, escrever; e mesmo o ato de pensar exige atos mentais pré-verbais), mas ela é o que é justamente porque não se limita ao não-verbal. Da mesma forma, o técnico de laboratório que só tivesse um conhecimento prático, uma experiência, de como usar a máquina, dificilmente seria um bom cientista. Seria como os pobres monges do início da Idade Média que, dotados ainda de alguma tecnologia romana de medição das horas, não entendiam mais a teoria por trás de seu funcionamento, e portanto aplicavam-na erroneamente a latitudes que exigiriam ajustes que eles não sabiam fazer.

Nunca disse que "a busca da 'realidade' começa da abstração verbal para cima, como se a realidade existisse só nos conceitos e discussões filosóficas". Mas ela deve, para virar filosofia, terminar na abstração verbal, e daí poderá finalmente ser comunicada a outros seres humanos e ao próprio autor, que só terá consciência plena de seu pensamento, e só poderá avaliá-lo de forma objetiva, ao formulá-lo verbalmente. E esse formulação pode se dar em vários níveis.

É possível tratar de questões profundas sem uma linguagem precisa? Claro, e às vezes tudo o que temos é a linguagem simbólica, artística, ou as impressões pessoais em um estado mais bruto. O problema desse nível é que ainda não é possível fazer o principal da filosofia: distinguir o verdadeiro do falso. A linguagem artística pode construir e nos mostrar (o que é muito mais forte do que apenas falar sobre) diferentes visões de mundo, mas não é capaz de avaliá-las. Se eu quero saber como o mundo é, portanto, terei que ir além da arte, do símbolo, e da impressão. Terei sim que entrar no reino dos argumentos.

Isso pode ser feito tanto oralmente quanto por escrito. Mas é muito improvável que o oral seja superior ao escrito nesse caso. Pois o tipo de calma e precisão que o escrito permite não estão ao alcance da fala. Em um texto você pode desenvolver seu pensamento, e seu leitor pode acompanhá-lo, e alguém dois anos depois (talvez você mesmo) pode encontrar uma falha crucial. Conversas filosóficas são, na minha opinião, uma das melhores coisas da vida; também adoro uma boa aula; mas para o desenvolvimento da filosofia, não há dúvida de que os livros contribuíram mais do que as aulas e as conversas, por mais necessárias que elas também sejam.

É possível que um professor desenvolva oralmente em sala uma Suma Teológica, e que nada daquilo seja escrito? É possível. É, porém, muito improvável, pois dificilmente ele não se perderia no meio sem ter algo escrito para se guiar; fora o trabalho de se lembrar e pensar na hora em todos os argumentos e objeções. Mas não dá para negar que seja possível; se algo pode ser escrito, pode igualmente ser falado. Duvido, contudo, que tal coisa jamais tenha acontecido. Talvez Aristóteles, cujas obras que chegaram a nós são anotações de aula, seja um caso desses? Ou ainda mais Sócrates, que se recusava a escrever? Pois vejam: o pensamento dos dois só teve a importância que teve porque alguém se dignou a escrevê-lo ou anotá-lo, eternizando o efêmero.

E quem acha que as doutrinas não-escritas de Platão eram superiores à sua obra filosófica escrita, bem, que mostrem quais eram essas doutrinas e como eles ficaram sabendo delas. (Olavo diz isso? Não sei; sei que é opinião corrente entre alunos seus, inclusive alguns desta casa, que espero ter provocado a se manifestarem...). E mais: mostrem o que foi feito delas ao longo da história, para que mereçam essa consideração exaltada que lhes é concedida.