terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Vilém Flusser vai à Escola Politécnica

Este texto, meu primeiro no Ad Hominem, na verdade é um comentário à última postagem de Joel Pinheiro da Fonseca no site da Dicta & Contradicta. Como notei que crescia em demasia, achei por bem lhe dar publicação à parte, de modo que segue abaixo.

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Caro Joel,

A visão de Olavo de Carvalho sobre a impossibilidade de limitar a obra de um filósofo a seus textos, referida por um leitor em comentário a teu post na Dicta & Contradicta e pela qual demonstraste alguma curiosidade, parte do princípio de que os fatos biográficos e outros correlatos importam porque, para ele, e evidentemente não só para ele, o modelo da filosofia só pode ser dado no homem vivo. Só existe filosofia para que seres humanos possam ser filósofos, não para que escrevam teses sobre filosofia, ainda que estas possam auxiliar muito na formação de uma mente filosófica. Os abundantes exemplos de filósofos cuja obra em sua quase totalidade é composta de exposições orais, muitas vezes só impressas quando já mortos os autores, falam por si sós. Os atos importam, sim, porque são eles parte do projeto in fieri que é a vida do filósofo, o qual só cessa com a morte. Nem precisamos falar dos atos propriamente ditos, aliás: basta ver que o ensinamento do filósofo presente – com seus modos, o olhar, as ênfases – importa incomparavelmente mais que seu texto em livro, mesmo quando este corrige algo da exposição oral ou da conduta do homem. Sua “obra”, em suma, é uma tensão que emerge de todos esses elementos. Diante do filósofo nós temos a filosofia, ela mesma, enquanto diante dos textos nós temos uma barreira a mais – o trato refinado e técnico da leitura reimaginativa, tão necessário, claro – entre nós e a filosofia. Não por acaso, isso lembra a compreensão da obra platônica que Thomas Szlezak, indo além de Paul Friedländer e Giovanni Reale, informa em Ler Platão.

Essa é, em parte, a perspectiva do Olavo quanto às assertivas referidas. Um exemplo historicamente notável, embora não tão atinente ao assunto em pauta, é o fenômeno estudado no livro The Envy of Angels, de Stephen Jaeger, recomendado por Olavo aos alunos do Seminário de Filosofia. Embora não o tenha lido ainda, pelas resenhas sei tratar-se de livro que demonstra que todo o grande ensino medieval, anterior ao surgimento da escolástica, é fundado sobre a imagem do mestre. O professor, que gozava de admiração por sua vida piedosa, dedicada à verdade, era a pedra de toque de todo o ensino, cujo primeiro estágio – veja só! – dizia respeito à educação do corpo (aliás, ainda enfatizada de algum modo até um pouco mais tarde, no século XII, por Hugo de São Vítor, nas partes finais do Livro III de seu Didascálicon). Toda a filosofia era dedicada a formar pessoas exemplares. Não se documentava por escrito quase nada. Daí que, ao que parece, a escolástica, máxime a do período final, viria a ser a sistematização formal insípida dos frutos desse ensino que começava a desaparecer. Catedrais góticas, sumas, universidades: tudo isso, longe de ser a glória da cultura medieval, seria seu canto de cisne, para além do qual se elevavam Santo Tomás e Duns Scotus. É um ponto a mais a considerar.

Tu te queixas, Joel, de que o modelo de ensino adotado pela USP não forma pessoas capacitadas a fazerem filosofia, e a razão mais óbvia disso, diríamos a partir do que se expôs acima, é que lá não há filósofos. Ou seja: não há exemplos vivos de a que se endereça, afinal, todo esse trato minucioso com textos. Se releres o ensaio Dois métodos (Dicta & Contradicta nº 6), do Olavo, verás ele advogando que a insistência alucinada dos professores que formaram a USP pelo “rigor” e pela profissionalização do estudo acabou, paradoxalmente, dando em beletrismo. Porque não havia nada além de textos. É como se o mundo de Derrida – melhor: o mundo daquela biblioteca do conto famoso de Borges – houvesse se tornado um pesadelo real.

Tenho como exemplo emblemático desse espírito a conduta de José Arthur Giannotti ao devolver, de forma mal educada, ao meu ver, o esboço de tradução do Tractatus Logico-Philosophicus feito por Vilém Flusser, o qual lho enviara em sinal de boa fé e empolgação com tais estudos no Brasil. Giannotti remeteu os originais de volta, dizendo algo como “Obrigado, mas o que estou fazendo é um trabalho técnico, que não tem nada a ver com o que você faz” (mas se deve lembrar a favor de Giannotti que este mais tarde reconheceria que Flusser estava correto quanto às críticas à sua tradução expostas em artigo de jornal, embora continuasse discordando dos motivos da divergência). Isso pode ser lido nos depoimentos colhidos em uma dissertação de mestrado sobre Flusser apresentada à ECA (MENDES, Ricardo. “Flusser: uma história dos diabos”, in Flusser: uma história do diabo, 2000). Na verdade, esse documento inteiro poderia ser lido a propósito desta discussão. A história do relacionamento de Vilém Flusser com os professores da Maria Antônia é altamente ilustrativa: fizeram um esforço desgraçado para desbancar o filósofo – diziam que ele era só um “chutador”, um “pensador de fim de semana”, um “amador” – justamente porque ele fazia filosofia, porque ele era filósofo. E pior: meio mundo amava aquele velho meio maluco andando pra lá e pra cá com um cachimbo na boca! As reuniões em sua casa, assim como os cursos e palestras que ministrava (por exemplo, na FAAP, no fim da década de 1960, onde aparecia muito mais gente do que as salas poderiam comportar), tinham público que nenhum professor da USP jamais viria a ter – até taxista chegou a reconhecer o Flusser numa corrida, perguntando se era ele fulano de tal que tinha escrito tal coisa no Estadão.

Havia, enfim, muitos ciúmes, e assim o departamento da USP foi hermeticamente fechado, de forma pensada, para vedar a entrada de gente como o Flusser – filósofos de verdade. No fim das contas, apelaram ao expediente de toda hora: “Ele não tem diploma, portanto...” Deixaram-no pro forma integrando o Departamento de Filosofia, mas o mandaram para Caixa Prego: dar aulas na Escola Politécnica! Poucos anos depois, Flusser perdeu a paciência, brigou com a Folha de São Paulo, brigou com o Estadão; não se apresentou para tomar posse na Filosofia, aborreceu-se com alguns de seus alunos – Celso Lafer entre eles, e por um motivo algo ridículo –; cansou de dar aulas particulares para madames da alta sociedade paulista e mandou-se de volta para a Europa. Lá, em menos de um ano já seria reconhecido, em sei lá quantas universidades alemãs, como um dos filósofos com obra mais inventiva à época.

O problema, em última instância, é que temos academias, sem filósofos, impedindo que filósofos surjam. E é em razão desse mesmo problema que Marilena Chauí pode ser uma professora rigorosa no trato de textos dentro da academia, mas fora da sala de aula é capaz até de pôr Espinosa a serviço do PT, como de fato fez.

De resto, Joel, teu texto é excelente, além de muito oportuno.