quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sobre poesia contemporânea, com ênfase no caso brasileiro

Cartas a Um Jovem Poeta é a compilação das dez cartas que Rainer Maria Rilke endereçou, no período de 1903 a 1908, a um jovem aspirante a poeta. Nelas Rilke discute a natureza da poesia e daquele que dela se ocupa, entre outras reflexões sempre agudas, serenas, cuidadosas, sobre os mais variados temas.

Mas passemos de uma vez ao fato interessante: o livro se tornou, contemporaneamente, em verdadeira Bíblia do poeta wannabe. Cansei de ver e ouvir seus trechos serem utilizados para fundamentar as inclinações literárias de meus companheiros de geração. Sobretudo a idéia expressa no trecho a seguir:

Pergunta se seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os a outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem – usando da licença que me deu de aconselhá-lo –, peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer nesse momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila da sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?”. Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa sua vida de acordo com essa necessidade.


Assinalemos, antes de tudo, a razoabilidade do trecho. A lição é simples e digna: que não se pronuncie aquele cuja contribuição não se impuser como necessidade, oferecendo-se ao invés como coisa supérflua, fruto de vaidade ou tédio ou o que for. Para Rilke, o poeta sabe fazer essa distinção, como é possível saber que se desafina ao cantarolar uma música, ou que não se é bem-vindo num determinado ambiente.

Se é realmente possível sabê-lo, ainda assim é preciso notar a sutileza da noção em jogo e a conseqüente dificuldade da tarefa de abarcá-la. Há cem anos, quando Rilke teceu suas considerações, “voltar-se para si mesmo” ainda não tinha o significado viciado que tem hoje, quando a tendência espontânea geral é ler frase ao pé da letra como “ignorar tudo que não seja meu umbigo, seguir meus instintos primevos e deplorar toda e qualquer exterioridade” – ao passo em Rilke tinha em mente, pelo contrário, o colocar-se em perspectiva para buscar sua genuína vocação. Ele se permite o uso de termos metafóricos, por vezes um tanto vagos, porque nem sequer lhe passa pela cabeça que “escavar dentro de si mesmo” possa prescindir de uma consideração profunda dos arredores em que o ser se encontra, único meio de localizar-se com a devida precisão. (O próprio tom fraterno, jamais perdendo de vista a existência concreta de seu interlocutor, empregado por Rilke em Cartas a Um Jovem Poeta já bastaria para demonstrar que a apologia da solidão presente no livro jamais contradiz e em verdade depende da noção de alteridade somente por meio da qual um sujeito, em sua solidão, pode chegar ao conhecimento de si mesmo.)

Mas o contemporâneo aprendiz de poeta, ao invés de uma reflexão honesta sobre seu papel – sua vocação – enquanto escritor, vê nas palavras de Rilke a confirmação do que ele (o aprendiz) sempre sentiu ser a verdade sobre si mesmo e sobre o mundo: só ele próprio tem existência concreta e às favas que vá o mundo.

Essa atitude redunda no desdém dos poetas contemporâneos pela tradição em torno da qual se consolidou o gênero poético e no pouco estudo que dedicam aos únicos mestres possíveis a todos que se desejem continuadores de tal arte. O poeta contemporâneo se basta a si mesmo, ou assim se pretende. Nenhuma erudição é páreo para sua escrita automática, único modo de captar a “fugacidade e imponderabilidade” de seu ser e sua existência.

Porém errôneo seria dizer que tudo isso se dá consciente ou voluntariamente; que essa coisa amorfa chamada poesia contemporânea, sobretudo a brasileira, erige seu programa em torno da negação da tradição e da prática do automatismo. Não; não se pode falar disso senão com respeito à primeira metade do século vinte, quando eclodiu e enraizou-se culturalmente o movimento modernista. Nós, literatos do século vinte e um, estamos sem rumo há pelo menos cinqüenta anos e nada seria mais risível do que atribuir um “programa” a nosso desnorteamento. Nos determina a pura e simples política da idiotização generalizada, que se edifica sobre as bases sólidas dos quinze anos de acefalização em que consiste a vida escolar do brasileiro. De modo que o bom poeta o qual, contra a corrente e se valendo de seus próprios recursos, consiga suspender a cabeça para fora dessa água causticante – encontra apenas o silêncio gélido da falta de leitores. Vá lá que uns ou outros, sobreviventes como ele, venham a apreciá-lo; ainda assim, para um poeta produzindo no Brasil nos dias de hoje, é precisamente utópico sonhar com um grande alcance para suas obras. Ou seja, ele pode até fomentar a revitalização de sua cultura a longo prazo, mas deve estar certo de que não viverá para colher os frutos últimos desse processo.

É verdade também que o desprezo pela tradição poética nem sempre se dá no nível do discurso. O que se vê no mais das vezes é um puro e simples despreparo intelectual, que produz no protoartista um embasbacamento paralisante diante de qualquer poema de Camões, estabelecendo léguas de distância entre o aprendiz de poeta e o que lhe parece um cânone inalcançável. Os brasileiros hoje não temos, para início de conversa, qualquer noção de ritmo, de musicalidade poética. O uso de métrica na escrita é tão estranho à forma de nosso pensamento quanto cores para alguém que tivesse morado a vida toda num iglu na Antártida. Qualquer farmacêutico há cento e cinqüenta anos seria capaz de compor um sonetinho duro, desses bem bobos, fórmula pronta. Mas os poetas de hoje (esqueçamos, em absoluto, os farmacêuticos) continuam prestando favores ao Concretismo de cinqüenta anos atrás e ao poema-pílula que era muito interessante em 1922 – apenas porque ambos, embora em teoria representem a epítome do tecnicismo, a hipérbole da poesia condensada, oferecem uma máscara fácil aos que se queiram passar por muito inteligentes sem ter em verdade o que dizer (nas palavras de Rilke, sem terem a vocação de qualquer coisa dizer).

Trata-se, com efeito, da convergência de diversos fatores culminando no que se pode sem medo chamar de ausência de cultura poética no Brasil. (Tendo a acreditar que alguns desses fatores sejam mais ou menos universais e se apliquem à situação da poesia no Ocidente como um todo – não faço a menor idéia do que se passa em culturas mais exóticas –, porém me furto a afirmar qualquer coisa nesse âmbito maior, pois me falta conhecimento de causa específico; e, principalmente, é possível que a cena em países mais desenvolvidos seja muito superior à do Brasil, no mínimo em virtude de uma educação mais decente, tanto de base quanto superior.) O primeiro desses fatores foi o estabelecimento de uma nova noção de poesia, de uma nova dicção poética – aquela inaugurada pelo Modernismo e desde então esgarçada até sua sublimação para além da literatura, com o poema pulverizando-se para fora do papel, reduzido a seus átomos e lançado ao espaço sideral, transformado em vacas de plástico pelas ruas de São Paulo e apresentações em formato Flash e Power Point.

Essa mudança no modo de se abordar a poesia a partir do início do século vinte já surgiu como uma tentativa de se abarcar a novidade – notadamente, a velocidade – da vida moderna, cujo símbolo são as grandes metrópoles globalizadas. Porém o que se chamava de “a ágil modernidade” do pós-Primeira Guerra, se comparado com o mundo em que vivemos hoje, provavelmente evidenciará mais diferenças entre ambos do que entre o Modernismo e o passado que ele tentava refutar. E no entanto nós gostamos de nos chamar pós-modernos, assinalando nossa filiação a um movimento que já não nos diz respeito, e vivemos até hoje a desfiar o novelo desgastado de uma época cujas soluções estéticas já não respondem pelo que somos.

Em suma, a liberdade poética instaurada pelo Modernismo, associada à pouca educação do brasileiro contemporâneo (e me refiro inclusive ao brasileiro universitário, ao aprendiz de poeta), em cujo espírito se reproduzem aquelas noções de doce complacência em relação a si mesmo e grande preguiça quanto ao que está fora dele, gerou um monstro desfigurado, um arremedo de expressão artística inteiramente prescindível àquilo que seria o fim mais nobre da poesia dentro de um dado contexto social: dar voz simbólica e distintiva aos traços desse contexto, localizando-o no tempo, desenvolvendo sua consciência de si próprio.

Tenha-se o Desconstrutivismo como método de análise da realidade e o individualismo fazendo-se confundir com individualidade numa cultura de analfabetos funcionais e eis a genealogia da poesia contemporânea brasileira. Só Deus sabe em que medida é consciente a concatenação entre políticas públicas visando apenas a derreter nossos cérebros e a onda de discursos vazios que as universidades despejam sobre o imaginário coletivo – o fato é que tudo tem convergido perfeitamente para a paralisação de qualquer capacidade crítica e esforço de autoconsciência de nosso país, como um barquinho cujos remadores trabalhassem em sentidos contrários, fazendo-o girar sem sair do lugar.

Há pouco mais de cinqüenta anos, o poeta João Cabral de Melo Neto já alertava para os riscos do que se poderia chamar de falta de responsabilidade ou de consciência do poeta com relação a seu ambiente sócio-cultural. Não que Cabral exigisse do poeta um posicionamento político ou crítica social vazada em arte; seu argumento se desenvolve no sentido de que cabe ao artista pesquisar as formas de expressão mais adequadas ao seu próprio tempo, do contrário seu trabalho resultará inútil, indiferente (e para Cabral as soluções poéticas propostas por seus contemporâneos não passavam de paliativos preguiçosos à verdadeira pesquisa existencial inerente à composição de poesia). Não se trata – reitero – de rejeitar a “arte pela arte”. O que ocorre é ser variável, ao longo do tempo, aquilo a que se pode chamar de “a demanda estética da realidade”. Pode-se argumentar, por exemplo, que os dias atuais já estão saturados da dualidade “arte social” versus “abstracionismo porra louca”; que alternativas a essas correntes estéticas existem, ainda que nossa auto-estima de sobreviventes pós-apocalípticos amputados nos faça duvidar de termos forças para um retorno, digamos, à poesia narrativa, de formas determinadas, difícil de compor pois dependente da apropriação de um modelo milenar, cujo aprendizado só pode ser feito pelo estudo longo e cansativo de sua tradição. Ou seja, talvez o que se deva fazer para resgatar a poesia contemporânea do limbo em que se encontra seja reeducar formalmente os novos poetas, desfazer o legado modernista-desconstrucionista em suas consciências, reequipá-los com os instrumentos milenares de composição poética, já de todo extirpados do seu bojo de conhecimentos  e então quem sabe comecemos a ouvir vozes atuais, vozes de poetas que nos representem, que nos deem a ver a nós mesmos. É a essa preocupação com a manutenção da eficácia cultural da poesia, indiferente por meio de qual solução estética se dê, que João Cabral de Melo Neto chama seus contemporâneos.

Em texto intitulado Da Função Moderna da Poesia (1954), ele descreve do seguinte modo o tipo de poesia que é alvo de sua crítica:

A necessidade de exprimir objetiva ou subjetivamente a vida moderna levou a um certo tipo especializado de aprofundamento formal da poesia, à descoberta de novos processos, à renovação de processos antigos. Afirmá-lo não significa dizer que cada poeta de hoje é um poeta mais rico. Pelo contrário: esse aprofundamento deu-se por meio de uma como desintegração do conjunto da arte poética, em que cada autor, circunscrevendo-se a um setor determinado, levou-o às suas últimas conseqüências. A arte poética tornou-se, em abstrato, mais rica, mas nenhum poeta até agora se revelou capaz de usá-la, em concreto, na sua totalidade.

(...) O poeta moderno, que vive no individualismo mais exacerbado, sacrifica ao bem da expressão a intenção de se comunicar. (...) O alvo desse caçador não é o animal que ele vê passar correndo. Ele atira a flecha de seu poema sem direção definida, com a obscura esperança de que uma caça qualquer aconteça achar-se na sua trajetória.

(...) Tudo o que os poetas contemporâneos obtiveram foi o chamado “poema” moderno, esse híbrido de monólogo interior e de discurso de praça, de diário íntimo e de declaração de princípios, de balbucio e de hermenêutica filosófica, monotonamente linear e sem estrutura discursiva ou desenvolvimento melódico, escrito quase sempre na primeira pessoa e usado indiferentemente para qualquer tipo de mensagem que o seu autor pretenda enviar. Mas esse tipo de poema não foi obtido através de nenhuma consideração acerca de sua possível função social de comunicação. O poeta contemporâneo chegou até ele passivamente, por inércia, simplesmente por não ter cogitado do assunto.


Como não podemos dizer que nosso processo poético, desde João Cabral, tem evoluído, resta-nos apagar nossos garranchos, jogar fora nossos cadernos de esboços, e começar do zero lá de onde tais severas e sóbrias palavras foram pronunciadas.

Este é um artigo pessimista, para cujos fins não interessa enfatizar as parcas reservas de esperança que nos restam, ou os casos excepcionais de poetas verdadeiros – poucos, muito poucos – vistos pelo Brasil nos últimos cinqüenta anos. A inclinação poética existirá enquanto houver homens, e está na estrutura da natureza que, entre todos, n’alguns esta inclinação resulte em traço preponderante, impelindo-os à tradução simbólica da realidade nisso que conhecemos por linguagem poética. Nada garante, entretanto (e, em verdade, os nossos tempos dão perigoso atestado disso), que um povo não possa enveredar por caminhos antinaturais, destruindo-se; que a poesia num homem não se possa perverter em loucura, que o simbolismo, em vez da luz, não possa ser posto a serviço das trevas.