segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Conservadorismo Religioso Não se Salva - Uma Resposta a Nivaldo Cordeiro

Meu artigo comentando o artigo de João Mellão Neto foi por sua vez comentado por José Nivaldo Cordeiro em artigo (Direita, volver!) para o Mídia Sem Máscara. Temos ali um conservadorismo diferente daquele advogado por Mellão Neto e, antes dele, por André Lara Resende. Um conservadorismo religioso e primariamente moral, aparentemente distante da versão laica e puramente política dos outros dois autores. Os problemas, contudo, permanecem, e mesmo o recurso aos Evangelhos é incapaz de salvar o posicionamento de Nivaldo.

Em primeiro lugar, vejamos as críticas que ele faz a meu texto:

O autor comete o duplo equívoco de identificar a direita apenas com o conservadorismo, esquecendo dos liberais direitistas, e de associar os conservadores com o apego a formas sociais injustas já superados. São inimigos do cristianismo e não perdem tempo para difamar a religião de Cristo.
Sou inocente das duas partes do "duplo equívoco". 1) Fui bem explícito em dizer que "direita" engloba tanto conservadores quanto liberais (e, a bem da verdade, outras criaturas da noite, como tradicionalistas, monarquistas, etc.); por esse motivo, o termo é pouco útil, pouco informativo. 2) Não disse que os conservadores têm apego a formas sociais injustas. Disse, apoiado no texto de Mellão Neto (que ecoou Lara Resende e, até que se prove o contrário, Burke), que os conservadores têm apego a formas sociais estabelecidas, sejam elas quais forem; eles têm a tradição como um valor em si, independente dela ser boa ou má, justa ou injusta. Não os acusei de forma alguma de difamar a religião de Cristo; disse que, seguindo os critérios de conservadorismo apresentados, um judeu conservador do século I difamaria a religião de Cristo. Um conservador de hoje em dia obviamente louva essa religião, mais uma evidência do vazio moral que está no cerne desse pensamento. No que diz respeito à política, eu mesmo concordo com várias das bandeiras do conservador atual (defesa do direito de propriedade, responsabilização do criminoso individual e não da sociedade, etc.); sou o primeiro a dizer que eles defendem também formas sociais justas. Só que essa defesa se dá por motivos errados, e aí está o problema. Sigamos o texto de Nivaldo.

Segundo ele, a essência do conservadorismo está em defender "o núcleo permanente da moral cristã".  Ou seja, trata-se antes de tudo de uma postura moral, e não de uma doutrina política. Só que no que se funda essa defesa da moral cristã? "Na tradição e nas Escrituras". Note-se de partida, portanto, que é uma posição baseada na fé, sem qualquer apelo, portanto, a um japonês ou árabe que não partilhe dessas mesmas tradições e dessa mesma fé.

Nivaldo não deixa claro se os Mandamentos aos quais se referem são os Mandamentos antigos, presentes já no Antigo Testamento (sinteticamente, os Dez Mandamentos), ou se são a nova lei dada por Cristo aos discípulos. O plural dá a entender que são os Dez Mandamentos, mas a citação de S. João, embora usada para apontar um fato irrelevante (o fato do termo "permanência" ser repetido inúmeras vezes na passagem, como se contagem de palavras na Bíblia fosse argumento em prol de uma postura moral e agenda política que usem a mesma palavra), é justamente a passagem na qual Cristo "institui" sua nova lei: "amai-vos um aos outros como eu vos amei".

Bom, se o núcleo moral do conservadorismo forem os Dez Mandamentos, então é realmente infeliz que Nivaldo (e, presumo, Kirk?) enxergue o fundamento deles nas Escrituras e na tradição. A origem e o fundamento da ética revelada por Deus na Bíblia é a natureza humana; e a natureza humana é cognoscível pela razão; e quando derivada da razão, chamamo-la de lei natural. Deus revelou os Dez Mandamentos para facilitar a vida do povo rude, para dar-lhes de pronto um motivo fácil ("Deus mandou") para "não matar" ou "honrar pai e mãe", coisas que, mesmo que Deus nunca tivesse falado aos homens, seriam igualmente acessíveis à razão. Trocar a razão humana pela tradição é trocar o fundamento pelo efeito, e por um efeito incerto. Como a própria tradição é falível, e falhou diversas vezes ao longo de nossa história, usá-la como critério moral último (junto das Escrituras, interpretadas, é claro, à luz dessa mesma tradição) é cegar-se aos erros que ela pode conter. Quem toma água do rio longe da fonte, corre maior risco de encontrá-la poluída. E é também a rejeição da razão que faz com que seja um posicionamento sectário, incapaz de persuadir quem não comungue da mesma fé, e portanto inútil no mundo plural em que vivemos. É o custo de se preferir, na política, a tradição à lei natural.

Por outro lado, se o núcleo moral do conservadorismo for a lei de Cristo, que não é estritamente derivada da razão, mas depende também da confiança em Cristo e no amor de Deus por nós, então ele tem que necessariamente abrir mão de qualquer proposta política. A lei dada por Cristo é algo eminentemente pessoal e não diz respeito à esfera dos direitos, indo além dela. Não há nenhuma derivação política, ou mesmo moral imediata do "Amai-vos" (por isso, inclusive, que essa nova lei não abole a lei natural, mas a pressupõe). Com efeito, as tentativas de se instaurar o reinado universal do amor cristão na terra, associadas em geral a comunidades heréticas bem distantes do bom senso (ou, modernamente, aos hippies), nunca são duradouras e nem terminam bem. A lei que se presta ao pensamento político é a lei natural, aquela que nossa razão é capaz de apreender.

A política e a ética estão, e têm que estar, no campo da razão. Não é se curvando à tradição que se resolverá o problema moral e político, mesmo porque, embora eu considere o balanço moral do Ocidente superior aos dos demais povos, nosso passado também carrega suas (muitas) máculas, algumas delas  duradouras. É inútil se esconder atrás do tempo, dos antepassados, ou mesmo da Bíblia.

Ao elogiar o surto de moralismo e escândalo que tomou conta das eleições presidenciais passadas, Nivaldo apenas ilustra a fraqueza de sua própria posição: pois se aquela histeria é exemplo do que, na concepção dele, devemos almejar, se aquele é o tipo de debate político que ele espera do Brasil, então estamos num dilema entre o estatismo amoral e o fundamentalismo furioso. O ideal do conservador religioso está mais para uma turba de fanáticos do que para uma população educada e bem-intencionada.

Sim, a política no Brasil e no mundo é dominada por uma esquerda hegemônica, má e imbecil. Dá algum alento ver o surgimento de uma oposição a ela. Mas enquanto essa oposição se basear num moralismo de fundo religioso ou tradicional, isto é, no conservadorismo (que, não nego, nas condições atuais é menos danoso socialmente do que o progressismo), ela será ineficaz e burra; ineficaz porque burra. Quando tivermos claro que a oposição ao mau na política se dá com valores, e não com nostalgias fracassadas ou histeria religiosa condenatória, e que esses valores têm que vir da razão e não do medo de usá-la, daí sim, quem sabe, construiremos um Brasil melhor, mais rico, mais virtuoso e mais propício - para quem quiser - à vivência da lei de Cristo.