terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Como Inutilizar a Política, ou O Movimento Conservador

Ao invés de, nas eleições, discutirmos política, economia e questões de Estado, que tal prendermo-nos em questões morais pontuais? Foque num tema (casamento gay, aborto, drogas, suicídio assistido) e exclua todos os outros. Dê atenção demasiada, também, para a vida pessoal do candidato: a campanha deve virar um palco de fofocas maldosas; quem sair menos prejudicado delas, ganha. E assim a irrelevância vira o foco. Gostou da proposta? É o que os conservadores têm feito à perfeição. É que eles confundem salvação da alma com administração pública; um erro comum.

Quando digo que as questões morais pontuais são irrelevantes, não falo do ponto de vista moral. Falo do ponto de vista político. O que importa, por exemplo, se o governo dá respaldo e um pedaço de papel aos casais gays? Isso é consequência, na prática inevitável, de um processo cultural de longa data. Mudar isso requererá algo mais profundo que a vontade de um político e briga eleitoral. E, uma vez aprovado o casamento estatal gay, no que isso prejudica as famílias, igrejas ou quem quer que seja? O mesmo se dá no campo da virtude pessoal: o que importa se um candidato teve ou não uma amante? Que os conservadores se prendam a isso mostra apenas o quão descolados estão do mundo real, contentes em seu conto-de-fadas em que os melhores políticos são os indivíduos mais virtuosos; o que, dada a mesquinhez das massas, em geral significa os mais certinhos. Digo que esses estão, não raro, entre os piores!

Das questões morais em pauta, a única que merece atenção política é, na minha opinião, o aborto, pois ela envolve a violação direta de um direito fundamental alheio. Mesmo ela, contudo, é relativizável, posto que um político (ainda mais do Executivo, que é onde o moralismo tem tomado mais conta) tem poder muito limitado para mudar a lei na direção que for; vide George W. Bush nos EUA (que não proibiu o aborto), e todos os presidentes desde a redemocratização no Brasil (que não o legalizaram). É imoral votar num presidente a favor do aborto? Então quem votou em FHC foi imoral. E se bobear FHC - ateu e de esquerda - era, em 94 e 98, mais a favor do aborto do que Lula, cria da TL (que, apesar de todos os pesares, é contra o aborto).

Por isso é tão desalentador ver o apoio efusivo recebido por Rick Santorum na disputa americana; um candidato cujas únicas credenciais são seus "valores conservadores" e sua vida pessoal. Ele tem todas as opiniões da cartilha sobre questões morais (mais algumas próprias dele, como o combate aos contraceptivos e a reabilitação histórica das Cruzadas); quer também bombardear o Irã e se bobear o resto do Oriente Médio; usa analogias tiradas do Senhor dos Anéis para se referir à guerra do Iraque; vai barrar os imigrantes ilegais. Não sabe nada de economia, repete as fórmulas da vez, jurando que discorda em tudo do Obama. Se eleito, deve colocar em prática a mesma responsabilidade fiscal e o mesmo "livre mercado" de George W. Bush. Ah, - dirá o mui piedoso conservador - contanto que ele mantenha a referência a Deus na cédula do dólar, tá valendo!

A importância dada ao caráter moral é também muito curiosa. A insistência na virtude pessoal do governante é feita por clérigos e intelectuais desde pelo menos a Idade Média (talvez em Roma também?), mas raramente - e em alguns períodos curtos e negros da história europeia - é levada a sério. Os founding fathers americanos eram exemplos de santidade moral? E a imensa maioria dos reis europeus, nosso D. Pedro I incluso? A quantidade de filhos bastardos já os desqualificaria numa corrida presidencial atual. Contra Newt Gingrich, o argumento que pegou não foi seu diletantismo (embora muito inteligente, não tem uma teoria consistente para se guiar; é mais Estado para tudo, junto com uma retórica de livre mercado), mas o fato de ter traído esposas e, acima disso, ter possivelmente proposto a uma delas um casamento aberto. O Papa S. Pio V foi um santo; mas seu reinado foi politicamente ruim para a Igreja. Sua inimiga, a rainha inglesa Elizabeth, teve amantes (e para um monarca a aura de virtude é mais importante que para um líder democrático), e foi uma das maiores monarcas da história do país. Robespierre era mais probo e honesto que Luís XVI. Savonarola, mais puro que os Médici. Quem foi o melhor líder?

A campanha de Santorum, ao apelar, antes de tudo, para "valores", apela para o que há de mais medíocre e moralista no eleitorado americano. Se ele vencer, iupi!, os americanos não precisarão temer o casamento gay e ONGs contrárias ao sexo pré-conjugal ganharão mais dinheiro e/ou apoio. E os EUA continuarão no mesmo caminho do socialismo crescente, da burocratização e controle estatal da vida humana, do déficit insustentável que se reverterá em mais impostos e da inflação da moeda; com todos os efeitos morais que essas situações engendram. Mas nada disso importa, agora que os candidatos republicanos descobriram que seus votos dependem apenas de afagar a consciência do eleitorado conservador com promessas de combate aos males terríveis deste mundo anti-cristão. A preocupação moral exacerbada por parte dos eleitores alimenta o oportunismo cínico dos candidatos, que ao invés de ideias e propostas gritam os slogans e repetem os ditames da sharia da vez.

Politicamente,a estratégia tem sido questionável. Santorum conseguiu, de saída, alienar todos os homossexuais e simpatizantes (em entrevista sua em 2003, ele disse ser a favor dos governos coibirem relações sexuais homossexuais por serem uma "ameaça à família"). Isso é um feito, pois fez com que seus valores sejam não só o motivo pelo qual é apoiado, mas também pelo qual é detestado. É duro afirmá-lo, mas vamos lá: mesmo com uma família unida e feliz é possível ser um total incompetente e ignorante no que diz respeito a governar um país.

Vejam o exemplo alternativo, de Ron Paul: pessoalmente, ele parece ser uma figura exemplar: avô, casado, médico obstetra por muitas décadas, fiel, respeitoso, amável. Nunca ficou alardeando sua família ou seus valores da família por aí. Sua campanha é baseada em ideias: ideias sobre como o governo americano deve ser e agir. A campanha de Obama de 2008 também o foi (a de 2012 dificilmente será; vai ser de contenção de danos e de aposta no pragmatismo do possível, junto com a demonização do republicano rival, trabalho que será muito facilitado se o oponente for Santorum). Nesse sentido, Romney também é superior a Santorum: sua campanha baseia-se na ideia de que o governo pode e deve ser eficiente, como uma empresa de sucesso, área na qual Romney tem experiência. Infelizmente, na hora crucial de defender a demissão de funcionários, recuou; se nem ele acredita em sua mensagem, quanto menos os eleitores! É outro que, embora moralmente exemplar, não faz da moral sua bandeira primeira; é um (e o único) Republicano plenamente mainstream na corrida.

O efeito da ascensão conservadora dos dias de hoje tem sido "moralizar" a política; elevando questões secundárias ao primeiro plano. O resultado primeiro disso foi o aumento exponencial da fofoca e da hipocrisia (já pensaram esse tipo de campanha na época do Kennedy, do Nixon ou mesmo do Reagan?). O segundo será eleger um total inepto cujo grande mérito é ter seis filhos, querer proibir a sodomia e se enxergar como um tipo de cruzado moderno contra o inimigo sarraceno. E então colheremos os tão esperados frutos do conservadorismo; e pelos frutos o conheceremos...