quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O patrimônio histórico importa?

Às vezes chego a pensar que devo ser o único mineiro que não gosta de Ouro Preto; ou colocando em outros termos, o único que defende o tombamento da cidade, mas no sentido literal da palavra. Não consigo vislumbrar qual o motivo de ficar preservando cidades como Ouro Preto, Mariana, Tiradentes e outras centenas de cidades históricas que existem em Minas Gerais. Mas como Eu geralmente sou mal compreendido quando falo essas coisas, vou tentar aqui formalizar os motivos que me levam a ser contra “tudo que está ai”, abordando o tema por meio de questões utilitárias e alguns argumentos soltos que podem entrar em qualquer outra categoria.

Do ponto de vista da eficiência a preservação do Barroco mineiro é um monumento ao atraso e à ineficiência; ruas estreitas, falta de rede de esgoto decente (quando elas existem), impossibilidade de utilizar novos materiais e uma gigantesca burocracia para alterar qualquer mínimo detalhe das construções. Isso não apenas atrasa o progresso, mas o transforma em um vilão, quando o contrário é a verdade. Já cansei de ouvir casos de pessoas que adquirem alguma coisa que não tem importância alguma e depois de fazerem uma reforma recebem uma notificação do ministério público dizendo que eles têm que demolir tudo e refazer exatamente do jeito que estava antes. E o uso desse exemplo não tem o objetivo de pegar uma exceção e tentar provar algo geral; isso é algo que acontece recorrentemente, em fazendas e casas que nenhum turista nunca pensou em visitar.

Sobre turistas, não tenho os números do turismo de Ouro Preto (até porque eles não existem), mas a minha impressão pessoal é que ninguém visita aquele lugar, e os poucos que visitam não deixam lá muito dinheiro. Os únicos locais que retêm algum dinheiro são uns 2 ou 3 restaurantes absurdamente caros para o local e alguns hotéis aquém do preço cobrado. Turista mesmo que vai pra lá é mineiro e algumas pessoas de fora do estado, o que na maioria das vezes não é devido à cidade e ao patrimônio histórico em si, mas a alguma festa, quando realmente a cidade fica cheia, o que mostra que preservar a velharia que tem lá não traz nenhum benefício.

Mas a crítica não fica apenas no quesito eficiência. Talvez a questão moral seja o maior problema em preservar o Barroco. Acredito que cada indivíduo deve sempre buscar o melhor para sua vida, e isso significa abraçar em alguma medida as maravilhas tecnológicas que estão à nossa disposição, e quem gosta de morar em uma construção de no mínimo três séculos atrás não tem uma mentalidade voltada ao progresso, o que considero algo altamente desagradável e de alguma forma condenável.

E não é que Eu seja contra preservar coisas antigas, é que não há sentido em preservar algo além de objetos e estátuas em um museu, já que assim eles não vão atrapalhar o desenvolvimento do local. Congonhas, que é uma cidade horrível devido às leis de preservação, fica parada no tempo por causa de meia dúzia de estátuas de Aleijadinho e uma igreja. Que arranquem as estátuas e coloquem no museu e tentem fazer o mesmo com a igreja; mas não faz sentido condenarem toda a cidade ao atraso.

Mas deixando a questão um pouco mais ampla, o Barroco Mineiro não é algo digno de ser preservado como as Pirâmides do Egito, a Grande Muralha da China ou alguma catedral europeia. Essas coisas sim são um marco civilizatório; são relacionadas a quebras de paradigmas e grandes feitos durante a nossa história, na maior parte das vezes em sua era de ouro. Já o Barroco Mineiro representa apenas um período de extrativismo/exploração que não criou nada de novo, sendo superado em importância talvez até pelo ciclo da borracha no norte do Brasil, que criou algo de novo e era movido por uma mentalidade progressista (no sentido antigo e correto dessa palavra). A civilização portuguesa em si é demasiadamente carente de conquistas; talvez com algum exagero possamos considerar as grandes navegações, mas, como isso é supervalorizado no ensino de história do Brasil, nem tenho tanta certeza se globalmente esse fato foi algo relevante.

Por fim, a implicância com Ouro Preto é que essa cidade acaba servindo pra mim como um bastião representando tudo que há de atrasado no mundo, pois não consigo entender como a principal cidade do Brasil no começo de sua história conseguiu, com o ciclo de exploração do ouro, se tornar apenas isso, um morro com ruas estreitas e sujas que não produziu nada de bom.

P.S.: Acredito que da mesma forma que não temos um pensamento sério no Brasil, não temos uma modernidade séria no Brasil.