domingo, 29 de abril de 2012

Pensando fora da caixa sobre a Revolução Industrial

O que causou a Revolução Industrial? Por que ela não ocorreu antes na China ou em Roma? Essas duas perguntas geralmente são evitadas em qualquer conversa ou até mesmo livros de historiadores. É muito mais fácil simplesmente narrar a ocorrência dos fatos utilizando uma linha do tempo, gráficos e fotos bonitas, objetos da época e até mesmo história de pessoas comuns. O problema é que isso só desvia a atenção da falta de uma explicação aceitável e que ao menos pareça definitiva sobre o que causou a Revolução Industrial na Inglaterra. 

A explicação tradicional é que a Inglaterra reunia naquele exato momento um contexto com instituições necessárias para esse salto civilizatório juntamente com a existência de depósitos de carvão que poderiam ser extraídos com relativa facilidade. O problema com essa explicação é que esse mesmo ambiente existiu em diversos outros momentos da história e com outras sociedades, com mais destaque para a China e Roma antiga. Isso não quer dizer que essa explicação está errada, mas que ela está incompleta. 

Um ponto de vista destacado por alguns historiadores nos últimos anos é a influência que o pensamento holandês teve para gerar essas transformações na Inglaterra. Alegam que os holandeses foram pioneiros no que conhecemos como engenharia atualmente, que é utilizar teorias abstratas para criar equipamentos concretos que facilitam a nossa vida. O problema dessa alegação é que a engenharia não surgiu nesse momento, já que esse tipo de comportamento sempre existiu, mas também podemos conceder o ponto que isso se deu de forma mais generalizada na Holanda naquele período que em qualquer outro momento na história, quer dizer, os romanos tinham conhecimentos avançados de engenharia e isso me transpareceu também como algo generalizado. 

Um terceiro enfoque que pode ser usado para complementar a explicação tradicional é a ideia de aleatoriedade. É a ideia de que alguns indivíduos excepcionais nasceram e conviveram na mesma época e conseguiram ligar os pontos para gerar o que conhecemos como a Revolução Industrial. Por isso a referência ao pensar fora da caixa no título. Esses empreendedores e inventores (no caso inglês eram a mesma pessoa) conseguiram “pensar fora da caixa” do seu tempo e ligaram os pontos de forma correta, utilizando o carvão como combustível e outros métodos que aumentaram a produtividade de forma incrível. Nada de errado com essa explicação, até porque talvez ela esteja presente em qualquer mudança histórica, mas ela é difícil de ser verificada – acredito até mesmo que esse grupo de notáveis ocorreram em diversos outros momentos da nossa história, como a Athenas, Vienna e a Revolução Americana. 

Mas como essa explicação tradicional com os seus adicionais não explica definitivamente o motivo pelo qual a Revolução Industrial não ocorreu antes – o caso da China é emblemático porque eles eram mais evoluídos tecnologicamente que a Inglaterra naquele período, além de terem melhores instituições que são consideradas propícias para a produção industrial – surgiram diversas teorias que tentam explicar isso, e a maioria parece tentar “pensar fora da caixa” de forma radical. 

Uma a que Eu tenho prestado bastante atenção é a do pensador Hans-Hermann Hoppe. Hoppe alega que a peste negra gerou uma pressão de seleção natural em um período de cerca de dois séculos, o que fez com que houvesse uma seleção dos mais inteligentes (que ele diz que sobreviveram em maior quantidade à peste) e com isso pessoas mais inteligentes tornaram possível a Revolução Industrial. Está chocado com essa explicação? Eu também fiquei. Mas a explicação não é tão maluca e sem sentido quanto parece; há alguns pontos interessantes na ideia. 

Meus conhecimento de biologia e genética me fazem desacreditar completamente que esse tipo de mudança genética possa ocorrer em um período tão curto de tempo. Porém, lembro de ter visto uma pesquisa alguns anos atrás dizendo que existiam alguns indícios de mudanças genéticas em povoados do Caribe em menos de 500 anos. Isso não prova nada, principalmente porque talvez não existam um maior número de pesquisas sobre isso, mas já mostra que ao menos existe algum tipo de possibilidade disso acontecer. Porém, mesmo partindo do princípio de que esse tipo de mudança genética ocorreu em um curto espaço de tempo, a ideia de que existem genes da inteligência é altamente questionável, até porque definir inteligência me parece uma tarefa inglória e vai muito além de sobreviver à peste negra. 

Outro ponto que ajuda a teoria é uma pesquisa recente indicando que é possível que os ingleses tenham um pool genético mais propenso a ideias individualistas que os povos em geral, principalmente os asiáticos que estariam no outro extremo, o do coletivismo. Temos aqui o problema de ligar algumas coisas que são altamente culturais à genética, mas não tenho como comentar muito sobre isso; talvez faça sentido, mas não me parece algo que se possa usar para embasar alguma coisa. Mas lembro que essas diferenças genéticas são possíveis já que é relativamente famoso o caso de um povoado na Itália em que as pessoas têm uma mudança genética que garante a eles a imunidade ao vírus da aids. 

Sendo assim, mesmo faltando à teoria provas extraordinárias, já que as alegações são extraordinárias, e o próprio autor não ter dado nenhuma prova, já que disse que a Revolução Industrial ter acontecido é a prova da sua teoria (o tal argumento circular débil mental), a ideia não é uma total maluquice já que de acordo com alguns estudos isolados há uma possibilidade remota dela ser verdadeira, apesar de não levar essa probabilidade muito a sério. 

Essa explicação dos motivos que levaram a Revolução Industrial seria algo que preencheria os pontos de disputa atualmente, mas seu tom é altamente politicamente incorreto para os nossos dias, mesmo com os avanços da ciência evolucionária nos últimos anos, além da falta de credibilidade do autor para tratar sobre o tema que embasa sua teoria, incluindo ai a sua falta de vontade de provar ou mostrar quais os indícios de que isso ocorreu, já que essas fatos foram descobertos em pesquisa que Eu fiz de forma totalmente desvinculada da explicação dada por Hoppe. 

Esse é talvez um dos poucos artigos em que não concluo alguma coisa, então aproveitem porque isso é algo raro e se possível indiquem pontos que possam ajudar ou atrapalhar essa teoria e a tradicional, além de trazer alguma outra explicação que Eu possa não conhecer, como a de que o café foi o responsável por tudo.