sábado, 21 de abril de 2012

Ou eu, o outro, a continuidade intrínseca


Escrito por Diego Ivo.

A defesa do aborto recai necessariamente em uma relativização do valor da vida humana que, não sendo absoluta segundo a tese abortista, dependerá de situações e conceitualizações para ser considerada digna e, assim, humana e, pois, impassível de ser interrompida tal qual interrompemos a vida de uma galinácea para a canja, um boi para o churrasco ou uma mosca que pintou para abusar, sob pena de sermos enjaulados. O problema é que a vida como querem os abortistas, não tendo eles um corpo teórico uno, poderá variar conforme a filiação política ou, mesmo, o humor do sujeito que a conceitualize: "vida deve ser a presença de cérebro", diz um; "vida deve ser a presença de sistema nervoso", diz o outro ; "vida deve ser a possibilidade de sentir dor", arrisca um sofrível; "vida humana e inalienável só há quando existe inserção cultural e valores sociais", poderá dizer outro, com toda a razão se seguirmos esse argumento, e assim seria justificável o aborto de bebês já nascidos sem muito esforço, ainda que hoje soe absurdo. Deste modo relativizante, no fundo, vida seria o que quiséssemos que vida fosse e, a nos fiarmos nessa tese, qualquer assassinato seria potencialmente justificável, se algum desses argumentos viesse a ser amparado política ou juridicamente, bem como acontecia no Holocausto quando do conceito de vida eliminavam-se os judeus.

Preocupa-me que o STJ, amparado pelo PT e pelos setores esquerdistas, tendo como único inimigo as vontades reais da própria população, tenha permitido o aborto de fetos anencéfalos com o argumento de que, em suma, aqueles bebês morreriam em alguns dias ou, no máximo, poucos anos de vida (parece que alguns vivem 2 anos), sob a justificativa de que a presença de cérebro é o que define a vida humana e que os problemas causados à mãe do feto anencéfalo são, potencialmente, menores que os "benefícios" dela e do próprio bebê, mesmo quando não há risco iminente de morte para mãe, o que me leva a concluir que uma mulher defensora dessa monstruosa tese torna-se mãe, pois, não por um senso maternal mas antes por um duro amor que mais parece uma espécie de troco transcedental que se recebe pelo sacrifício de se doar ao outro, de pagar suas contas.

Deste modo, a lógica do argumento do STJ é que a vida deve ser considerada de acordo com a quantidade e a qualidade da vida, não pela vida em si mesma, que num anencéfalo seria pouca (mas quem pode dizer se é pouca ou muito a vida do outro?), tomando por parâmetro a média estatística dos seres humanos em geral, em detrimento das minorias que nascem com alguma doença crônica que, em vez de encontrar mais cuidados e apoio, mais amor como concedeu uma mãe que veremos a seguir, devem ser eliminadas posto que são um estorvo diante de nós, os perfeitos normais. Embora já em si gravíssimo este caso atual, porque dá poderes de eliminar vida humana, segundo entendo o conceito jurídico de jurisprudência o que se legalizou foi não só o aborto de anencéfalos mas o de qualquer bebê que não venha a ter vida em qualidade ou quantidade "compatíveis com a dignidade humana" segundo a infalível opinião de nossos ministros, bastando para isso um advogado convincente e com alguns contatos.

Tão preocupante quanto, não há como não notar uma séria dificuldade em distinguir entre o Eu e o Outro, visto que o futuro concorrente à condição de ser humano vivente no planeta Terra (o feto tornou-se um vestibulando ou concurseiro!) deve preencher os pré-requisitos definidos pelos abortistas, não pela natureza, que são no fundo uma projeção de seus próprios egos na condição das vidas alheias. A vida humana torna-se, deste modo, só e somente aquilo que é imagem e semelhança, não de Deus, mas do sujeito específico que defende a tese, mesmo que para ser capaz de defendê-la ele tenha de ir contra não só toda a história do homem na terra, bem como a natureza que o fez pensante, fértil e, no caso das mulheres, dotadas do dom da maternidade e de ser capaz de um amor ao próximo como talvez eu próprio nunca chegue a ser capaz.

Há, todavia, um argumento abortista que em vez de conceituar a vida e, com isso, correr o risco de defender uma ideia que poderia vir a mudar amanhã, mira-se como diametral oposto no exemplo das mulheres de Atenas que geravam para seus maridos os novos filhos de Atenas e, portanto, não eram donas de seus próprios corpos, antes eram propriedade de seus maridos e do Estado, mesmo este não houvesse ainda. Para tais feministas, porque as mulheres não são propriedade de nenhum marido ou do Estado, o que naturalmente é certo, elas têm sobre o seu corpo direito de lhe fazer o que bem entender, o que continua sendo aceitável embora já pudesse ser caso de internação, bem como de fazer o que bem entender com o feto que se encontra em seu útero - e agora a situação ficou preta! Assim como o abortista quer que aos fetos seja concedida vida desde que estes vivam à sua imagem e semelhança, para esse tipo de feminista o feto, em vez de ser uma vida humana, ou até mesmo uma vida humana em potencial, é meramente uma continuidade intrínseca de seu corpo tal como um sexto dedo que surgisse da mão. Logo, nada impede que sendo ele dado à luz ganhe agora o status de continuidade extrínseca da própria mãe e, seguindo este pensamento, não tardaria a chegar um maluco que defendesse o infantícidio de Medéia como, na verdade, auto-mutilação. E o que impediria que esse "direito" se perpetuasse ao longo da vida adulta?

Percebamos que em todos os argumentos abortistas o que temos é uma vontade de que até os fetos sejam à imagem e semelhança dos abortistas, de que vivam com a mesma quantidade e qualidade relativas de suas vidas, o que não é verdade no outro pólo dessa discussão, que por sua vez é capaz de lidar com a vida nas situações teoricamente mais adversas tal como esta corajosa mulher que amou seu filho anencéfalo mesmo sendo coagida a abortá-lo por inúmeros médicos, pelos 9 meses de gestação e poucas horas de vida extrauterina. É curioso que, no caso dos abortistas do sexo masculino, que não são capazes de gestar e dar à luz, o direito ao aborto se defende pelas vias do conceito da vida humana uma vez que o homem, mais racional que a mulher por natureza, obviamente nunca poderia falar do próprio corpo durante a gravidez, exceto um antiabortista que se considerasse mutilado pelo aborto causado a um filho seu, mas aí estaria incorrendo, afinal de contas, no mesmo erro das feministas pró-corpo, que não distinguem Eu e Outro, tratando-o como o que chamei de contínuo intrínseco. As mulheres pró-aborto (chamam de "pro-choice", mas escolher escolhemos a todo o instante e o que se quer só pode ser escolher no lugar do outro, usurpar-lhe o direito à vida), que são naturalmente propensas à maternidade, querem todavia impor seu ego revoltado e doentio até mesmo àqueles a que chamariam, em uma situação mentalmente saudável, maior dom de suas vidas e o transformam em um mal tão gigante, por exigir cuidados e amor, que deveria ser eliminado antes da condenação inevitável a este mundo de sofrimento e mal.

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Para um bom conhecedor de Nietzsche, deve estar patente que todo este artigo segue o mesmo argumento que o filósofo bigodudo usa para analisar a psiquê humana e revelar, entre os seus inimigos filósofos, como estes procuravam imprimir todo o seu subjetivo na realidade, para que a realidade, até ela, se tornasse uma imitação de seu ser orgulhoso, uma continuidade de sua vontade de poder cada vez mais absoluta. Explicito essa característica até porque se utilizou Nietzsche em favor do aborto e, sinceramente, parece-me improvável alguém em sã consciência citar Nietzsche em seu favor, quando ele todo é um corpo teórico que impõe mera e simplesmente a necessidade de dele se discordar, pois a sua filosofia é apenas "processo" para chegar às verdades próprias e não aos absurdos que ele professava meio consciente, meio insano, testando as verdades. Quem usa Nietzsche para concluir erra. Eu preferiria, por outro lado, ter argumentado citando o Freud que em “O Mal-Estar na Cultura” aponta como problemática do homem moderno o fato de este ter com a realidade uma relação "oceânica", isto é, de sensação de continuidade entre o seu ser subjetivo e a realidade, como se ambos fossem o mesmo, tal como mencionei ao longo do texto e fica explícito na relação da abortista com o seu feto: ela trata-o como o seu próprio corpo! Ademais, seria preciso o esforço de desvincular esses argumentos de Freud de sua dura crítica à religião, que por sinal ele só conhecia das carolas que ficavam na primeira fila da igreja e nada tinham de teologicamente profundo.