quarta-feira, 11 de abril de 2012

Escolástica como decadência filosófica? - Da discussão entre Júlio e Olavo

Um novo debate entre meu amigo e colega de Dicta Julio Lemos e o filósofo Olavo de Carvalho tem sido travado acerca de se a filosofia tem uma função de formadora moral do praticante ou do estudante. Não tenho opinião formada no assunto; dedico-me a ler e ouvir diferentes lados. Já sei, contudo, quais posições definitivamente não me convencem. Uma delas é a da filosofia como puro exercício do intelecto sem relevância moral para a vida da pessoa, como é o caso, ou ao menos parece-me ser, da matemática. Claro, o matemático pode ter sua vida afetada de várias maneiras pelo seu objeto de estudo: pode enlouquecer, pode clarear seu juízo e entender melhor diversos aspectos do mundo, etc. Mas tudo isso são, digamos, efeitos extrínsecos ou acidentais (em oposição a intrínsecos ou essenciais) de seu trabalho intelectual. Ele não lida diretamente com as questões mais importantes da vida humana e do lugar do homem no universo. Já o filósofo lida.

E por isso é quase certo que ele confrontará, de forma muito direta e visceral, os princípios que regem suas ações e suas crenças básicas sobre Deus, o mundo e todo o resto. Se levar sua tarefa a sério, não sairá moralmente incólume. Mas nada nos diz que esse efeito moral será necessariamente positivo. Tal qual Zenão sereno frente ao leão que se aproximava - pois ele provara que todo movimento é ilusório -, um filósofo pode se arruinar - em sentidos mais profundos do que o da anedota de Zenão - justamente por causa de sua grandeza filosófica. Se fosse mais tímido, menos corajoso, menos profundo, não botaria em risco as convenções, as crenças e opiniões fáceis e o senso comum que contribuem para nos fazer homens de bem, piedosos, dotados de consciência social, etc. A busca da verdade enquanto tal é um ideal moral nem sempre em harmonia com os demais. Ele por vezes exige que desempenhemos o papel do iconoclasta, do destruidor da certeza e da segurança em nome de uma visão mais clara. A Fé pode dizer que, no limite, tudo se encontra e se harmoniza (e será que ela diz isso mesmo? Quanto que já se passou por Fé inquestionável foi depois abandonado?); e a Fé é exatamente a crença no que ainda se é incapaz de ver...

(Claro, nada disso exclui a possibilidade do efeito moral da filosofia ser bom. E mesmo quando ele é mau, quando o efeito da filosofia é imoral e destrutivo, não descarto que ela possa ser bom numa consideração mais profunda.)

Daí já dá para ter uma ideia de outra posição que me parece indefensável: a da filosofia como escola moral, estética e espiritual; às vezes até com conotações iniciáticas. Olavo não vai tão longe, mas um ponto de sua exposição dá a entender justamente isso: que o escolasticismo medieval já era um período de decadência filosófica se comparado à educação dada nas escolas de catedral, que consistia no exemplo e no carisma do mestre e era veiculada por meio de doutrinas não-escritas, passadas primariamente pela convivência e ao se assistir o mestre filosofando in loco. Essa afirmação já foi feita aqui no AdHominem, numa discussão minha com o Ronald Robson. Olavo menciona essa tese polêmica (dizer que no século XI fazia-se melhor filosofia e investigação racional em geral do que fizeram os escolásticos é, no mínimo do mínimo, altamente discutível) como se fosse ponto pacífico da historiografia contemporânea. No passado não se sabia, mas hoje é dado certo que no século XI as escolas de catedral formavam filósofos tão profundos e elevados que, dizia-se, até os anjos lhes invejavam; ao contrário dos já decadentes escolásticos, que trocaram a filosofia viva por sistemas mortos.

Newman inspira-se no exemplo da universidade medieval do século XIII, mas hoje sabemos, e ele na época não poderia saber, pois só a historiografia posterior o revelou, que aquela instituição, longe de representar o cume da educação na Idade Média, não constituiu senão a cristalização tardia, institucionalizada, mais formalizada e menos vigorosa, daquilo que se ensinava nas chamadas “escolas catedrais” dos séculos X a XII.[3] E o que nestas se ensinava eram precisamente as qualidades do gentil-homem – “um intelecto cultivado, um gosto delicado, uma mente cândida, equitativa e desapaixonada, uma conduta nobre e cortês” – como preparatórias à aquisição das virtudes cristãs, no mesmo sentido em que Clemente de Alexandria proclamara ser a filosofia “o pedagogo que conduz ao Cristo”. O ensino aí alcançou tais alturas, e tão visíveis eram os seus frutos de bondade e sabedoria, que se afirmava, na época, que os anjos mesmos o invejavam. Malgrado o seu fulgurante e breve prestígio intelectual, as universidades que vieram depois, com toda sua história de greves, arruaças e até morticínios e a sua queda posterior numa esterilidade deprimente, jamais mereceram nem mereceriam louvor semelhante.

Essa polêmica histórica é importante ao debate atual porque concretiza as duas posições em disputa: a escolástica representa obviamente um momento da filosofia/teologia descolada da formação humana completa (literária, dos costumes, etc.), muito especulativa e com pouca relação com a vida prática, enquanto o período das escolas de catedral caracterizava-se exatamente por essa visão da filosofia como parte de uma educação para a virtude defendida por Olavo. O grande ponto é: qual desses dois sistemas presta-se mais à filosofia? Olavo claramente julga as escolas de catedral como filosoficamente superiores. A referência que ele dá é o livro The Envy of Angels: Cathedral Schools and Social Ideals in Medieval Europe, 950 - 1200 de C. Stephen Jaeger. Não conhecia o livro, e pelo que vi na Amazon, ele parece mesmo ser muito interessante. Embora eu já tivesse ouvido falar em "humanismo medieval" relacionado ao período, não tinha a noção clara de que se pode falar num período educacional e cultural distinto entre a Renascença Carolíngia e a Escolástica. Mas o pouco que pude ler revelou que o próprio Jaeger discorda da opinião do Olavo (de que os humanistas medievais foram superiores aos escolásticos enquanto filósofos). Diz ele na conclusão do livro (disponível na página da Amazon), cujo trecho que nos é mais relevante coloquei em negrito:

"This study ends with a general reflection on its subject rather than a summary. The movement it has observed is the second of three major events in the education of the European Middle Ages. Each produced changes in western thought, culture and institutions.

The first were the Carolingian educational reforms. They shaped or reshaped the seven liberal arts as a school curriculum and as the basic framework of education. They made rudimentary grammatical, rhetorical and scriptural learning available on a broader scale and created a literate culture in Europe where there had been virtually none before. The institutional shift that made learning possible in a large scale was the revitalizing of monastic and cathedral schools.


The second began in the Ottonian educational innovations and flowed into the intellectual trend I have referred to as medieval humanism. Its institutional basis was the cathedral school as a conveyor of “civil manners” (civiles mores) and educator of future administrators in worldly and ecclesiastical courts. It considerably broadened the basis on which court and civil education were available. Its contribution to rational thought was minimal, in fact retarding, since it was based on personal authority and discouraged skeptical, critical thinking. Its cultural contribution, however, was the social values of European aristocracy, at least that side of their social values that set gentleness and modesty against harshness and arrogance, the codes of behavior we know as civility and courtesy.

The third change occurred in the course of the twelfth century. It represented a shift to rational inquiry and systematic critical thought. Its institutional foundation were the independent schools in Paris which emerged in the course of the twelfth century as a result of the end of the bishop’s monopoly on instruction. Its intellectual contribution was scholasticism. Its cultural contribution was minimal; the individual schools evolved into the institution of the university, and its bequest is that institution with its tradition of systematic, critical thought.

Monasticism gave Europe new ways of studying; humanism gave it new ways of behaving; scholasticism gave it new ways of thinking. Political policy and patronage was behind each of these shifts. The first was Carolingian, the second Ottonian, the third Capetian.

The first and third of these movements have commanded the attention of intellectual historians. The history of the second has still to be written. I have tried to formulate a typology of its curriculum, an outline of its development and a conceptual framework within which its history can be described. Its main points are – (...)"
.


Que houve um período notável de florescimento dos costumes e da formação humana global (ao menos na preocupação dos homens refletida no ensino) é um fato, e é isso que Jaeger afirma. Que esse período tenha sido um cume filosófico e intelectual do qual a escolástica é cristalização decadente e tardia, aí já é interpretação do Olavo.

A interpretação que Jaeger dá nesta breve conclusão é justamente como tendo a pensar. Esse tipo de educação moral e preparação espiritual, embora muito louvável, não é propriamente filosofia. Ela não pode questionar suas próprias bases, e nem debater a sério, pois sua finalidade de formar um certo tipo de homem virtuoso já está dada de antemão; e portanto não resultará em grandes filósofos (os dois grandes pensadores que eu consigo pensar do período não refletem esse sistema das escolas de catedrais: um é S. Anselmo, um verdadeiro gênio solitário no interior do monasticismo e com uma visão pra lá de pessimista da cultura secular humanista; e o outro é Pedro Abelardo, que com sua razão crítica e iconoclasta basicamente criou a escolástica). A relação carismática, ou mesmo iniciática, entre mestre e pupilo não substitui o debate racional. É ridículo e ingênuo imaginar que "sábios" semi-anônimos do século XII que não deixaram obra escrita tivessem pensamento superior ao dos grandes escolásticos. Os poucos registros escritos que sobraram deles mostram que, muito pelo contrário, seus pensamentos eram muito mais conservadores e convencionais, ainda que belos e nobres.

O foco na relação mestre-discípulo e na sabedoria não-verbal (e que, por isso, não pode ser escrito sem ser, em alguma medida, traído) nos aproxima novamente dos sonhos tradicionalistas e perenialistas, dos sistemas simbólicos esotéricos e da imersão em tradições orais. Mas Filosofia é perseguir avidamente o real; e isso é a fuga consumada.

Não estou dizendo que o que o Olavo faz e ensina em suas aulas se pauta por esse modelo fantasioso do tradicionalismo; evidentemente não o faz. E por isso é estranho que ele e tantos de seus seguidores continuem a ter esse tipo de fantasia como ideal de vida e de formação filosófica; mais ou menos como empresários que prestam homenagem ao socialismo.

O humanismo medieval é um fenômeno histórico notável e tem diversos méritos; seu aspecto angelical, contudo, aparentemente devia-se mais ao refinamento dos costumes do que à clareza na contemplação das ideias. A escolástica, por sua vez, como Olavo bem aponta, teve um milhão de contradições, defeitos e fraquezas. Mas um ponto ela teve: fez-se, ao menos por um tempo, filosofia de primeiro nível. Nesse quesito ela é muito superior a qualquer coisa que tenha vindo antes na cultura e nas instituições medievais.

E por isso, para o verdadeiro filósofo, que quer a verdade acima de tudo, acima do refinamento, acima da beleza, acima dos esquemas e das harmonias, das opiniões e das belas crenças, dos costumes louváveis, dos dogmas e da prudência - quase acrescentei "acima da salvação da alma", mas estaria mentindo, pois para ele o maior pecado imaginável seria abandonar essa busca -, os escolásticos de formação parcial e truncada, latim tosco, sem literatura e nada refinados lhe serão de mais interesse do que os anjos da finesse e do saber global humanista e do que os sábios a proferir ensinamentos (ainda que ensinamentos santos!) do fundo de algum eremitério.