quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O poeta descobre a mortalidade do ser amado

É preciso ter cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.

João Cabral de Melo Neto, “Uma faca só lâmina”

Desejo-te ter eterno
e reconheço-te máquina:
porque dentro de ti pulsa
estranha bomba-relógio.

Costumava contemplar-te
como a planta que se abre
uma vez e não termina
de elaborar seu perfume:

se no tempo começaste,
se houve na vida o momento
de respirares primeiro,
desde então és para sempre.

Eternamente te quero
a renascer como o sol,
dia a pós dia, faceiro,
a esconder-se, somente,

jamais pensando em morrer,
desconhecendo o que é morte,
e que nos priva de vê-lo
só por amor das auroras.

Costumava assim dizer-te
da confiança que tinha
quando deitava em teu peito
a turbulenta cabeça

e descansava sabendo
que ali ao menos havia
terreno seguro, alento:
o teu coração batia,

o teu coração batia,
o teu coração batia...
Como nunca escutei antes?
Que essa música macabra

antes mais te arrebatava
do que sempre nos unia.
Eis teu coração dizendo,
e ouço-o distintamente:

Esgoto a cada batida
a vida que te dá vida.
O meu compasso é certeiro,
meus passos, comprometidos.

Esgoto a cada batida
a vida que dá sentido
à tua vida dorida.
Perdoa-me, assim fui feito.

Tal sinfonia escutando,
de terra, sangue e metal,
bater-te no magro peito
inconseqüente e indefeso,

esqueço a noção do tempo
e imirjo no dom vital
que assim nos uniu exatos,
indefectíveis, porquanto

nem mesmo a ausência de vida
que já te sinto no encalço
e às vezes se me oferece
a objeto do meu desejo

apaga a luz desse beijo
mortal, sanguíneo, espectral
que eu deposito na fronte
do teu coração batendo.