segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O que é a Igreja

Acho que ao voltar da Missa fico num estado de espírito demasiado... eclesiástico. Nada melhor para me purgar e voltar ao meu velho estado de espírito laical do que escrever aqui. Este texto será parte informativo (sorry!) e parte pessoal/opinativo, como convém a um blog. Tratarei de um tema ligado à religião cristã - o que é a Igreja - mas de um ponto de vista particular meu que, embora convicto de que seja plenamente ortodoxo, não creio ter visto em outros lugares (embora ele quase com certeza esteja exposto, e melhor exposto, em outras fontes que eu desconheça).

O que é a Igreja? Sim, falo dessa instituição que todos vêem, com papa, bispos, padres, prédios. O que ela tem a ver com a relação da alma com Deus?

História do mundo em 5 frases: o homem foi criado para ser feliz neste mundo. Infelizmente, no começo de sua existência se separou de Deus, que era a fonte de sua felicidade. Como consequência disso, ficou impossível para ele a felicidade para a qual foi feito: a falibilidade e a mortalidade, próprias de animais como ele mas das quais era privado pela dignidade superior de sua alma racional, tornaram-se parte de sua natureza. A razão ficou submetida e em desarmonia com nossa estrutura animal/passional, e cá estamos: incapazes de alcançar o potencial que vislumbramos neste mundo e com tempo limitado de estadia aqui. E depois da morte, o que pode uma alminha feita para incorporar-se fazer solta por aí?

MANS, Deus tinha outros planos, e compensou nossa queda com algo melhor do que teríamos originalmente: a possibilidade de se unir a Ele depois da morte, alcançando assim um estado infinitamente superior ao que nossa natureza anseia. Para completar as coisas, Ele ainda promete, no fim dos tempos, mesclar nossa felicidade terrena e corpórea original à felicidade divina da união com Ele, com o mistério denominado "ressurreição da carne"; ou seja, todos as almas humanas voltarão a ter corpos.  

Essa segunda parte foi efetuada pela Encarnação do próprio Deus, que se fez homem na pessoa de Jesus Cristo. Agora, como especificamente, e por que motivo, a tomada da natureza humana por parte de Deus permite essa nossa nova união com Ele, embora seja dos problemas mais discutidos da teologia cristã, é algo que deixarei aberto. Apenas tomemos o fato como dado e sigamos em frente.

A mudança interna que ocorre na pessoa para que ela passe a amar a Deus e direcionar tudo para Ele é um resultado de dois princípios: a graça de Deus - ou seja, a ação de Deus na alma sempre incitando-a no caminho do bem - e a resposta da alma a essa graça. Ocorre que, para estender a todos os homens a possibilidade de se unir a Deus, de contemplá-lo eternamente depois desta vida, Deus quis instituir alguns canais públicos e comuns para a ação da graça: os Sacramentos.

O Sacramento é antes de tudo um sinal. Mas não é só um sinal. É um sinal eficaz. Um sinal é algo que indica alguma outra coisa, como uma letra indica um som. No caso da letra e do som, o sinal não é eficaz, isto é, ele não produz o som que ele significa. Já um aperto de mãos numa aposta, que simboliza o acordo de duas vontades, é um sinal eficaz, pois é ele próprio que torna a aposta vinculante (salvo alguma cruzada marota de dedos). O Sacramento é um sinal eficaz da graça de Deus que ele simboliza (por exemplo, o Batismo realmente purifica a alma do pecado original - que é nossa separação inicial de Deus; o Matrimônio realmente une as duas pessoas no vínculo conjugal). Mas não são os gestos e as palavras humanas que produzem por si mesmos a graça (o que seria magia), mas Deus que se compromete a enviar sua graça especialmente por esses sinais instituídos que Ele legou aos homens.

O primeiro de todos os Sacramentos é o batismo, pelo qual a alma é purificada e se une a Deus; o nascimento espiritual do cristão. A Igreja, aqui na Terra, é o conjunto de todos os batizados. Em outras palavras, comete no mínimo uma imprecisão quem se refere ao clero ou ao alto clero como "a Igreja" enquanto ele, mero fiel, é alguém que obedece a Igreja. Todo fiel é membro constituinte da Igreja, tanto o leigo quanto o Papa (embora suas funções sejam diversas). Aliás, curiosamente, são membros da Igreja até mesmo os batizados não-católicos (ortodoxos, protestantes que têm batismo e outros grupos).

Para ministrar a maior parte dos sete Sacramentos, Deus quis que houvesse uma classe sacerdotal de fiéis. Em certa medida, todo fiel é sacerdote, isto é, tem uma relação direta com Deus por meio de Cristo. No que diz respeito a ministrar os Sacramentos, contudo (à exceção do batismo - que pode ser ministrado por qualquer um, mesmo por um não-batizado - e do casamento, que é ministrado pelos próprios noivos), apenas os fiéis dessa classe sacerdotal podem fazê-lo. Por que Deus quis assim? Um motivo que me vem à mente é sublinhar a distinção de funções e de talentos da Igreja, na qual nenhum membro é auto-suficiente. Um dos Sacramentos, a Ordem, visa exatamente tornar o indivíduo apto a ministrar os Sacramentos.

Além dos Sacramentos, outra coisa necessária aos homens é preservação do conhecimento dessa obra salvífica que Deus realizou na História e o que Ele nos revelou sobre si e nós. Precisamos conhecer a verdade sobre a condição humana, o objeto de nosso amor, conhecer os meios para chegar a Ele. Por isso, a essas pessoas que ficam com a responsabilidade de ministrar os Sacramentos cabe também o dever de preservar e comunicar esse conhecimento da Fé sem que ele se corrompa.

E é isso. Todo o clero serve para servir a Igreja dessas duas maneiras: ministrar os Sacramentos e preservar (ou seja, estudar) e ensinar a Fé regularmente. Todo o resto decorre disso ou auxilia nisso. O que se costuma chamar de Igreja é essa parte da Igreja com essa missão específica. Eles não estão lá para serem servidos, mas para servir (a Deus e aos homens), o que fazem com maior ou menor devoção. Uma parte essencial, mas que não deve nunca ser confundida com o todo.