sábado, 26 de novembro de 2011

Consciências Negras

Zelda Odumbe nasceu em Kisumu, Quênia e nunca conheceu seu pai biológico. Por imposição do padrasto, que desejava uma enteada pura, teve o clitóris removido aos sete anos de idade. No ano seguinte à circuncisão contraiu poliomielite, o que a deixou paralítica. Sua primeira relação sexual foi com um tio materno que, tendo contraído o HIV, achou que relações com uma virgem o curariam. O mesmo tio, e um vizinho amigo da família, abusaram dela repetidas vezes conforme chegava à puberdade. Escapou da casa materna aos 15, com ajuda do irmão caminhoneiro que a levou escondida, e a deixou aos cuidados da Congregação das Irmãs Missionárias do Precioso Sangue, com as quais passou a morar e estudar, no colégio das freiras em Riruta, arredores de Nairóbi. Aos 17 anos descobriu-se homossexual com uma noviça com quem dividia o quarto. Com ajuda das freiras, emigrou para os EUA aos 21, tendo conseguido uma bolsa para estudar em Harvard.

Zelda era uma celebridade antes mesmo de por os pés em solo americano. Discutia-se a ordem das palestras que ela realizaria, os rumos de sua graduação e até um possível PhD. Na chegada ao aeroporto foi recebida por uma comitiva de líderes estudantis e professores, dentre os quais a mítica Vazulla Nyolg, PhD, chefe do departamento de estudos da Mulher, Gênero e Sexualidade. Ao entrarem na van, a Professora Nyolg mal se continha de emoção; falava ininterruptamente contando à recém-chegada todos os podres da horrorosa sociedade americana, procurando avidamente por qualquer sinal de que estivesse causando boa impressão. Sua nova protegida, afinal de contas, não só era mulher, negra e africana, o que já seria bom mas nada de extraordinário, como também homossexual, sobrevivente de estupro, genitália mutilada, soropositiva e, para coroar, deficiente física. Tudo numa pessoa só. A professora encontrara o Santo Graal.

Zelda não era de muita conversa. A Professora Nyolg, embora ansiasse por relatos íntimos, pessoais, aos quais só ela teria acesso, não se importou muito, pois o silêncio da pupila complementava seu gosto pela fala. E a menina era boa ouvinte; com o tempo e com a confiança adquirida haveria de se libertar da repressão patriarcal que lhe impusera o silêncio como dever feminino; opressão talvez até mais grave do que a sofrida pelas mulheres de Massachusetts. Alojada no melhor apartamento disponível, Zelda e a professora se despediram. Um tanto reservada no contato com os colegas, passou seus primeiros dias de Harvard sem nenhum evento digno de nota.

O primeiro sinal de que nem tudo ia às mil maravilhas veio na hora de escolher as matérias a cursar. Zelda optou pela Literatura Renascentista Inglesa. A Professora Nyolg sugeriu que talvez, querida, os Estudos Literários Africanos a interessassem mais. “Só porque sou africana devo mirar tão baixo?” foi a resposta. Ela poderia ser lida como uma crítica aos professores do departamento, americanos e europeus privilegiados, portanto incapazes de penetrar no coração do lirismo africano. A professora, no entanto, acostumada a encontrar camadas secretas inesperadas em qualquer discurso, pressentia que o sentido era outro. Seja como fosse, era certo que a recém-chegada teria um longo processo de conscientização pela frente: criada e violentada na cultura patriarcal africana, que em última análise fora imposta pelo colonialismo europeu do século XIX, tinha na mente muitas ervas daninhas ideológicas a se extirpar; mas o terreno era inegavelmente fértil.

No primeiro fim-de-semana, na primeira (e única) festa de república a qual foi, Zelda sentava numa roda com seus colegas quando surgiu o tema dos direitos dos animais. Uma menina particularmente engajada opinou que a dieta vegana não só é mais ética, como também mais saudável e até saborosa.
Zelda ficou indignada. 

“Impossível!”

“O que foi, Zelda?”

“Temos prazer em comer carne em parte porque sabemos que ali está um animal. Remete à caça. Houve uma luta, entre vida e vida, com sangue e morte, e um lado venceu, e agora o derrotado nos sustenta. Mesmo carne de fazenda preserva esse significado. A vitória do homem sobre a fera. Já uma cenoura... planta cega, burra. Onde está o valor? Por isso vegetais, em qualquer cultura digna do nome, serão sempre acompanhamento, nunca prato principal.”

“Ah, eu duvido que você sinta a diferença entre um hambúrguer de soja e um de cadáver de vaca.” Disse a colega vegana.

“Hah! Não me faça rir! Mascarar a realidade com um pedacinho nojento de carne falsa só prova o meu ponto. O tributo que o vício paga à virtude.”

“Olha, eu não sei como é na África. Mas você tem que entender que relação do homem ocidental com a natureza é insustentável; somos muito cruéis. A gente se acha senhor, e não parte. A natureza é um Outro.”

“Você quer contato maior com a natureza do que morder um bom bife? A alternativa é ir dar um passeio nos parques perto da minha cidade. E daí você será o bife. Antinatural para o homem é viver feito macaco. Se você quiser salvar a vaquinha, por favor, vá em frente. Só não conte comigo; a vaca foi feita para mim. Não venha me impor suas escolhas.” Quando direitos animais e culturas oprimidas entram em conflito, é politicamente complicado tomar partido.

É provável que o debate tivesse continuado, se nesse momento o rastafári loiro que se sentara do lado de Zelda não a tivesse oferecido um baseado. Ela já se incomodara antes (vocalmente) com o cheiro; agora via a coisa em si. Com um sorriso atencioso para o rastafári, pegou o cigarro e o deixou cair dentro de sua cerveja. Antes que o Bob Marley nórdico sequer esboçasse reação àquele desperdício gratuito de bom cânhamo, Zelda sacou seu celular e ligou para a polícia do campus vir “desbaratar aquela pouca vergonha” [“disrupt this shameless cavorting” foi a frase utilizada, segundo testemunhas]. Daquele dia em diante os convites para as festas, se não deixaram de vir (pois fazê-lo seria interpretado como racismo), foram bem menos efusivos.

Na semana seguinte, numa tarde, almoçando com seus colegas de sala, Zelda iniciou diálogo com uma menina que se sentara a seu lado.

“Qual igreja você frequenta?”

“Er... Sou ateia.”

“Que Deus se compadeça de ti!”, e, fazendo um sinal da cruz para a colega, foi com a cadeira de rodas e a bandeja para um outro lugar à mesa.

O primeiro evento ao qual fora convidada a palestrar era um simpósio sobre “racismo e diferença” organizado pelos alunos, no qual ela seria a convidada principal. A audiência era muito menor do que os cartazes levavam a crer, o que a desanimou um pouco. A substância de sua breve fala, 20 minutos contados, era que o racismo era um problema menor se comparado ao seu problema real dos negros: a indolência. 
“Nada me deixa mais triste que ver um desses negros preguiçosos! – Aqui alguns ouvintes se levantaram e saíram da sala em sinal de protesto – E que ainda culpa os brancos por sua merecida pobreza. O que mais me chocou aqui em Boston é ver essa gente que não trabalha, passa os dias ouvindo aquele lixo de hip hop, reclamando da vida. Um fazendeiro pobre do Quênia ia dar graças a Deus se recebesse as mordomias dessa gente. O sistema é ruim, eu concordo. Mas quem realmente quer dá um jeito de se virar!”

Um bom termo para descrever as expressões da pequena plateia seria “pasma”. O organizador do evento, num misto de surpresa e indignação, levantou a mão para falar.

“Voce não acha que antes de afirmar coisas sobre os EUA você deveria conhecê-los um pouco melhor?”

“Vocês elegeram um presidente negro. Até quando vão se fingir de vítimas? Sim, eu sei: a eleição de Obama foi uma das maiores catástrofes da história americana. No Quênia acompanhamos tudo de perto, porque o pai dele era de lá, e todo mundo idolatrava o Obama. Até as boas irmãs que me davam aula falavam dele com esperança. Coitadas; são todas tão boas, mas ingênuas como crianças! Eu sabia melhor; aquele muçulmano ateu traria ruína para os EUA e vergonha para o Quênia. Organizei com algumas amigas um rosário coletivo no dia das eleições, pedindo a Deus que não permitisse esse escândalo; infelizmente 
Ele tinha outros planos.” Fim do simpósio.

Como uma pedrinha que cai num lago e irradia ondas suaves, um burburinho foi se espalhando pelos corredores de Harvard nos dias que se seguiram. Será mesmo? Pode ser verdade? E logo com a Vazulla! Nada além de boatos maldosos e pouco confiáveis.

Na sexta-feira da segunda semana, algumas pós-graduandas, dentre elas duas orientandas da Professora Nyolg que Zelda já conhecia, se ofereceram para levá-la até seu apartamento. Marjorie Bawls, chefe informal da patota e ex-favorita da Professora Nyolg (antes da chegada da africana), e quem empurrava a cadeira de rodas, perguntou como quem não quer nada durante aquele passeio pelos jardins do campus:

“Zelda, ouvi dizer que você tem opiniões... peculiares sobre o Obama. Você não acha que a eleição de um presidente afro-americano foi uma grande conquista?”

“Pouco me importa a negrura da pele dele; meu problema é com a negrura de sua alma. Por outro lado, ao menos vocês não elegeram uma mulher!” Zelda riu-se do ridículo da ideia.

“Você acha que eleger uma mulher daria munição para os sexistas dizerem que já temos igualdade? Seria um passo atrás em nossa luta?” Perguntou Marjorie. Ela já esperava, e já torcia, pela resposta.

“De que luta você está falando, Marge? A luta de toda mulher direita é encontrar um bom marido, ajudá-lo a crescer e formar muitos filhos decentes. Os filhos são sua glória. Se além disso trabalhar, tanto melhor. Mas que não fique invejando as posições masculinas. A mulher não foi talhada para a liderança.”

Ruth Bittermann, membra do grupinho e que entrara na pós no semestre anterior, estava indignada e pensava em como responder. Ficar indignada era seu passatempo favorito. Como podia Zelda pensar daquela maneira? Ela não era lésbica? Como ousava falar assim? Marjorie estava em silêncio, e parecia ser a única que estava confortável, até satisfeita, com as opiniões da africana. Ao ver a amiga novata fazer menção de falar, sinalizou discretamente que  guardasse sua indignação, ao que Ruth prontamente obedeceu. Mais tarde naquele dia as duas conversaram sobre o ocorrido:

“Devemos avisar a Professora Nyolg? Segunda-feira tem o Forum LGBTTTDST; ela não pode dar a palestra principal!” Disse Ruth.

“Você tem muito a aprender, Ruthie. Eu acho que o Forum será um momento excelente de troca de experiências. Não é para isso que estamos aqui? Não fale nada com a professora, pelo seu próprio bem. Ou você acha que ela verá com bons olhos a sua tentativa de imperialismo cultural?”

“Tem razão.”

Na segunda-feira do evento, todo o departamento de Estudos de Gênero, Mulher e Sexualidade, corpo docente e discente, estava presente para ouvir o depoimento de Zelda, uma homossexual que vivera na pele o preconceito de um mundo conservador e machista. Também vieram professores e alunos dos Estudos Africanos, da faculdade de Ciências Políticas, da História e da Filosofia. A Professora Nyolg ciceroneava sua estrela, apresentando-a a diversas personalidades da academia; sentia-se no topo do mundo. Na hora da palestra, sentou-se ao lado de Zelda, cuja cadeira de rodas estava sobre um tablado elevado com um microfone à frente. Todos na plateia comentavam entre si o privilégio de estar ali, e os fatos tenebrosos da vida da jovem africana; muitos partilhavam aquele momento nas redes sociais, clicando ansiosos nos mini-teclados de celular. Zelda começou sua fala sem esperar pelo silêncio.

“A mais pesada das minhas cruzes é o vício homossexual.”

E o silêncio se fez.

“Não conheço suas causas, mas imagino que seja resultado dos abusos que sofri quando criança nas mãos de alguns homens muito maus. Eles deformaram minha personalidade, e agora é tarde para mudar. Os homens me inspiram medo, insegurança, rejeição. Atraio-me pelo conforto, pelo carinho e pela delicadeza do sexo frágil. Nunca conhecerei a verdadeira alegria feminina de idolatrar, de servir e ser dominada por um homem viril, um herói conquistador.”

Como que dando escape a uma pressão insuportável que se acumulava na plateia, uma voz bradou indignada: 

“Que absurdo é esse??” – Zelda viu o autor do protesto, um desses obesos ambíguos, que não se sabe dizer se é homem ou mulher. Continuou o/a indignado/a: “Isso é algum tipo de piada com a nossa luta?”

“Meu amigo – Respondeu Zelda –  lute pela castidade! Serei sincera: eu vivo esse dilema todos os dias. Será que o caminho para alguém como nós é aceitar nossa condição inferior e procurar a felicidade que nos é possível ou devo oferecer meu sexo como um holocausto agradável a Jesus Cristo?”

Zelda não era boba. Tinha percebido desde os primeiros dias o abismo que existia entre ela e todos os outros. Com essa confissão sincera e ponderada, longe dos clichês conservadores com os quais ela aos poucos ia sendo associada na mente dos colegas e professores, imaginava ganhar os corações da plateia antagônica e o s faria entender seu ponto de vista, quem sabe dissuadindo alguns daquela bobajada infantil de “Movimento”.

O silêncio inicial deu lugar a uma falação ansiosa. Primeiro ouviram-se algumas vozes de descontentamento provocador. Os mais tímidos, encorajados pela manifestação dos extrovertidos, também começaram a conversar e vaiar. “Nunca ouvi algo tão nojento em toda a minha vida!” Em poucos segundos só se ouviam gritos, palavras de ordem e assobios. Uma latinha de refrigerante foi jogada no palco; em seguida, um copo menstrual. Um dramaturgo gay, velho e desbundado, deu um berrão escandaloso e rasgou a própria camiseta. A gritaria subiu ainda mais e dominou o espaço completamente; palavrões foram ouvidos, entre eles a n-word; Zelda chegou a temer por sua segurança.

Por sorte, no meio da algazarra insana uma das professoras de crítica literária feminista tentou subir nas cadeiras para chamar a atenção de Zelda e esfregar na cara dela o subtexto patriarcal daquele discurso horroroso. Só que, destreza motora não sendo seu forte, ela se desequilibrou e caiu em cima de um estudante negro que filmava a confusão em seu celular, e, meio sem perceber, empurrou a professora que caía para o lado para que ela o derrubasse. Humilhada ali no chão, os óculos quebrados, ela se levantou, apontou o dedo para o jovem e gritou para quem estava em volta: “Eu sou mulher e este homem me violentou!”. “Você está louca?” Retrucou o rapaz. Poucos minutos depois todo o salão estava polarizado entre os dois campos: os que acusavam o estudante de estupro e os que acusavam a professora de racismo. Zelda, aliviada por ter sido esquecida, saiu discretamente do auditório. Ninguém se ofereceu para empurrá-la, e ela voltou para casa sozinha, sentido seu primeiro gostinho do gelo departamental que a acompanharia pelo resto da graduação.

Apenas dois espectadores mantiveram o silêncio durante toda a comoção. Marjorie Bawls  contemplava tudo de pé, perto da porta do auditório, e previa seu retorno ao topo que lhe era de direito. Já a Professora Nyolg continuava em sua cadeira ao lado do palco, branca como giz, petrificada, de olhar ausente. Repensava mentalmente toda sua estratégia de manutenção do poder e de garantia das linhas de financiamento dentro da faculdade. Uma carreira de movimentos milimetricamente calculados, de aparências impecáveis, estava agora, por causa umas míseras frases de uma nova aluna, em perigo de se dissolver. Tentando entender o que se passara, juntando as peças daquele quebra-cabeça que poderia ser o fim de seu reinado, a ficha finalmente caiu. O silêncio da menina, os comentários hostis, os boatos que ela ouvira de outros alunos e de alguns professores, as saias africanas, a Ave Maria rezada antes do círculo de leitura de Alice Walker da quarta-feira. Não dava para negar o óbvio: Zelda Odumbe, mulher, africana, negra, homossexual, sobrevivente de estupro, genitalmente mutilada, soropositiva e deficiente física era também uma reacionária filha da puta.

Apesar de ter sido cortada dos velhos círculos, Zelda não desanimou. Seus estudos prosseguiram sem grandes tribulações, mas também sem as grandes esperanças iniciais. Ela logo se enturmou com os conservadores de Harvard, e teve bons momentos de descontração com eles. Doía-lhe, no entanto, constatar o quanto estavam infectados pela cultural liberal. Enfim, era o melhor possível dentro das condições e ela se contentou com o que se lhe oferecia. Foi junto deles, já no início de 2011, que ela redigiu um abaixo-assinado a ser enviado ao presidente Obama, pedindo que declarasse guerra a todos os governos islâmicos do Oriente Médio, África e Sudeste Asiático. “Estamos convictos – concluía o documento – de que uma nova Guerra Santa contra os centros de poder dessa religião sanguinária nos trará grande mérito aos olhos de Deus e será a glória da nação americana pelos séculos vindouros.”

O abaixo-assinado foi mencionado em jornais regionais como prova da perigosa radicalização do pensamento da direita. A diocese católica de Boston aproveitou para distanciar-se do documento, afirmando numa breve nota destinada às universidades locais que “[o abaixo-assinado] não representa a hermenêutica de alteridade que a comunidade eclesial, entendida não mais na clave de substância hierárquico-dogmática, mas de carisma ecumênico-pastoral, propõe, testemunha e profetiza ao múnus dialógico – a um tempo autônomo e heterônomo – da modernidade pós-habermasiana, inserida na jornada kerigmática de comunhão mútua da civilização ocidento-oriental.”

Passou mais um ano. A graduação de Zelda chegava ao fim. Ajudada por amigos ligados à alta esfera do Partido Republicano, conseguira a nacionalidade americana. Nos últimos meses, contudo, estava meio solitária; a dificuldade de conseguir um emprego e a barreira que a impedia de entrar na vida acadêmica a atormentavam. Por via das dúvidas, já havia se informado sobre a inscrição no welfare. Nem suspeitava que alguém voltara a se interessar por ela. A Professora Nyolg, tendo restabelecido sua reputação como autoridade máxima em questões de gênero e sexualidade (o que requereu nada menos que identificar conotações patriarcalistas nos escritos tardios de Andrea Dworkin), passou a ter por sua ex-pupila aquele que ela considerava o mais virtuoso dos sentimentos: pena. 

A pobre menina viera da África, do esgoto do imperialismo ocidental, e ela esperara o quê? Que a conscientização dos primitivos fosse fácil? Doce ilusão pequeno-burguesa, crer que meia dúzia de simpósios bastaria para libertar uma mente de séculos de opressão. Nasceu na professora o desejo de reatar o contato com Zelda, que devia estar para se formar. Quatro anos de Harvard teriam tido algum efeito naquela cabecinha. E se Harvard fora ineficaz, a pressão da realidade não seria. Com o gelo imposto sobre Zelda, e com a economia no estado atual, a menina devia estar em apuros para conseguir um emprego; estaria no melhor interesse dela repudiar os erros do passado e voltar à mentora que num ato de generosidade lhe abria os braços e as portas da academia. Mandou-lhe um e-mail caloroso, como se a relação das duas andasse nos melhores termos, perguntando como ia a graduação e se estava envolvida em algum projeto excitante. 

No dia seguinte chegou a resposta.

Querida Professora Nyolg,

Sua mensagem não poderia ter vindo em melhor hora.  Não posso mentir: minhas perspectivas não são das melhores. Vejo-me muito em breve com um diploma sem valor e sem meios para sobreviver na selvageria do mercado. Para completar meu infortúnio, fui oportunisticamente abandonada por supostos “amigos”.

Foi só recentemente que percebi os equívocos de tantas de minhas posições antigas. Quanto a projetos excitantes, bem, minha transformação ideológica está ligada a um projeto político pelo qual talvez você se interesse.

Acho que estamos de pleno acordo quanto ao capitalismo tardio ter atingido seu grau máximo de degradação. Mas poucos atentam para a base política que permite esse estado de coisas: o princípio maligno da democracia. Foi sob esse ídolo enganador, cuja perpetuação está estranhamente associada ao judaísmo e ao espírito semítico em geral, que nasceram e proliferaram os males que nos trouxeram ao pandemônio atual.

Sendo assim, a única medida sensata que resta ao país é repudiar o crime satânico que foi a Independência e se oferecer em humilde vassalagem à Rainha da Inglaterra, desde que ela aceite: 1) abolir o Parlamento e restaurar todas as suas prerrogativas monárquicas (como chefe suprema das Forças Armadas, não deve ser difícil) e 2) realinhar a Igreja da Inglaterra ao Sumo Pontífice, já que a Igreja Romana é a cabeça espiritual, moral e política do Ocidente.

Creio que as vantagens para a Coroa inglesa são tão patentes que será fácil persuadi-la. Resta convencer uma parcela significativa da opinião pública americana para que possamos enviar um abaixo-assinado ao "presidente". No caso dessa alternativa se revelar inviável (é importante manter os pés no chão), partiremos para a restauração violenta do Poder Real.

Posso contar com seu apoio?

Pelo Trono, Pela Espada e Pelo Altar,

Zelda Odumbe

PS: Peguei no ano passado alguns volumes da obra completa de Julius Evola, mas esqueci de devolvê-los. Você poderia usar suas conexões para apagar o registro desse atraso no sistema da biblioteca? Não se preocupe com as implicações morais e legais do ato; sendo nosso atual estado político completamente ilegítimo, nenhuma instituição que aceite o usurpador na Casa Branca pode emitir regras vinculantes.