segunda-feira, 17 de junho de 2013

Tudo é por mais do que vinte centavos: a luta da classe média

por Diego Ivo

É muito curiosa essa onda de pessoas, até então caladas e à mercê de qualquer discussão política, que de uma hora para a outra tornou-se manifestante e abraçou a causa dos "vinte centavos". Vinte centavos não são nada nem para o mais pobre dos mendigos, que não raro devolveria tão avara esmola se a oferecêssemos. Quem diria para essa classe média que em sua metamorfose dormiu alienada e acordou militante.

Deste modo, os "vinte centavos" parecem ser, justamente por coisa ínfima, o gatilho que faz as pessoas abrirem as suas revoltas inconscientes e abraçar um movimento mais ou menos organizado que, como de praxe, não pode ser coisa racional posto que não tem objeto definido. Ele não é propriamente contra uma coisa, nem a favor de outra, é sempre contra o "estado de coisas". Ou seja, sabe-se lá por que estão protestando e aderindo ao movimento. Trata-se de um objeto que não pode ser combatido ou refutado, uma vez que ele só existe precisamente na subjetividade de cada um dos presentes, nunca nas reclamações dos manifestantes vistas em unidade.

Convém observar que o problema não está em reclamar de algo tão ínfimo quando muitos desses manifestantes possuem bens materiais incompatíveis com a bendita reclamação, como fez sugerir alguns comentaristas. Não há objeção a um manifestante possuir tênis de marca e seu celular ser de última geração, apenas é em alguns casos contraditório. Porém, é sempre de suspeitar uma turba que da noite para o dia se transforma; pois bem, como em qualquer transformação há uma causa, causa essa que eu mais ou menos ignoro no caso presente, mas que sei que não cheira muito bem: o meu espírito aristocrático suspeita que quando há muita mosca em torno de algo, esse algo deve ser muito fétido.

Como sabemos, não haveria tamanha comoção se a causa fosse um problema político específico, como a moralidade, a legalização das drogas, o aborto ou qualquer objeto definido. "Não são os vinte centavos, são todas as outras coisas. Você não entendeu ainda pelo que estamos protestando?", convocou um deles no Facebook, sem também nada explicar. Cada um parecia estar ali protestando ou apoiando o movimento de uma forma subjetiva, inconsciente eu diria. Porém, precisamos atentar ao fato de que não é uma coisa normal: uma onda de manifestações explodiu e parece que ninguém sabe de onde ela veio, apenas se está dizendo que o povo acordou. Mas o que eu vejo é justamente o contrário: que o povo talvez não tenha acordado e esteja dormindo mais profundamente do que nunca. Resta saber qual o objetivo por trás de tamanho movimento, afinal tem alguém pagando a conta e ela não é baixa.

Espanta, de certa forma,  ser a classe média a grande propagadora deste movimento, através das redes sociais com imagens modernas e descoladas e estampando uma bandeira branca do alto de seus edifícios, em solidariedade aos companheiros que estão na rua pondo suas vidas em risco. Justamente essa bendita classe média que há pouco tempo era alvejada pelos ditos intelectuais e formadores de opinião brasileiros, por sua violência e truculência; uma dessas intelectuais, chegando a bradar que odiava toda essa gente bem vestida e bem burguesa: "odeio a classe média", disse ela. E, sabe-se lá por que diabos, é a tal da classe média que, da noite para o dia, resolveu sair às ruas e viver seu momento maio de 68, com um poder de fazer a cidade parar de dar inveja ao PCC. Terá alguma coisa a ver o movimento atual e as recentes críticas à classe média? Sei lá, mas fica aí uma pulga atrás da orelha e quem sabe na próxima greve não apoiarão, em coro, os estudantes da USP.

E para que estas breves linhas não recaiam no mesmo erro dos reclamantes, isto é, de não ter algo mais objetivo de que esteja falando, aqui vai uma leve suspeita que eu tenho. O gatilho para o inconsciente que se tornaram os "vinte centavos" fez despertar uma série de reclamações mais ou menos justas que as pessoas tinham: basicamente, melhores condições de transporte público, emprego, segurança, etc, etc. Reclamações todas elas mais do que justificáveis, repito. Entretanto, ao que tudo indica 99% das pessoas estavam convocando o Estado brasileiro a resolver todos esses problemas, como responsabilidade transferida, reconhecendo-se portanto incapazes no fundo de qualquer ação objetiva que produzisse um bem qualquer. A que esse movimento abre espaço? A um Estado cada vez mais e mais forte, um Estado que não permita o mínimo vácuo onde possa haver defeitos e falhas, em suma um Estado totalitário, pois todos ali pareciam brigar contra o nosso Estado que já está demasiado pequeno para todas as suas necessidades sonhadas.