terça-feira, 30 de abril de 2013

O Martírio do Padre Beto



O céu se fechou para o Padre Beto, e ontem, dia 29/04, caiu o relâmpago da excomunhão, ato inédito para a diocese de Bauru, outrora notória pela ortodoxia de seu clero. Sendo assim, ele já é, à sua maneira, um mártir da repressão hierárquica. “Ainda bem que não tem fogueira”, comentou, lembrando que, séculos atrás, esse seria precisamente seu destino. Em nossos dias de tolerância, e graças às pressões de um mundo secular, a Igreja teve de voltar às boas práticas de sua origem: limitar-se às sanções eclesiásticas. É bom que seja assim. A hierarquia tinha algo a aprender com o mundo.

Pe. Beto defende um Cristianismo um tanto... pós-cristão. No campo dos costumes, sexo livre. No campo da teologia, incerteza sobre o além-túmulo. Há como compatibilizar o pensamento de Pe. Beto com o ensinamento oficial da Igreja Católica? Não há. Nesse sentido sua excomunhão era inevitável. Uma certeza matemática. O que surpreende é sua ordenação. As autoridades clericais não foram capazes de perceber o seminarista com ideias avessas a tudo o que elas pregam. Ponto negativo para o departamento de RH.

Do ponto de vista institucional, a postura do bispo D. Caetano foi perfeita. Embora considere o Pe. Beto “brilhante”, explicou muito bem sua incompatibilidade com o ensinamento atual da Igreja, a qual ele jurou obedecer (mas e a discordância não pode ser, ela também, um serviço?). Pe. Beto “avançou no sinal” (será que o sinal um dia abrirá?), foi além do que a doutrina da Igreja permite. Tendo sido já advertido em privado, e tendo tornado públicas suas ideias, coube à Diocese pedir uma retratação.

Pe. Beto é o rosto da Igreja para muita gente. É preciso cobrar algum tipo de coerência entre suas opiniões e as da instituição que ele representa. Se lembramos ainda que ele tem um foro privilegiado para emitir suas opiniões, aumentando seu alcance, justamente por causa desse suporte institucional, então a cobrança de disciplina fica ainda mais justificada.

Enfim, a excomunhão foi justa. Mas foi sábia? A Igreja não vive seu melhor momento na História. Com razão, suas posturas e diversos ensinamentos são publicamente questionados. Cabe a nós, católicos, e de maneira especial a nossos líderes visíveis, abrir-se a essas questões e acolher quem as levanta. O bom professor não é aquele que manda para fora da classe quem levanta objeções, mas aquele que dá as respostas que põem fim às dúvidas. Precisamos ver D. Caetano – e não só ele, mas todos os bispos do mundo – dando os motivos pelos quais Pe. Beto está errado. Que dialoguem com ele nesse nível, no nível das questões levantadas, e não no da obediência devida aos superiores. Queria ver o Bispo, ou mesmo outros sacerdotes, fazendo seus próprios vídeos, discordando, enfrentando as opiniões de Pe. Beto em seu próprio meio. Aí sim teriam alguma esperança de conquistar as almas seduzidas pelo papo de Beto à mesa do bar.

Afinal, o problema do Pe. Beto, se houver, não foi ter desobedecido aos superiores. Suponha que ele esteja certo em suas doutrinas; então será futuramente canonizado um confessor da fé. “Mas é óbvio que ele está errado!” – Aí está o cerne da questão. Então a medida principal não é ele ter “avançado o sinal”, mas ter dito coisas erradas. Ele as ter dito em voz alta é um dado relevante, mas não é o principal.

Um amigo meu, católico, foi aluno de Pe. Beto, e demonstrou seu apoio por ele nas redes sociais. Conheço muitos outros como ele. A quantidade de Betos, tanto no clero quanto no laicato, supera em muito os defensores aguerridos da ortodoxia oficial. Talvez estejam completamente errados, navegando a esmo em meio a um mar de heresias; talvez estejam certos, apontando o dedo para uma nudez milenar que só agora se tem a coragem de notar. Talvez as duas coisas convivam em cada alma indecisa que acredita na Igreja mas não em tudo que seus hierarcas dizem.

Infelizmente, cultivou-se uma cultura do silêncio na Igreja. Enquanto não se abrir a boca, não há heresia exterior, e portanto não cabem sanções. O real pecado do Pe. Beto foi exatamente ter falado em voz alta o que tantos outros pensavam. E de fato, falar tais coisas sendo padre tem sim muito de imprudência e não deve ser incentivado; cabe uma punição. Mas o buraco é mais embaixo: se é realmente com a sã doutrina que se preocupam as autoridades, e não com uma mera obediência exterior e tipicamente romana; se eles querem almas e não números para o IBGE, então ou o rapa não pode parar no Pe. Beto, ou o rapa não é a solução, talvez nem mesmo para o Pe. Beto.

Ao contrário de D. Caetano, não vi brilhantismo algum nos vídeos polêmicos do Pe. Beto. Repetia muitas opiniões comuns, clichês do mundo contemporâneo, sem dar a eles nenhuma formulação persuasiva ou defesa cogente. Rejeitava formulações tradicionais (“Céu”, “Casa do Pai”) como antiquadas, ultrapassadas, impossíveis hoje em dia, mas sem dizer por quê. Seu talento aparece em vídeos mais comedidos, que agradariam qualquer diocese. É a excomunhão, mais do que o brilhantismo do excomungado, que confirmará a ala mais progressista da Igreja em suas dúvidas e dissensos. Quem ousa não aceitar tudo só porque a hierarquia de séculos anteriores o declarou teve sua boca calada. Suas palavras continuaram sem resposta. A Igreja mostrou sua face burocrática, fria e impassível; as rodas implacáveis do direito canônico giraram, com direito mesmo a juiz eclesiástico. Nenhuma palavra ou gesto de entendimento foram ofertados para aqueles que se identificavam com o que Pe. Beto dizia.

A Igreja tem um sério dilema à frente: o que fazer com as centenas de milhões de Betos que existem no mundo, cada vez menos dispostos a tolerar uma hierarquia doutrinalmente autoritária, que faz demandas pesadas e, descobre-se, é capaz de encobrir os próprios crimes de forma vergonhosa, só para não denegrir a imagem da Igreja. A hierarquia pode tapar ouvidos e os olhos e mandar todo mundo embora. É seu direito; o catecismo está aí e os incomodados que se mudem. Pode fingir que não há nada de errado, que o problema é com o resto do mundo que se recusa a obedecê-la. É a saída mais confortável, que exige menos disposição de mudança; e que garantirá a obsolescência. Ásia e África ainda dão influxo positivo à Igreja. Mas e quando a insatisfação ocidental chegar lá?

Ou então ela pode descer do palanque, reconhecer que também tem muito a aprender (afinal, é humana), e quem sabe, aos poucos, conquistar o direito de liderar ao mesmo tempo em que se despe da pretensão de mandar. Não escrevo nada disso como uma crítica a D. Caetano, cuja nota oficial foi justa e honesta. Tampouco teço loas ao Pe. Beto. É que por trás desse Beto há outros novecentos milhões, sentados à mesa de um boteco, com a cerveja na mão. Quando decidirem, como ele, ser transparentes e abrirem a boca... haja canonistas!

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