quinta-feira, 9 de maio de 2013

Lobão, Médico de Almas




Outro dia me perguntaram se considero Lobão “um sábio”. Não, penso que não. Ele não alcançou o patamar dos gimnosofistas e dos mitopoetas da Antiguidade. Mas é sabido. E tem sabido colocar o dedo em muitas feridas. Roqueiro não serve (também) para isso?

Tem que chutar o balde mesmo! Se pensarmos no roqueiro como uma espécie de sacerdote da juventude, Lobão é um Pe. Beto da contracultura, contestando os dogmas e as falhas institucionais que o resto vê em silêncio, timidamente. Ninguém está gostando; bom sinal. De certa forma é como ele mesmo disse em 2011: “Tem que ser um cara muito escroto pra poder falar sobre isso” – referindo-se à sua visão da ditadura e de seus torturados. Por sinal, penso que aqui ele escorrega. É leviano fazer pouco das torturas e das mortes, ainda que, bem saibamos, a repressão no Brasil foi pequena se comparada a outras. Ainda assim, a ditadura perseguiu, torturou e matou. Coisa bem condenável. Isso não anula seu outro ponto: a cultura de vitimização que o período gerou continua entre nós, mais forte do que nunca. Quem gostaria de ter tido as unhas arrancadas pela ditadura está agora tendo os calos pisados pelo Lobão.

Como de costume, a estratégia da nossa cultura quando agredida é dupla. A dominante é a do silêncio. Lobão está nos maiores meios de comunicação do país soltando frases duras, afrontosas, sobre o cenário musical e cultural. Diz barbaridades sobre o céu e o mundo. Ninguém responde. Em outras épocas funcionaria. Mas já passou o tempo em que o silêncio do mainstream silenciava. Os funis da opinião aceitável estão morrendo; qualquer bloguezinho comanda milhares de acessos. A outra estratégia, usada por gente mais marginal e temerária, ou que fez sua carreira na Internet e portanto não conhece o modus operandi da velha guarda, é responder com a arma favorita da intelectualidade brasileira ameaçada: o psicologismo.

Cynara Menezes tem um diagnóstico para explicar Lobão, Roger e outros roqueiros da direita (aliás, o roqueiro didireita é já uma instituição tradicional): a volta do filho pródigo ao lar burguês. Já repararam, aliás, que direita e esquerda já não têm mais sentido algum além de "bem" e "mal"? E aqui estou já perdendo o foco. Para Mano Brown e outros, Lobão quer se autopromover. Lobão desqualificou sua arte e o acusou de ser braço armado do PT; além de chamar para a briga física, nenhuma resposta? Lobão integraria também o rol dos reaças na moda, esses malditos que, pensando como pensam, ousam aparentar ser cool. É, pode ser. Mas o fato é que os reaças estão na moda; quem não gosta pode fazer graça, mas é melhor se acostumar e tentar preparar alguma reposta, ou a moda pode crescer. Quando Caetano e Lobão citam Olavo... mau sinal.

Lobão vende porque diz o que muita gente ou gostaria de dizer e não tem coragem, ou já sentia e não sabia. Não só sua música, mas agora suas afirmações, têm levado à catarse. São coisas um tanto óbvias (depois  de terem sido ditas), lugares-comuns, que precisavam de uma voz que as trouxesse à atenção consciente do povo. O elogio do empreendedorismo e a revolta contra o funcionalismo estatal, o saco cheio com os patrulheiros da moral pública, o tédio com a música popular, o ridículo do nacionalismo (que hoje é de esquerda, mas poderia não ser) e da obsessão pela arte que reflita a "realidade nacional". Falta rock n' roll.

Há mil e uma vozes prontas para explicar Lobão. Nenhuma para responder-lhe. No final das contas, não importa se Lobão é louco, se quer vender livro, se é psicótico, se recebeu lavagem cerebral. Imagine o pior caso possível: que ele seja um músico sem talento, decadente, desesperado por algum sucesso, ressentido contra um mundo que não o nomeou para o Nobel de Literatura e invejoso das conquistas sociais do governo PT. Isso não muda suas provocações sobre a relação de nosso país com a cultura, sobre a estatização e politização da arte, sobre o vitimismo e o patrulhamento que se consagraram como as maiores virtudes almejáveis pelo brasileiro. Ele já se declarou um Nada; nada se ganha ao se descascar sua imagem. O bom do bobo-da-corte é que ele não tem pretensões pessoais a defender; é preciso que se olhe para aquilo que ele aponta. Ou então que se o leve a sério, e daí sim ele corre o risco de perder a graça e ir fazer outra coisa.

André Barcinski foi a exceção honrosa nessa história toda. (Já malhamos um artigo seu nesta Folha, mas desde que publicou o Guia da Culinária Ogra ele voltou a ser kosher.) De resto, ninguém sabe – ou tem a coragem de – dizer nada. Nosso establishment cultural, plenamente autossatisfeito e seguro de sua virtude em outros contextos, chora uma pobre lágrima no escuro.

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De todas as manifestações do Lobão, esta sem dúvida é aquela que, mais do que qualquer outra, poderia valer-lhe o título de “sábio”. Quando estou na pior, me sentindo mal, sempre volto a essa verdadeira therapeia da alma.