quarta-feira, 22 de maio de 2013

O que as saias ocultam

Libro I: em que se contam os feitos maravilhosos e outros
 actos de virtude e heroísmo dos Cruzados rumo a Al-Cazar 


Há algo que me incomoda no recente saiaço. E não é a tosca visão de graduandos de saia na biblioteca da FFLCH. Ok, tem algo que me incomoda no saiaço mais do que a visão de graduandos de saia. Algo ligado à motivação do evento, e a forma como ele foi interpretado.

Seguem algumas coisas que o saiaço não foi.

Ele não foi uma mostra de coragem dos participantes. Afinal, na USP, a posição majoritária e oficial é sempre pró-diversidade. Existe quem não goste da diversidade de gênero, mas esses se reconhecem na necessidade de ter de se esconder, de não vir a público, de nem tentar se justificar. Piadinhas no círculo de amigos pode; manifestações públicas da opinião contra transexuais, não. Na USP, é preciso mais coragem (e isso não é juízo do mérito das posições) para se posicionar publicamente contra a diversidade de gênero do que a favor dela. Os saiados estavam plenamente seguros de sua integridade física, e decerto sabiam que receberiam muito mais mostras de apoio do que agressões abertas. Além do que, tendo sido divulgado pela mídia, era de conhecimento público que os participantes estavam apenas fazendo um statement moral e político; que não eram transexuais de verdade.

Outra coisa que o saiaço não fez foi promover uma maior aceitação da diversidade sexual, de gênero, ou qualquer outra. Dos que eram a favor dela, a maioria a aprovou. Os que eram contra, devem apenas ter se sentido provocados. Ninguém foi levado a repensar seus preconceitos ou suas posições. Ninguém olhou um menino de saia e pensou "Puxa, aquele sujeito com quem não vou com a cara e que outro dia me chamou de homofóbico está usando saia; talvez eu devesse repensar minhas atitudes...". O mais provável é que, sentido-se provocados, os inimigos da diversidade estejam agora mais seguros de que, de fato, vivem sob uma terrível ditadura gay.

O saiaço foi uma vitória moral para os pró-diversidade, assim como a vitória do Corinthians o é para os corinthianos. Não foi a vitória de uma causa, mas a vitória imaginada de um grupo contra um grupo adversário. Era, enfim, um evento de autoafirmação e autopromoção.

Quem não gosta de ser admirado e elogiado? É natural do homem; está lá em Aristóteles (ele, ao contrário de seus herdeiros cristãos tardios, não via problema na glória mundana). Ao mesmo tempo, devido ao maldito resquício de moral cristã que insiste em não nos abandonar, não pega bem querer abertamente a glória e a ovação. Em nossas conquistas, nosso lucro e em nossos grandes feitos, não devemos buscar a admiração pública como fim explícito - pega mal. Mesmo do jogador de futebol ou do lutador de MMA que acaba de trucidar o adversário, espera-se humildade. Somos, nesse sentido, mais cristãos do que nossos antepassados europeus do século XVI e XVII, cujas mentes se ocupavam desavergonhadamente da busca pela admiração, seja por conquistas de territórios, de donzelas e esposas alheias ou pela destruição e humilhação dos inimigos. Ser orgulhoso hoje em dia, falar de si, dos próprios feitos, gabar-se das vitórias pessoais - está tudo proscrito.

Sendo assim, resta aos desejosos da glória mundana um caminho mais tortuoso. E mais hipócrita. O ego não pode ser glorificado diretamente; a glória tem que ser sempre para um outro. Mas se nossa identidade conseguir mesclar-se a esse outro, então está valendo; podemos colher os louros dele sem ferir a etiqueta. Em tempos de devoção religiosa, quantos egos não se satisfaziam ao se identificar à instituição confessional de sua preferência e exaltá-la ao máximo? Ao invés de ser condenados como orgulhosos, passavam por grandes altruístas. Não é para minha vaidade, mas para a glória da Igreja. Isso justificava muita santarronice. Alguns remanescentes desse velho vício igrejista ainda resistem nas redes sociais, mas o clima dos tempos é, de resto, bem contrário a eles e à religião em geral. Hoje o que pega bem é se identificar à causa correta, ao lado certo da história.

Entre libertação dos escravos, fim do preconceito racial e afirmação da diversidade sexual e de gênero há um contínuo: o mesmo movimento histórico de emancipação e quebra dos preconceitos. Ao menos essa é a leitura progressista, hoje onipresente, da história. Os saiados são descendentes espirituais diretos dos abolicionistas. E como não temos dúvida de que os abolicionistas estavam certos, a vitória moral de seus descendentes já está dada de antemão, mesmo anos antes de quaisquer vitórias políticas concretas (que se seguirão com a certeza matemática de uma lei histórica). Não há nada mais nobre e mais admirável do que se posicionar nessa vanguarda ética e política. Quem quer ser admirado, portanto, adote uma causa "minoritária" (mas cuja vitória inevitável já é concedida por todos de antemão) e seja espalhafatoso em sua defesa.

Novamente: o preconceito não diminuiu por conta do saiaço. Também não houve coragem nenhuma. Sair de saia, anonimamente, na estação da Sé no horário de pico exige coragem; nas faculdades de humanas da USP, como parte de um evento anunciado pela grande mídia, não. O que se viu ali foram jovens celebrando a própria superioridade moral e sendo ovacionados por uma sociedade que, querendo ou não, já lhes elevou ao panteão dos mártires, ainda que sem martírio algum. Essa forma de orgulho tem um benefício duplo: ganha-se não só a adoração alheia como a certeza deliciosa de se estar servindo ao Bem. Aproveita-se o prazer de esfregar o nariz dos inimigos no chão ao mesmo tempo em que se sente um servidor da fraternidade universal.

Estou fazendo um recorte, procurando a finalidade fundamental que dê sentido ao evento e o distinga de outros similares. Para o grosso (talvez todos?) dos manifestantes, devem ter pesado também outras motivações: o simples desejo de participar de uma farra e mudar um pouco o cotidiano maçante, por exemplo. Há, assim, uma afinidade entre o saiaço e um "dia do contrário" de formandos do colegial. Mas há também uma diferença clara: o tom de cruzada moral; de luta contra algum mal. Essa cruzada, contudo, não visa a extirpar o preconceito (antes, deve tê-lo aumentado), mas, assim como as Cruzadas originais tantas vezes o fizeram, a promover seus participantes ao status de heróis e garantir-lhes uma vaga no céu.