sexta-feira, 12 de abril de 2013

Estupros e "estupros"

Nicole Bahls passava uma tarde calma na livraria
quando eis que Gerald Thomas a aborda com a pior das intenções...
Sua expressão facial revela o medo que sentiu.


Existe linguagem não-verbal? Nosso comportamento, nossas roupas, nossas expressões faciais e nossos gestos comunicam algo às outras pessoas? Se sim, não dá pra acusar Gerald Thomas de estuprador, embora seja o que o feminismo militante queira.

Thomas deu uma resposta bem ao ponto em seu blog:
"Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido ! (que nada! Brincadeira também!) (TUDO BRINCADEIRA, GENTALIA HIPOCRITA que abriu uma facebook Page e debate e me massacra e passa dias editorializando e “moralizando”uma questão tão simples e tão absolutamente inútil:"
O papel da Nicole Bahls, escolhido por ela mesma, é se apresentar e agir sexualmente, sem perguntar se os rapazes querem ou não (afinal, é razoável supor que querem, e muito). Se alguém interage com ela na mesma moeda, é estuprador? Mas o negócio dela não é desconcertar por meio do sexo? A desconcertada agora foi ela.

Claro, um pouco depende do que exatamente fez a mão de Gerald Thomas. Há limites que são relevantes em cada contexto. Seria relevante também saber o que a Nicole Bahls achou da situação? Ela se sentiu violada, humilhada, estuprada? Ou só ficou um pouco constrangida? Ou quem sabe gostou? Vai saber. Isso me lembra do caso velho do estupro no BBB, que foi comentado neste blog também. A própria "estuprada" disse que não se importou; ou seja, que o ato do ficante da ocasião não tinha contrariado a vontade dela. Para muita gente, contudo, a opinião dela era irrelevante para definir se o sujeito violou ou não os limites dela. E isso é lutar pela autonomia de alguém?

É preciso ter um contrato verbal firmado antes de se encostar numa mulher mesmo se a linguagem não-verbal dela comunicar que ela quer ser tocada sexualmente? 



Essa tensão entre linguagem verbal (que, via de regra, reflete um juízo mais prudente e intelectual) e a linguagem não-verbal (que reflete um desejo menos filtrado pela razão) não é simples. Há os casos claros, que vão do sexo plenamente consensual em que a mulher toma a iniciativa até mesmo verbal de iniciar, até o sexo plenamente forçado em que a mulher, amedrontada e enojada pelo homem, sofre calada de medo. Entre esses dois, há muita área cinza, e negar isso é deixar uma ideologia simplória falar mais alto do que a realidade que o próprio indivíduo, sem dúvida alguma, percebe. O caso mais interessante é o da interação sexual que, se for trazida ao nível do discurso verbal, será abortada; ou porque o homem "quebrou o clima" ao pedir sexo diretamente, ou porque uma das duas partes tem alguma vergonha do que está fazendo e portanto se sentirá na obrigação de cortar o contato se ele for formulado conscientemente. "O quê?? Você achou que eu ia fazer isso?? Nem me passou pela cabeça!"

Enfim, negar o papel do contexto e da comunicação não-verbal é dizer que o contexto não importa e que todas as nossas interações se dão (ou deveriam se dar) sob a absoluta falta de pressuposições sobre o comportamento alheio. "Um sujeito com olhar de ódio corre em sua direção empunhando um facão? Vamos perguntar o que ele quer antes de esboçar alguma reação.". Às vezes o homem com o facão tinha a intenção mais pacífica do mundo. falhas de comunicação e sinais equivocados são sempre possíveis; o que não impugna a realidade e o valor dessa via de troca de informações. (Aliás, as pessoas menos capazes de captar e participar dessas trocas não-verbais sofrem muito mais para se relacionar).

Nicole Bahls chegou oferecendo seu produto, achando que Gerald Thomas não teria a coragem de pegá-lo. Ele teve (e qual era a intenção dele: realmente sentir um prazer sexual ou gerar algum constrangimento para a "repórter" que tentava constrangê-lo?). Ela se saiu um pouco embaraçada, como fica qualquer um que tem seu jogo virado.

Um dia, eu passeava à noite com três amigos pela rua. Um carro com três meninas da nossa idade parou para perguntar onde era a balada "Pecato". Percebendo que não éramos os maiores pegadores da vizinhança (pois é, comunicamos muito sobre nós mesmo sem abrir a boca), elas resolveram tirar onda. Depois de acertarem onde eu estudava só pelo meu tipo físico e roupas (!!) ainda disseram que, se a gente as ajudasse, elas nos mostrariam os seios. Vendo nossa inibição, ainda foram além e disseram algo como: "Olha só, são três tetas!". Um dos meus amigos, menos propenso a se intimidar, respondeu na lata para a menina, com uma conotação de curiosidade excitada: "Você tem três tetas?". Nisso elas fecharam a cara, xingaram-nos e foram embora. Bons tempos!

O que há num contexto! Se esse mesmo amigo tivesse se aproximado de uma menina quieta num ônibus e, no ouvido dela, tivesse sussurrado a mesma pergunta, seria um assédio sexual bem condenável e bem nojento. Mas naquela noite, naquela troca com as meninas provocadoras dentro do carro, quem o condenaria? Estava completamente dentro do contexto criado por aquela interação. Embora a intenção fosse explicitamente constrangê-las, jogando o mesmo jogo sexual que elas iniciaram, e que estivesse ligado a um desejo de ver até onde elas levariam a brincadeira, foi uma resposta, na minha opinião, perfeitamente aceitável, dado o contexto.

O barulho sobre a "cultura do estupro", quando feito em casos como esse, sem levar em conta contexto e intenção dos participantes, tem apenas um efeito: banalizar o estupro e tirar a seriedade do assunto. Que, aliás, tem menos a ver com a cultura patriarcal, e mais com a biologia: sim, leitores, os bichos também estupram. Portanto, o melhor remédio talvez seja a velha educação de controle sobre nossos instintos. Mas isso não pega bem, né?