sexta-feira, 1 de março de 2013

Nossos Fariseus

Atire a primeira pedra.

E a nova modalidade esportiva do verão é xingar e agredir pecadores, tal qual os fariseus de 2000 mil anos atrás faziam com mulheres adúlteras. Um tanto antiquado? Até seria, não fossem as novas regras, ou seja, o pecado da vez. Desde há dois mil anos até não muito tempo atrás, a praxe era perseguir os pecadores sexuais: ai de quem não seguisse a estrita cartilha moral preconizada pelos rigores da ortodoxia. Hoje, ao menos nas classes educadas, os tabus do sexo foram abandonados e substituídos por outros. As pedras de agora estão reservadas para o pecado social: superficialmente, qualquer mostra de elitismo, ostentação ou “preconceito”.
Vejam o caso da “praia dos riquinhos”, noticiada pela Veja-Rio. Camila Diniz, que estampou a reportagem de domingo e deu seu depoimento por frequentar uma pequena seção privada (denominada “Aqueloo”) de uma praia carioca, na terça-feira recebia promessas de agressão física caso ousasse pisar na praia pública.
O que ela fez de tão terrível? Em primeiro lugar, frequentar um espaço exclusivo e caro. Em segundo, mostrar isso ao mundo. Em terceiro e para coroar, este comentário: “Deixei de frequentar Ipanema e passei a vir aqui todos os dias porque o público é muito mais selecionado”. Revelou ainda que gosta de beber champagne na taça e fazer chapinha depois que volta do mar, que são algumas das regalias da Aqueloo. Mal sabia ela que uma verdadeira legião de usuários de internet não só desaprova suas preferências como se sente mortalmente ofendida por causa delas. A reação pode se manifestar de várias formas: como raiva, outras vezes como escárnio, outras ainda como pena; sempre exageradas.
Falou-se até mesmo que colegas de profissão indignados teriam se juntado para pedir a cassação de seu diploma de… socióloga. Não é por acaso que a Veja escolheu, dentre as centenas de mulheres jovens no Aqueloo, justo a socióloga; ela bem sabe como atiçar os leitores. Pois se tem uma casta social que não pode cometer esse tipo de impureza são os sociólogos; e, em verdade, todos os parentes dos cursos de Humanidades e Artes. Foram eles, afinal, que criaram o padrão moral vigente, e são eles que o impõe a ferro, fogo e humilhação pública. Não diretamente, é verdade. Duvido que os xingamentos das caixas de comentários venham de membros de nossa elite cultural. Seus meios são outros: comentários decepcionados (que é também uma forma de ostentação, só que de qualidades espirituais) e piadinhas em rodas de conversa, em blogs e no Facebook. Uma patricinha que não fez faculdade, coitada, até se entende que se mostre por aí bebendo champanhe em uma praia exclusiva; peca por ignorância. Mas uma socióloga, essa conhece a Lei; seu pecado só pode ser fruto da malícia.
Em outro caso recente, Valéria Rios, uma mãe que tem um blog sobre crianças, ousou falar, aberta e honestamente, sobre como lidar com babás em viagens. Entre outros crimes contra a humanidade, sugeriu que, para conter as despesas, o casal poderia comprar um lanche no McDonald’s para a babá quando fossem a um restaurante caro. A reação foi tamanha que ela tirou o post do ar. Algo similar ao que aconteceu com a psicóloga (conhece a Lei) que não queria estação de metrô em Higienópolis por causa dos mendigos, drogados e “gente diferenciada”. Ao menos no caso dela a parte mais visível da reação teve um toque de bom humor: jovens indignados, provavelmente oriundos das zonas oeste e região central de São Paulo, organizaram um “churrascão da gente diferenciada” na frente do Shopping Higienópolis.
Os veículos midiáticos bem sabem explorar essa atual moda dos públicos esclarecidos de hostilizar, não quem é rico, mas quem é visto como de alguma maneira ostentando ou derivando um prazer sem culpa da riqueza (para o público mais simplório, a pedida ainda é a Revista Caras, ou seja, a admiração pelos ricos e famosos). A “praia dos riquinhos” ocupa o primeiro lugar das mais lidas da Veja-Rio. E lembram do vídeo das socialites discutindo a USP? O único motivo para ter virado notícia foi a esperteza dos jornalistas da Folha, que bem sabiam a reação que viria. E quem esquecerá a indignação pública de Leonardo Sakamoto, um de nossos doutores da Lei, em meados de 2012, contra as madames entrevistadas por Monica Bergamo (outra da patrulha) sobre os arrastões em restaurantes? É nesse filão que entram programas como o “Mulheres Ricas”, cujas protagonistas adoramos odiar. No caso delas, a ostentação é tão escrachada e cafona que poucos levam a sério; elas são antes objeto de riso do que de raiva. O nível da patrulha pela moral e bons costumes chegou a tal ponto que até mesmo Lola Aronovich, a principal representante do movimento feminista no Brasil, teve que pedir a seus leitoresque se abstivessem de comentários a la “classe média sofre” a um texto de uma convidada sua que, maldita, era de classe média e mesmo assim não era perfeitamente feliz.
São dois os tipos de manifestação repreendida por nossos fariseus com suas pedras morais. Uma é a da pessoa que parece tratar alguém de estrato social mais baixo de maneira inferior a ela própria ou sua família (pergunto-me quantos dos revoltados tomam banho no mesmo chuveiro que suas empregadas), e a outra é a pessoa que, sendo rica, ousa ser feliz e demonstrar que não está tão preocupada assim com o resto do mundo. Talvez ambas sejam duas facetas de uma mesma atitude perante a vida. Falei em “pessoas”, usando um termo neutro e politicamente correto; mas percebo que ele é desnecessário: todas as pessoas dos exemplos que consegui achar são mulheres. Olha só, mais um elemento em comum entre a velha e repressora moral sexual e nossa esclarecida moral social: a opção preferencial pelas mulheres.
Acho que o que desperta essa reação é ver não apenas mulheres ricas; mas mulheres ricas que não sentem vergonha de usufruir de sua riqueza e que, além disso, demonstram ter pouco ou nenhum interesse pelas vidas das pessoas mais pobres e seus sofrimentos de maneira geral. Em outras palavras, mulheres que vivem para si mesmas, e não para os outros. E dos dois sexos, é principalmente a mulher que não pode ser um fim em si; se for, é fútil, frívola, burra, má. Imagino que muitas dessas devem conhecer e se importar por pessoas pobres específicas, concretas; aposto também que muitas participam de ações de caridade e voluntariado para ajudar aos desafortunados. Falta-lhes, contudo, a culpa fundamental que transformaria “os pobres” em abstrato em sua razão de viver ou, o que é mais realista, numa pontinha de culpa que as impedirá de aproveitar a vida plenamente. As mulheres criticadas demonstram não estar nem aí: em meio aos arrastões de restaurantes, preocupam-se com suas joias. Outra vai a uma praia para poder conviver com pessoas mais agradáveis, procurando se separar de gente presumivelmente mais pobre e feia. Outras até discutem questões sociais, mas com uma leveza que deixa claro que o happening importa mais do que a discussão (podemos até dizer que o nível das opiniões mostrados no vídeo da Folha era baixo; mas seria ele mais baixo do que as opiniões que correm em reuniões de um centro acadêmico universitário?). Em todos os casos, mulheres que ousam se comportar como se a felicidade delas próprias fosse um fim em si.
Mas nossos fariseus conhecem suas armas, e acabam prevalecendo. Em geral, isso significa fazer sua vítima baixar a cabeça e professar adesão ao código de valores deles. A psicóloga da “gente diferenciada” disse que não usou a tal expressão. A socióloga e a mãe blogueira dizem que foram mal interpretadas; ninguém parece disposta assumir publicamente que, sim, eu prefiro frequentar uma praia com gente mais fina, bonita e agradável. Um comentador da matéria em que Camila Diniz se defende diz tudo: “Vamos ser sinceros, quem é gosta de ir a praia e dar de cara com os farofeiros da linha 2?” Não sou carioca; nem imagino como sejam, como se vistam e como se comportem os tais “farofeiros da linha 2”. Imagino, contudo, que o sentimento de não querer conviver com eles seja um tanto disseminado, na mesma medida em que é violentamente silenciado.
Em tal cenário, é impossível não pensar em Nietzsche. O ódio aos pecadores da ostentação decorre, não de um desejo moralmente superior por parte dos acusadores de escolher outro tipo de vida; mas de sua incapacidade de viver do jeito que condenam, embora de alguma maneira também o desejem. Não é simples inveja. Seria inveja se os acusadores desejassem ter e usufruir daquilo que suas vítimas usufruem. E em algum nível acho que esse desejo deve existir; somos todos humanos. Mas suspeito que, por uma série de motivos, eles seriam incapazes de aproveitar sua riqueza com a mesma despreocupação, e por isso sentem-se mais felizes em estragar a felicidade alheia do que seriam capazes de se apropriar dela. Acho que isso é pior do que inveja. Fico imaginando se os mesmos sociólogos que professam gostar de conviver com os farofeiros da linha 2, na verdade derivam seu prazer exatamente do sentimento de superioridade moral que essa convivência traz. “Eu fico bem em meio ao povo. Sou superior à elite branca que foge deles”.
Sua arma de ataque é justamente a superioridade intelectual e cultural, que dá a eles um poder de determinar e impor o código de valores oficial, desde que consigam arrancar, ao custo de muita chantagem, o consentimento das vítimas. Têm sido bem-sucedidos.
Não que ir a uma praia exclusiva, usar bolsa de marca ou dar dicas de babá sejam ações particularmente virtuosas. Noto, contudo, que todas elas são perfeitamente inofensivas. Mesmo o artigo sobre a babá, que tinha potencial para classismos e racismos mil, foi rigorosamente justo em suas propostas e atitudes, sempre incluindo, por exemplo, a preocupação em conversar e explicar à babá as decisões tomadas; nenhuma delas, afinal, imprópria ou degradante. Nenhum dos casos de escândalo público aqui citados teve como objeto um ato ou atitude verdadeiramente reprováveis. Quem age realmente mal nesses casos, penso, são os acusadores, que sentem ao que parece uma verdadeira compulsão de tornar públicas suas condenações; afinal, é condenando em público que eles próprios adquirem um status moral mais elevado. Isso sim é coisa a se lamentar, sempre cientes de que nós mesmos muitas vezes o fazemos.
A autoridade de nossos fariseus não é de hoje. Resgato aqui trechos do artigo que Ayn Rand escreveu sobre o suicídio de Marilyn Monroe, e que tenta colocar em palavras o que devia se passar nas almas de seus detratores, tão similares aos nossos doutores da Lei em seus piores momentos.
“Se alguma vez houve uma vítima da sociedade, Marilyn Monroe foi essa vítima – de uma sociedade que professa dedicação ao alívio do sofrimento alheio, mas que mata os alegres.
(…)
Sobreviver e preservar o tipo de espírito que ela projetava na tela – um senso de vida de uma benevolência radiante, que não pode ser fingido – era uma conquista psicológica quase inconcebível, que requeria um heroísmo do mais alto grau.
(…)
‘Inveja’ era o único nome que ela conseguia dar à coisa monstruosa que a confrontava, mas era muito pior do que a inveja; era o profundo ódio à vida, ao sucesso e a todos os valores humanos, sentido por um certo tipo de mediocridade – aquela que sente prazer ao ouvir falar das desventuras de um estranho. Era ódio ao bem por ser o bem – ódio à habilidade, à beleza, à honestidade, à sinceridade, à realização e, acima de tudo, à alegria humana.” (Through your most grievous fault, 19/08/1962, LA Times)
Não estou, já disse, elevando as vítimas da nossa patrulha farisaica à condição de exemplos de virtude moral. Estou apontando que aquilo dentro de nós que nos leva a querer colocar para baixo essas pessoas não é bom. Se a alegria alheia nos ofende, se nos causa indignação ver que aqueles acima de nós riem sem olhar para baixo, o problema está mais em nós do que neles. Assim, recomendo a todos que guardem as pedras e as mostras de indignação e vão aproveitar a dia; perto ou longe dos farofeiros da linha 2.
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