segunda-feira, 18 de março de 2013

Suma Verborrágica


Dedicado a Ronald Robson

S. Tomás de Aquino é um dos grandes pensadores da história da humanidade; alguém cuja obra até hoje atrai novos leitores. Sendo assim, penso que é dever nosso tornar sua obra mais acessível ao público. Isso envolve não apenas traduzi-la como também, na medida do possível, adequá-la aos pressupostos e ao modo de filosofar dos estudantes da nova geração. Obra intelectual é coisa viva. Para que S. Tomás fale com maior eficácia aos leitores e autores deste e de outros nobres sites, algumas mudanças são necessárias.

Na maioria das vezes (foi o meu caso), o primeiro interesse do leitor de S. Tomás é pelas famosas Cinco Vias: as cinco provas da existência de Deus dadas na Suma Teológica, sua principal obra. Ora, mas então é possível provar que Deus existe? Como? Com o tempo, cada um encontra outros interesses; mas a porta de entrada mais comum é essa. Por isso resolvi, como passo inicial de meu projeto de trazer a alta filosofia de tempos pregressos ao nível mais evoluído dos estudantes atuais (não falo, evidentemente, dos pobres universitários e acadêmicos), começar minha tradução/atualização por aqui. Tenho certeza que ficará bem ao gosto e ao nível dos fregueses. E vou além: o resultado é superior ao original! Não falo só do estilo literário mais desenvolvido, única maneira de expressar o que S. Tomás tentava em vão com seu latim tosco, mas até mesmo do teor filosófico, que ficou mais profundo, e dá mostras de maior erudição, ao despir-se do tom de clubinho de debates que impregnava a obra do Doutor Angélico.

[A Suma Teológica tem uma estrutura bem simples, mas que talvez não seja familiar a todos. A cada artigo, Tomás propõe uma pergunta. Em seguida, ele dá alguns argumentos contrários à tese que ele quer defender, também chamados de objeções. Em seguida, ele dá um ou dois argumentos de autoridade em favor de sua tese. Depois disso, escreve sua própria resposta. Por fim, responde às objeções iniciais. Para dar ao leitor uma ideia da diferença entre apenas traduzir e traduzir atualizando, fiz uma tradução literal das objeções e do argumento em contrário; a parte modernizada começa com o "Respondo".]

***
Pergunta-se: Deus existe?

Objeção 1: Parece que Deus não existe; porque se de dois contrários, um for infinito, então o outro seria completamente destruído. Mas o termo “Deus” significa que Ele é bondade infinita. Se, portanto, Deus existisse, não haveria mal a ser descoberto; mas há mal no mundo. Portanto, Deus não existe.

Objeção 2: Além disso, é supérfluo supor que o que pode ser explicado por poucos princípios tenha sido produzido por muitos. Mas parece que tudo que vemos no mundo pode ser explicado por outros princípios, supondo que Deus não exista. Pois todas as coisas naturais podem ser reduzidas a um princípio, que é a natureza; e todas as coisas voluntárias podem ser reduzidas a um princípio que é a razão humana, ou a vontade. Portanto não há necessidade de se supor a existência de Deus.

Em sentido contrário, é dito da pessoa de Deus: “Eu sou Aquele que Sou.” (Ex. 3, 14)

Respondo:

Seria, ou, se não muito me engano, é, possível descrever inúmeras – conta o matuto, pelo menos cinco –, não bem argumentos, mas provas, acerca da existência, se é que tal a Ele com justiça se atribui, de Deus. À mente lúcida calha jazer-se contente, quiçá locupleta, saciada pela farta ceia da verdade ofertada em aprazível abundância, com o manjar mais simples, porém assaz substancioso (e aqui, decerto, chiará o apetite debiqueiro dos novos ricos sempre a beliscar finos joguetes lógicos e regalos silogísticos; hors d’oeuvres e sobremesas apetitosas, sem dúvida, que todavia não substituem o filé suculento a proceder-lhes na refeição do estudo), da fina percepção contida no espírito de nossa tão menosprezada tradição, essa madrinha idosa que, experimentada em anos sua astúcia sagaz, bem lá acerta seus sopapos no jovem rebelde – merecemo-nos nós, não nego! –, sem nunca deixar de galantear com mimos de toda sorte aos afilhados que lhe prestem a devida devoção. Pois bem: um problema como o da presença de Deus entre os entes dos quais se pode dizer que participam do conceito que engloba aquilo a que vulgarmente denominamos "existência", se não quiser apenas relar na crosta sem nunca penetrar o âmago intrínseco da ciência mesma (ignoremos, por ora, a redução a que os apóstolos da modernidade submeteram o termo), tem que ser remetido ao tino dessa senhora astuta para sua frutuosa resolução.

Como ia dizendo, esta antiga, idosa e velha anciã presta-nos imenso serviço se ao menos soubermos olhar aonde nos cabe e pedir como se deve. Se há um saber que nos é legado pela mão generosa da tradição, pois perdê-lo enseja um achatamento paulistano de horizontes, é o conhecimento claro, evidente, intrinsecamente certo, da existência mesma de “Deus”. É conveniente lembrar: em todos os tempos e lugares, o homem, onde quer que tenha fixado morada, tem exclamado “louvado seja Deus!”, ou, o que lhe é equivalente, “Deus do céu!”; ou ainda, em certos casos, “Ó meu Deus” (para atermo-nos à fina caracterologia de Rozensweig). A essas três, poder-se-iam ainda somar outras duas vias: "valha-me Deus" e a um tanto elíptica "ó Céus!".

Será preciso algo mais? Frente ao testemunho do senso comum bem formado, cuja verdade se impõe ao intelecto dócil sem necessidade de justificativas externas, sequer formular a pergunta já demonstra, de uma parte, que o aprumo intelectual de nossa “cultura” foi pras picas, e, de outra, a ruína que representa a ascensão da classe média brasileira, doidivanas como sói ser, em termos gnoseológicos.

Resposta à primeira objeção: Mas o que é isso? Deu-se à súcia burra o direito de opinar? Poderia eu, debalde, citar farta bibliografia, decerto não lida e ignorada por meu objetor, que desmonta a pífia “argumentação” contida nesse sofisma. A vasta obra de um Platão, de um Aristóteles, as Catilinas de um Cícero, a Adversus Haereses de um Irineu de Lyon. Um Lactâncio, um Orígenes, um Filostórgio, um Mons. Sanahuja. Ou, para ficarmos nos limites da língua pátria, um Mário Ferreira, um Vilém Flusser, um Nivaldo Cordeiro, um Sidney Silveira. Isso para não falar do oceano metafísico, que não obstante palpita segundo o pulso vivo da concretude mesma do real, de S. Agostinho, cuja obra é, de fato, dever moral ler antes de se meter a palpitar loquazmente sobre o que se ignora. Após teres lido esses e muitos outros nomes, daí talvez aceitarei tua crítica, que por enquanto não passa de ludo pueril.

Suspeito que serei acusado de faltar com as regras de higiene da razão pura por efetuar este trabalho de limpeza profilática. Rio-me cá, à sombra do buriti, deste semblante cheio de orgulho a esconder tamanha bananada argumentatória. Contento-me com a parca glória da formiga que conhece seu lugar (sem jamais desmerecer à cigarra!), e que é, afinal, quem remove o lixo do jardim para que ele fecunde os subsolos. Replico que, em meio aos urros macáquicos da logofasia nativa, o racional é expor a moléstia, e não elevá-la ao estatuto de uma pretensa saúde sui generis para com ela debater. Ademais, quedo-me em paz; sei que o reconhecimento ora sonegado virá, múltiplo, em eras futuras.

Resposta à segunda objeção: Ofende que a filosofia tenha sido tomada pelo palpite, que não basta ser apressado, como irresponsável. Eu, mero estudante, um deslumbrado alpinista frente ao monte inescalável, a contemplar a neve eternal que em seu alto cume reluz, ouso sorver d’água cristalina que do mesmo cume escorre. Pois bem: eis que penetra-me o reto - bem sei como o agüentei calado até agora - propósito de dialogar com esse puro espírito de patuléia, que não só não aparenta qualquer fiapo de vergonha, como porta soberbamente as vestes do orgulho. A imodéstia, o estreitamento da mente como virtude intelectual, o fetiche do conceito, a pobreza do pensamento que se traduz na indigência vernacular (donde se entende o tom de slogan ou, quando muito, telegrama); não é possível respirar em tal atmosfera sem adoentar-se – a falta que fazem os bons doutores! Ao cruento padecer de tal metástase, preferiria eu o retiro de uma rede e um trago da boa Pitu. Mas avante: há uma cultura a salvar!

Ofende ainda mais que carne de tão baixa qualidade venha empacotada em jornal velho; que se exprima filosofia de segunda com discurso que beire as raias do semi-analfabetismo que hoje se ensina nos cursos de Letras. Meu enfaroso interlocutor se assemelha, em sua ociosa burundanga, a um egresso da base de nossa pirâmide social que, sem dela ter levado a sapiência do povo simples (tendo provavelmente trocado a terra nordestina pelo nigérrimo cinza do império paulista) e incapaz de ascender à vera aristocracia do espírito das gentes, vê-se preso como num limbo, não dos inocentes mas dos culpados, sem saber ao certo se a sabedoria virá com o próximo diploma do curso de técnico de informática por correspondência, com o consórcio para a compra do automóvel particular, ou com a quitação das parcelas da quitinete – cuja única janela dá para o banheiro das empregadas domésticas do prédio ao lado – pela qual abandonou a brisa revigorante do Atlântico, incapaz de distingui-la dos fumos negros de Cubatão. Ou da boate Kiss.

Mas, todavia entretanto, num gesto caridoso para com meu semelhante entralhado por tal sucúbica rede, condescendo em partilhar o que, todos os sensatos concordarão, é argumento irrespondível, advindo da doutrina oral, e portanto superior, de Zenão. É-me forçoso reconhecer o rigor argumentativo de um autor que, todavia, é insuspeito de pertencer ao cartel dos conservadores nacionais. 

“É razoável honrar aos deuses. Não é razoável honrar ao que não existe. Portanto, os deuses existem.” 

À inteligência iluminada a evidência é preclara. Ao resto, aos novos ricos da paulistéia inculta que não se dobram à luz e confundem a própria confusão mental com rigor analítico, inquiro apenas: acaso lestes, do cabo ao rabo, o corpus grego e latino? Então não ouses, antes de sessenta anos de estudo, dar pitaco extemporâneo sobre o que passa muito acima de tua míope visada e de teu focinho. Limita-te às linhas de montagem; à filosofia basto eu!

***

[Conta o biógrafo que, depois de ditar esta resposta, S. Tomás almoçou seu cuxá costumeiro, retirou-se do mosteiro e foi deitar em sua rede, na qual cochilou por seis meses, plenamente satisfeito com a contribuição inestimável que acabara de dar à cultura universal. Sonhou, ao que parece, com a fama que sua obra decerto teria nos séculos vindouros. Findo o semestre de repouso, lá estava ele pronto para produzir mais uma obra-prima.]