sexta-feira, 8 de março de 2013

Joel Pinheiro, vulgo filósofo fast-food, e o playground das idéias



A precedência do aspecto imaginativo ou poético da linguagem sobre seus demais aspectos seria, tal como sugerido por Joel Pinheiro da Fonseca em seu comentário ao texto de Bruno Tolentino, uma tese estranha, abstrusa e até mesmo absurda, senão mesmo tão só construída a soldo de hipóteses ainda não devidamente verificadas sobre a teoria aristotélica do discurso. Não é que tal opinião, notem, seja um erro vulgar; não o é porque é mais que um erro vulgar: é um erro vulgar típico de Joel Pinheiro, cujo potencial opinativo dá, para glosar o dito famoso, uma idéia do que seja o infinito. E me dispenso de provar que um potencial infinito para a opinião é uma disposição irrefreável à vulgaridade, sobretudo quando esta folga, desinibida, em tratar do que não sabe e parece nem querer saber.

Eu poderia citar o ensaio de T. S. Eliot muito conhecido sobre o tema, a fim de mostrar que “no princípio de tudo existia a linguagem, e a linguagem era o hino”, como diz um Upanishad, se não cito estropiado. Poderia lembrar Pound. Octavio Paz ou Eduardo Lourenço. Poderia citar cientistas, como Niels Bohr. Citar uma lista alfabética de filósofos e filólogos, historiadores e críticos culturais; teses de Vico, teses de Croce, teses de Flusser, teses de Vossler ou de Bodmer; até teses curiosamente difundidas em nosso meio por Per Johns ou Segismundo Spina. Poderia até lembrar a Joel que a própria língua na qual escreve ganhou sua forma moderna – e, portanto, sua potencialidade expressiva atual – na obra de um poeta, autor de um épico meio dispensável a mentes mais científicas; que coisa similar se deu no francês, no italiano e no espanhol. Poderia fazer isso não por ser prodigiosamente culto, o que infeliz e desgraçadamente não sou; mas apenas por um esforço quase heróico, e a lidar com referências quase banais, de levar o meu colega de blog a, sequer por um momento, recolher-se um pouco, a sentir a bigorna da realidade desabar sobre sua cabeça: não falar sobre o que não se sabe não é um princípio de ética intelectual; é um princípio de ética tout court, ensinado por avós com aventais sujos de polvilho, só que apenas mais impositivo no campo intelectual.

Joel Pinheiro poderá dizer que estou apenas o chamando de ignorante e que assim não é possível estabelecer uma discussão racional. Eu diria que constatar ocasionalmente a sua ignorância me é um exercício bastante racional; diria também que dizer “Ah” e transcrever uma bibliografia é não só racional, como até inevitável a uma criatura tão preguiçosa como eu. Ao que ele poderia dizer que recomendar mais estudo e prudência é, em si, coisa válida, mas que a impugnação de uma idéia deveria passar pela exposição do que a impugna, sob pena de ser apenas uma tentativa de causar impressão. Ao que, por minha vez, eu diria que a obrigação de um intelectual, ao erguer o indicador e dar pitaco sobre o que seja, é ter pelo menos um esboço da topografia do terreno onde está pisando, para que, mesmo resvalando em cocô ou caindo em rota de capivaras, saiba como voltar a de onde veio e encetar novo caminho, desta vez com mais segurança; ou, dito de outro modo: em geral, o ônus da prova cabe a quem chega botando banca.

Ao que, talvez por fim – enfatizo: talvez, pois Joel pensa que a finalidade de falar é continuar falando infinitamente, ao passo que a maioria das pessoas e eu pensamos que a finalidade de falar é uma hora calar a boca, de preferência fazendo uma reverência silenciosa à pequena verdade que nos emudeceu – ao que, talvez por fim, ele poderia dizer que seu comentário era uma mera opinião, algo apenas esboçado na caixa de comentários a um texto de blog e que não é preciso cobrar tanta seriedade de uma ninharia dessas. E, mesmo que meu colega não chegasse a enunciar este ponto, é este efetivamente o ponto. E, mais perigoso ainda, parece que este seria o ponto em qualquer lugar, em qualquer circunstância, não se restringindo portanto a blogs. E – hoje acordei meio bíblico, cheio de “e”, “e” – é justamente essa concepção da cultura como um playground, esse clima quase esportivo, lúdico, de “Então, galera, vamos todos fazer uma roda, dar as mãos e começar a filosofar com senso crítico e a partir das nossas próprias cabeças!”, que não só me incomoda como zumbido de mosca ao ouvido, mas que é a morte de toda cultura efetiva, duradoura. Daquela cultura que de fato tem uma força cogente, mesmo quando lidando com matéria algo limitada, como é o caso da poesia de Drummond tal como comentada por Tolentino naquele texto (sim, há imprecisões no que Tolentino diz, mas estas se desfazem caso se atente a que o Drummond que se difundiu socialmente não foi sobretudo o de Claro Enigma, mas quando muito o de A Rosa do Povo).

Esse, afinal, é o mais fidedigno espírito de patuléia. Passa-me a impressão de um novo-rico recém-admitido ao grêmio daqueles a que é dado especular sobre outras coisas que não o orçamento doméstico; ou a impressão de uma criança que, despedindo-se das peças Lego da sua infância primeira, substitui-as por idéias, essas novas peças com que construirá castelos de areia. Em todo caso, trata-se de uma incompreensão fatal da finalidade da cultura, incompreensão na qual se sente mais uma exasperação da vontade, da ação, do que uma simpatia profunda e de ordem afetiva; na qual, em suma, não se sente aquele mínimo de paixão sincera sem a qual não se consegue nem pegar o ônibus lotado de volta para casa sem praguejar contra a humanidade ou recair nessa coisa paradoxalmente a mais oposta ao hábito, que é o conformismo. No caso, um conformismo pedagógico ou, antes, anti-pedagógico: de quem se conforma com a discussão que se complexifica às custas do achatamento da realidade, para que caiba em seu horizonte nanico.

O tom de queima de estoque que todos os textos de Joel Pinheiro exibem é só a face estilística dessa espécie de l’art pour l’art do pensamento. Se o tom talvez lhe seja marcadamente próprio, não por grande apuro ou originalidade sua, antes pela perfeita conformação, digamos, entre a “forma” e seu “conteúdo”, infelizmente a postura não lhe é exclusiva – e escrevi esta notinha, que espero tomem menos como invectiva do que como advertência, justamente por isso. Há um pequeno exército de pensadores prêt-à-porter em marcha no horizonte: uns mais dogmáticos, talvez porque caricaturalmente católicos; outros mais céticos, talvez porque mais fiéis à sua verdadeira disposição interior; mas todos prestando juramento à tal disposição, que é a de fazer da irresponsabilidade um método, do pensamento um exercício de rechaço da imagem pessoal que não lhe interessa ter, do estudo uma investida continuada contra toda paciência e apuro analítico peculiares ao homem culto. O fenômeno é tanto mais curioso porque todos estão, implícita ou explicitamente, a falar sobre ler livros; até acredito que os leiam, vez ou outra, mas lhes interessa mais é ser as pessoas que sabem que devem lê-los e que, na medida em que não sabem o que é problema intelectual de verdade, fazem da vida intelectual – chamemo-la assim... – uma coisa bisonha, chata e deprimente.

Certa vez, Joel Pinheiro afirmou que o inacreditável Leonardo Sakamoto era o seu antípoda. Esta afirmação resume tudo o que eu disse até aqui. Também resume o fato de que Joel Pinheiro é o meu antípoda.