sábado, 31 de agosto de 2013

A Misericórdia de Maomé e as Nossas Criancinhas

Chegou-me aos olhos recentemente uma interessante anedota retirada da tradição islâmica sobre a sabedoria e a misericórdia de Maomé. Reproduzo:
Uma mulher aproximou-se de Maomé e disse-lhe: “Cometi adultério; purifica-me” [Ela queria que Maomé a castigasse para que Alá perdoasse seu pecado e a deixasse entrar no Paraíso.] Maomé disse-lhe: “Vai-te embora e espera que nasça a criança”. Depois de a criança nascer, ela apareceu com o filho e disse: “Eis o filho que gerei”.

Maomé respondeu: “Vai e trata dele até ao desmame”. Quando ela o desmamou, voltou a Maomé com a criança que segurava na mão um pedaço de pão. [A criança provavelmente teria cerca de dois anos porque era esse o período de tempo prescrito pelo Alcorão para o desmame.]

A mulher disse-lhe: “Apóstolo de Alá, eis que desmamei a criança e ela já come alimento sólido”. Maomé deu a criança a um dos Muçulmanos e depois pronunciou a sentença. A mulher foi enterrada numa cova até ao peito e o povo apedrejou-a.”

- The Correct Books of Bukhari, lv. 17, nº 4206, In: Mark A. Gabriel. Jesus e Maomé: diferenças profundas e semelhanças surpreendentes. (http://www.ministeringtomuslims.com/downloads/Jesus%20and%20Maome.pdf)
Ao ler o trecho acima, nossa primeira reação é lembrar do episódio análogo no qual Jesus perdoa Maria Madalena proclamando: “Atire a primeira pedra quem nunca pecou”. A visão de tal modelo nos faz franzir o nariz para a suposta benevolência de Maomé. Aos olhos mais desconfiados a anedota causa até um leve risinho, como se fosse um exemplo irônico; como se revelasse, em verdade, a crueldade de Maomé. Convido vocês, portanto, a uma breve suspensão do juízo. Vejamos até onde podemos julgar o profeta.

Quando olhamos para este caso nossa tendência é pensar na mulher pecadora como o centro do problema – ela que será punida com a morte cruel. Mas notem bem, a anedota não é sobre a mulher e sim sobre filho que ela carrega no ventre. Tudo dá a entender que, caso ela não estivesse grávida, a sentença seria pronunciada e consumada imediatamente. No entanto, não existe só a pecadora ali. Dentro dela há outra pessoa que – apesar de muito provavelmente ser fruto do pecado – é inocente e merece ter sua vida preservada. Aqui já poderíamos começar a falar sobre a sábia percepção de Maomé, que – ao contrário de nossos muito eruditos juristas – vê no feto uma individualidade pessoal, digna dos direitos básicos (como o da vida) e inocente do crime de seus pais, neste caso o adultério (mas poderia ser o estupro, por que não?). Mas quero levá-los a outra reflexão um pouco mais inusitada.

Se fosse o caso de apenas preservar a vida do filho, Maomé teria pronunciado a sentença assim que a pecadora lhe apresentou o menino já nascido, mas não é o que o profeta faz. Ele a manda de volta, com a ordem de cuidar da criança até o desmame. Ou seja, até a idade em que a criança não dependa mais da mãe. Reparem que a mãe é uma pecadora, que pela lei deve ser apedrejada até a morte pois cometeu crime grave. Apesar de tal agravante Maomé não entrega o menino para uma ama criar. O profeta não busca alternativas, pois, uma vez que a mãe está presente, não existe melhor opção para a criança do que permanecer nos braços maternos. O profeta busca o melhor para a criança independentemente da condição da mãe. Sua percepção vai além da pessoalidade do feto e do direito à vida, abrange a natureza intrínseca aos primeiros anos infantis, onde o cuidado e o contato da criança com a mãe é fundamental e insubstituível. Incorrer-se-ia no risco de prejudicar a vida futura daquele pequeno caso o vínculo materno fosse rompido precocemente. Podendo-se evitar o malefício, evitou-se. Tendo isso em mente, daremos agora um longo salto de tempo e cultura, e pousaremos sobre nossas próprias cabeças: aqui na sociedade cristã do século XXI.

Foi publicada n’O Globo recentemente uma entrevista com a Sra. Hildete Melo, economista da UFF, na qual se reproduziu a seguinte frase: “O trabalho da mulher é ficar grávida e parir. E nem amamentar precisa, está aí a Nestlé. (...) A grande mudança é ter creche e escola funcionando em tempo integral. Já diminuiu a crença de que pôr a criança na creche muito cedo é abandono, a criança vai ficar mais doente. A psicologia reabilitou as creches.”

Agora, meu caro leitor, eu te faço uma pergunta sincera: você que torceu o nariz para a misericórdia de Maomé, que no fundo do coração o chamou de cruel e desumano após ler a anedota, do que você, meu amigo, chamaria a Sra. Hildete Melo? Se você ainda não se deu conta da gravidade do problema, eu explico.

Nossa sociedade, por meio de ideólogos e intelectuais, foi gradualmente banalizando a importância do contato entre mãe e filho na primeira infância ao ponto de podermos abrir um jornal de grande circulação nacional e ler a absurda, a inaceitável frase “o trabalho da mulher é ficar grávida e parir. E nem amamentar precisa, está aí a Nestlé.” Quando chegamos a esse ponto, acreditem, é porque algo de muito errado aconteceu nos caminhos de nossa civilização.

É difícil para mim sair na rua com minha filha de um ano sem ouvir a pergunta “ela já está indo para a escolinha?”. É ainda mais difícil simplesmente dizer “não” e voltar para a casa sem sentar o interlocutor num banco e explicar para ele que existe um equívoco muito grande em se esperar que uma criancinha de um ano esteja indo para a escolinha. Você que não vê nenhum problema em creches e escolinhas a partir dos três meses, deveria pensar um pouco mais em Maomé.

Contrariando o que a Sra. Hildete falou em sua entrevista, hoje em dia já existe um vasto estudo sobre danos que a “socialização” precoce causa nas crianças. Alguns deles estão referidos aí abaixo, mas quero, além disso, exercitar o bom senso com o qual fui presenteada por ser humana e analisar a situação de próprio punho.

Antes dos dois anos de idade a criança depende de que um adulto cuide dela completamente, e com a máxima dedicação possível. Ela precisa de tudo: de alimentação, de higiene, de aquecimento, mas além disso, e com a mesma importância, de acolhimento e de carinho. Vou mais longe, a criança nessa idade precisa ser o centro do mundo. Precisa se sentir especial, importante e amada. A criança nessa fase precisa sentir que o mundo a acolheu, que ela pode confiar na realidade, que pode se entregar à vida com a quase certeza de que as coisas darão certo. É aqui que se começa a construção do primeiro e mais duradouro vínculo afetivo, que se consolidará na figura da mãe. É também nesta fase que se cumprem as primeiras etapas psicológicas do desenvolvimento humano. É aqui que se cria a empatia, a noção de causa e efeito, do certo e errado, do eu e do outro. Tudo em germe ainda, mas tudo presente e com uma importância extrema para o crescimento saudável de um ser humano. Qualquer um que já tenha filho – principalmente mais de um – sabe por experiência como uma criança pequena demanda atenção. Ela quer os pais para ela, e quer o tempo inteiro. Quer que prestem atenção, que brinquem – ou até briguem – com ela. Ela precisa dessa atenção para se localizar no mundo; os pais são o suporte da realidade nos primeiros anos, são o meio pelo qual o mundo se apresenta à criança, e esta ao mundo. Agora vamos pensar no que acontece quando retiramos um bebê do colo da mãe e o colocamos, em período integral, na creche.

Para começar, lá ele encontrará muitas outras criancinhas. Com sorte haverá adultos experientes e dedicados, que tratarão de mantê-lo bem alimentado, limpo e longe de perigos por algumas horas por dia. Hoje em dia as crianças já chegam da creche jantadas e de banho tomado. Lá dentro o ambiente será controlado para que nada saia do padrão. A “tia”, por mais amorosa e atenciosa que seja, não poderá tratar cada uma das crianças como se esta fosse o centro do universo. Isso seria um paradoxo. As crianças serão tratadas como um grupo, pois afinal, é isso que são. Se a cuidadora expressar preferência por uma delas terá problemas, pois todas ali devem ser tratadas com o mesmo grau de atenção e cuidado. Assim, as outras crianças, muito mais do que “coleguinhas” de meses de vida, serão encaradas como obstáculos entre a criança e a atenção do adulto que dela cuida. Esporadicamente a “tia” será trocada por outra e qualquer tentativa de vínculo afetivo que o pequeno, desavisado, estivesse se esforçando para construir terá que ser refeita ab ovo. Na mente dessa criança, a imagem do mundo externo se construirá como um mecanismo do qual ela é apenas mais uma peça que deve comer tal hora, brincar tal hora, respeitar tais regras... Os vínculos afetivos serão sofríveis, para não dizer impossíveis. Ela definitivamente não se sentirá importante e amada, mas sim adequada ou inadequada em certas circunstâncias. Algo próximo da chamada “síndrome do orfanato” ou “do desapego”.*

Eu sei que o modelo social no qual vivemos exige que algumas mulheres entreguem seus filhos recém-nascidos a creches. Isso se dá por conta de inúmeros fatores, dentre eles a desestruturação da família, gerando casos de mães solteiras que precisam trabalhar para sustentar a si e aos filhos, e que não podem contar com a ajuda de ninguém nessa tarefa. Mas é mister ressaltar que existe uma diferença entre necessidade e cultura. Uma coisa é precisar recorrer a este recurso extremo como meio de sobrevivência, outra é ceder às exigências culturais, que cobram da mulher que seja produtiva, independente, bem-sucedida, e que as leva – em não raros casos – a voltar ao trabalho mesmo antes de vencer a licença-maternidade.

O profeta Maomé, há alguns séculos, percebeu a importância que havia em se preservar o contato maternal nos primeiros meses de vida do bebê, e o preservou mesmo diante de uma situação extrema, colocando o bem-estar do filho acima da lei. Nós, cristãos modernos da famigerada classe média, julgamos corriqueiramente não haver grande problema em afastar o filho da mãe, em período integral, antes mesmo do desmame, para que ela possa seguir em frente com a sua carreira e ajudar o marido a pagar o empréstimo da casa própria. Maomé não trocou a primeira infância daquele pobre inocente por um crime capital, mas nós trocamos, com um sorriso no rosto, a primeira infância de nossas criancinhas por poucas centenas de reais ao fim do mês. E, ao vermos mães que estão dispostas a dedicar-se aos filhos, as acusamos de estar “prejudicando” a “socialização” que ele obteria em uma creche, ou de estar “abandonando” a carreira e a vida – tornando-se assim quase uma vergonha para o gênero. Clamamos cada vez mais por escolas integrais e gratuitas desde os primeiros meses de vida. Queremos e incentivamos que outros tomem conta de nossos bebês. Que se criem mil semi-orfanatos para a glória da emancipação e da independência feminina!

E é com esta mesma cara que conseguimos nos indignar com a misericórdia de Maomé.

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*"La psicóloga Esther Herranz, de la Asociación para el Cuidado de la Infancia (ACI), que tramita expedientes de adopción en China y Filipinas, explica que la consecuencia de esta carencia afectiva "se produce cuando un niño crece sin recibir la atención que cualquier bebé requiere". "Un bebé desde que nace necesita cosas tan simples y tan básicas como que alguien le toque, le hable, le mire a los ojos, entienda sus 'señales' así como responder ante un lloro o balbuceo. Sin embargo, un niño que está en un orfanato no va a tener esa respuesta inmediata porque lo normal es que las atenciones que reciba sean muchas menos que en un hogar y, además, muy automatizadas, es decir, a todos los niños se les da el biberón o se les cambia el pañal de la misma manera", describe. (...) El establecimiento de este vínculo se produce alrededor de los ocho meses. Herranz precisa que "a esta edad, el niño tiene que haber experimentado ya que es especial para alguien, que se siente protegido, que hay un entorno cálido que le va a ayudar cuando tenga una necesidad". Ése es el momento crítico en el que se establece el vínculo afectivo". http://www.consumer.es/web/es/solidaridad/derechos_humanos/2007/01/19/159126.php

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Vídeo em que o pediatra José Martins Filho fala sobre a importância da criança não ir para a creche e ficar com a família nos primeiros dois anos de vida:
http://www.prioridadeabsoluta.org.br/os-primeiros-mil-dias-das-criancas-jose-martins-filho/

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No mesmo dia que concluí o texto, Rafael me apareceu com este memorável trecho de “A Origem da Linguagem” de Rosenstock-Huessy, que eu não poderia deixar de reproduzir como apêndice aqui:

Jamais nenhuma criança estará em paz se não significar tudo para alguém e se esse alguém não lhe dirigir a palavra como se ela fosse a única criança sobre a Terra. Dias atrás, uma psicóloga moderna assumiu a direção de um jardim-de-infância de Nova York. As mães tinham passado a revezar-se no cuidado das crianças, gostando muito da experiência. Irada, a psicóloga ensinou às pobres mães que elas não conseguiriam deixar de ser imparciais, e que daí sobreviriam ciúme, inveja e complexos; fê-las voltar para casa com a sensação de sua pequenez e subjugou o jardim — onde havia crianças de três e quatro anos — à objetividade de sua psicologia. Somos tão civilizados, que ninguém se prontifica a bater numa pilantra desse tipo; no mundo moderno, essa psicóloga é festejada, e as mães recolhem-se. Toda a etapa da vida em que uma criança ouve, enlevada, a voz de alguém que não pensa senão nela, e portanto não se importa com mais ninguém, é suprimida por essa mentalidade fabril. Em verdade, com todo o seu jogo, o psicólogo profissional é o pior dos casos de problema psicológico: é um animal sedento de poder, uma ave de rapina, gramaticalmente um ego, com as crianças a servir-lhe de “ids” objetivados. (...)
Qualquer educador pode ser dotado de justiça, equidade, prudência e honestidade. Mas a maior parte dos educadores é treinada por psicólogos que abominam a exclusividade e proclamam que é pecado dizer "Ama-me" e "Amo exclusivamente a ti", e tenta fazer as crianças viverem o segundo nível das relações pessoais antes de terem experimentado o primeiro nível, o das relações exclusivas e pessoais. Esse preconceito contra a invocação exclusiva está destruindo a saúde gramatical do homem. Nunca responderemos com toda a energia a um chamado que não nos singularize. O grau de resposta está na proporção direta do grau de exclusividade do chamado dirigido a nós. A perversidade da psicóloga de Nova York é a mesma de todos os demônios: evitar a encarnação de pessoas reais. Ela não sabe que a exclusividade é a base da resposta de uma alma. Vê apenas o risco de algumas crianças serem tratadas melhor que outras. (...) Certamente nenhum psicólogo pode cometer os erros fatais de uma mãe ciumenta. Mas nenhum profissional que lida com dúzias de crianças pode adquirir a qualidade que até a pior mãe tem por graça de Deus: ele não pode falar, pensar e agir como se o filho fosse seu.

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Nota final de esclarecimento: Este texto foi escrito para falar sobre os problemas decorrentes do afastamento entre mãe e filho nos primeiros meses de vida. Isso não significa que (1) eu concordo com a condenação da mãe por Maomé, e que sou a favor da pena de morte ou do apedrejamento de mulheres, (2) que eu sou contra a existência de orfanato para órfãos que, óbvia e infelizmente, não têm mãe, (3) que estou criticando absolutamente a ida de crianças para a creche em qualquer outra fase da infância.

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Alguns artigos que falam sobre os problemas da socialização em grupo durante a infância: