sábado, 17 de agosto de 2013

A arte da difamação e a grandeza da filosofia


A beleza da discussão filosófica reside no fato de que premissas, argumentos e reflexões são – e devem ser! – publicamente abertas ao exame crítico e à discordância refletida. Diferente da experiência religiosa, por exemplo, em que a experiência do sagrado “acontece”, fundamentalmente, na vida interior de uma consciência singular privilegiada pela revelação, a filosofia emerge do lapidar trabalho do diálogo refletido, em outras palavras, é um empreendimento "político" por excelência. 

Ademais, não dá para realizar um exame crítico público acerca da validade de premissas estabelecidas pela experiência religiosa, nosso acesso à experiência religiosa de outra pessoa é necessariamente “mediado” pelo conjunto simbólico transmitido por testemunhos orais ou textuais acumulados ao longo da tradição histórica. Nesse caso o que está efetivamente em jogo é a liberdade de crença: acolhemos a mensagem sagrada da experiência do profeta por um genuíno salto de fé dado por uma relação viva do testemunho exemplar mediante a transformação da conduta “convertida”. 

No caso do filósofo, pelo contrário, só faz sentido o exame crítico na medida em que todo fundamento da obra é posto à luz do dia, isto é, da “razão” – cuja característica peculiar implica a reflexão pública e o encontro do seres pensantes e falantes. A beleza da discussão em filosofia reside, portanto, em sua “publicidade” e na pluralidade de opiniões relativas em busca da verdade da realidade. 

Quer criticar um filósofo? Ora, percorra, pari passu, suas obras e refute a inconsistência dos seus argumentos, aponte a invalidade dos pressupostos e, em última análise, demonstre que a conclusão não segue das premissas. Tudo isso dá trabalho, mas é gratificante e eleva o debate. Criticar traços específicos da pessoa a fim de se tentar demolir a obra não resolve, só demonstra o quanto se é intelectualmente pobre e moralmente vigarista. Filosofia é um empreendimento de seres livres, pensantes e falantes, não uma atividade de canalhas mal-intencionados.

A discordância acusatória demonstra o quanto se vive mergulhado e assombrado por um imaginário distante da realidade. Toma-se a realidade de um filósofo, em um primeiro momento, por sua produção filosófica “revelada” em seus escritos – embora o filósofo não se reduza aos seus escritos, o texto possibilita o primeiro acesso ao seu lógos, mas não determina-o em sua totalidade -- a tensão dessa problemática foi um tema constante na história da filosofia, e percebido desde o início por Platão (ver Carta VII, 341c-e e 344 c-d e Fedro, 278 b-e).   

A discordância refletida enriquece a filosofia e eleva o patamar do debate público, a discordância acusatória – e/ou difamatória – anula a riqueza dessa pluralidade e impõe-nos a homogeneidade desértica do perturbado mundo dos palpiteiros. Pincelar dois ou três ditos de uma obra filosófica ou da mera opinião de um filósofo também não ajuda, filósofos são falíveis. Sócrates foi prova viva da possibilidade de falência do discurso reflexivo – e morto pela ostentação do discurso difamatório –, e, a fim de revelar essa fragilidade, pagou com a própria vida.

Um exemplo, posso acusar – e difamar – Heidegger de canalha por sua aproximação com o nazismo, mas criticar a filosofia de Heidegger requer outro tipo de esforço. No caso da sua relação com o nazismo só a própria consciência de Heidegger poderá julgar o grau de equívoco e arrependimento – claro que podemos fazer um juízo moral acerca dessa relação –, mas no caso das premissas de sua filosofia o problema é de outra natureza: na filosofia tudo está aí (pois deve estar; caso contrário não seria filosofia) disponível, temos acesso direto aos pressupostos fundamentais que sustentam a filosofia heideggeriana (seus textos). 

Pode-se ter uma relação afetiva com a obra e os escritos de Heidegger – julgar que não gostamos dele por causa do seu estilo truncado, etc –, no entanto, a única forma de demonstrar que Heidegger, o filósofo, está errado não é outra senão o trabalho de apontar o erro. 

Usei Heidegger a fim de ficar apenas com um exemplo distante, mas isso serve para qualquer um de nossos desafetos! Inclusive -- e sobretudo -- os nossos filósofos brasileiros constantemente massacrados por palpiteiros que nunca se deram ao trabalho de percorrer seus textos. A grandeza da filosofia se dá na discordância honesta porque lapidada pelo longo percurso da reflexão. Assim que se constrói uma cultura: no diálogo de gente grande! Enquanto que a sua decadência começa no rumor dos tagarelas.