quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Sua roupa também lê Marx?

Escrevo este texto movido pelo post do excelente Guy Franco. Ele fala das pessoas cujas opiniões sobre política, sociedade ou o que seja (sempre na esfera supraindividual) determinam seus gostos e práticas pessoais.
Tudo deveria estar acima de uma ideologia coletivista. O modo como uma pessoa prepara o arroz deveria estar acima de sua ideologia. A maneira como uma pessoa decora o quarto deveria estar acima de sua ideologia. Quando a ideologia começa a ditar o comportamento de alguém, este começa a apodrecer por dentro. E a conversa não presta, o café não presta, a vida não presta.
Em certo sentido ele está certo: nada mais chato, medíocre e superficial do que uma pessoa tão previsível que todos os seus gostos se adequem perfeitamente ao que é esperado de pessoas que pensem como ela. Então quem é de esquerda prefere MPB e quem é de direita, country music.

Por outro lado, imaginar que as crenças e valores que uma pessoa defende na esfera pública não tenham relação com quem ela é em outros âmbitos da vida é propor uma vida compartimentalizada ao extremo. Não haveria alguma incoerência, por exemplo, em ser partidário da bandeira de direitos humanos mas se divertir apenas assistindo simulações de torturas humilhantes ("são só atores, ninguém sofreu de verdade")? Ou de se ser um cristão e amar black metal? Os valores que ressoam conosco na arte, no entretenimento e nos gostos pessoais não têm - ou deveriam ter - relação com o que acreditamos e defendemos em nosso nível mais intelectual?

Penso que esses casos de dissonância entre crença pública e gosto pessoal exigem alguma explicação: ou a pessoa finge adotar certos valores públicos que ela simplesmente despreza em sua vida pessoal, ou ela adere sinceramente a esses valores e encara seus gostos pessoais como uma tentação da qual ela tem sido incapaz de se libertar. Alternativamente, há aqueles que convivem com as duas coisas mas fazem recurso a alguma explicação para justificar a postura: por exemplo, que o gosto musical não tem nada a ver com a crença, ou que há algum aspecto que condiz com suas crenças e valores, e que é aquilo que ela procura nele. Em suma, o fato requer explicação.

E se requer explicação, é porque em alguma medida parece haver sim oposição entre certos valores/crenças e certos gostos; e, por consequência, consonância entre certos valores/crenças e outros gostos.

Acho que a distinção relevante não é entre pessoas cujos valores/crenças determinam seus gostos e aquelas em que isso não ocorre. Mas sim entre aquelas em que o gosto é uma expressão real de como sentem e veem a realidade, e outras para quem o "gosto" é expressão de como elas gostariam de ser vistas, ou daquilo que elas se sentem na obrigação de gostar por fazer parte de um determinado grupo.

Toda conversão, ou seja, toda adesão a uma posição muito forte e bem definida sobre alguma coisa, envolve uma mudança parcial do indivíduo. Quando alguém se torna cristão, ou comunista, ou feminista, ou libertário, ou conservador, ou vegano - ou o que você quiser - essa adesão se dá primeiramente no plano intelectual. Todo o resto da pessoa é ainda homem velho. Provavelmente, uma parte dela sempre será.

Sendo assim, há diversas esferas da vida da pessoa que ou continuarão degeneradas (de acordo com o padrão da nova posição intelectual), expondo a parcialidade e fraqueza da conversão, ou terão que ser mudadas à força para se adequar ao que a posição supostamente requer - em geral, aquilo que ela engendrou em expoentes passados daquela posição, ou que, por acidente, acabou vigorando na comunidade de aderentes da posição. Quantos católicos tradicionalistas, amantes da música barroca e da língua francesa, não vemos no Facebook/Orkut! Não fazem nada além de seguir o exemplo dos grandes nomes do tradicionalismo católico brasileiro: Plínio Correia, Orlando Fedeli, etc. Quanta gente de esquerda que gosta de skate e grafite!

Conforme a pessoa amadurece em sua adesão, vai vendo como essa fantasia toda é desnecessária, e até danosa para ela. Ao mesmo tempo, cresce a conaturalidade entre as diversas esferas da sua vida, e vai-se encontrando um equilíbrio mais de acordo com o que a pessoa é.

Não creio que esse seja o único efeito a explicar a mediocridade de todas as pessoas cuja vida pessoal parece seguir uma caricatura de suas crenças e valores. Mas é algo que acontece.

Em outros casos, talvez as limitações internas da própria visão de mundo façam com que mesmo o aderente maduro e plenamente despojado de vaidades seja uma pessoa medíocre. Em ainda outros, os gostos vieram primeiro, e as crenças e valores que se associam a eles vieram depois. Enfim, são só especulações de um post que começa a perder o foco.