sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A Faísca Yoani

A nova cara da juventude revolucionária


Ninguém sabe direito o que pensar sobre Yoani Sanchez. A extrema esquerda diz que é agente da CIA. Os ultraconservadores, que é agente de Fidel. Outros, que é uma blogueira independente que conseguiu, graças à fama internacional e à retórica moderada, preservar alguma segurança e autonomia em meio à Cuba dos Irmãos Castro. Ninguém sabe direito de onde veio essa mulher ímpar, que aparentemente vive numa vizinhança de elite em Havana (sim, sim, existe elite em Cuba!) e que ao mesmo tempo em que sofre inconvenientes nas mãos do governo, tampouco recebe o tratamento deluxe que Fidel já dispensou a tantos outros.

Ninguém parece se interessar muito, também, pelo que ela tem a falar; Cuba é daqueles assuntos que todo mundo já tem uma opinião formada e que muito dificilmente revisa. Se Yoani diz que Fidel teve seus méritos,  isso lá me convenceria? Não. O que importa, o que todo mundo quer ou não quer enfaticamente, é que Yoani fale. Não é o que ela diz, mas o fato de dizê-lo. Se Yoani fala, a vitória é nossa; se é calada, a vitória é deles. E em sua visita, ela falou algumas vezes e foi calada em outras. Só que ontem ocorreu um fato digno de nota: uma contramanifestação libertária foi ao Conjunto Nacional em São Paulo combater a buona gente comunista que queria silenciar Yoani.

Queria e conseguiu. Depois de um tempo falando, os manifestantes pró-Paredón tomaram conta do auditório, fizeram seu apitaço e sua gritalhada até a Yoani ir embora. Venceram, mas pela primeira vez encontraram resistência. Os libertários já começam a existir nas ruas, sendo inclusive mencionados por grandes empresas do jornalismo. Os ventos estão mudando.

Foi dito que os anti-Yoani eram maioria numa ordem de 3 pra 1. É bem capaz. Para mim é um presságio positivo: já somos um terço deles? Na página do evento libertário no Facebook, um dos presentes dá seu diagnóstico: faltou disciplina e ordem na manifestação libertária. O movimento começa a aprender como fazer militância nas ruas. A vida dos Cheguevaristas não vai mais ser tão fácil daqui em diante. Queria eu ter estado lá, mas as responsabilidades do lar me impediram.

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Militância é uma coisa feia. Os militantes "nem sempre" têm boas ideias e bons argumentos, não se pautam pelo debate civilizado, não querem conseguir adeptos só depois de uma profunda reflexão pessoal. Acreditam numa causa e agem em prol dela com absoluta convicção e sem nenhuma autocrítica; é isso que faz deles algo tão poderoso. E o libertarismo é a única ideologia da tal "ascensão da nova direita" que consegue verdadeiros militantes, no sentido feio do termo: mesmo porque é o único a apresentar ideia simples e radical, com forte potencial fanatizante. O resto, a nova Arena, a Juventude DEM, os Monarquistas; quem irá às ruas segurar suas faixas e cantar seus slogans? (Bem lembro que o IPCO ainda faz um tipo de militância pública; mas me parece antes um movimento em decadência do que em ascensão, e sua atuação política é muito pontual). Toda a força que eles têm deve-se à defesa parcial que fazem do livre mercado (cuja defesa não precisa - melhor, não deve! - de forma alguma resgatar os nomes e os símbolos de um governo autoritário que torturou e matou dissidentes); e o Liber e demais movimentos libertários fazem isso, sem a parafernália desnecessária ou até danosa.

Como eu disse, é coisa feia, mas necessária. A esquerda só chegou aonde chegou por causa da militância. Haveria Lula sem hordas de militantes e peleguistas? Se quisermos efetuar mudanças numa sociedade democrática por vias democráticas - isto é, via o voto do povão - , a militância é necessária; sem aparecer, nenhum movimento consegue nada; e para aparecer é preciso causar impacto. Vai ser preciso muito barulho, muito panelaço, muito papel craft. Uma pena, pois é um tipo de sacrifício moral a que as circunstâncias obrigam. Similar, penso, ao dever da guerra: algo nefasto, que não raro destrói a alma de quem participa, deixando indivíduos mutilados no corpo e no espírito, mas que às vezes é necessário. Um dos méritos de nossos tempos é que a propaganda oficial, de milênios, sobre as glórias da guerra, não domina mais o discurso padrão; mas mesmo o mais ferrenho pacifista deve reconhecer em seu íntimo que, se o inimigo ameaça invadir sua casa e matar seu povo, é preciso reagir. A atividade militante é um sacrifício moral bem menor do que o da guerra, mas não deixa de ser real.

Minha esperança é que, daqui alguns anos, a posição libertária esteja representada na política e cultura nacionais, já gerando mudanças e participando de toda e qualquer discussão. A militância terá seu papel nisso: produzindo material de divulgação, difundindo as versões mais simples dos argumentos (aliás, essa é outra questão boa: existe algum valor em discutir questões usando argumentação que não chegue ao nível mais rigoroso possível?) e fazendo muito barulho no espaço público. Se essas são as regras do jogo, seria  suicídio não jogá-lo! A esquerda estatizante não pode ter o monopólio das ruas.

Yoani tem sua causa, seus bons pontos, e defende coisas questionáveis também, como muitos libertários perceberam. Suas ideias, enfim, não foram o que marcou sua fala, e sim a luta para que ela pudesse falar. Foi uma pequena faísca que, espero, iniciou um fogo; um cigarrinho acesso que jogaram na palha seca. E a partir de agora a selva vai queimar!