sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Pai de Saia - dilemas da paternidade



Uma notícia e uma foto verdadeiramente tocantes. Um pai, sabendo que seu filho estava sendo hostilizado pelos colegas e pela sociedade em geral por usar vestidos e saias, resolveu ele também vestir saias junto do garoto para dar-lhe apoio.

Acho que ninguém consegue ler isso e ver a foto sem se sentir comovido pelo ato de generosidade e amor do pai. Ele estava disposto a jogar pela janela sua própria imagem pública para que o filho pequeno, que ainda não entende direito por que tem sido hostilizado e é plenamente indefeso frente à agressão, sinta-se seguro e amado. Isso é profundamente admirável.

Devo admitir que minha admiração diminui um pouco quando leio o depoimento do pai: "Sim, eu sou um daqueles pais que tentam criar seus filhos de maneira igual. Eu não sou um daqueles pais acadêmicos que divagam sobre a igualdade de gênero durante os seus estudos e, depois, assim que a criança está em casa, se volta para o seu papel convencional: ele está se realizando na carreira profissional enquanto sua mulher cuida do resto." E ainda: "É absurdo esperar que uma criança de cinco anos consiga se defender sozinha, sem um modelo para guiá-la. Então eu decidi ser esse modelo". Na hora de falar sobre sua ação, de quem é que ele fala? De si mesmo e de como quer ser visto. O filho parece quase um acessório que ele, o pai, usa para brilhar. Bem sei que não dá para julga-lo por essas frases que chegaram a nós mediadas pela edição do jornalista, e no fundo tanto faz: muitas de nossas ações têm várias motivações simultâneas - algumas boas e algumas não tão boas.

Quero pensar na tensão que há entre a atitude do pai (considerada no que ela tem de admirável) e o caráter problemático daquilo que ele concretamente acaba incentivando no filho. Pois não é totalmente verdadeiro dizer que o menino apenas queria "usar saia", como se seu desejo fosse primariamente por uma opção de uma peça de vestuário entre outras que, para ele, ainda desconhecedor dos padrões sociais masculinos e femininos, eram equivalentes. A princípio, poderia ser isso; poderia ser apenas o desejo de usar um outro tipo de roupa sem nenhuma conotação de sexo ou gênero (por ela ser mais confortável, ou ele achar mais bonita). Mas um detalhe revela que não é só isso: ele também gosta de pintar as unhas. Então, não é que ele tem um desejo de "usar saia"; usar saia é um componente, um meio, um modo de concretizar um desejo de identidade mais profundo: ser mulher. (E tudo indica que é ser mulher adulta, e não menina, pois pintar unha não é coisa de menina).

Agora penso: se o meu filho, do sexo masculino, revelar desejos de ser e se comportar como uma mulher, acho que tomarei duas atitudes iniciais: 1) tentar entender o porquê disso, isto é, o que ele procura; 2) tentar levá-lo por um caminho pelo qual ele possa transcender, superar, esse desejo. Bem sei que há casos e casos, e em alguns deles a predisposição a querer ser do sexo oposto é tão forte que é invencível; não sei o que eu faria nesse caso, mas acho que acabaria aceitando a decisão, sem contanto incentivá-la ao longo de seu desenvolvimento. Mas até que isso fique claro, o papel do pai é ajudar o filho a se desenvolver, tornando-se plenamente aquilo que ele é. Depois do vestido, vieram as unhas pintadas; depois das unhas, o que virá? Maquiagem? Lingerie? Em que ponto seu desejo deixa de ser encarado como autoexpressão e passa a sinalizar desvio preocupante no desenvolvimento?

Como é que, afinal, um pai um dia "percebe" que seu filho de 5 anos gosta de usar vestidos? Não é como se um menino de 5 anos tivesse toda uma vida própria independente e desconhecida dos pais. Os pais no mínimo deixaram e provavelmente incentivaram o filho a usar vestido, prática que está longe de ser inédita na Europa. Baseados na ideia de que o gênero é uma construção social e histórica, pais procuram libertar os filhos de toda e qualquer imposição de caminhos prévios, para que cada um cresça e se desenvolva à sua maneira.

Entretanto, a relação entre sexo biológico e psicológico é forte. O que não quer dizer, obviamente, que as formas particulares em que cada cultura expressa os sexos não sejam criações históricas. É claro que são. Na Escócia medieval, homem usava o que nós chamaríamos de saia. Em países muçulmanos, ainda é comum o uso da túnica, que é similar a uma camisola. Mas essas variações todas, e a forma como elas se articulam e se integram na cultura e na autopercepção individual, variam; um escocês de saiote sente-se muito diferente, e significa algo muito diferente, de um brasileiro de saia. As variações culturais são radicadas em dados da biologia. A natureza biológica não tem, em si, valor normativo; mas o desvio dela não raro é sintoma de problemas que o próprio sujeito reconheceria como tais. Se um indivíduo se vê e se associa com o outro sexo, isso é sinal claro de que algo em seu desenvolvimento psicológico não seguiu o caminho normal, e é preciso descobrir o quê.

Dar ao filho opções iguais, tratá-lo como um sexo neutro, sendo que seu sexo biológico é um só, talvez só confunda a cabeça da criança. Longe de ajudá-la, os pais podem estar interferindo negativamente no desenvolvimento saudável de sua personalidade. Não que seja o fim do mundo, e que toda criança que passe por isso sairá traumatizada; digo apenas que talvez não faça bem. (Nesse sentido, também sou contra fazer um tempestade em copo d'água no caso do filho pequeno apresentar um comportamento desviante; talvez a própria tempestade feita pelos pais ajude a tornar importante algo que do ponto de vista da criança não era importante, mas só uma fase passageira).

E portanto chega-se a um impasse: o apoio que o pai dá ao filho, mesmo às custas de sua imagem, é louvável. No entanto, há situações em que a criança pode estar seguindo por um caminho errado, e nesse caso é preciso não só apoiar como redirecionar. Um pouco de proibição e de reprimenda (leves, é claro; o foco deve ser sempre no reforço positivo), embora não sejam tão admiráveis, podem ser as atitudes que, a longo prazo, mais contribuem para o bem do filho. E é isso que realmente importa.

Para quem realmente não consegue me acompanhar até aqui porque rejeita fortemente a ideia de que o gênero não seja pura construção cultural, pense em um exemplo análogo. Pense em uma criança pequena que se identificasse, sabe-se lá por quê, com indumentária e estética nazistas (algo que pode também ter um componente sexual latente?), ou com sangue, cadáveres e coisas extremamente mórbidas. Por um lado, seria bonito ver um pai apoiar o filho mesmo nesses casos; por outro, não é o tipo de coisa que devesse ser incentivada. Talvez um equilíbrio entre os dois, com apoio público (afinal, não é do dia para a noite que o menino mudaria) associado à tentativa privada de melhor direcionar os gostos e a identidade dele tentando também restringir suas escolhas? Dilemas da paternidade que não se resolvem facilmente...