quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A Tolerância do "Cala a Boca!"

O colunista André Barcinski está indignado com a intolerância religiosa de nosso país. E qual o crime hediondo, qual a mostra de ódio religioso fanático, que despertou sua revolta? Pegue um copo d'água e tire as crianças da sala, porque é chocante: o time feminino de vôlei rezou um Pai Nosso.

Para Barcinski, um time rezar unido é uma forma de intolerância. Afinal,
"O que aconteceria se alguma jogadora da seleção de vôlei fosse budista? Ou mórmon? Ou umbandista? Ou agnóstica? Ou islâmica? Alguém perguntou a todas as atletas e aos membros da comissão técnica se gostariam de rezar o “Pai Nosso”?"
Em primeiro lugar, se alguma jogadora fosse mórmon ou umbandista, ela rezaria o Pai Nosso sem problemas, dado que a oração é usada nessas duas religiões (e talvez uma muçulmana aceitasse rezar também, dado que o islã tem uma oração muito similar).

Em segundo, quando se tem um grupo unido, é óbvio que qualquer um tem o direito de não participar de uma atividade do grupo, embora talvez prefira até integrar a oração para não colocar ruídos naquele momento de união. Se ninguém no time rezasse, é bem possível que uma jogadora religiosa resolvesse rezar sozinha, um pouco afastada das demais, para não quebrar, digamos, o momento de silêncio grupal. Ou se as jogadoras resolvessem cantar escravos de Jó depois do jogo, é bem capaz que alguma delas, que por si mesma não teria interesse em fazê-lo, entrasse na música só para não atrapalhar a brincadeira. O que não significa que ela não teria pleno direito de não participar, se assim o quisesse. Não se feriu o direito de ninguém. Grupos se organizam assim, naturalmente; não é preciso assinar contrato antes de cada atividade  para garantir que todos estejam de acordo.

Se - e não há evidência nenhuma de que isso tenha ocorrido - ao recusar participar da oração, alguém fosse hostilizado e mal tratado pelos demais membros do grupo, daí sim haveria uma questão a se melhorar. Mesmo nesse caso, contudo, o problema não estaria na oração, que não causa dano algum, mas apenas na reação dos que rezam ao membro que não reza. Eles não precisariam, e nem deveriam, deixar de rezar; deveriam, isso sim, aprender a ser mais tolerantes e compreensivos.

Na concepção de Estado laico de Barcinski (que não é só dele, e por isso escrevo este texto), liberdade religiosa não é cada um poder seguir e manifestar qualquer religião. Liberdade religiosa, em sua visão, é cada um manter sua religião escondida para evitar ofender algum agnóstico hipersensível hipotético. Há pessoas, e o próprio Barcinski parece ser uma delas, que se ofendem profundamente quando são lembradas da existência de crenças diferentes da sua. O mundo deveria ser organizado de forma a que nada - nem mesmo as ações alheias - destoasse de sua própria visão de mundo. Quer rezar? Vá lá, vou permitir; mas apenas dentro do banheiro da sua casa, bem baixinho, para que eu nem suspeite que sua crença existe. Na esfera pública, só vale manifestar o meu agnosticismo, e não a sua crença.

Isso explica a frase de maior efeito no artigo, que já está sendo replicada nos cantos menos recomendáveis das redes sociais: "Liberdade religiosa só existe quando não se mistura religião a nada. Nem à política, nem à educação, nem à ciência e nem ao esporte." Em outras palavras: a religião deve se manter dentro de sua esfera particular, isto é, a casa e o templo. Se o fiel permitir que sua crença inspire e molde suas atitudes em outras áreas de sua vida, e ainda mais se manisfestar essa crença fora do contexto estritamente religioso, estará violando a liberdade religiosa alheia. Ora, toda religião se coloca como uma das principais, se não a principal, formadora e guia da vida do fiel em todos os âmbitos. Portanto, para que a religião se adeque ao ideal de "liberdade" defendido por Barcinski, ela não pode ser levada a sério; sua principal função tem que ser ignorada. O que equivale a dizer dizer que ela não deve existir.

No mundo real, em que nem todo mundo está disposto a abrir mão de suas convicções para não ferir a sensibilidade de algum neurótico, liberdade religiosa é simplesmente poder acreditar e manifestar qualquer religião (ou nenhuma religião). Atletas com fé têm que ter completa liberdade de rezar nos jogos. Se alguém se ofende com isso, sinto muito, mas o preço da liberdade é saber conviver com o diferente. Se você não consegue olhar uma pessoa rezando ou manifestando suas crenças sem sair abalado ou com raiva, então você, mais do que todos, precisa de umas lições de liberdade. Viver num país livre não é viver num país que coíbe a expressão da crença alheia para que sua mente fique em paz. Os preconceitos, ódios e sensibilidades de um grupo não podem ditar o que vale e o que não vale ser expresso na esfera pública.

O Estado brasileiro é laico, secular; isto é, nossas leis e instituições públicas não se pautam por nenhuma confissão religiosa. Mas essa regra não se estende aos indivíduos, que são e têm que ser livres para, tanto na vida privada quanto na pública, acreditar, praticar e manifestar a crença que lhes pareça verdadeira. O limite desse direito são os direitos individuais inalienáveis dos outros. Se sua religião prega o sacrifício humano, bem, infelizmente você não terá o direito de colocá-la em prática nesse quesito. No mais, vale tudo, e os indivíduos é que, convivendo e dialogando, aprendem a não ter chiliques e nem sentir ódio da crença e devoção alheia.

O mais irônico da história toda é que, além da reza totalmente livre e voluntária do time brasileiro, tivemos uma outra manifestação religiosa ligada ao Brasil, muito mais pública e oficial. No show de encerramento, Marisa Monte foi fantasiada de Iemanjá, divindade do candomblé, que é em parte encarada como puro folclore mas é também cultuada a sério por muita gente. Nisso Barcinski não viu problema nenhum. Se tivéssemos alguém fantasiado de Jesus Cristo ou de Virgem Maria, por outro lado...

Coisas muito intolerantes se escondem sob o nome de "liberdade".