terça-feira, 15 de maio de 2012

Elogio do Silêncio


Os meus bens já não estavam fora, nem eram procurados sob este sol pelos olhos da carne. Aqueles que querem gozar fora de si mesmos facilmente dissipam-se e derramam-se naquelas coisas aparentes e temporais, lambendo com o pensamento faminto as imagens de tais objetos. Oh! se eles se debilitassem com a fome e dissessem: “Quem nos mostrará o Bem?”

Santo Agostinho, Confissões


Um dos mais famosos aforismos de William Blake é aquele que diz: The road of excess leads to the palace of wisdom. Contemporâneo da Revolução Francesa e seu irmão ideológico, Blake mantém com o espírito do nosso século vinte-e-um a mais natural afinidade: para ambos o homem é um poço sem fundo que, tendo em seu centro uma ausência, tão menos infeliz será quanto mais tomar do fluxo mundano para dentro de sua goela imensurável; é, afinal de contas, um ser que não tem nada a perder, aquele a quem o acaso jogou no palco da vida e, sem finalidade ou vigilantes, só tem contas a prestar com seu aparelho sensório.

Deixando de lado a questão da filiação ambígua ou cambiante do poeta William Blake a essas ideias, assinalemos simplesmente que em tempos atuais essa é a interpretação que mais apelo tem junto ao populacho (o qual muitas vezes coincide com nossa “classe letrada”). Vivemos em tempos de idolatria do excesso enquanto signo de vida em movimento, tempos em que a vida interior ou contemplativa é suplantada pelo mergulho passivo no mundo dos sentidos.

Isto é válido sobretudo para a cultura das grandes cidades. E aqui entramos no tema deste texto propriamente dito: as grandes cidades, em geral; a cidade de São Paulo, especificamente. Falo de São Paulo porque é a única megalópole que conheço de perto, mas é bastante provável que muito do que se verifica a seu respeito valha também para os outros grandes centros urbanos do mundo, pelo menos quanto aos tipos sociais gerados por eles ou, dizendo de outro modo, ao efeito que a cultura da megalópole tem sobre o humano.

São Paulo é uma cidade totalmente voltada às exterioridades. É um lugar cuja cultura se resume a uma palavra: dispersão. Inclusive o fascínio que ela exerce sobre tantas pessoas, residentes ou visitantes, é comumente expresso por alguma variante da ideia de que São Paulo é um lugar de “tudo ao mesmo tempo”; aqui todas as culturas se encontram, todas as raças e classes sociais convivem, pode-se almoçar por 250 ou 2,50 reais. “São Paulo é a metrópole das oportunidades”, dizem. Já eu digo que São Paulo é o palácio do excesso, onde mais facilmente do que em qualquer outro lugar murcham as sementes da sabedoria.

É preciso, de fato, muita fortaleza interior para não se deixar corromper por essa cidade. Ela tem incontáveis facetas, por isso vou falar apenas daquela que conheço melhor, porque julgo que por trás de todas as suas máscaras existe o mesmo rosto ressequido. Eu convivo, desde que moro aqui, há seis anos e alguns meses, com uma das dimensões de que São Paulo mais se orgulha das tantas que tem: a de metrópole cultural. E afirmo que não preciso mais conhecer lugar nenhum para saber que encontrei aqui o arquétipo do culturette inculto – aquele que, vomitando por onde passa seus conhecimentos em alta cultura, se lhe trancarem num quarto vazio com uma obra de arte, será incapaz de encontrá-la (e, por outro lado, se adentrar um chiqueiro com a informação de que ali se encontram as últimas tendências em arte contemporânea, medirá os porcos, beberá a lama e tomará notas sobre a experiência). É como se o excesso de informação – o excesso de formas tão pretensiosas quanto esvaziadas de arte – esterilizasse a sensibilidade daqueles que vão pouco a pouco aprendendo a ignorar qualquer possível relação entre (parafraseando o poeta) a vida apenas, sem abstração, e o conteúdo de obras artísticas, chegando ao ponto de estas nem precisarem mais ter um conteúdo intelectualmente apreensível, bastando excitarem os sentidos. Esse tipo de expressão artística irracional é como uma extensão lógica das estruturas da cidade de São Paulo, a qual tem em sua anti-arquitetura o símbolo perfeito de sua cultura (disforme, assimétrica, sem comunicação entre suas múltiplas partes, egocêntrica). E no olho desse furacão está o tipo humano que incorpora aquele paradoxo, que consiste em as pessoas mais esterilizadas ou incultas serem justamente as que mais buscam (ou ao menos aparentam) se cultivar.

Para entender melhor esse interessante fenômeno psicológico, falemos de sua versão ampliada e massificada, o evento em que o mencionado paradoxo ganha corpo em uma terrível multidão expressando em uníssono a relação problemática de São Paulo com o objeto “cultura”. Refiro-me ao evento Virada Cultural.

Aquilo que teoricamente se define como “eventos culturais acontecendo durante 24h por toda a cidade de São Paulo” tem pelo menos duas dimensões, ambas lamentáveis. A primeira e mais evidente para quem, curioso e desavisado, resolve ir ver do que se trata é a que chamarei de dispersiva: sob o pano de fundo dos “eventos culturais”, a multidão se embriaga, se droga e se dissipa moralmente ao longo de 24h durante as quais tudo é permitido. Eu já estive lá, leitor, acredite: as ruas da cidade, especialmente as do Centro, viram verdadeiras terras de ninguém. Confesso que, circulando pelo meio da Virada Cultural, cheguei inclusive a experimentar certo prazer, de fundo meio antropológico, meio estético; era como estar diante da materialização de um grotesco antes só acessível através de livros e filmes. Os brasileiros, que não temos guerras nem catástrofes naturais em nossa memória coletiva, carecemos de certo tipo de experiência do trágico capaz de nos mostrar a nós mesmos cruamente. A Virada Cultural de certo modo oferece isso: quem se propuser enfrentá-la terá diante de si um quadro horrendo, dantesco, que deve ser visto na mesma medida em que é preciso um homem examinar sua própria consciência de tempos em tempos e encarar a sujeira presente ali.

Por outro lado, há uma segunda dimensão concomitante à da mera dispersão sensorial e que difere desta não tanto por seus objetivos finais, mas sobretudo pelos meios que utiliza;  trata-se de mera continuação adensada daquilo que constitui a relação normal do paulistano com arte e cultura: pessoas correndo de um lado para o outro, enfrentando filas intermináveis, se acotovelando e competindo para ver quem atende a mais eventos. São uma variação da figura do turista que, visitando ruínas do Velho Mundo, passa pelos marcos históricos segundo o critério de já haver ou não tirado fotografias ali; uma vez que as tirou, corre para entrar na fila do próximo local/monumento e assim por diante. Aqueles paulistanos que não consideram a Virada Cultural como mero pretexto para as mais diversas modalidades de dissipação sensória, isto é, que colocam os eventos culturais em primeiro plano, já não praticam a dispersão por se imiscuírem sexualmente com o primeiro bêbado ao lado ou encherem de química seu cérebro a ponto de já não sentirem coisa alguma (não seria isso, no fim, o que buscavam?); eles anestesiam, sim, seus sentidos, mas buscam fazê-lo já não com álcool e drogas e sim por meio da famigerada arte.

O que acontece aqui é o mesmo que faz pessoas lerem bombas morais como Dostoiévski e saírem intactas. A obra de arte bate na consciência da pessoa sem conseguir penetrá-la, limitando-se a causar certa excitação sem forma definida. Por um lado há aí a simples incapacidade de entender a boa arte, complexa por necessidade de sua essência, mas não é só isso; não se trata apenas de um problema intelectual, de carência em educação escolar; há no fundo disso um problema moral, de caráter – quando um ser humano desconhece a si e a sua situação no mundo ao ponto de nem saber que perguntas fazer, é natural que, se um artista lhe oferece respostas cifradas simbolicamente, esteja o homem confuso desde a base inapto a acompanhá-lo. Não tem jeito. Então as pessoas ficam patinando sobre a superfície de obras de arte, sem qualquer critério ou com critérios risíveis de apreciação, até que já não se diferenciam as boas obras daquelas produzidas pela pressa e ignorância da cultura pop-urbana. É tentativa de expressão artística, tá valendo – essa é a ideia da Virada Cultural paulistana e o que faz a cabeça de seus frequentadores mais cultos, que julgam pensar sobre o assunto.

Eu, indivíduo, Lorena Miranda, não sou melhor que ninguém, mas já não posso lutar contra os fatos; se tenho qualquer respeito por minha faculdade racional, afirmarei que o certo é o certo, o errado é o errado, tal objeto é arte e tal outro não é, quando essas verdades se me impuserem. Eu já estive lá. Como diria Sylvia Plath, I know the bottom. E está tudo errado. Eles se movimentam em círculos viciosos e tudo se estrutura diabolicamente para gerar sofrimento, para aniquilar a noção de pessoa, para minar toda e qualquer autoestima. Essa máquina mortífera opera a todo vapor em São Paulo com sua cultura da dispersão. As pessoas são jogadas na noite dessa cidade e amanhecem só o pó. Muitas, acostumadas a ser pó, nem se dão conta de que existem outras alternativas e pensam: viver é assim mesmo, é ter a vista turva contínua e nauseantemente e de vez em quando receber um baque do chão.

Eu já andei demais por São Paulo olhando a cidade pela janela do ônibus, ouvindo música e vendo tudo passar; já me encantei e ainda me encanto com seus meandros de concreto, seus grafites, seus mendigos pitorescos, seus pombos como sentinelas egípcios, seus jovens fantasiados de mendigos pitorescos de luxo, o luxo de nunca ver uma face repetida na multidão. Mas tudo isso só alimenta temporariamente, como assistir a um filme; tudo isso não passa de exterioridade, de luzinhas piscando para preencher nosso campo de visão. É barulho e mais barulho e sentido nenhum.

Pela minha experiência pessoal, São Paulo resulta nisso: cansaço, distância, confusão mental. Morar nessa cidade é como se debater dentro de uma armadilha: você sai de manhã bem disposto e ao fim do dia ela lhe terá sugado todas as forças. A lenda da convivência harmônica de classes, aliás, é outra de suas mentiras. Os bairros aqui são pequenas vilas onde, para se ser estrangeiro, basta vir de uma linha diferente do metrô. Nada é mais fácil para São Paulo do que separar seus ricos de seus pobres, seus paulistanos de seus nordestinos. Nada é mais fácil para São Paulo do que dificultar o contato entre as pessoas, e tanto, que seus habitantes acostumados a tal lógica da distância logo desenvolvem esse mesmo traço em sua psicologia.

Não existe amor em SP? Mas não há lugar sobre a Terra privado de amor. Há, sim, lugares onde estabelecer e expressar laços afetivos é mais difícil, onde ter vida interior e silêncio para contemplar a realidade do espírito é mais difícil. São Paulo é um desses lugares. São Paulo é um desses lugares onde vive muito bem quem só precisa de uma desculpa para se esquivar da própria consciência.