quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A Complicada Relação entre Educação e Religiosidade: uma resposta

Fiquei intrigado com este último texto do Joel sobre as religiões. Já conhecia essas estatísticas e sempre pensei que elas expressavam uma tendência verdadeira ligando riqueza com declínio da religião, não que existisse uma correlação perfeita. Mas o texto foi suficientemente convincente para me fazer abandonar essa ideia. Realmente o a mentalidade coletivista seria uma variável mais adequada para explicar esses dados.

Porém, Eu acredito que existam problemas em duas coisas: os resultados da pesquisa e a ideia de que o Cristianismo carrega os valores que fazem as sociedades serem mais individualistas.

O problema com a pesquisa é que ela não avalia adequadamente se o entrevistado realmente não tem religião. Ele simplesmente pensar isso e responder não significa que ele realmente não tenha religião. Tenho no meu círculo social muitas pessoas que se reconhecem como espíritas, e elas tem enorme dificuldade em aceitar a ideia de que espiritismo é uma religião. Outros grupos com que tenho contato, como os teosofistas, também negam de todas as formas possíveis que o que eles defendem é religião. Talvez isso seja explicado por um conceito diferente de religião que eles utilizam, identificando religião somente como um grupo organizado, com dogmas, etc. Uma boa explicação pra isso é que apesar da maior parte da população ser religiosa, a visão sobre as religiões não é das melhores, principalmente porque no ocidente falar mal de religião é falar mal da igreja católica, e existe muita publicidade negativa sobre acontecimentos históricos ou casos recentes de pedofilia, sejam eles verdade ou não.

Sendo assim, acredito que a pesquisa deveria tentar entender a parcela da população que acredita em alguma forma de misticismo e separa-la da que rejeita isso. Não acredito que os europeus sejam os não religiosos que aparecem na pesquisa, porque quando são confrontados com a ideia de vida após a morte, divindade, destino e outras coisas parecidas, eles podem acabar respondendo positivamente, tornando-os automaticamente em religiosos.

Seguindo essa mesma linha, apesar de os asiáticos em geral não terem religiões organizadas, eles são altamente supersticiosos, e não vejo porque não enquadrar isso como uma religião. Então no caso da Coréia, o que pode estar acontecendo é simplesmente a migração de um conjunto de crenças místicas desorganizadas para um conjunto de crenças interligadas que faça mais sentido.

E então vem o segundo problema, que não descaracteriza o que o Joel disse no texto, mas que talvez deixe mais claro: não existe um único cristianismo. Isso pode explicar porque um país cristão como os Estados Unidos pode ser menos coletivista que países mais religiosos como os africanos. Isso aconteceria por uma questão que de forma vulgar vou chamar de raízes do cristianismo. Acredito que a raiz da religiosidade americana venha diretamente da reforma protestante, e no passar dos anos, não houve um sincretismo como o observado no Brasil e na África, apesar dos Estados Unidos também terem tido contato com indígenas e com africanos. O mesmo não aconteceu em partes da América espanhola. Com essa raiz que remonta a reforma protestante, que entendo como um rompimento com as tradições católicas, o cristianismo anglo-saxão acabou se misturando com a tradição inglesa de direitos individuais, liberdade e individualismo.

Ao contrário do cristianismo protestante, a raiz do cristianismo brasileiro vem de uma junção da doutrina católica pré-reforma protestante e recebeu muitas influências do pensamento religioso africano e indígena, que devido a seu tribalismo era altamente coletivista. Com isso, o catolicismo no Brasil e na África não significa que os valores anglo-saxões acompanhem a religião. Isso pode de alguma forma ser a explicação das diferenças nos resultados da pesquisa.

E nem mesmo o protestantismo brasileiro (que está se difundindo rapidamente pela África) segue uma tradição diferente, já que acredito que ele seja somente uma radicalização do catolicismo, como uma tentativa de resgate do fundamentalismo presente na idade média, e como ele não tem ligação com a reforma protestante, ele também acaba não influenciando as sociedades onde está presente a irem de encontro com uma sociedade com valores individualistas.

Com isso, acredito que possa realmente existir uma relação (pequena) entre falta de religião e coletivismo e individualismo com religião, apesar de acreditar que a tendência dessas sociedades individualistas é migrarem para sociedades verdadeiramente sem religião, longe do misticismo europeu; como a venda do livro “O Segredo” demonstra.