sábado, 1 de outubro de 2011

Acepipes de Amor

Para entender este post, é essencial, é fundamental, que vocês leiam, ou melhor, sorvam e deleitem-se com este texto sobre as pequenas gentilezas do amor. Leiam mesmo, do início ao fim, sem pular nenhuma palavra. Aproveitem para dar uma passada de olho pelos comentários. Recomendo ainda que naveguem um pouco pelo resto do blog. Só então, quando estiverem 100% imbuídos desse espírito doce e delicado qual sorbet de mamão (a pedra de toque é ser capaz de dizer, como o autor, com toda a sinceridade: "Ontem à noite fui buscar água e a geladeira vazia me lembrou que hoje é dia de mercado. Desde pequeno adoro dia de mercado.[fim do post]"), aí sim voltem para cá; estarão aptos a compreender meu gesto.

Pois vejam, hoje, sábado de manhã, eu também levantei mais cedo que minha esposa, e tinha vontade de comer mamão. Digo, mamão papaia, o gostosinho, e não aquele grandão que se serve cortado em lanche de criança. Intuí que minha alma gêmea, ao acordar, também ia querer se deliciar com essa dádiva. Resolvi então preparar-lhe uma surpresa. Fui à cozinha a passos cuidadosos, na ponta dos pés, para que nenhum barulho a despertasse de seu descanso merecido depois de uma semana intensa de trabalho. Na geladeira havia duas metades de dois papaias diferentes, o que não é incomum em casa: às vezes eu corto um papaia novo sem checar se há uma metade mais velha guardada. Caberia a mim, portanto, surpreender minha esposinha com uma dessas duas. Eu poderia, é verdade, dar-lhe ambas, e era o que eu faria, até que pensei: "Mas se eu der tudo para ela, ela vai ficar triste, pois eu terei ficado sem, e ela fará questão que partilhemos juntos dessa alegria". Decidi que uma das metades tinha que ser minha.

Só então reparei a enorme disparidade entre elas.

A primeira era perfeita. A casca amarela na medida certa, imaculada; a carne vermelho claro, nem muito dura nem muito mole, e no meio sementinhas pretas reluzentes, saudáveis. Prometia a doçura acolhedora que só um bom papaia oferece. Inigualável.

A segunda estava em avançada podridão. A casca preta e carcomida, a carne mole, sem consistência, cheia de veios fibrosos; manchas escuras e até brancas poluíam a borda. Umas partes estavam ressecadas; outras, pastosas. Sementes esbranquiçadas boiavam na gosma; essa fruta claramente tinha apodrecido antes mesmo de amadurecer.

Com todo cuidado tirei as duas metades da geladeira e coloquei cada uma em um pratinho com uma colherzinha de prata do enxoval do casamento. A primeira dava água na boca e me fazia sonhar com um mundo mais doce. A segunda, se a olhasse fixamente, pequenas ânsias de vômito. Fiquei ali alguns segundos, fitando-as. O que fazer?

Não tive dúvidas: tasquei a colher na metade boa e a devorei! De papaia podre quero distância! Joguei a casca no lixo, não sem antes abrir espaço no fundo do saco e depois recobri-la com umas latinhas e uma caixa de leite velha, para não acontecer que minha mulher, ao jogar algo fora, visse a casca e concluísse que a melhor parte ficara pra mim.

Escondidas as evidências, voltei cuidadosamente para o quarto com o outro pratinho, e me posicionei ao lado daquele anjo a dormir pacificamente. Sem que ela acordasse, revolvi um pouco o papaia com a colher, soltando da casca aquela carne já pastosa e aquelas sementinhas subdesenvolvidas. Soltinho assim é que é bom.

Estiquei, então, o prato por cima da cabeça dela e o virei aos poucos, derramando a papa em seus lindos e longos cabelos louros enquanto espalhava tudo com a colher para que nenhum fio saísse ileso. Sabem aquele cheirinho meio acre do fundo do papaia? Estava bem forte; lembrava xurume.

Conforme eu mexia, o rosto angelical esboçou alguns movimentos. Saltei prontamente para o outro lado do quarto e fiquei do lado do armário, de um jeito que ela não me visse, espiando sorrateiramente; me senti um verdadeiro menino do primário no meio de uma travessura! Ainda de olhos fechados, meio-acordada, ela levou a mão à cabeça, mas ao passar os dedos pela minha surpresa levantou de sopetão. Enquanto corria as mãos pela gosma, sentiu o cheiro penetrar-lhe as narinas, e um fio de aguinha rosa escorreu-lhe pelo rosto. Do fundo das cordas vocais soltou um berro que me assustou. Mais gotas escorriam testa abaixo e ela viu um pouco do papaia grudado em seus dedos; o rosto e se contraiu numa feição nada atraente. "O QUE É ISSO??", berrou mais uma vez e desatou num choro solto. Não havia raiva, apenas o mais puro desconsolo, em sua voz. Ela se virava para os lados, olhava para o travesseiro, chegou até a puxar os cabelos. O total abandono daquele pranto, sem receio e sem vergonha, era em parte causado, tenho certeza, por ela não poder lavar o cabelo, pois ira ao cabelereiro na noite de sexta fazer um corte e um penteado especial, todo emperiquitado. É que hoje à noite teríamos o casamento da melhor amiga dela, no qual ela seria madrinha. Veio-lhe uma falta de ar, e ficou ali, um anjinho de cabeça suja soluçando no mais absoluto desamparo, e agora já uns pedacinhos do papaia caíam de seus cabelos na camisola e no edredom.

Vendo aquela cena patética, em que várias circunstâncias inesperadas tinham se encaixado para produzir uma tragédia singular, tentei me segurar ao máximo, mas não resisti: denunciei meu esconderijo. Existe jeito melhor de começar o fim-de-semana do que com uma longa e deliciosa gargalhada?