sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Fé, Ciência e Ateísmo: uma entrevista com Daniel Darkins

O cientista e filósofo Daniel Darkins é um dos maiores defensores da ciência e do racionalismo no debate contemporâneo entre ciência e religião. Seu novo livro, O Triunfo da Ciência, é dos ataques mais fulminantes à fé que já publicados. Darkins argumenta que a crença em Deus é a maior ameaça à existência da humanidade. Sua solução é simples: um ateísmo puro, sem meias-palavras. Nós do Ad Hominem (que somos, atualmente, compostos de três cristãos e um ateu) conseguimos entrevistá-lo para nosso blog, recém-chegado a terras brasileiras. Qualquer que seja sua posição, é importante ouvir os dois lados.

Ad Hominem: Seu livro tem sido considerado desrespeitoso, e até intolerante. Como você responde a esse tipo de crítica?

Daniel Darkins: Só posso dizer que quem diz isso não entendeu minha mensagem. Meu livro é uma súplica por tolerância. Veja, eu não tenho nada contra pessoas religiosas. Alguns dos meus melhores amigos são homens e mulheres de fé, sem falar de vários parentes. Tenho a mais profunda admiração por eles. Na verdade, eu acho até que a religião tem suas características louváveis e é um belo produto da mente humana. A própria Bíblia tem ensinamentos muito salutares. O que eu oponho, o que eu ataco com força total nos meus argumentos, é o fanatismo. Fanatismo é sustentar um dogma irracional e impor suas crenças à força sobre os demais. E isso é o exato oposto da atitude científica, que é acreditar apenas no que as evidências permitem, e com a força que elas permitem, e convencer os outros com argumentos racionais.

AH: Nesse caso, não pode o ateísmo se tornar fanático?

DD: Como poderia? O ateísmo não é um sistema de crenças que possa ser imposto a alguém. Ele não adiciona nada. É simplesmente a ausência de crença em um deus; uma suspensão de juízo. Como pode uma mera ausência ser imposta?

AH: No capítulo II [“Átomos e Fantasmas”] você explica que a religião e a ciência nascem de duas visões de mundo opostas. Você pode explicar isso um pouco mais?

DD: A diferença é simples: para o cientista, o universo é um sistema ordenado, guiado por leis objetivas que não admitem exceção. Há causa e efeito, ação e reação, gostemos ou não disso. Descobrimos essas leis observando, fazendo experimentos, usando nossas mentes. Se você saltar de um penhasco batendo os braços, esperando voar, a lei da gravidade vai destruir seus sonhos. Já a religião nega isso e exige de nós um salto de fé. Para a visão de mundo religiosa, a realidade são os caprichos de uma divindade milagreira todo-poderosa. Ao invés da razão, você tem fé, sentimentos e tradições. A marca distintiva da religião é essa crença num deus, ou ao menos num reino espiritual; essa é sua essência. E se você passa a vida olhando para o céu, vivendo entre os espíritos, então a terra não importa muito. Portanto é natural que quem se preocupe em melhorar a vida aqui, neste mundo, sejam os cientistas, os ateus – eu uso os dois termos indiferentemente – enquanto os religiosos sonham com o outro lado. Se isso não é moralmente e intelectualmente falido, o que é?

AH: Pode haver ética sem religião?

DD: Pode haver ética sem ateísmo? Seguir ordens de um tirano por medo da punição não me parece muito virtuoso. O humanismo secular é o único código de valores que não depende de ameaças de danação eterna ou da expectativa das delícias do céu, mas do amor pela humanidade. Um amor livre para pessoas livres que vivem neste mundo; fazendo a coisa certa porque ela é certa. No fundo, ateísmo é isso: amor aos homens.

AH: Mesmo assim, quando contemplamos o universo, ou mesmo a face de uma pessoa amada, sentimos um maravilhamento que nos diz que a realidade é complexa e bela demais para ser sem significado. A religião captura esse sentido do sublime. Como um ateu se relaciona com isso?

DD: O ateísmo apenas reforça esse sentimento. Quando olho a Via Láctea, com todas as suas estrelas e planetas, sou tomado pelo maravilhamento. Essas coisas são deslumbrantes em si mesmas, sem referência a um deus. Mesmo porque, como poderia um deus invisível nos maravilhar se nunca o vimos? Olhe para o homem: existe alguma coisa mais admirável que o corpo humano? Nosso cérebro, nosso coração, nosso sistema digestório: como a comida desce por nossos intestinos enquanto nosso corpo absorve lentamente sua água, até chegar ao reto e jorrar ânus afora. Para mim, isso é sublime. Eu também amo poesia, música, arquitetura, gastronomia, um bom whisky. A cultura e as artes elevam o espírito humano e nos dão significado melhor do que qualquer religião.

AH: Alguns líderes religiosos consideraram seu livro profundamente ofensivo e aconselharam seus fiéis a não lê-lo. O que você pensa disso?

DD: Honestamente? Eu não esperava outra coisa. É o mesmo tipo de fanatismo que mandou Galileu à fogueira por dizer que a terra é redonda. Os muçulmanos queimam embaixadas por uma caricatura de jornal. As autoridades cristãs adorariam banir meu livro e me colocar na prisão, no mínimo. Tudo o que eu peço dos crentes é que eles mantenham suas mentes abertas. Religião e liberdade de pensamento não caminham muito bem juntos. Agora, o que eu considero ofensivo são a santa inquisição, a caça às bruxas, as Cruzadas, o Index dos livros proibidos, a jihad; tudo feito em nome da fé.

AH: Sua leitura da história não é um pouco parcial? E todas as coisas boas que a religião já fez ao longo dos séculos?

DD: Existem alguns templos e igrejas bonitos, e umas músicas religiosas relaxantes, isso eu concedo. Agora olhe para as coisas boas que a ciência já fez. Computadores, aviões, carros. Você não pode encher o estômago com arte. Com ciência e tecnologia nós agora vivemos vidas mais longas e melhores. Como eu argumento no capítulo 9 [“Julgando o Juiz”], vamos supor que Jesus tenha mesmo multiplicado um pão em milhares. Mesmo nesse caso absurdo, a ciência ainda seria superior, porque ela multiplicou não só o pão, mas todas as necessidades da vida, mais do que um milhão de vezes. Então quem é o verdadeiro salvador?

AH: Ainda assim, muitas atrocidades também foram cometidas por regimes e governantes ateus, especialmente no século XX. Stalin é um bom exemplo.

DD: Sim, Stalin; os crentes acham que podem classificá-lo de ateu. Eles convenientemente se esquecem de Hitler, um cristão devoto. Quanto ao Stalin, embora ele fosse superficialmente ateu, seu fanatismo era religioso. No caso dele, sua religião era sua ideologia. Uma religião sem deuses ou espiritualidade, mas ainda assim uma religião em suas características essenciais. É por isso que eu classifico a URSS e a China comunista entre as nações religiosas ao calcular as mortes causadas pela religião no capítulo III [“Alguns Fatos”]. É isso que acontece quando a razão dá lugar à fé.

AH: Se a religião é intelectualmente, moralmente e historicamente indefensável, como você explica que tantas pessoas tenham algum tipo de religiosidade?

DD: A religião oferece algo que as pessoas desejam. Um deus que se importa com você; vida após a morte; sentido; paz de espírito; uma razão simples para ser bom com seu vizinho. Ela pinta um mundo cor-de-rosa e bonitinho de felicidade e amor, e isso produz um sentimento acolhedor. Que homem não quereria isso? A mente humana se engana com muita facilidade. O ateísmo oferece o mundo como ele é: um universo duro, frio e impessoal, cada um por si, sem perdão vindo de cima para passar a mão em nossas cabeças. Isso requer coragem e força mental.

AH: Você concorda, então, que a religião pode ser boa psicologicamente?

DD: De jeito nenhum. Veja, eu cresci numa família católica muito tradicional. Meus pais eram crentes muito rigorosos, então falo de experiência pessoal. Tínhamos tudo: Deus, Jesus, a Virgem Maria; íamos à Missa, sem falta e sem exceção, toda Páscoa; o pacote completo. No início eu os acompanhava, mas conforme amadureci e comecei a pensar nessas questões, percebi que a religião nada mais é do que tortura mental. Há essa culpa pelo pecado, esse medo do inferno, que são crônicos. Paz e amor são uma casquinha inócua que esconde a obsessão com o pecado. Depois de considerar com cuidado todas as possibilidades, eu finalmente decidi abandonar a fé e abraçar o ateísmo, e foi só daí – eu já tinha quase treze anos – que encontrei a paz de espírito.

AH: Alguns defensores da religião afirmam que fé e razão não se excluem mutuamente. Eles tentam provar a existência de Deus racionalmente, por exemplo com as cinco vias de Tomás de Aquino. Qual sua resposta a esses argumentos?

DD: As cinco vias de Tomás de Aquino, a causa primeira e todos os argumentos similares talvez tivessem algum peso num passado distante. Mas hoje em dia temos conhecimento científico o bastante para ver como suas premissas estavam erradas. Elas dependem de modelos ultrapassados, com noções metafísicas como, por exemplo, causa e efeito. Os físicos quânticos e filósofos modernos já provaram que não existe causa e efeito; a suposta ordem do universo não passa de uma frequência estatística casual. A assim chamada “realidade objetiva” depende tanto do observador quanto de qualquer lei externa. A fé ingênua num universo objetivo e ordenando não faz mais sentido.

AH: E nossa consciência moral, nosso sentido de certo e errado? Isso não aponta para Deus?

DD: Se você quiser provar Deus usando a moralidade, terá que provar a moralidade sem usar Deus, o que é impossível. Como a biologia mostra claramente, todos os nossos desejos e impulsos são determinados pelos genes. Todos os nossos pensamentos e ações são obra de genes tentando propagar a si mesmos; a ética, o amor desinteressado, são invenções muito engenhosas de alguns genes egoístas para se replicar melhor do que outros. Como a arte e a cultura, ela não passa de secreção do cérebro. O homem é um veículo de genes egoístas. Desista: o ateísmo está positivamente demonstrado de todas as formas possíveis.

AH: Bem, então quais os seus argumentos para provar que Deus não existe?

DD: Em primeiro lugar: qual deus? [risos] Estamos no século XXI; você ainda precisa de argumentos? Nós dividimos o átomo; os mamíferos vieram dos répteis; crianças morrem; é óbvio que Deus não existe.

AH: No último capítulo do seu livro, “Por uma Sociedade Livre”, que é também o mais polêmico, você defende que o ensino religioso seja banido de todas as escolas, públicas e privadas. Isso não violaria o direito dos pais de educar seus próprios filhos?

DD: Não existe direito de fazer lavagem cerebral e violentar crianças inocentes. Você permitiria que uma escola ensinasse o mito da fada do dente aos seus filhos como se fosse verdade? E se a fada do dente fosse um tirano sádico todo-poderoso que gosta de torturar pessoas pela eternidade? Eis o cristianismo. A Bíblia é um bom exemplo: tem tanta violência e obscenidade ali; qualquer outro livro que dissesse a mesma coisa seria proibido para menores. Eu peço apenas que todas as publicações sejam tratadas com igualdade. Temos que proteger as crianças do meme de Deus. É isso que a religião é: um meme, um vírus da mente. Se temos vacinação obrigatória contra tantas doenças, por que não contra essa? É uma questão de saúde pública. Não tenha ilusões: todo crente é um homem-bomba potencial que está apenas esperando o comando de seu deus para nos explodir. Não dá para confiar em nenhum.

AH: A teoria da evolução acabou com a necessidade de Deus?

DD: Sim. Ele é um conceito supérfluo, uma entidade desnecessária. A seleção natural explica a diversidade da vida. Eu trabalhei com um time de programadores para provar isso. Uma vez que você elabore as regras do sistema, defina os parâmetros e introduza algumas entidades, elas se desenvolvem e mudam por conta própria, sem necessidade de deus algum.

AH: Como surgiu a vida?

DD: Isso é algo que os cientistas ainda estão pesquisando. Não sabemos ainda como o primeiro organismo unicelular apareceu na Terra, mas eu tendo para a hipótese do asteroide que colidiu com nosso planeta trazendo formas de vida microscópicas.

AH: E quem, ou o quê, criou essas formas de vida?

DD: Alienígenas altamente desenvolvidos.