segunda-feira, 26 de setembro de 2011

De Foie Gras e Couve-flores

Minha experiência pessoal é a de que o vegetarianismo tem crescido. Conhecidos, amigos e até parentes já aderiram ou pensam em aderir à causa. Alguns, é verdade, aderiram e voltaram atrás, e há a possibilidade de que seja uma moda; depois de um tempo, como o impacto do movimento será pequeno (aqui no Brasil, por exemplo, o que se tem é o aumento maciço do consumo de carne conforme as classes mais baixas ascendem economicamente), uma hora o grosso do movimento cansa e o núcleo de militantes e convictos volta a ficar só. Contudo, acho que além de moda há algo mais aí: um problema ético que o vegetarianismo (e veganismo e outros) levanta e que tem que ser respondido, pois vai se tornar cada vez mais agudo.

Estou falando aqui exclusivamente de um tipo de vegetarianismo: não o por motivos de saúde, ou de ascese espiritual, ou até o de pena pelos bichos ("tenho pena de comer o cordeirinho, mas não digo que seja imoral comê-lo"). Tenho em mente o vegetarianismo moral, que diz exatamente que provocar o sofrimento e a morte animais para nosso bem-estar é errado, imoral; ou seja, aderir ao vegetarianismo não é questão de gosto ou opção subjetiva, mas um adequar-se a uma ordem moral objetiva. E dentro das justificativas morais, trato apenas das ligadas ao direito dos animais (e não, por exemplo, do suposto auxílio que o vegetarianismo dá ao combate da fomehumana no mundo).

De certa maneira, se adotarmos como nossa postura ética o utilitarismo ou algo próximo dele, as conclusões vegetarianas são inescapáveis. O sofrimento é um mau e deve ser minimizado. Mesmo se se aceita que o sofrimento animal é, genericamente, de tipo inferior ao humano (ou seja, que é menos mau que um cachorro quebre a pata do que que um homem quebre a perna), ainda assim é possível algum tipo de correspondência ou proporcionalidade: a morte dolorosa de um milhão de golfinhos é obviamente pior do que uma unha humana encravada.

Por que um homem do mundo urbano de hoje em dia come carne? Dois motivos: costume e gosto. Nutricionalmente é possível substituir a carne por alternativas que saem inclusive mais barato (do que a carne de vaca certamente; frango já não sei- isto é, mantendo-se uma alimentação gostosa e variada, humana, sem cair na ração). Só que nenhum dos dois justifica o sofrimento animal causado pelo consumo de carne: seja a morte do bicho em si, seja o tipo de tratamento ao qual ele é sujeitado antes do abate.

Mas é claro que o argumento vai muito mais longe do que isso. Todo nosso uso de animais é para fins não-essenciais. Ovos, leite, couro, tantos outros derivados animais que exigem ou a morte ou ao menos a "escravidão" deles (vou passar batido aqui pelo argumento de que certas ocupações animais, como as vacas leiteiras, têm vida melhor e mais prazerosas do que teriam in natura). No limite, chega-se a:

"Adoro música clássica e às vezes vou a concertos, durante os quais, mesmo estando com a mente a anos-luz de distância, inebriado por todo aquele som, aquelas dezenas de instrumentos em acordo, levado por relevos sonoros inimagináveis, há sempre algo me cutucando os neurônios: esses arcos são feitos com crina de cavalo! Incômodo que não passa nem na mais delicada sinfonia. E fico pensando: o que mais deve haver de origem animal nesta orquestra? Será que essa flautista de gestos e expressões tão doces é uma devoradora de cadáveres?" (Tirado do blog do meu amigo Dennis Bluwol)

O veganismo radical é a consequencia lógica inescapável do raciocínio ético acima, mas é também algo assumidamente incompatível com: a) a população mundial contemporânea, alcançada apenas com a industrialização e a alteração maciça de muita natureza b) a civilização e a cultura como a conhecemos e, enfim, todos os desenvolvimentos da história humana desde o homem das cavernas (que já comia carne e domesticava alguns animais) até hoje. Enfim, se se é coerente, deve-se abraçar as vertentes mais radicais (e consistentes) do veganismo, que vêem que a relação supostamente problemática entre homens e animais vai muito mais fundo do que apenas comer ou não comê-los; tudo teria que ser diferente.

É um trabalho meritório mostrar por que essa visão está errada (se é que ela está), mas não é um que eu me sinta agora capaz ou desejoso de fazer (o que envolve discussões não só estritamente éticas mas antropológicas, biológicas e históricas). Vou partir do pressuposto, que é partilhado pela imensa maioria das pessoas - o que não prova nada -, de que o ideal do veganismo radical não é desejável (por quê? p. ex: incapacidade de sustentar grandes populações e dos benefícios culturais que a divisão de tarefas nos proporciona). O mundo seria um lugar pior se fôssemos todos monges jain.

E o jainismo é ainda benigno, pois troca este mundo de dores pela eternidade. Para o utilitarismo não-especista, este mundo é tudo o que há, e portanto não devemos apenas nos abster de causar sofrimento aos bichos. Temos o dever até de diminuir o sofrimento dos animais in natura (quem sabe anestesiando as presas logo antes de serem caçadas?).

o vegetariano moderado, normal, a meu ver, padece de uma inconsistência filosófica. Eu considero essa inconsistência louvável, mostra de bom senso. Ainda assim, é algo que, idealmente, deveria ser eliminado. Talvez alguns lidem com ela dando de ombros e lamentando que o mundo fica muito aquém do que deveria ser, que não dá pra ser santo no mundo moderno; ou seja, admitindo derrota. É uma maneira de se lidar com inconsistência entre crenças e ações, mas é também uma forma triste de encarar a realidade.

Para sair da inconsistência, ou se adota o veganismo, ou se nega o princípio ético da coisa toda: o prazer/sofrimento como fundamento da ética, que chamo aqui, em sentido largo, de utilitarismo. Isso significa dizer: não é a capacidade de sentir prazer e dor que confere valor moral a um ser. É o homem, dotado de razão, que confere valor moral ao universo, e apenas o seu bem tem verdadeiramente o caráter de fim. O resto da criação deve ser tratado como meio pelo homem.

Isso não quer dizer que deva-se ser cruel com os animais. Afinal, o sofrimento é um mau. Uma conclusão que se tira disso é que causar o sofrimento pelo sofrimento, por sadismo, é mau. Agora, se o mau do animal tiver uma finalidade humana (o que inclui não só a pesquisa de remédios, mas o prazer na alimentação, a diversão da tourada, etc) não há a priori nenhuma quantidade de dor animal que o torne imoral. Que venha o foie gras!

Ao mesmo tempo, não digo que a compaixão pelos animais seja equivocada. Ela é mostra da bondade de coração da pessoa. Mas não é, digamos, obrigatória. Não tê-la pode indicar certa falta de consideração pelos outros (seres humanos), mas não necessariamente. De fato, em muitos casos é bom não tê-la (ou então viveríamos tristes pelas mortes de gazelas na África); algo que é verdade, em grau menor, até para a pena humana. Digo que mesmo o vegetarianismo por pena pode ser bom, contanto que não vire uma condenação da morte de animais para o bem humano (a linha entre os dois é tênue, mas real: uma coisa é ter pena do bebê chorando por um chocolate e dar-lhe o chocolate; outra coisa é dizer que seria imoral recusar-lhe; bem conheço esse dilema!).

A razoabilidade (que não é prova de nada; se nosso modo de vida for completamente equivocado como argumentam os veganos, nossos parâmetros de razoabilidade são igualmente imprestáveis) exige que reconheçamos o homem como categoricamente superior ao resto dos seres vivos, e digno portanto de usá-los como meios para seus fins.