segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Juízos de Estacionamento

Dependendo do horário, não é fácil encontrar vaga para carro ao lado da biblioteca da FFLCH-USP. Então me senti sortudo quando, chegando já às 15:00, encontrei uma vaga não muito longe da entrada.

Preparando-me para a baliza, notei que o espaço estava mais apertado que o comum; não tornava a manobra inviável, mas me daria muito menos espaço para sair do carro. O motivo? Um dos carros adjacentes (modelo popular de alguns anos atrás; não me perguntem qual...) estava torto, invadindo flagrantemente com seu pneu traseiro a fronteira que separava nossas vagas.

Com a habilidade que me é própria, estacionei meu carro, já um tanto desgostoso por ter pouco espaço para abrir a porta, e foi então que notei os adesivos que adornavam a lateral do veículo: coisas como "eu paro para animais", "proteja os animais", "direito dos animais", "eu respeito os animais"; enfim, vocês entenderam a mensagem. Acho que havia também um da Veterinária-USP. Foi-me impossível não exclamar, acho que até em voz alta: "É... respeita os animais, mas estaciona fora da vaga!"

Saindo da vaga e caminhando para a biblioteca, minha mente perversa foi além. E se entre o amor vocal pelos animais e a displicência prática para com outros humanos não houvesse apenas correlação, mas causalidade? E se o veterinário desprezasse os homens justamente por amar tanto, e provavelmente atribuir características pessoais, aos bichos? Nos homens ele veria apenas intriga, inveja, ressentimento, enquanto nos animais veria ingenuamente todas as características positivas como sinceridade, amizade, fidelidade. Incapaz de lidar com o mundo real, construiu para si um mundinho particular, no qual animais substituem as relações humanas (e o fato de essas relações serem basicamente de mão única apenas sublinha o egocentrismo da coisa toda), e a melhor forma de se convencer a si mesmo era se alinhar a um movimento e manifestá-lo barulhosamente a todos que cruzassem seu caminho. Imagine ele puxando papo numa festa, procurando a oportunidade de lançar uma bomba do tipo "Sim, eu não como carne, sou contra o assassinato de inocentes."

Eu ainda não estava satisfeito. Minha inferência do caráter do sujeito iria um passo além. Não, não se tratava de descaso para com outros seres humanos, e sim do desejo consciente de prejudicá-los. Para certo tipo de mentalidade, a sociedade burguesa-capitalista-individualista em que vivemos - encarnada, entre outras coisas, pelo automóvel - é incorrigível, e nossa única esperança é uma revolução. Mas como a grande revolução geral ainda está distante, o jeito é ir fazendo microrrevoluções, ou seja, pequenos atos para romper e desagregar o tecido social, mas ainda dentro do que permite a lei. Uma forma de microrrevolução é guiar na faixa da esquerda perto do mínimo permitido, só para piorar o trânsito. Outra - por que não? - poderia ser estacionar fora da vaga, dificultando a vida dos outros motoristas a procura de estacionamento. Parece detestável demais, incoerente demais, imaginar jovens donos de automóvel julgando-se heróis revolucionários ao piorar intencionalmente a vida dos demais motoristas? Pois já o vi admitido, e com orgulho, no mural do Facebook. E agora, na frente da biblioteca da FFLCH - sem dúvida um terreno propício às ideias da microrrevolução - encontrava em carne e osso o tipo de inimigo que só vira na internet e em meus piores pesadelos.

***

Lá pelas seis da tarde, saí da biblioteca, e vi que o carro de meu inimigo desconhecido ainda estava lá. Dessa vez, no entanto, notei outro detalhe: ao lado da linha de demarcação da vaga, havia, meio apagada, uma linha antiga. Era bem claro qual a nova e qual a velha, mas para um motorista com pressa ou um pouco desatento poderia passar batido. E o carro torto que invadira minha vaga estava, pela demarcação antiga, perfeitamente bem estacionado.

E assim, com um detalhe a mais, o mini-Stalin defensor dos bichos e inimigo dos homens, egocêntrico e complexado, tornou-se uma pessoa comum, suscetível como todos nós aos pequenos descasos e imperfeições da vida, com suas crenças e convicções, nem melhor nem pior do que eu.