terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mentindo pela Causa - o caso feminista (e sua caricatura espelhada e ainda pior: o masculinismo)

As mulheres foram vítimas de diversas injustiças ao longo da história. Na Idade Média em diversas nações, por exemplo, não tinham o direito de herdar propriedades. Salvo raras exceções, não cursavam ensino superior e nem tinham qualquer abertura para a vida intelectual. Bem sabemos, também, que práticas absurdas como a punição física à esposa foram toleradas no Ocidente até pouco tempo atrás.

[Isso não quer dizer, contudo, que a vida das mulheres tenha sido, acima de tudo, marcada por sofrimentos e injustiças. Apesar desses, coisas más que os tempos modernos fizeram bem em corrigir, as mulheres, assim como os homens, sempre foram capazes de viver, ser felizes e até mesmo vencer as barreiras institucionais a seus anseios, como diversas mulheres notáveis ao longo da história mostram. Já que dei um exemplo negativo inicial da Idade Média, um período que conheço melhor do que os outros, é dela também que tiro exemplos positivos de intelectuais polímatas (Hildergad von Bingen), autoras literárias de sucesso (Christine de Pizan - inclusive uma protofeminista no sentido de se preocupar com a situação da mulher, Margery Kempe - autora da, se não me engano, primeira autobiografia em inglês), poetisas trovadoras (Clara d'Anduza, Almucs de Castelnau, a Condessa de Dia, Maria de Ventadorn), rainhas (Eleonora de Aquitânia) e ainda teólogas e místicas (Juliana de Norwich, Catarina de Siena, Brígida da Suécia).]

A luta contra injustiças reais, contudo, não justifica o uso da mentira e da distorção dos fatos. E quanto mais leio ou discuto com pessoas que se dizem feministas (que significa não apenas defender a igualdade entre homem e mulher, mas aderir a toda uma visão de mundo que relê nossa sociedade como uma luta de classes entre homens opressores e mulheres oprimidas), mais me parece que o que distingue o feminismo de uma mera reivindicação de justiça, e o que permite sua existência, são exageros, manipulações e até mesmo mentiras.

Uma dessas mentiras, patente e inegável, apareceu na discussão do meu artigo "O que Querem as Mulheres?". Disse uma comentadora, que no mais revelou, pelos termos escolhidos, sua filiação ao feminismo "ortodoxo", que não-sei-quantas mulheres são assassinadas pelo mero fato de serem mulheres. Segundo ela, quando um homem agride ou mata sua esposa ou namorada por sentir ciúmes dela, ele o fez porque ela é mulher. A prova da afirmação? Ora, se ela não fosse mulher, não teria sido morta. Assim, parece que o ódio à mulher explica uma série de crimes violentos cometidos contra mulheres.

Mas analisemos isso mais de perto: se fosse verdade que é o ódio à mulher que guia a ação do namorado ciumento, ele não limitaria sua violência à sua própria namorada. Qualquer mulher cumpre perfeitamente o requisito de seu ódio: ser mulher. Ele poderia tanto matar sua namorada quanto uma transeunte qualquer na rua; e por que não ambas? Fica claro que o que explica o crime não é o ódio à mulher; é o ciúme que o sujeito sente ao descobrir ou imaginar a infidelidade de sua namorada. Se ela não fosse mulher, ela seria morta? Bom, em se tratando de um heterossexual, é claro que não, pois se ela fosse homem, não seria namorada dele e portanto não poderia ser vítima de seu ciúme doentio.

Estaria uma feminista disposta a afirmar do caso de um homem morto pela namorada ciumenta, que esse homem foi assassinado "apenas por ser homem"? Não cola, né? Então a inversa também não pode ser verdadeira, por mais que as feministas desejem que seja (e elas o desejam porque, se admitirmos essa forma de falar, estamos dando crédito à suposta opressão masculina onipresente que rege a história humana e as relações pessoais). Se a explicação de tantos crimes contra as mulheres for apenas o ciúme universal somado aos efeitos comportamentais da testosterona e à confiança que a preeminência física dá no trato a dois, então o castelo feminista rui.

Na verdade, não é preciso nem recorrer à suposta maior violência do homem para explicar os casos de abuso físico e sexual nos relacionamentos. Já é bem sabido que entre homossexuais, inclusive entre lésbicas, vigoram taxas semelhantes de abuso (vejam também este estudo inglês). Infelizmente, não é incomum que uma parte mais forte exerça um poder indevido sobre uma parte mais fraca, seja de que sexo forem. Se uma mulher agride sua parceira, a culpa é do patriarcado?

Outra distorção muito comum é a do número de estupros, da qual é muito difícil conseguir dados sólidos. Há números para todos os gostos. Segundo artigo recente de Paula Abreu, uma mulher é estuprada a cada 12 segundos no Brasil; o que daria por volta de 2,6 milhões de estupros por ano. Para isso bater com os dados das secretarias de segurança estaduais (ex: RJ teve 4589 casos registrados em 2010), a taxa de denúncia oficial de estupro teria que ser bem inferior a 10%. A RAINN, uma ONG não-ideológica de combate ao estupro, abuso sexual e incesto, trabalha com uma taxa de 46% de notificação de estupros e abusos sexuais à polícia. Os dados dela vêm de um estudo do Departamento de Justiça do governo americano.

E olha que nesses casos registrados pode haver muitos abusos sexuais que nem de longe caracterizam estupro numa consideração objetiva dos atos (como esta do CDC americano, que, na violência sexual, distingue entre ato sexual completado - basicamente, qualquer tipo de penetração -, ato sexual incompleto mas com intenção de se completar, contato sexual abusivo e abuso sexual sem contato). A legislação brasileira, desde 2009, considera qualquer tipo de abuso sexual como estupro: da "mão boba" à penetração violenta. Nas palavras de um delegado-geral da Polícia Civil Paulista, Marcos Carneiro (citado em um dos links acima): “Antigamente, o estupro era algo muito específico: o homem atacando a mulher e tendo relação. Hoje, um beijo lascivo forçado pode ser entendido como estupro. [...] Ampliou muito o leque. Uma passada de mão no Metrô, dependendo do entendimento do delegado no momento e de todo o contexto, pode ser interpretado como estupro.” É bom e louvável que se procure registrar e punir mesmo agressões sexuais como uma passada de mão por fora da roupa. Agora, igualar isso à penetração sexual forçada é pura manobra demagógica para agradar grupos de pressão. É o equivalente a tipificar soco na cara como homicídio. O principal dano dessa decisão é a perda de informação que isso traz. Agora a informação oficial de estupros no país é pouco confiável; nunca saberemos a realidade e gravidade dos crimes sexuais no Brasil. Para variar, a jogada demagógica (de dizer que é tudo igualmente grave e que sequer propor que não seja já é um insulto) enlameia as águas da discussão. A boa intenção erigida em moralismo - do qual discordar gera indignação automática - perverte a busca da verdade.

Esse tipo de demagogia tem consequências nocivas. Por exemplo: é bem sabido que sociedades e culturas diferentes têm patamares muito diferentes de respeito à mulher. Já li, e já ouvi pessoalmente, relatos de mulheres que viveram na Alemanha contando que a agressão sexual e verbal lá vem principalmente, se não exclusivamente, dos turcos, e não dos alemães. No caso brasileiro, não é bonito dizê-lo, mas todo mundo deve ter uma ideia mais ou menos confiável de que nos estados do Sul a violência contra a mulher deve ser bem menor do que no Nordeste. Onde mais os benefícios da civilização ocidental chegaram, mais a mulher (e, na verdade, o indivíduo de maneira geral, independentemente do sexo) é respeitada. Mas se aceitamos a demagogia feminista, de que toda a sociedade é permeada de opressão patriarcal, igualamos coisas muito diferentes: São Paulo é tão machista e patriarcal quanto o Maranhão.

O feminismo vive de pintar o mundo como o mais puro horror para as mulheres. Sair na rua é uma experiência traumática, e cada segundo de vida é passado sob o medo intenso do estupro. Isso é algo que me interessa muito e que só fui tomar consciência lendo algo de sites feministas: de fato, para um homem que saia sozinho à noite, há o medo do roubo, mas não do estupro. Se estou com um grupo de semi-conhecidos, entro de carona num carro deles sem receio algum. Para uma mulher não é tão simples. Quando pergunto sobre isso, contudo, a amigas minhas, o que elas dizem difere muito da narrativa feminista padrão: sim, o receio do estupro é uma preocupação em determinados contextos, o que exige algumas precauções padrão (sempre levar dinheiro para um táxi, por exemplo); mas não é de maneira nenhuma um medo dominador de um perigo visto como sempre à espreita. Toda elas saem sem medo de casa sozinhas, têm vida social, não se importam se um desconhecido vier puxar conversa no bar, etc.

Vejam essa tirinha:

A vida da pobre mulher é uma sequência de insultos e baixarias que a deixam humilhada, com a autoestima no chão. Apenas uma verdadeira heroína aguentaria esse tipo de abuso interminável a cada momento do dia em que sai a público. E, quando volta ao "santuário" do lar, o que ela encontra? O pior agressor de todos - o marido! (A barbinha de cafajeste e a barriga de cerveja dizem tudo). Insensível ao sofrimento da esposa que ele diz amar, o safadão, assim como todos os anônimos da rua, a vê como um pedaço de carne. Depois de tantas agressões verbais no espaço público, ela agora se prepara, aterrorizada, para a agressão física dentro do lar (notem a mãozinha dele, chamando-a para a cama; e pela expressão facial e corporal dela vocês podem inferir o que ela sente pelo contato físico que está prestes a ocorrer).

Aqui no Ad Hominem, por outro lado, das minhas três amigas que comentaram o post "O que Querem as Mulheres?", duas disseram não gostar de comentários como esses, mas também não deram mostras de se sentirem assediadas o tempo todo e de viverem uma situação infernal toda vez que saem à rua; e outra disse que, dependendo da situação, até gosta deles. Ou seja: a tirinha é de um exagero patente; a cara da mulher no último quadrinho, como uma vítima, uma coitada oprimida e infeliz nas mãos dos homens, é, objetivamente falando, uma mentira. O que não quer dizer que não haja mulheres que se sintam assim.

Parece-me, portanto, que é na cabeça das feministas que o problema e as agressões tomam as proporções aterradoras e basicamente dominam a vida da mulher (quem duvidar do que estou falando, leia os comentários no site da Lola; há mulheres que dizem viver no mais profundo e constante pavor).

E se, arrisco agora, a real essência do feminismo estiver justamente nesse medo dominador? A doutrina feminista depende de fortalecer e arraigar o medo em suas adeptas, caso contrário ela seria vista como obviamente exagerada, para não dizer falsa. Mas e se a causalidade for inversa: é o medo inicial e irracional que cria e sustenta a doutrina que o justifica?

O mesmo vale para o primo pobre e louco do feminismo, o masculinismo, ideologia muito mais bizarra e ressentida que sua prima. Se fôssemos escolher um dos dois sexos como o que mais sofreu e ainda sofre injustiças no mundo, certamente seria o feminino. De onde então esses caras tiram que são os homens que sofrem, sistematicamente, humilhações e opressão nas mãos das mulheres? É certo que uma outra tentativa de correção legal ou de imposição da cartilha feminista por meio da lei possa ter ido longe demais, ou ter sido baseada em exageros e mentiras demagógicas. Mas disso a imaginar uma conspiração feminina contra os pobres homens é ir da sensatez à loucura, não é?

No meu post, um masculinista - não o estou criticando pessoalmente, apenas usando-o de exemplo - trouxe um vídeo que ele considerava absurdo: um homem é espancado por outros por ter estapeado uma mulher que o estapeara. É para rir?

O princípio de que a mulher é diferente do homem, em geral mais delicada e frágil fisicamente, está enraizado em nossa cultura - talvez porque as mulheres de fato o sejam. Não tem nada de conspiração feminina nisso. Pelo contrário, para as feministas esse princípio é machista, pois diz que a mulher é incapaz de se defender autonomamente como o homem. Seja como for, é por causa desse princípio que se considera que usar da violência contra uma mulher é uma desonra para o homem e visto como um crime muito mais sério e covarde do que usar violência contra um outro homem.

Tem gente, em geral feministas, que quer abolir esse princípio, mas não sei se elas próprias querem as consequências que isso implicaria. Recentemente uma aluna da ECA (faculdade de comunicação e artes da USP) recebeu uma rasteira sem noção de um colega retardado. Um amigo dela, em defesa da moça, escreveu: "O ato se agrava por ser a agredida uma mulher, mas independentemente de gênero, usar da força por motivo fútil é, em si, vergonhoso." É um julgamento quase inescapável: o fato de ela ser mulher agrava a agressão. E se não agravasse? Então a agressão seria encarada da mesma maneira que entre dois homens: isto é, não geraria escândalo ou indignação e seria quase inconcebível chamar a polícia (quem chama é visto - dependendo do caso, justificadamente - como covarde). O esperado socialmente dessa menina seria que ela se levantasse e revidasse a agressão, iniciando assim uma luta. Tem certeza de que isso seria melhor?

Noto entre os masculinistas alguns lugares comuns: como o de que as mulheres só fazem sexo com "homens alfa", e não com perdedores. Ora, se eles acreditam nisso, ao menos uma coisa se segue: eles, que se autoidentificam como não sendo "alfas", não encontram parceiras (ou não encontravam antes de sua conversão) - se encontrassem, teriam em suas próprias vidas a refutação dessa tese absurda. E talvez esse fato, mais do que qualquer outra coisa, esteja por trás de sua visão de mundo anti-mulheres.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Diversas discussões recentes, bem como a minha própria atividade atual de mestrando, têm me suscitado uma dúvida sobre a qual, quanto mais penso, menos consigo vislumbrar uma resposta. E a dúvida é simples: por que queremos saber o que um filósofo do passado realmente pensou ou disse?

Quero limar da consideração o interesse puramente histórico, atendo-me ao interesse filosófico de se ler, reler, estudar e esquadrinhar, digamos, os textos de Aristóteles à procura do sentido preciso de suas palavras. O interesse histórico basta por si mesmo: interessa ler e esquadrinhar Aristóteles porque ele deixou textos e quero entender o que eles diziam. Poderia igualmente me dedicar ao estudo minucioso das inscrições nos banheiros públicos de Pompeia (área que, com efeito, tem seus especialistas).

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Crescei e multiplicai-vos

Por Day Teixeira
All children, except one, grow up. They soon know that they will grow up, and the way Wendy knew was this. One day when she was two years old she was playing in a garden, and she plucked another flower and ran with it to her mother. I suppose she must have looked rather delightful, for Mrs. Darling put her hand to her heart and cried, "Oh, why can't you remain like this for ever!" This was all that passed between them on the subject, but henceforth Wendy knew that she must grow up. You always know after you are two. Two is the beginning of the end.
(Peter Pan)
Dia desses, no mercado, batemos com uma senhorinha avó de aluno do Rafael que ao olhar minha filhinha soltou um espantado “Meu Deus! Vocês não têm juízo!”. Isso de ter filhos nos coloca em contato com muito falatório, todo mundo tem um palpite, uma história, um conselho... E eu quero dividir com vocês como ando atônita com o que tenho ouvido dizer por aí. O problema é sério, vale até um texto.

Quando decidi ter filho (sim, eu decidi) eu não tinha casa própria, renda fixa, médico confiável, vinte cursos diferentes de como-ser-a-mãe-perfeita e nem 35 anos ou mais. Aliás, ainda não tenho; tinha, sim, o que precisava: um esposo, um teto, força e saúde para correr atrás do pão nosso de cada dia e um útero pronto para ser fecundado. A reação primeira de todos aqueles da geração dos meus pais foi “É loucura! É loucura. Você não tem casa própria, renda fixa, médico confiável. Não fez cursos, ainda nem tem mais de 30. É loucura!”. Eu respirei fundo e pensei “que bom que existe a loucura; caso contrário eu mesma não estaria aqui.” Mas as coisas não ficaram nisso aí. Visto que a “loucura” não acertava muito bem o alvo, surgiu uma nova acusação, a de “estar prejudicando a vida do bebê”. Porque se não se preenchem todos os requisitos para engravidar, o bebê pode passar necessidade, precisar de algum tratamento urgente, um leite especial, mil cuidados impossíveis que não poderiam ser sanados a não ser que eu tivesse um emprego público – se tivesse emprego público tudo bem, tinha segurança. Mas nem isso!

Nem isso.

Porém, o que me deixou realmente preocupada não foi o protesto da geração passada, e sim o deslumbre misturado com medo da geração presente. Aquele olhar de estranhamento que denunciava um “como assim um casal de vinte e cinco anos, nessas condições, pode ter filhos? Isso não era para ser impossível? Quer dizer... não é loucura?” Pois é, não era nem uma coisa nem outra; estávamos nós lá, contando com a força da realidade para mostrar que o nosso bebezinho era possível – e era até muito fofo.

Logo a coceira da possibilidade começou a incomodar, e meus companheiros de geração começaram a tentar achar alguma explicação, alguma alternativa, algum argumento que justificasse aquele medo que lhes fora implantado desde a primeira adolescência. Ouvi, principalmente de primos e parentes próximos, que filhos roubariam deles tempo, e que assim não poderiam aproveitar a vida, a juventude. Diziam que filhos davam muitas despesas e muito trabalho – um trabalho enorme, impossível. Mas o principal: ainda não tinham experiência. Sentiam-se jovens demais, imaturos demais para assumir a responsabilidade. Afinal, ter filhos é coisa para gente grande.

E o que é ser gente grande? É conseguir cumprir todos aqueles requisitos. Poucos de 25 anos se consideram adultos pra valer; são meninos ainda, pobres de riquezas e experiência, dependentes da opinião e aprovação dos pais e amigos, sem saber direito o que querem da vida. Sim, são pessoas de 25 anos, assim como eu, assim como todos dessa idade. O fato é que, ao se comprar o discurso da juventude sem responsabilidades, se leva junto um grande problema: a paralisia. Sem responsabilidades, sem transtornos, sem dificuldades, não existe evolução.

Não se adquire a experiência para ser pai a não ser que você seja pai. Não existe caminho de fuga nesse caso: o pai nasce junto com o filho. E se o filho for postergado até seus 35 anos, lá – e somente lá – você terá começado a ter a experiência necessária para ser pai. Até lá, o que terá sido feito da sua vida? Na maior parte dos casos (e conheço alguns, poderia até citar), não foi feito nada, nada de relevante. Ao tentar escapar das coisas difíceis, o jovem acaba caindo e recaindo num círculo vicioso, que o prende no estado mental dos vinte anos, ainda que já tenha seus trinta e cinco.

Mas não espanta que hoje a adolescência prolongada venha ganhando mais e mais adeptos. No fim das contas os filhos, por mais que se esforcem em sentido contrário, acabam por assimilar boa parte do que lhes foi ensinado durante a vida; e nós fomos criados para temer a responsabilidade, a incerteza, e a insegurança. Somos chamados de irresponsáveis sempre que nos colocamos em risco na busca de uma nova responsabilidade. Mas nada de grande pode ser feito – muito menos um filho – sem levar em conta esses três fatores.

Se erramos, talvez seja por acreditar que somos assim tão fracos e imaturos que não podemos nem mesmo fazer o que vem sendo feito desde que o mundo é mundo: gerar filhos tão logo casados. E casar, tão logo possível!

Minha Alice, com seis meses de vida, já me ensinou muito mais sobre a vida do que meus seis anos de faculdade e vida independente em São Paulo. Mas não só isso: ensinou-me também sobre mim mesma, sobre a natureza humana, sobre a caridade, a felicidade... E falando em felicidade, ela também me mostrou com clareza o que Frankl queria dizer ao repetir em quase todos os seus livros que aquele que, ao responder “Qual o sentido de sua vida?” com a tão batida máxima “Ser feliz!”, estava gravemente no caminho errado. Porque aquele que busca a felicidade jamais poderá realizar seu propósito, uma vez que a busca pela satisfação de si é inglória e frustrante. E a felicidade vem, e só pode vir, como consequência de alguma outra coisa. Frankl também diz que o sentido da sua vida deve ser algo que você, e somente você, pode realizar. E alguém duvida que só você poderá ser pai dos seus filhos?

Nossa cultura nos tem aterrorizado enchendo de monstros disformes aquilo que deveria ser uma das principais causas de felicidade e realização para um jovem adulto. A constituição de uma família coroada com filhos – para aqueles com vocação familiar – deve ser vista como a premissa para uma vida frutífera e madura, e não como consequência disso.

Não foi à toa que a primeira ordem dada por Deus ao homem foi exatamente essa: crescei e multiplicai-vos.

sábado, 15 de setembro de 2012

Sociedade dos Molengas


Desde que me entendo por gente, sei que funciono melhor à noite. Se obrigada a acordar e a atender a compromissos de manhã, sinto-me um zumbi. O horário mais confortável para o meu funcionamento seria acordar às duas da tarde e dormir às quatro, cinco da madrugada. Gosto de estudar, escrever e pensar enquanto todos dormem e não há barulho ou movimento lá fora. O que há de errado nisso?

Não sei se há algo de intrinsecamente errado nisso, quer dizer, se ignorar todo o resto para viver no “ritmo da noite” de algum modo, a curto ou longo prazo, faz mal. Mas, pensando bem, paralelamente ao instinto notívago sempre tive algo como um contra-instinto que me fez buscar atividades diurnas; escolhi cursar a graduação de manhã e agora, na pós, que só tenho aulas à tarde, me matriculei num curso de língua russa optativo pela manhã. Se acordar cedo me é tão penoso, por que busquei essas aulas matinais? Juro que nunca tinha pensado a fundo sobre isso, caro leitor. Até que li essa matéria na Folha Online.

A Suécia começa neste mês uma nova revolução social, com a introdução da chamada "Sociedade B" -- uma sociedade que leva em conta os diferentes ritmos biológicos dos indivíduos para introduzir horários alternativos de funcionamento para escolas, locais de trabalho, universidades e organizações. (...) A Sociedade B se baseia em pesquisas científicas que indicam que cada indivíduo tem seu próprio ritmo biológico, uma espécie de "relógio interno" que é geneticamente determinado. (...) esses diferentes ritmos biológicos também são uma realidade nas escolas, onde um grande número de crianças e adolescentes tem dificuldades de concentração pela manhã. Ou seja, esses alunos não têm exatamente preguiça de levantar para ir à escola -- eles são apenas "pessoas B".

Dois conhecidos me enviaram a matéria dizendo: “Olha aí a solução dos seus problemas”. Eu li e minha reação instantânea foi pensar: “Esse mundo está cada dia mais louco!”

Acontece, leitor, que uma iniciativa como a tal Sociedade B tem sua origem nas mesmas ideologias e é suportada pelos mesmos grupos que defendem coisas como a extinção da diferenciação de gêneros nas escolas e a “liberdade” para interromper gravidezes psicologicamente estressantes, tudo em nome de uma dita “qualidade de vida” que é maior ou menor segundo confirmam “as pesquisas científicas”. Não quero dizer que rejeito a ideia da Sociedade B por causa das conexões ideológicas de seus defensores – às vezes ideias boas surgem de locais insuspeitados, sobretudo quando lidam com questões de ordem prática (nada impede um abortista de ser o inventor de um excelente descascador de bananas). O que quero dizer é que todas essas iniciativas – a liberdade para se viver de dia ou de noite, não ser chamado nem de menino nem de menina e se livrar do estresse de gerar um filho – têm a mesma raiz perniciosa, são afinal de contas a atualização de um mesmo princípio cultural.

Parece que a palavra de ordem da cultura contemporânea é não sentir dor, desviar de todos os obstáculos possíveis, principalmente daqueles que transformariam você em gente grande, não deixar que a ditadura da dificuldade oprima seus instintos mais viscerais, e nunca, jamais, em hipótese alguma, passar vontade. No reino do relativismo o barato é “ser o que se é”, e isto é nada menos do que se entregar ao acaso, abrir mão do próprio destino, ir sendo ao bel prazer dos acidentes que cruzarem o seu caminho. Pois é isso que acontece quando você se põe à disposição dos seus “instintos viscerais”. Há tanta contradição dentro de um ser humano, tantas pulsões conflitantes, que a cultura do “siga o seu coração, não oprima seus instintos” só poderia resultar nisso que estamos vendo cada vez mais: pessoas totalmente desnorteadas, incapazes de firmar compromissos, chafurdando até o último fio de cabelo no aqui-e-agora, pois já não são donas do próprio futuro. Isso se reflete de modo mais catastrófico (por atacar um âmbito tão básico da existência humana) nos relacionamentos amorosos feitos de algodão-doce: desfazem-se ao menor sopro. Eu estou com você hoje, mas amanhã posso sentir vontade de estar com outra pessoa, e eu sou livre demais para não seguir as borboletas no meu estômago, por isso chegarei aos trinta anos tomando ecstasy nas baladas.

Voltando ao ponto específico das “criaturas da noite”. Eu creio que em parte essa tendência notívaga (seja ela inata ou adquirida, não faz tanta diferença) deva ser explorada por seus portadores. Trabalhar à noite tem suas vantagens. Mas daí a institucionalizar a coisa, apagando o conflito noite-dia, já é demais. Para mim o ponto-chave é que esse é um conflito necessário: sair do conforto da noite para as obrigações ensolaradas, forçar-se a funcionar segundo a normalidade, eis algo de que as pessoas de hoje em dia necessitam. Eu, inclusive. Obrigo-me, duas vezes por semana, a acordar às seis da manhã e frequentar o mundo dos diurnos, senão por outro motivo, apenas por este não ser o meu mundo, e porque é difícil, porque exige disciplina, abnegação, resignação. As pessoas de hoje em dia precisamos demais de tudo isso. Nos demais dias da semana não acordo tão cedo, mas tento também não acordar muito tarde, com exceção de, talvez, dois dias, nos quais exerço plenamente minha potência noturna. Creio encontrar assim certo equilíbrio. Tornar a noite em regra apenas reforçará em todos esses molengas da Sociedade B sua imobilidade em relação a seus próprios acidentes.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

"Curaram meu câncer: a quem agradeço?"

"Esqueci qual delas era a aorta; então fiz uma oração só para ter certeza."
Salvo de um câncer, depois de uma longa e complicada cirurgia, o sujeito comenta no mural: "Graças a Deus!". Indignado, um amigo ateu dá uma estocada indireta, com um post em sua própria página: "É uma ofensa ao profissional da saúde quando agradecem a Deus ao invés dele. E todo seu estudo, e todo seu trabalho; não servem de nada? É Deus quem cura? Então da próxima vez que ficar doente, vá ao padre ou ao pastor!" Segue-se um debate não tão frutífero.

Acho que podemos, desde já, estabelecer uma solução inaceitável: agradecer somente a Deus, esquecendo-se do homem. Imagine um caso ainda mais gritante que o do médico: você está passeando com seu cachorrinho quando ele se solta da guia e corre em direção a uma avenida movimentada. Um homem que vê a cena corre até o cachorro e, com grande esforço e com algum risco para sua integridade física, salva-o e o traz de volta para você. Ao receber de volta o cachorro, você, sem se conter de gratidão, olha para o céu, estende as mãos e exclama: "Muito obrigado, Deus, por me devolver meu querido MJ!" e então segue em frente com o passeio, ignorando o homem ofegante ali na sua frente. A imagem no início do texto também pode, dependendo de como a interpretemos, ilustrar essa visão: "no fundo, é Jesus que está te operando; é ele quem guia a mão do médico."

O médico é responsável pelo salvamento? É. E Deus? Bem, Deus é o autor da realidade, inclusive desse salvador abnegado de cães; ou seja, é a causa primeira de tudo o que acontece. E portanto todas as coisas boas que ocorrem (assim como todas as más) são sim atribuíveis a Ele. Estamos aqui vivendo, gostamos muito de viver; tudo isso se deve, em última instância, exclusivamente à vontade de Deus.

Seria um erro, contudo, ver Deus e o homem "partilhando entre si" a responsabilidade do fato, como se atribuir mérito a um tirasse, nessa exata medida, o mérito do outro. "Um pouco de graças para você, e um pouco para Deus." Deus e o sujeito são integralmente responsáveis pelo salvamento de maneiras diferentes e não-excludentes. Deus, o mais óbvio, por ser a causa de tudo. Só que como Deus é a causa de tudo? Ele não pegou diretamente o cachorrinho e o colocou de volta em seu colo. Tudo o que Deus faz no universo Ele o faz por causas secundárias, isto é, pelo próprio processo da natureza. As coisas se comportam de acordo com suas naturezas, produzindo seus efeitos, e gerando novos seres e situações. É Deus que age por eles pois Ele as criou e, ademais, criou-os para especificamente este processo que de fato ocorre no mundo, até seus mínimos detalhes. Em casos mais raros, Deus age diretamente, sem causas intermediárias: chamamos a esses eventos de milagres (e deixo também um espaço aberto para o funcionamento da mente humana, que pode ser um âmbito no qual uma influência direta de Deus se dê ordinariamente; embora possa também não sê-lo).

O homem, agindo livremente como é de sua natureza, faz parte da criação divina. Ele é instrumento de Deus assim como todos os outros seres. Mas, diferentemente dos demais seres, ele age por decisão própria. Ou seja, sua participação na obra criadora de Deus não é apenas passiva, mas ativa, o que não muda o fato de que é Deus quem está por trás de tudo, mesmo da ação livre humana (o que me remete à superstição das pessoas que julgam que um evento aleatório - como um jogo de dados ou uma escolha "às cegas" de uma passagem bíblica - revele melhor a vontade de Deus do que a decisão consciente de um homem).

Assim, agradeça tanto a Deus quanto a seu médico (ou ao cara que salvar seu precioso cachorrinho): um não exclui, e nem se opõe de qualquer maneira, ao outro.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Pai de Saia - dilemas da paternidade



Uma notícia e uma foto verdadeiramente tocantes. Um pai, sabendo que seu filho estava sendo hostilizado pelos colegas e pela sociedade em geral por usar vestidos e saias, resolveu ele também vestir saias junto do garoto para dar-lhe apoio.

Acho que ninguém consegue ler isso e ver a foto sem se sentir comovido pelo ato de generosidade e amor do pai. Ele estava disposto a jogar pela janela sua própria imagem pública para que o filho pequeno, que ainda não entende direito por que tem sido hostilizado e é plenamente indefeso frente à agressão, sinta-se seguro e amado. Isso é profundamente admirável.

Devo admitir que minha admiração diminui um pouco quando leio o depoimento do pai: "Sim, eu sou um daqueles pais que tentam criar seus filhos de maneira igual. Eu não sou um daqueles pais acadêmicos que divagam sobre a igualdade de gênero durante os seus estudos e, depois, assim que a criança está em casa, se volta para o seu papel convencional: ele está se realizando na carreira profissional enquanto sua mulher cuida do resto." E ainda: "É absurdo esperar que uma criança de cinco anos consiga se defender sozinha, sem um modelo para guiá-la. Então eu decidi ser esse modelo". Na hora de falar sobre sua ação, de quem é que ele fala? De si mesmo e de como quer ser visto. O filho parece quase um acessório que ele, o pai, usa para brilhar. Bem sei que não dá para julga-lo por essas frases que chegaram a nós mediadas pela edição do jornalista, e no fundo tanto faz: muitas de nossas ações têm várias motivações simultâneas - algumas boas e algumas não tão boas.

Quero pensar na tensão que há entre a atitude do pai (considerada no que ela tem de admirável) e o caráter problemático daquilo que ele concretamente acaba incentivando no filho. Pois não é totalmente verdadeiro dizer que o menino apenas queria "usar saia", como se seu desejo fosse primariamente por uma opção de uma peça de vestuário entre outras que, para ele, ainda desconhecedor dos padrões sociais masculinos e femininos, eram equivalentes. A princípio, poderia ser isso; poderia ser apenas o desejo de usar um outro tipo de roupa sem nenhuma conotação de sexo ou gênero (por ela ser mais confortável, ou ele achar mais bonita). Mas um detalhe revela que não é só isso: ele também gosta de pintar as unhas. Então, não é que ele tem um desejo de "usar saia"; usar saia é um componente, um meio, um modo de concretizar um desejo de identidade mais profundo: ser mulher. (E tudo indica que é ser mulher adulta, e não menina, pois pintar unha não é coisa de menina).

Agora penso: se o meu filho, do sexo masculino, revelar desejos de ser e se comportar como uma mulher, acho que tomarei duas atitudes iniciais: 1) tentar entender o porquê disso, isto é, o que ele procura; 2) tentar levá-lo por um caminho pelo qual ele possa transcender, superar, esse desejo. Bem sei que há casos e casos, e em alguns deles a predisposição a querer ser do sexo oposto é tão forte que é invencível; não sei o que eu faria nesse caso, mas acho que acabaria aceitando a decisão, sem contanto incentivá-la ao longo de seu desenvolvimento. Mas até que isso fique claro, o papel do pai é ajudar o filho a se desenvolver, tornando-se plenamente aquilo que ele é. Depois do vestido, vieram as unhas pintadas; depois das unhas, o que virá? Maquiagem? Lingerie? Em que ponto seu desejo deixa de ser encarado como autoexpressão e passa a sinalizar desvio preocupante no desenvolvimento?

Como é que, afinal, um pai um dia "percebe" que seu filho de 5 anos gosta de usar vestidos? Não é como se um menino de 5 anos tivesse toda uma vida própria independente e desconhecida dos pais. Os pais no mínimo deixaram e provavelmente incentivaram o filho a usar vestido, prática que está longe de ser inédita na Europa. Baseados na ideia de que o gênero é uma construção social e histórica, pais procuram libertar os filhos de toda e qualquer imposição de caminhos prévios, para que cada um cresça e se desenvolva à sua maneira.

Entretanto, a relação entre sexo biológico e psicológico é forte. O que não quer dizer, obviamente, que as formas particulares em que cada cultura expressa os sexos não sejam criações históricas. É claro que são. Na Escócia medieval, homem usava o que nós chamaríamos de saia. Em países muçulmanos, ainda é comum o uso da túnica, que é similar a uma camisola. Mas essas variações todas, e a forma como elas se articulam e se integram na cultura e na autopercepção individual, variam; um escocês de saiote sente-se muito diferente, e significa algo muito diferente, de um brasileiro de saia. As variações culturais são radicadas em dados da biologia. A natureza biológica não tem, em si, valor normativo; mas o desvio dela não raro é sintoma de problemas que o próprio sujeito reconheceria como tais. Se um indivíduo se vê e se associa com o outro sexo, isso é sinal claro de que algo em seu desenvolvimento psicológico não seguiu o caminho normal, e é preciso descobrir o quê.

Dar ao filho opções iguais, tratá-lo como um sexo neutro, sendo que seu sexo biológico é um só, talvez só confunda a cabeça da criança. Longe de ajudá-la, os pais podem estar interferindo negativamente no desenvolvimento saudável de sua personalidade. Não que seja o fim do mundo, e que toda criança que passe por isso sairá traumatizada; digo apenas que talvez não faça bem. (Nesse sentido, também sou contra fazer um tempestade em copo d'água no caso do filho pequeno apresentar um comportamento desviante; talvez a própria tempestade feita pelos pais ajude a tornar importante algo que do ponto de vista da criança não era importante, mas só uma fase passageira).

E portanto chega-se a um impasse: o apoio que o pai dá ao filho, mesmo às custas de sua imagem, é louvável. No entanto, há situações em que a criança pode estar seguindo por um caminho errado, e nesse caso é preciso não só apoiar como redirecionar. Um pouco de proibição e de reprimenda (leves, é claro; o foco deve ser sempre no reforço positivo), embora não sejam tão admiráveis, podem ser as atitudes que, a longo prazo, mais contribuem para o bem do filho. E é isso que realmente importa.

Para quem realmente não consegue me acompanhar até aqui porque rejeita fortemente a ideia de que o gênero não seja pura construção cultural, pense em um exemplo análogo. Pense em uma criança pequena que se identificasse, sabe-se lá por quê, com indumentária e estética nazistas (algo que pode também ter um componente sexual latente?), ou com sangue, cadáveres e coisas extremamente mórbidas. Por um lado, seria bonito ver um pai apoiar o filho mesmo nesses casos; por outro, não é o tipo de coisa que devesse ser incentivada. Talvez um equilíbrio entre os dois, com apoio público (afinal, não é do dia para a noite que o menino mudaria) associado à tentativa privada de melhor direcionar os gostos e a identidade dele tentando também restringir suas escolhas? Dilemas da paternidade que não se resolvem facilmente...

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A Tolerância do "Cala a Boca!"

O colunista André Barcinski está indignado com a intolerância religiosa de nosso país. E qual o crime hediondo, qual a mostra de ódio religioso fanático, que despertou sua revolta? Pegue um copo d'água e tire as crianças da sala, porque é chocante: o time feminino de vôlei rezou um Pai Nosso.

Para Barcinski, um time rezar unido é uma forma de intolerância. Afinal,
"O que aconteceria se alguma jogadora da seleção de vôlei fosse budista? Ou mórmon? Ou umbandista? Ou agnóstica? Ou islâmica? Alguém perguntou a todas as atletas e aos membros da comissão técnica se gostariam de rezar o “Pai Nosso”?"
Em primeiro lugar, se alguma jogadora fosse mórmon ou umbandista, ela rezaria o Pai Nosso sem problemas, dado que a oração é usada nessas duas religiões (e talvez uma muçulmana aceitasse rezar também, dado que o islã tem uma oração muito similar).

Em segundo, quando se tem um grupo unido, é óbvio que qualquer um tem o direito de não participar de uma atividade do grupo, embora talvez prefira até integrar a oração para não colocar ruídos naquele momento de união. Se ninguém no time rezasse, é bem possível que uma jogadora religiosa resolvesse rezar sozinha, um pouco afastada das demais, para não quebrar, digamos, o momento de silêncio grupal. Ou se as jogadoras resolvessem cantar escravos de Jó depois do jogo, é bem capaz que alguma delas, que por si mesma não teria interesse em fazê-lo, entrasse na música só para não atrapalhar a brincadeira. O que não significa que ela não teria pleno direito de não participar, se assim o quisesse. Não se feriu o direito de ninguém. Grupos se organizam assim, naturalmente; não é preciso assinar contrato antes de cada atividade  para garantir que todos estejam de acordo.

Se - e não há evidência nenhuma de que isso tenha ocorrido - ao recusar participar da oração, alguém fosse hostilizado e mal tratado pelos demais membros do grupo, daí sim haveria uma questão a se melhorar. Mesmo nesse caso, contudo, o problema não estaria na oração, que não causa dano algum, mas apenas na reação dos que rezam ao membro que não reza. Eles não precisariam, e nem deveriam, deixar de rezar; deveriam, isso sim, aprender a ser mais tolerantes e compreensivos.

Na concepção de Estado laico de Barcinski (que não é só dele, e por isso escrevo este texto), liberdade religiosa não é cada um poder seguir e manifestar qualquer religião. Liberdade religiosa, em sua visão, é cada um manter sua religião escondida para evitar ofender algum agnóstico hipersensível hipotético. Há pessoas, e o próprio Barcinski parece ser uma delas, que se ofendem profundamente quando são lembradas da existência de crenças diferentes da sua. O mundo deveria ser organizado de forma a que nada - nem mesmo as ações alheias - destoasse de sua própria visão de mundo. Quer rezar? Vá lá, vou permitir; mas apenas dentro do banheiro da sua casa, bem baixinho, para que eu nem suspeite que sua crença existe. Na esfera pública, só vale manifestar o meu agnosticismo, e não a sua crença.

Isso explica a frase de maior efeito no artigo, que já está sendo replicada nos cantos menos recomendáveis das redes sociais: "Liberdade religiosa só existe quando não se mistura religião a nada. Nem à política, nem à educação, nem à ciência e nem ao esporte." Em outras palavras: a religião deve se manter dentro de sua esfera particular, isto é, a casa e o templo. Se o fiel permitir que sua crença inspire e molde suas atitudes em outras áreas de sua vida, e ainda mais se manisfestar essa crença fora do contexto estritamente religioso, estará violando a liberdade religiosa alheia. Ora, toda religião se coloca como uma das principais, se não a principal, formadora e guia da vida do fiel em todos os âmbitos. Portanto, para que a religião se adeque ao ideal de "liberdade" defendido por Barcinski, ela não pode ser levada a sério; sua principal função tem que ser ignorada. O que equivale a dizer dizer que ela não deve existir.

No mundo real, em que nem todo mundo está disposto a abrir mão de suas convicções para não ferir a sensibilidade de algum neurótico, liberdade religiosa é simplesmente poder acreditar e manifestar qualquer religião (ou nenhuma religião). Atletas com fé têm que ter completa liberdade de rezar nos jogos. Se alguém se ofende com isso, sinto muito, mas o preço da liberdade é saber conviver com o diferente. Se você não consegue olhar uma pessoa rezando ou manifestando suas crenças sem sair abalado ou com raiva, então você, mais do que todos, precisa de umas lições de liberdade. Viver num país livre não é viver num país que coíbe a expressão da crença alheia para que sua mente fique em paz. Os preconceitos, ódios e sensibilidades de um grupo não podem ditar o que vale e o que não vale ser expresso na esfera pública.

O Estado brasileiro é laico, secular; isto é, nossas leis e instituições públicas não se pautam por nenhuma confissão religiosa. Mas essa regra não se estende aos indivíduos, que são e têm que ser livres para, tanto na vida privada quanto na pública, acreditar, praticar e manifestar a crença que lhes pareça verdadeira. O limite desse direito são os direitos individuais inalienáveis dos outros. Se sua religião prega o sacrifício humano, bem, infelizmente você não terá o direito de colocá-la em prática nesse quesito. No mais, vale tudo, e os indivíduos é que, convivendo e dialogando, aprendem a não ter chiliques e nem sentir ódio da crença e devoção alheia.

O mais irônico da história toda é que, além da reza totalmente livre e voluntária do time brasileiro, tivemos uma outra manifestação religiosa ligada ao Brasil, muito mais pública e oficial. No show de encerramento, Marisa Monte foi fantasiada de Iemanjá, divindade do candomblé, que é em parte encarada como puro folclore mas é também cultuada a sério por muita gente. Nisso Barcinski não viu problema nenhum. Se tivéssemos alguém fantasiado de Jesus Cristo ou de Virgem Maria, por outro lado...

Coisas muito intolerantes se escondem sob o nome de "liberdade".

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Glossário da Liberdade

Não tenho poder sobre como as pessoas falam. Mas, quando o tema é liberdade econômica, noto uma grande confusão no uso dos termos, muitos dos quais perdem seu significado próprio e viram mais ou menos sinônimos, quando não deveriam sê-lo. E se tudo vira sinônimo, perdemos a capacidade de nos referir às diferenças que os termos outrora denotavam.

Assim, elaborei este curto glossário de termos ligados à liberdade política e econômica, que faz algumas distinções importantes. Meu critério não é lá muito científico, mas procurei conciliar duas coisas: 1) preservar o significado que os termos têm ao menos em parte de seu uso comum - isto é, nada do que vai abaixo é uma invenção minha. 2) dar a cada termo um sentido específico que o diferencie dos demais.

Minha preocupação é, também, diferenciar posições políticas de linhas argumentativas. Duas pessoas podem ter a mesma posição política (que é, digamos, uma conclusão baseada em algum tipo de argumentação) e sustentá-la por motivos completamente diferentes.

Espero que seja útil a pessoas que começam a navegar por esses temas!

Termos que nomeiam posições políticas:

Liberalismo - a defesa da liberdade individual; e, portanto, de um Estado pequeno ou, no limite, inexistente. Em português, o termo é usado no dito "sentido europeu", que é esse, e não no "sentido americano", que é a defesa das causas da esquerda moderada americana (que inclui altos impostos e uma grande rede assistencialista; ou seja, que defende um Estado grande). É um termo genérico; duas pessoas podem se considerar liberais, usando o termo neste mesmo sentido, e mesmo assim defender papéis muito diferentes para o Estado. Quando alguém é chamado de "neo-liberal", isso em geral significa que a pessoa é um liberal que, embora defenda que o Estado seja um pouco menor do que ele é hoje em dia, ainda assim defende um Estado bastante intervencionista (por exemplo, que controle a moeda - ainda que por meio de um Banco Central independente -, que forneça educação básica, saúde para quem não possa pagar, etc.).

Minarquismo - A defesa do Estado mínimo, o que quase sempre significa um Estado que se limite a impor as leis que garantem a proteção dos direitos individuais dos cidadãos. Isso inclui, no mínimo, autoridade sobre o código de leis, tribunais e polícia. Ainda que esses serviços possam ser terceirizados ou que se dê liberdade a diferentes provedores, o Estado tem que manter algum tipo de supervisão, e ser capaz de impor suas leis; precisa, portanto, controlar algum aparato de coerção. O minarquismo exclui, de um lado, versões mais estatizantes de liberalismo, e, de outro, o anarco-capitalismo.

Anarcocapitalismo - A defesa de uma ordem social baseada na propriedade privada e em que o Estado não exista; tudo se resolve na base de contratos voluntários. Ninguém tem o direito de iniciar agressão contra ninguém. Simples assim.

***

A seção acima se refere a, digamos, conclusões políticas. Ela não diz nada, contudo, sobre as argumentações, isto é, sobre o caminho pelo qual se chega a essas conclusões. Muitas vezes as duas coisas são confundidas.

Libertarianismo / libertarismo / libertário - Esse termo é o que tem sido usado com menos precisão hoje em dia. Muitas vezes ele é usado como sinônimo de liberalismo ou de anarco-capitalismo. Proponho, contudo, que seu uso seja restrito a uma certa filosofia política (ou antipolítica): aquela que se baseia na aplicação irrestrita do princípio da não-iniciação de agressão. Todo argumento que se contrapõe a uma medida estatal porque ela envolve uso da violência, e o uso da violência contra inocentes é ilegítimo, é um argumento libertário. É uma consequência lógica do pensamento libertário que todo Estado é moralmente ilegítimo, pois  o Estado depende do uso da coerção para existir (por exemplo, ao cobrar impostos ou ao proibir outros Estados em seu território); e se não usasse coerção, não seria Estado, mas apenas uma instituição que presta um serviço sem obrigar ninguém.

Utilitarismo - A ética que propõe como critério do bem a promoção da maior felicidade para o maior número de pessoas. Ela não descreve o que é a felicidade para o homem; deixa a cargo de cada um dizer o que é bom ou mal para si. Sua afirmação é simples: seja o que for que deixe as pessoas felizes, é bom que elas o alcancem. Todo homem busca o prazer (ou seja, aquilo que ele considera bom, e que pode até não incluir o prazer físico - como no caso de um faquir hindu) e foge da dor; ajudemo-los nisso. No início de sua história (séculos XVIII e XIX), o utilitarismo costumava estar ligado à defesa de maior liberdade econômica e política.

Objetivismo - Nome do pensamento originado pela Ayn Rand e que, no que diz respeito à ética, efetua uma atualização do pensamento aristotélico. Em linhas gerais: o homem procura a felicidade, aquilo que realmente o realiza; sua ferramenta nessa busca é a razão, que descobre os valores objetivos (porque determinados pela natureza humana, e não pelo capricho individual) que são dignos de serem buscados. A consequência política do objetivismo (que não é, segundo Ayn Rand, seu aspecto mais importante) é um Estado mínimo, quase inexistente; ou seja, o minarquismo.

Escola Austríaca - nome dado a certa corrente de pensamento econômico que busca entender o funcionamento causal do mercado por meio da dedução lógica a partir de certas verdades a priori impossíveis de serem negadas (por exemplo: o homem age, ou seja, usa meios para alcançar fins que ele valoriza; ao fazê-lo, revela uma ordem de preferência entre seus fins: se eu podia fazer tanto A quanto B, e fiz A, é porque, naquelas condições, A pareceu-me preferível a B). Todos os economistas mais célebres ligados à Escola Austríaca foram ou são liberais.

Escola de Chicago (ou economia ortodoxa, mainstream) - outra maneira de estudar o funcionamento do mercado: por meio de modelos matemáticos formalizados que representam situações de mercado. Embora abra mão de explicar a causalidade envolvida nos fenômenos, busca representar fielmente a relação entre as variáveis e chegar a resultados que, se essas variáveis vierem da realidade, se aproximem dos valores reais. Os economistas mais célebres dessa linha de estudo, hoje dominante na academia, também são ou foram liberais.

***

São poucos termos, mas creio que se usados com um pouco mais cuidado nos textos e conversas liberais, ajudariam a limpar bastante o ar intelectual. Vejam só: Mises, por exemplo, é economista austríaco, utilitarista e minarquista. Já Rothbard, embora também economista austríaco, é libertário e anarcocapitalista.

Muitas vezes termos como "libertarianismo" e "escola austríaca" são tratados como se fossem equivalentes ou sempre ligados. Mas o primeiro é uma posição filosófica com implicações políticas, e o segundo é uma maneira, uma metodologia, de se estudar o funcionamento do mercado, e que não faz juízos de valor. Ambos podem existir (e já existiram) perfeitamente bem sem o outro. Quem inaugurou a união das duas coisas foi Murray Rothbard, que integrou sua análise austríaca do mercado a uma estrutura libertária de direitos naturais.

É possível haver profundos conflitos entre partidários de diferentes dessas linhas de pensamento. Uma figura importante no mundo liberal, Ayn Rand, rejeitava o libertarianismo, que segundo ela era uma negação da ética, pois que partia de um axioma arbitrário (o princípio da não-iniciação de agressão), e abria mão de qualquer embasamento racional, aceitando como legítimos libertários pessoas com os valores mais discrepantes (e até conflitantes) e sem nenhuma unidade de fundo, apenas porque estavam todos de acordo em que não se deve iniciar a agressão contra ninguém. Ela também não via com bons olhos o utilitarismo e subjetivismo ético de um Mises, embora o considerasse um grande economista.

Para um libertário, as posições de Mises e Ayn Rand, que defendem em alguma medida um Estado monopolista em seu território, envolvem atos imorais e são, portanto, inaceitáveis, ainda que menos piores do que o estado atual da política.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O que Querem as Mulheres?

Minha geração tomou contato com as redes sociais justamente na passagem da adolescência para a vida mais ou menos adulta: entre o fim do colegial e meados da faculdade, época em que se vai aos poucos descobrindo como agir e se colocar no mundo por conta própria, sem nenhuma máscara ou demanda institucional ou familiar. Talvez a isso se deva o fenômeno paradoxal de exibicionismo e paranoia da era dourada do Orkut.

Inicialmente, todo o conteúdo do Orkut era livremente acessível a todos. Amigos ou desconhecidos xeretando seu perfil podiam ver todas os seus scraps, fotos e vídeos. Todo mundo sabia disso. Uma menina que colocava fotos no Orkut (às vezes fotos de decote, biquini etc.) sabia perfeitamente que qualquer um poderia vê-la; e dado o alto grau de promiscuidade online e fascínio com a rede social, ela sabia perfeitamente bem que havia muita gente (provavelmente ela também) navegando pelos perfis de conhecidos, semi-conhecidos e desconhecidos, no mais das vezes por pura curiosidade ociosa. Premissa implícita: ela não se importava em - ou queria ativamente - ser observada.

Vejam, contudo, que curioso: um belo dia (em 2006, se não me engano), o Orkut implementou uma nova função que permitia ao usuário saber as últimas pessoas que acessaram seu perfil. O rebuliço foi geral. As mesmas pessoas que sabiam que seus perfis eram públicos agora ficavam assustadas ao saber que, bem, o público os tinha frequentado. Lembro de uma amiga comentando sobre o "medo" ao constatar que um sujeito de outra classe que nem a cumprimentava no corredor tinha recentemente visitado seu perfil. Não tardou para que o Orkut permitisse restringir o acesso dos perfis apenas a amigos (opção implementada especialmente pelas mulheres, que têm bons motivos para se preservar mais do olhar de estranhos); e o que antes era campo livre para a investigação dos curiosos virou área restrita. Assim acabou a onda inicial da promiscuidade informativa das redes sociais, e o Orkut perdeu a graça.

Escolhi esse fenômeno da nossa história virtual para falar de algo que me parece ser recorrente no mundo real: uma contradição interna de muitas mulheres na relação que elas estabelecem entre seu corpo e sua relação com as demais pessoas. A mulher usa minissaia e decote; mas no momento que alguém faz um comentário, ou repara ostensivamente no corpo dela, sente-se invadida e amedrontada.

Nossa aparência é o que aparece para outras pessoas. A decisão de como se vestir e como agir em público   sempre passa pela reação que o público terá. Muitas vezes, a roupa é escolhida justamente para gerar um certo tipo de reação. Exemplos óbvios: camisetas com logo de banda ou com mensagens. Nesse caso, a intenção é comunicar algo de que o usuário gosta, e dessa forma mostrar também que tipo de pessoa ele é; gerar uma identificação (ou às vezes repulsa, dependendo do meio em que ele está) em quem o olha. Outro exemplo: roupas sexualmente provocantes. Elas visam a despertar o interesse sexual em quem olha a pessoa (por uma série de motivos, talvez biológicos, talvez culturais, em geral essa pessoa é mulher). Querer se fazer bonito é querer se fazer bonito para outros (mesmo quando queremos estar bonitos para nós mesmos, estamos nos olhando no espelho, projetando e pensando o que um outro ideal pensaria de nós). E no caso das mulheres, beleza não significa apenas ter a beleza angelical do rosto, mas ser gostosa. Não nos enganemos quanto a este fato.

Deixemos em aberto, isso sim, se há algo de moralmente condenável em querer ser gostosa (e, da parte do homem, em desejar o corpo feminino). Noto apenas alguns limites que me parecem inescapáveis: condenar essa forma de lidar com o corpo alheio como intrínseca e gravemente imoral implica a burqa e o confinamento feminino, que são as medidas que minimizam os riscos de se olhar e desejar o corpo da mulher. Por outro lado, não ver nada de errado em qualquer nível de apelo sexual nas relações humanas dá vazão desenfreada para instintos nossos que com muita facilidade tomam conta da pessoa, e que inviabilizam toda uma série de compromissos e ideais caros à vida humana, sem falar que aumentam muito a propensão a realmente usar e abusar do outro como instrumento de prazer carnal. Dada a força do prazer sexual, não é nada difícil que ele domine totalmente os horizontes do indivíduo.

Enfim, deixemos o juízo moral de lado. O fato é que há muitos tipos de roupa feminina cujo objetivo é provocar o desejo sexual masculino. Elas são produzidas e vendidas com essa finalidade, muitas delas constituindo até mesmo o traje profissional de prostitutas, já que cumprem bem a função de vender o corpo da usuária (isto não é para insinuar que haja equivalência entre uma mulher que se vista de uma maneira e uma prostituta; aliás, rejeito categoricamente essa equiparação). Uma criança pode usar essas roupas sem a menor ideia do que elas significam; mas uma mulher já em idade sexual não tem nem um segundo de dúvida. Nossas roupas transmitem mensagens aos outros; mensagens que queremos transmitir (ou então usaríamos outra roupa). Se você vivesse totalmente isolado/a do mundo, vestir-se-ia com cuidado, usaria maquiagem, ficaria asseado/a? Você por acaso já passou um fim-de-semana sozinho/a sem sair de casa? Então você sabe a resposta.

Claro, assim como seu cartaz...
Não duvido que a mulher da foto acredite ser sincera. Isto é, não acho que ela esteja mentindo, ao menos não no nível do discurso verbal. Ela só não fez questão de investigar muito a fundo os motivos de suas próprias ações. A ingenuidade do feminismo da Marcha das Vadias está em achar, ou fingir, que esse nível verbal da consciência e dos desejos é tudo o que deveria existir nas relações humanas, numa espécie de separação radical entre alma e corpo: como eu me visto e ajo não tem nada a ver com o que desejo e com a reação que os outros deveriam ter a mim. O mundo não é tão simples.

Vivemos num estranho pacto social: é perfeitamente aceitável que uma mulher se vista de forma a provocar o interesse masculino, e ninguém vê nada de errado nisso, contanto que nenhum homem demonstre interesse. Se alguém fizer algum comentário, ou olhar descaradamente, a mesma mulher que se vestiu para ficar gostosa sentirá medo. Foto do decote na capa do perfil não tem problema nenhum, desde que todo mundo finja não reparar. E não é sem razão: o homem, ao dar alguma vazão (limitada: estamos falando de olhares e comentários) a seu desejo, já age de forma agressiva. A relação romântica e o sexo heterossexual, afinal, têm uma relação de dominação: ativo e passiva, dominador e dominada; invasor e invadida; a própria mecânica dos órgãos é essa. E, acredito, ela é espelhada pela dinâmica do relacionamento romântico entre homem e mulher.

Como eu disse, a mulher não está mentindo; ela não está sendo hipócrita. Há uma real inconsistência, ou ambiguidade, em suas intenções. Por um lado, em algum nível meio fantasioso, ela quer provocar o desejo, quer provocar o instinto dominador de algum homem abstrato; por outro, ela morre de medo de provocar esse instinto em um certo homem concreto pelo qual ela não tem interesse nenhum. Mas nossa aparência não é seletiva; não posso me vestir para provocar um efeito apenas em uma pessoa, apenas em algum príncipe encantado. Essa pode ser minha intenção ingênua, mas o fato é que provocarei reações em todas as pessoas que me virem, e não tem como eu não saber disso. Para piorar as coisas, justamente as pessoas que menos pudores têm de demonstrar seus desejos animais não costumam ser príncipes encantados.

É verdade também que há mulheres gostam de receber a atenção masculina; gostam dos homens que têm coragem de violar algumas fronteiras (não todas, claro, a não ser que consideremos casos patológicos como o de uma mulher que gostasse de ser estuprada) para demonstrar interesse claramente sexual. Mas o mais normal, pelo menos até onde eu vejo, é o contrário: receber esse tipo de avanço sexual (um olhar aberto, ostensivo, ou um comentário lascivo), na imensa maioria dos casos, seria muito desagradável.

Aqui a diferença com os homens é enorme: pois eu, se algum dia alguma mulher do nada demonstrasse ostensivamente algum interesse sexual em mim (filosoficamente, é permitido considerar cenários impossíveis para testar suas implicações), embora eu repudiasse o avanço, não posso dizer que me sentiria invadido ou tivesse algum medo; pelo contrário, sentir-me-ia lisonjeado. A diferença, creio, está em que o avanço sexual do homem é uma invasão; e o da mulher é um convite. E o mesmo convite pode ser feito de forma passiva, pelas roupas e jeito de ser, mesmo sem intenção (tanto é que algumas mulheres, cientes de seu poder de atração, usam e abusam de trejeitos e flertes para manipular os homens, sem qualquer interesse em realmente ter relação sexual com eles), ou de forma ativa - comentários, cantadas - sem deixar de ser um convite. No final das contas, fico com o paradoxo de que a mulher quer ser conquistada, mas não por qualquer um, e não contra sua vontade. Mas se é conquista, não tem que necessariamente haver algum elemento de oposição da vontade envolvido?

Em suma, os atos parecem dizer uma coisa, mas quando a mensagem recebe sua reposta natural, o desejo se inverte. Mulheres que lêem esse blog, talvez vocês possam me ajudar a entender se isso tudo faz sentido de sua perspectiva. Posso estar completamente equivocado, e os pensamentos acima talvez reproduzam apenas uma visão construída para os homens. Ao mesmo tempo, não posso negar o que minha percepção das coisas me mostra sem ter bons motivos para tanto.

domingo, 5 de agosto de 2012

Por que não existe um partido de “direita” no Brasil?

Volta e meia aparece alguma matéria ou texto na imprensa de alguém perguntando e tentando explicar a ausência de partidos de direita no Brasil. Eles acabam usando a direita para englobar conservadores, neoconservadores, libertários e esse povo xenófobo como os integralistas e autoritários de outras estirpes. Não concordo com essa classificação (prefiro me classificar como Libertário), mas o fato é que essas correntes ideológicas não têm representação política no atual cenário partidário brasileiro. 

E entendendo isso, acredito que a resposta para a pergunta seja muito mais simples do que acabam apontando. A inexistência desses partidos mais fortes ideologicamente (os de esquerda também estão cada dia mais sem ideologia) é uma consequência direta da existência e dependência dos partidos ao fundo partidário. 

Sim, esse é o principal motivo. A existência da ditadura também é um fator para atrapalhar a vida dos conservadores, assim como questões culturais, mas acredito que os recursos estatais sejam de longe o maior impedimento. 

Para servir de comparação, vejam o caso americano. Apesar de lá também existirem alguns fundos estatais para os partidos, eles dependem muito mais de doações privadas para ganhar eleições e se manter do que no Brasil. E o resultado disso é que eles têm que se fortalecer ideologicamente para atrair esses doadores. Defender qualquer coisa não fará as pessoas doarem para uma campanha. 

Aqui no Brasil já ocorre o contrário, e com a independência que os partidos políticos brasileiros têm da ideologia dos grupos que compõem a população, vemos partidos como o PMDB que tem mais de 1 milhão de filiados. Se esses filiados tivessem que pagar anuidades, arrisco dizer que não existia 1% dos atuais, a não ser que o partido incorporasse alguma ideologia específica. 

Um dos resultados diretos de fazer isso seria a existência do partido “Democratas” realmente conservador (não que isso seja bom) e alguns outros partidos que seriam chamados de “direita” provavelmente iriam surgir. Os partidos de esquerda iriam acabar se aglomerando em alguns poucos, mas não veríamos uma desideologização da esquerda, mas também um fortalecimento do discurso deles com as bases; que é o contrário do que vem acontecendo com o partido democrata nos EUA, que cada dia mais depende de recursos do estado e vê a sua base e ideologia se enfraquecerem em consequência. 

Então se você quer um partido de “direita” no Brasil, a única panaceia disponível é aumentar o peso que as pequenas doações têm no financiamento dos partidos; até mesmo colocando 100% de desconto no imposto de renda para essas doações com um teto absoluto.
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