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sexta-feira, 13 de junho de 2014

A Formação de Santo Antônio

Estive recentemente em Porto Alegre, de onde trouxe muitas experiências boas, e um tesouro em especial: minha primeira relíquia de santo, presente de alguém que não suportava passar um só dia sem me prestar algum serviço valioso. Quando recebe um dom desses, um católico decente não tem o direito de considerá-lo mera coincidência: tem de procurar o motivo de ter recebido a graça em questão. E esse motivo, no meu caso, ficou muito claro quando li sobre a vida do santo cuja relíquia eu recebera. Estou seguro de que a generosidade portoalegrense foi apenas o canal usado por Santo Antônio para chegar até mim; um canal, ademais, muito coerente com o proceder daquele homem que, embora famoso pelo discurso, verdadeiramente incendiou a Europa com a espada da bravura e o escudo da humildade. Minha intenção é, portanto, dividir com alguns companheiros de viagem uns poucos pensamentos e sentimentos dentre os que me foram suscitados pela vida do santo.

A 15 de agosto de 1.195, no período de maior esplendor da Idade Média, nascia o nobre Fernando Martins de Bulhões, futuro Santo Antônio de Pádua. Do meu ponto de vista -- é o único que tenho, e é a partir dele que costumo falar -- não foi o acaso que fez de Fernando o descendente de uma antiga dinastia de cavaleiros, remetendo, pelo pai, ao comandante da primeira Cruzada, Godfrey de Bouillon, e pela mãe, ao Rei das Astúrias. Sua linhagem pura sugeria um grande cavaleiro cristão, um Cruzado, um príncipe. A de S. Francisco de Assis, por outro lado, pedia em primeiro lugar um rico comerciante. Deste, a Providência fez um mendigo sem nada de seu, a encarnação mesma da virtude da pobreza; daquele... veremos.

Fernando de Bulhões era um jovem inteligente, artificioso, vislumbrador de segredos e coisas ocultas. O chamado divino à entrega total poderia tê-lo conduzido à Ordem Dominicana -- chamada por antonomásia "Ordem dos Pregadores" -- que teria atendido aos anseios do cavaleiro dentro de si; os dominicanos, afinal, eram os mais "militantes" dos frades, os que mais apareciam, moviam, comandavam. Suponho, porém, que Fernando não quisesse converter seus impulsos naturais em serviço divino, isto é, que não desejasse tornar-se um "soldado do Senhor", por receio de que o santo nome de Deus acabasse por tornar-se uma mera desculpa para satisfazer suas aspirações humanas.

Seu primeiro impulso foi, portanto, esconder-se; lutar contra a ambição de seus ancestrais, contra a glória, contra o desejo de estar à frente. Tendo passado, na infância, por uma escola de catedral (onde recebera a educação de elite da época, isto é, a instrução nas chamadas artes liberais), a vida de isolamento talvez lhe parecesse envolver, por sua própria natureza, o estudo e a meditação. Um mosteiro agostiniano, então, deve ter parecido ideal para contrariar os desejos mundanos de Fernando -- pois (talvez pensasse em seu íntimo) quem quiser seguir a Cristo, negue a si mesmo, tome sua cruz e vá atrás d'Ele.

Aos quinze anos de idade, pois, aquele jovem nobre toma o hábito de Santo Agostinho e adentra uma vida de profundos estudos bíblicos e de oração contemplativa que duraria oito anos. No fim do segundo ano, diz o biógrafo mais antigo, o santo pediu transferência para o Convento de Santa Cruz, em Coimbra, de modo a livrar-se das visitas de parentes e amigos.

Este dado biográfico pode parecer pouco importante ou até antipático; a mim, soa iluminador. Fernando fugia do mundo. Por quê? Para um rapaz de alma tão santa, como hoje sabemos que ele era, não pode ser porque só pensasse em si mesmo, detestando saber das preocupações alheias. Podemos imaginar que fosse bem o oposto: sentia dentro de si a inclinação pelos problemas do povo, pela liderança política, pelo combate em defesa da família e da pátria. O mundo, no sentido mais elevado, o seduzia, e por isso ele o abominava: porque via nisto a ação do demônio, que desejava usar da nobreza dos bens humanos para impedi-lo de entregar-se aos superiores bens divinos. Desde muito cedo, dizia o mesmo biógrafo, Fernando descobrira o tédio das coisas do mundo. As risadas dos amigos desaparecem nos túneis do passado; os beijos e juras da mulher amada não possuem o mesmo efeito na pele ressequida e no coração endurecido de um homem maduro; as vitórias na guerra, por muitas que sejam, não garantem a paz. No fundo, nenhuma das preocupações humanas vale realmente a pena, e ele o percebia.

Contudo, mesmo longe do mundo e das suas ilusões, Fernando não encontrara o caminho para a perfeição que desejava. Um dia, vendo passar os corpos de cinco mártires franciscanos -- condenados por pregar o cristianismo no Marrocos -- sentiu arder o peito. Talvez o que tenha ficado claro para si é que restava uma imperfeição a pesar-lhe as costas: mesmo sem o peso da glória mundana, restava a vanglória acadêmica. Fernando era o orgulho dos professores e colegas, um jovem brilhante e estudioso que dava a todos esperanças de tornar-se um grande doutor agostiniano. Um tal encontro com o lumezinho humilde de S. Francisco foi sentido por ele, com razão, como forte sinal da Providência. Aqueles oito anos o haviam preparado para reconhecer que mesmo os estudos eram um obstáculo à sua aproximação com Deus. Abandonou-os incontinenti. Pediu aos irmãozinhos franciscanos que o aceitassem em sua Ordem, e o enviassem também ao Marrocos para morrer por Cristo. O desejo do martírio o incendiava. Esperava, talvez, pagar logo por todos os seus pecados e fugir deste mundo que o constrangia, que não fazia sentido algum para ele.

Ou porventura havia ali algo de um nobre príncipe, descendente de reis e Cruzados, desejando glorificar, numa morte honrosa, seu nome e o do seu Senhor. Seja como for, Fernando, tendo recebido o hábito de Francisco e o nome de Antônio, não alcançou porém o seu intento. Caiu doente no meio do caminho e, sendo impossível para um doente pregar tanto no Marrocos como em qualquer outra parte, mandaram-no de volta para que se curasse.

Foi só então, sob o nome de Antônio e a aparência de um frade mendicante, que se operou o que poderíamos chamar de vocação definitiva do nosso Fernando. Estando a acompanhar o Provincial de Coimbra na cidade de Forli, ocorreu que alguns franciscanos e dominicanos fossem ali recebidos para serem ordenados sacerdotes. Quando o superior pediu que alguém pregasse o sermão, todos os sacerdotes se recusaram, porque uns haviam pensado que os outros estariam preparados, e vice-versa; de modo que ninguém preparara coisa alguma para falar. Como a necessidade o pedia, o superior escolheu um frade franciscano ao acaso e, tendo em vista sua aparência humilde e sua atitude silenciosa, ordenou-lhe falar o que quer que lhe sugerisse o Espírito Santo. Esse frade era Santo Antônio de Pádua, e logo se viu que seu silêncio não era uma ausência como a da secura do deserto, mas a contenção rigorosa de uma enorme represa.

Naquele momento começava a carreira de orador de Santo Antônio, que lhe renderia, pela profundidade da compreensão, o epíteto de "Arca do Testamento"; pela precisão dos golpes e pelo ardor guerreiro, o de "Martelo dos Hereges". Pregou por toda parte, convertendo leigos e heresiarcas; como um mutirão vivo, por onde passava ia confessando pecadores e sacramentando uniões extra-eclesiais (pelo que se tornou o santo casamenteiro), deixando um rastro de salvação e bênçãos. Quando abria os lábios, tudo o que falava vinha acompanhado de milagres. Ficou famoso o caso em que, pregando próximo ao mar, como o povo zombasse dele e não quisesse ouvi-lo, voltou-se aos peixes; principiou a elogiar as virtudes desses bichos, e como contrastavam com a ignorância e insensibilidade dos homens; e para provar que não falava com sua própria autoridade, mas com a do Pai, eis que um enorme cardume levanta suas cabeças do oceano, à frente de Antônio, para ouvir sua santa voz. E o humilde franciscano, depois de uma vida fugindo da publicidade e da glória à qual o dirigiam o nascimento e a educação, encontra seu propósito em ser exatamente quem era: um cavaleiro, um Cruzado, um representante glorioso do Senhor dos Senhores.

Haveria muitos casos semelhantes, e muitas venturas para contar a seu respeito, em vida como em morte, cheias de sentido espiritual, propósito e valor pedagógico; mas este texto vai ficando longo. Se ele e seu Senhor me derem forças, no próximo treze de junho eu me proponho dar continuidade a este esforço, tosco mas sincero, de retribuir-lhe humildemente qualquer coisa que me seja possível por sua preciosa intercessão e pela inestimável vida que nos deixou, com o fim de a imitarmos, o que desejo que façamos agora e sempre. Santo Antônio de Pádua, rogai por nós.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Poesia e Alfabetização

Para alfabetizar uma criança, é preciso ter uma visão clara do que é o alfabeto. Alguns métodos recentes propõem alfabetizar por associação direta de palavras e coisas, sem passagem pelas letras e sílabas. Desses, o mais conhecido é o construtivista, que tem sido acusado de deixar o Brasil nos últimos lugares em todos os exames internacionais - o construtivismo é a linha adotada nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Uma variação mais moderna, de tom behaviorista, é o método Glenn Doman.
 
Convém notar que esses métodos são recentes demais, e nenhum deles apresenta provas de que funciona melhor que os anteriores. Ora, está fora de dúvida que lhes cabe o ônus da prova, pois propõem uma inversão completa da alfabetização tradicional e até do bom-senso.
 
Sem entrar em discussões teóricas muito específicas, pode-se dizer que a língua escrita foi concebida como uma codificação da falada. Essa dependência epistemológica se manifesta nas regras de ortografia (por exemplo, a transformação da nasal n na bilabial m antes de consoantes bilabiais como b). Aliás, para compreender um texto temos de ser capazes de sentir seu tom, ou seja, fazemos imaginativamente uma reconstrução sonora da frase escrita. Verba volant, scripta manent; o natural é sentirmos a língua falada como mais viva, mais compreensível, e portanto como uma base mais confiável para a comunicação.
 
Ora, se vamos admitir que a poesia tenha alguma utilidade na alfabetização, temos que dispensar imediatamente os métodos "intuitivos" ou "visuais" de leitura. Pois a poesia é um gênero de base oral, inequivocamente. É definida por pausas (no fim dos versos ou estrofes), por rimas, por aliterações. A própria palavra verso vem do latim vertere (dar uma volta), da qual derivam palavras como revertervórtice, indicando a necessidade de pausar a leitura periodicamente.
 
Uma característica fundamental do discurso poético é produzir musicalidade dentro das limitações do idioma. Isto é, não existe plena liberdade para o ritmo da poesia. Não é válido alterar as sílabas tônicas de uma palavra, e não existe partitura para instruir o leitor sobre o tom que deve reger cada verso. O poeta precisa contar com o arcabouço linguístico natural. Os efeitos que um grande poeta consegue extrair da sonoridade banal de uma língua têm, portanto, um resultado muito positivo na educação linguística da criança. Ela pode usar os versos como um espelho (speculum) para perceber mais facilmente as regras internas da entonação e da pronúncia. Basta pensar nos benefícios fonéticos de recitar "Vou levando a Ventura e a Desgraça,/Vou levando as vaidades da Vida!" (Olavo Bilac). Bem melhor que "vovô viu a uva".
 
A poesia também é notável por produzir um efeito encantatório, fruto da harmonia entre imagens, sonoridade e semântica. Nos versos acima, a aliteração de vv e dd imita o som de uma ventania, sugerindo que o tempo (eu-lírico do poema) é semelhante às ventanias, levando embora os segundos e os acontecimentos. Essa harmonia quase mágica entre os elementos linguísticos e o significado das palavras educa a inteligência para buscar, também ela, uma harmonia completa entre seus gestos, seu modo de falar e suas intenções subjetivas. Como mostra Roger Scruton, em Why Beauty Matters?, a sensibilidade estética tem grande parte na diferença entre um medíocre e um homem educado.
 
Para completar, a poesia oferece às crianças muito do que elas procuram naturalmente nessa fase. Efeitos sonoros atiçam a curiosidade infantil, como no clássico poema de Vinícius de Moraes, que ninguém consegue ler sem um sorriso: "o pato pateta/ pintou o caneco/ surrou a galinha/ bateu no marreco". As pausas ritmadas frequentemente facilitam a leitura. O exercício de decorar poemas e recitá-los responde a um anseio natural das crianças; basta ver como decoram até comerciais de televisão, e como têm prazer em mostrar essas realizações aos adultos.
 
Chega a ser curioso que alguns levantem contra os poemas a objeção de serem "difíceis". Crianças não sabem o que é "difícil". Para elas, tudo é novo, tudo é difícil, e por isso mesmo tudo é um desafio. Decoram o que ouvem e repetem o que você diz, mesmo que não entendam patavinas. Minha irmãzinha uma vez falou que nossa casa era muito bagunçada, uma "pocilda"; tinha escutado num desenho a palavra pocilga, e repetiu-a quando se viu num contexto semelhante, mesmo sem saber-lhe a definição. É comum reproduzirem palavrões, sem terem ideia do que significam, só pelo efeito chocante. Se aprendem textos comerciais e palavrões, por que não decorar poemas?
 
Mais ainda: todos os pedagogos tradicionais supunham que crianças devem ser alimentadas, desde a mais tenra idade, com o melhor que nosso idioma já produziu. Por isso o jovem grego decorava Homero, o romano Virgílio; por isso Goethe aos dez anos brincava com a irmã de recitar poesia religiosa germânica. Por isso Manuel Bandeira, criança, sabia trechos d'Os Lusíadas de cor, e chegou a refrescar a memória do velho Machado de Assis uma vez, quando o encontrou num trem. Mas isso, dizemos, era bom para Platão, Cícero, Bandeira; para nossos filhos, melhor O Pintinho Piu-Piu (título inventado, com grande felicidade, por minha mulher, para condensar a péssima literatura infantil que se produz hoje em língua portuguesa). Caviar é para os brancos; aqui na senzala, só pé de porco. E como, pergunto eu, sairemos da senzala cultural nesse ritmo?
 
Espero, pois, um despertar dos pais brasileiros para a grande utilidade da poesia desde a meninice. Desenvolve a percepção linguística, o senso estético, a harmonia geral de corpo e mente; melhora o vocabulário, é divertida e agradável, confere às crianças um sentimento de evolução pessoal e respeito pelos clássicos. Por que, então, desprezar o tesouro de nossa literatura para alimentar a indústria de autores canônicos do MEC, que aliás são quase sempre semi-analfabetos sem gosto literário e cheios de panfletagem ideológica? Por que nossas crianças devem aprender o português com o lixo subcultural de escritores políticos, quando temos Cecília Meireles, Olavo Bilac, Mário Quintana, Vinícius de Moraes? Fica meu convite e desafio aos restantes pais brasileiros: redescubramos a poesia, por nossos filhos.

Originalmente postado em Homeschooling Brasil.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Ao meu Anjo da Guarda

Semper illumina, custodi,
rege et guberna.
Anjo santo, mais amigo
de minh'alma do que eu mesmo,
semeia em meus pensamentos
pensamentos amorosos,
e não deixes de limpar
toda consideração
sobre mim e o meu quinhão;
porque planta alta e sem poda,
quando vê o tempo da ceifa,
frutifica frustração.

Anjo santo, eu gostaria
de esquecer todo direito
a opinar, reivindicar,
exigir como implorar.
Queima em tua espada ardente
tudo o que, vindo de mim,
a mim visa. Limpa já
toda consideração
sobre mim e o meu quinhão;
porque planta alta e sem poda,
quando vê o tempo da ceifa,
frutifica frustração.

Santo arauto de meu Pai,
purifica meu amor
na torrente incandescente
da Paixão do Bom Pastor;
Em seguida purifica
toda consideração
sobre mim e meu quinhão:
toda a culpa de meus crimes
queima no fogo infinito
de Sua Ressurreição.
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